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Perspectiva

 

Inimigos

Diz a lenda que os generais romanos, quando entravam triunfantes em Roma, retornando de suas campanhas vitoriosas, tinham sempre ao seu lado um escravo encarregado de, a cada tantos metros (ou minutos, não sei bem) lhes murmurar ao ouvido “Lembra-te de que és mortal”. Seria uma forma de garantir que, mesmo que a glória lhes subisse à cabeça, não se instalasse lá, junto da coroa de louros, e arrancasse seus pés do chão.

Nas cortes medievais, havia figura parecida, o bobo. Sua função talvez até fosse apenas divertir a monarquia, mas ele aproveitava para criticá-la, apontar seus vícios.

Entre tantos secretários, assessores, auxiliares, ajudantes-de-ordens, estafetas, acólitos e puxa-sacos, nossos políticos poderiam contratar também (com dinheiro público, naturalmente) um escravo e um bobo.

Quando Roseana Sarney decidisse gastar um milhão em lagostas, salmão, filé mignon, bacalhau do Porto e patinhas de caranguejo, o bobo lhe mostraria (alegoricamente, ou não) os decapitados no presídio do Maranhão; falaria de seus corpos torturados, da barbárie, da miséria, da má gestão do dinheiro público. Não que um milhão fosse resolver tudo, mas a governadora, depois de muito rir das cambalhