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Arquivo da tag veganismo

Bloqueados anônimos

 

Salão da casa paroquial.
Segunda-feira,
Sete da noite.

As cadeiras estão em círculo, num canto há uma mesa com água, chá e biscoitos.

Alex toma a palavra.

– Boa noite, meu nome é Alex…

– Boa noite, Alex! (todos, em uníssono)

– … e eu sou um bloqueado em recuperação. Estava já há dezessete dias limpo, mas tive uma recaída na quarta passada, comentei no mural do Paulo Henrique Amorim e…

– Paulo Henrique Amorim? Você pegou pesado, Alex!

– Pois é, não sei o que me deu. Depois que levei o block do José de Abreu…

– … você se comprometeu a só comentar em postagem de gente civilizada, lembra?

– Pois é, vacilei. Mas o cara tinha escrito uma coisa tão, mas tão, mas tão sem noção, que eu não resisti.

– Lembra da primeira regra do grupo, Alex?

– Sim, só argumentar em postagem de quem tem argumento.

– Exato. Leia a postagem da pessoa. Se for argumentativa, argumente. Se for dogmática…

– Respiro fundo, ergo os olhos aos céus, peço que tenham piedade dessa alma desgarrada no Dia do Perfeito Juízo Final e sigo adiante.

– Muito bem, Alex.

– O problema é que isso me impede de comentar em qualquer postagem petista ou bolsonariana. E que graça tem argumentar com quem pensa igual a mim?

– Boa questão, Alex. Alguém saberia responder?

– Oi, pessoal, eu sou a Regina…

– Boa noite, Regina (todos, em uníssono).

– Sabe, Alex, eu sou vegetariana. O que você passa com os bolsomínions e os petistas, eu passo com os churrasqueiros e os veganos.

– Um aparte, Regina. Meu nome é Geraldo e…

– (Em uníssono) Boa noite, Geraldo!

– … eu sou carnívoro e passo o mesmo nas páginas dos veganos e dos vegetarianos. Esta semana fui bloqueado por oito vegetarianos porque perguntei por que chamavam proteína vegetal de “carne” e por dezenove veganos por falar que o abate ético é melhor que nada.

– Gente, meu nome é Dora…

– (Em uníssono) Boa noite, Dora!

– … eu sou ateia, e aprendi a me controlar diante de correntes milagrosas, mensagens de gente morta, simpatias para segurar marido e aparições de chupacabra. Nenhum block nos últimos quarenta e cinco dias!

– Parabéns, Dora! (todos em uníssono).

Alguém se levanta e tenta sair de fininho.
O coordenador do grupo intervém.

– O companheiro já vai? Não quer fazer uma partilha?

– Oi, meu nome é Arnaldo.

– (Em uníssono) Boa noite, Arnaldo!

– Eu sou irrecuperável. Levo centenas de blocks diários. Sete dias por semana. Estou aqui há quinze minutos sem levar um block e já começo a sofrer de síndrome de abstinência.

– O que você faz? Compartilha maus tratos de animais? Posta foto em HDR? Repercute Monica Iozzi? Apoia golpe militar? Marca 40 pessoas nas suas postagens?

– Não. Eu defendo o Gilmar Mendes.

(Silêncio total. Em uníssono.)

Reviravolta

 

_2019

A Polícia Federal finalmente encerra a “Operação Carne Nova no Pedaço”, com o fechamento definitivo de todos os frigoríficos, granjas, açougues e churrascarias do país.

Descobriu-se que “peito de peru” era um eufemismo para “carcaça de frango reciclada” – porque mesmo se todos os perus do planeta tivessem sido abatidos, não haveria peito de peru suficiente para a quantidade de sanduíches e folhados de peito de peru vendidos nas lanchonetes brasileiras.

A teoria de que haveria um animal transgênico chamado “peito de peru” – consistindo apenas no peito do peru, sem cabeça, pernas, asas ou barbelas – é descartada, apesar de circular intensamente na internet.

Um exame de DNA na carne bovina moída revela que cada pacote contém pelo menos doze espécies diferentes de animais, nenhuma delas bovina – e nem todas animais.

Para desespero dos artistas e intelectuais, o presidente João Dória, com parcerias público-privadas, consegue reverter as perdas na exportação de carne aumentando a produção de aviões, eletroeletrônicos e produtos de alta tecnologia.

O Brasil se torna o primeiro país vegano do planeta – ainda que a contragosto.

_2020

Sojarias gurmê brotam país afora feito shitakes depois da chuva, ocupando os imóveis das churrascarias fechadas e colocando a gastronomia nacional entre as mais criativas e sofisticadas do planeta.

Quinoa com chia é o novo arroz com feijão do brasileiro, presente em todos os PFs e quentinhas de pedreiro, e até no bandejão da Papuda, onde Dilma, Lula, Gleisi e Lewandowski tomam banho de sol com o colesterol controlado e uma saúde de ferro que lhes permitirá, talvez, cumprir a pena até o final.

Pequenos grupos de carnívoros se formam na clandestinidade e surgem as primeiras feiras em que asinhas de frango ilegais e torresminhos piratas são vendidos por valores astronômicos, junto com Coca Cola artesanal.

_2021

Num processo a princípio lento, mas que parece inexorável, pessoas sensíveis se compadecem das frágeis alfaces orgânicas e das minúsculas cenouras sem agrotóxicos, se convertem ao carnismo e divulgam vídeos comprovando que, sim, o broto de feijão sofre horrores ao ser regado com óleo extravirgem e vinagre balsâmico.

Surgem as primeiras saladerias carnistas, oferendo salada ceasar de picanha com croutons de frango, shiitake de alcatra e beringela gratinada de lombinho canadense aos ex-veganos que ainda precisam se sentir ingerindo verduras e outras coisas que não gritem ao ser levadas para a panela.

Leite de soja feito com leite de vaca ganha destaque nas prateleiras.

O Papa Fábio de Melo I (o primeiro papa com nome, sobrenome e designer de sobrancelhas) declara que degolar galinhas, marretar vacas, esfaquear porcos e cozinhar caranguejos vivos não é pecado – ou, pelo menos, é tão pecado quanto decapitar cabeças de alho, eviscerar tomates e refogar legumes ainda crus.

O veganismo começa a declinar, e sofre um duro golpe quando a Polícia Federal, com o tradicional espetáculo de pirotecnia midiática, deflagra a “Operação Batata Quente”, na qual são fechadas fazendas orgânicas do Paraná que adicionavam açúcar mascavo à batata inglesa para ser vendida como batata doce no mercado externo.

A fraude é descoberta graças a denúncias de consumidores que, mesmo ingerindo o produto em doses elevadas, deixaram de soltar pum.

_2022

Blairo Maggi é eleito Presidente da República, em campanha financiada (via caixa dois) pela FreeBoy – empresa aparentemente voltada para a libertação de criancinhas, mas que, segundo a PF, mantém estranhíssimos estoques de ácido ascórbico e papelão, não se sabe com que finalidade.

Falsidade

Falsidade

 

Aprendi pouca (pouquíssima) coisa na Faculdade de Arquitetura, mas duas valeram os cinco anos entre pranchetas bambas, papel vegetal pingado de suor e canetinhas entupidas de nanquim.

A primeira: Deus mora nos detalhes.

Mesmo para um ateu – que escreve Deus com maiúscula para diferenciar o deus ainda em circulação daqueles que já foram para a prateleira da mitologia -, isso foi como uma iluminação.

A segunda: as coisas são ou não são.

Um material pode ser natural ou sintético, e cada qual tem suas virtudes – mas um sintético que imita o natural tem de cada um apenas os seus defeitos.

Se a linha não for ortogonal, que seja uma diagonal russa, aquela que irrompe revolucionária e se afirma no desenho – caso contrário, será apenas uma linha torta.

Um elemento estranho ou indesejado não se disfarça: se assume (em arquitetês, se “tira partido” dele) e até mesmo se faz dele a estrela do projeto (vide a pedra enorme no meio da sala, na Casa das Canoas).

O que vale para a arquitetura vale para a vida.

Se não quero usar artefatos de couro por causa dos métodos cruéis utilizados na sua obtenção, por que deveria usar cintos, sapatos e sofás de “couro vegetal” ou “imitação de couro”?

Que nostalgia é essa da carne que faz veganos e vegetarianos consumirem derivados de soja chamando-os de “carne vegetal” – ou “carne de soja”?
Carne é a parte muscular do corpo dos animais – logo, “carne de soja” é uma impossibilidade, uma falsificação.
Carne é carne, soja é soja.

Faz sucesso no Rio um tal “Açougue Vegano” (quase fui lá este fim de semana, eu, que fico nauseado diante de qualquer açougue).
Ali, vendem bacon (de shimeji), coxinha (de jaca), hambúrguer (de quinoa), linguiça (de soja e shiitake).

Já não bastava o “churrasco” (de melancia) da Bela Gil – que serve também “hambúrguer” de feijão e “moqueca” de banana da terra?

Maionese de óleo de coco e iogurte (conforme ensinou a Rita Lobo) pode ser qualquer coisa – e pode inclusive ser muito bom – mas não é maionese.
Bife de cogumelo também deve ser ótimo – mas é cogumelo, não é bife.
Ceviche de coco pode até dar água na boca, mas não é ceviche.

Tudo isso me cheira a cerâmica imitando mármore, a plástico arremedando madeira.

A coxinha de jaca (deliciosa!) que eu trouxe de Viçosa não precisa ter o formato da coxa da galinha, evocando tristemente a pobre galinácea esquartejada.

Não virei vegetariano para comer leitãozinho de baroa à pururuca de gergelim.
Vaca de soja atolada.
Foie gras de cará.
Baby beef de couve-flor.
Espeto de coraçãozinho de nabo com moela de jiló.
Ostra de quiabo.
Camarão de chuchu com lula à dorê de palmito.
Picanha de berinjela.
Galinha de inhame ao molho pardo de beterraba.

Na culinária, cada coisa sabe a delícia de ser o que é – não precisa se travestir.

Deus, como sempre, mora nesses detalhes.

Carne fraca

 

Petralhas x coxinhas é para os fracos.

Carnificina mesmo é entre carnívoros e quem acha que dá pra viver sem crueldade contra animais.

 


 

Dos comentários que li na minha postagem de ontem sobre não comer carne (e nos seus desdobramentos, em outros compartilhamentos), concluí uma dúzia de coisas:

1.
Esse escândalo não tem nada a ver com suborno, fraude, ganância ou saúde pública. Ele foi armado pelas multinacionais interessadas em excluir o Brasil do disputado mercado de proteína animal.
Logo, deixar de comer carne, verificar o prazo de validade e a procedência, evitar salsicha azulada ou mortadela com cheiro de Instituto Médico Legal é antipatriótico.

2.
Você só pode se declarar vegano ou vegetariano, ou mesmo reduzir o consumo de proteína animal, se tiver protestado veementemente contra o formol no leite, o agrotóxico no tomate, o rato na Coca Cola e a soda cáustica no Ades.
Caso contrário, você é um poser. Um impostor.

3.
É permitido não comer carne por falta de dinheiro.
É proibido não comer carne por questões éticas ou morais.

4.
Comer carne é, mais que um direito, um dever de todo cidadão, cuja mandíbula já veio de fábrica desenhada para destrinchar picanhas, chuletas, alcatras, sobrecoxas e lombinhos.
Ser humano e não cravar os dentes numa carcaça animal é tão antinatural e fora de propósito quanto um pombo usar o toalete em vez de cagar em cima das estátuas.

5.
A anemia é um castigo divino, uma evidência inequívoca de que Deus não aprova o comportamento dissoluto de quem não come carne.
Só veganos e vegetarianos têm anemia.

6.
Vegetarianos são hipócritas, porque estão pouco se lixando para o sofrimento das cenouras, alfaces e rúculas.

7.
Veganos são o nec plus ultra da espécie humana, os guardiões de todas as virtudes, a salvação da lavoura.
São todos umas brastemps, os reis da cocada preta, os bam-bam-bans, os picas da galáxias.
Não ouse argumentar com eles, reles mortal.

8.
Os carnistas acham os veganos ridículos, mas seus inimigos de verdade são os vegetarianos.
Os veganos acham os carnistas ridículos, mas seus inimigos de verdade são os vegetarianos.
Os vegetarianos acham os carnistas e os veganos ridículos, mas seus inimigos são os atendentes de lanchonetes, que acham que frango, presunto e salsicha não são carne.

9.
Se você não come carne, mas passa manteiga no pão, você é tão execrável quanto o sujeito que descarna um boi vivo.
(Isso é, possivelmente, um corolário da tese petista que assegura que quem acelerou no sinal amarelo ou apertou duas vezes o botão do elevador não tem moral para criticar quem desviou 21 bilhões da Petrobras).

10.
Se você boicota empresas que poluem, sonegam ou usam mão de obra escrava, você é um consumidor consciente.
Se você não compra produtos roubados ou falsificados, você está fazendo sua parte para reduzir a criminalidade e a contravenção.
Se você não come carne por ser contra a crueldade, você é um babaca.

11.
Declarar que não come carne equivale a fazer parte de uma nova religião.
Praticamente uma seita fundamentalista.

12.
Ser vegano / vegetariano é de esquerda, porque você quer prejudicar as exportações e ferrar o governo Temer.
Ser vegano / vegetariano é de direita, porque coxinha é que não come mortadela.

Vaquinhas

 

1.
É dura a vida de um protovegano – ou de um vegetariano amador.

Me dei conta de que tudo leva leite, e tudo leva ovo.
Inclusive coalhada e omelete.

O jeito é ir migrando aos poucos, tipo trocar o sorvete (que leva leite) pelo sorbet (que leva só a fruta, e é muito mais chique), sem grandes perdas.

Não vou é entrar numas de querer quindim sem ovo ou pão de queijo sem queijo, por exemplo.

Porque poucas coisas são mais deprimentes que essas contemporizações, tipo cerveja sem álcool, café descafeinado, sexo oral de camisinha. Melhor partir logo pro suco, pro chá, pro celibato.

Acho degradante virar vegetariano e ficar comendo picanha de soja, asinha de frango de quinoa e bacon de tofu.

Porque daí pra ouvir Jorge Vercilo em vez de Djavan, ver novela turca em vez de novela mexicana e pegar travesti, deve ser um pulo.

2.
A Justiça bloqueou R$ 103 milhões do PT, do Vaccari e do Paulo Bernardo, para cobrir o que desviaram do Ministério do Planejamento quando o marido da Gleisi Hoffman era ministro.

Bora fazer outra vaquinha, petralhada?

3.
No banco de trás do ônibus, a encenadora (bonita, cabelos vermelhos e cacheados) conversa animadamente com o aluno de teatro (óculos vintage, brinquinho na orelha).

Diz que pra encenar Shakespeare sem tomar partido não precisa de diretor nem encenador (eu nem sabia que havia diferença entre um e outro).

Que quem mexe numa obra está dando a cara a tapa. Quem não mexe tem que dar a cara a tapa também.

Que a montagem de “Romeu e Julieta” (em cartaz até outro dia) trouxe a trama para a Bahia e a atualizou, mas se esqueceu de 1964. E que não dá pra falar dos dias de hoje sem falar de 1964.

Fiquei pensando nos Montecchio das Ligas Camponesas odiando os Capuleto da Tradição, Família e Propriedade, enquanto Romeu ouve a cotovia vermelha (“É golpe, é golpe!”) e Julieta doa os anéis de ouro para o bem do Brasil. No final, se matam num comício da Central, enquanto Dilma Rousseff, aia de Julieta, é barbaramente torturada por Frei Lourenço Bolsonaro, mas não entrega os dois pombinhos.

Cai o pano e uma voz em off diz “Fora, Temer!” e “Todas as doações foram legais e declaradas à Justiça”.

Shakespeare coxinha, universal e atemporal? Nem pensar.
Não na Bahia, pelo menos.

4.
Os funcionários dos Correios, aposentados e pensionistas é que vão pagar o rombo de R$ 5,6 bilhões deixado pelos saqueadores do PT e base aliada.

Deve ser divertido ver a cara do pessoal do sindicato tendo que rachar a conta sem dar um pio, porque apoiou (e ainda apoia) os responsáveis pelas falcatruas.

5.
A propósito, os petistas de cada estatal bem que podiam convocar uma assembleia (eles adoram assembleia), assumir que a culpa foi toda deles, e fazer uma vaquinha pra bancar sozinhos os prejuízos.

Vai ser tanta vaquinha pra cobrir as vacas que foram pro brejo que teremos um rebanho bovino maior que o da Índia.

Cadeia alimentar

 

Vivemos do fim de outras vidas. Matamos, diariamente, para viver.

Vivemos da morte animais e plantas, no topo de uma cadeia alimentar cuja hierarquia só é abalada quando um tubarão se encanta por um surfista, um tigre resolve degustar um indiano desavisado, ou um jacaré da Flórida encontra um lanchinho louro e de olhos azuis brincando à beira do lago.

Na natureza, devoramo-nos uns aos outros. Mas nenhum animal faz da crueldade, da mutilação, da dor, uma indústria. Nenhuma espécie justifica moralmente a carnificina ou cria uma cortina de fumaça e traça estratégias de márquetim, para esconder o sangue, os gritos, o horror.

Dia desses, o Rodrigo Hilbert foi crucificado por ter assassinado um lindo cordeirinho, ao vivo e a cores, transformando-o, em seguida, num delicioso cordeiro assado. Seu crime não foi matar um animalzinho indefeso (isso ocorre milhões de vezes todos os dias), mas apontar a dissonância cognitiva de quem jamais imaginou haver qualquer relação entre o simpático Baby, o porquinho atrapalhado, e o leitãozinho à pururuca. Ou entre o saltitante cordeirinho e a paleta de cordeiro. Ou entre o bezerrinho e o baby beef.

(As pessoas sensíveis, escreveu Sophia Andresen, não são capazes de matar uma galinha. Mas são capazes de comer uma galinha. Comemos de bom grado o cordeiro assado – desde que não nos lembrem de que ele tem que ser morto. Desde que não o vejamos ser sacrificado. O trabalho sujo deve ser feito fora das nossas vistas.)

Eu consumia fois gras até descobrir como é produzido. Depois de ver o que fazem a um ganso para que seu fígado se dilate àquele ponto, nunca mais consegui provar a “iguaria”.

(Paul McCartney disse que, se os abatedouros fossem de vidro, todos seríamos vegetarianos.
Pois os abatedouros são de vidro: nós é que viramos a cara para não ver.)

Quem ignora como funciona a indústria leiteira? Como os filhotes são apartados precocemente de suas mães para que todo o leite seja drenado; como as vacas são criadas em confinamento, tornando-se incapazes de andar – até terem o mesmo destino dos machos, e ser esquartejadas ainda vivas (sim, a marretada na cabeça apenas tonteia, não mata).

Quem ignora como vivem as galinhas poedeiras, máquinas vivas de produzir ovos, sem descanso? E os frangos de abate, e os porcos, perus, cordeiros, cabritos, patos…

Na embalagem do peru Sadia, há um sorridente peru de capacete. Na de frango Rica, uma simpaticíssima galinha nos encara, de olhinhos arregalados. Consumimos animais felizes, saudáveis, nascidos para morrer alegremente para nossa alegria, para nosso deleite gastronômico, nosso churrasco com os amigos, nossa comovente ceia de Natal.

Não nos ocorre que, a exemplo dos cães e gatos, porcos também sejam inteligentes, vacas também se apeguem e façam amigos, galinhas gostem de cafuné. Uns, nós amamos e cuidamos; os outros, não matamos – mas pagamos para que alguém mate, e nos entregue seus corpos devidamente decapitados, depenados, esfolados, embalados, a fim de não nos confrontar com nossa hipocrisia.

Os vegetarianos, os veganos, os lactoveganos – enfim, essa gente esquisita que não come carne – têm mesmo motivos de sobra para se sentir moralmente superiores. Ainda que seja esse o grande mal que leva o resto da humanidade a ser tão desumana: o sentir-se superior às outras espécies, a ponto de ignorar sua dor.

(Amei um animal – minha cachorra, a Benedita – mais que à maioria dos seres humanos que conheço. Na Coreia ou na China, ela seria transformada em ensopado.)

Há algo de muito cruel em escravizar, abusar e infligir dor a outro ser vivo, seja de que espécie for. Algo de muito perverso, sustentado pela nossa equivocada presunção de superioridade, pela fantasia de sermos dotados de alma, feitos à imagem e semelhança de uma divindade inventada por nós mesmos.

Minhas condolências aos parentes dos indianos deglutidos, à enlutada família da Flórida, aos surfistas cotós. Mas não nos esqueçamos: neste planeta, os predadores somos nós.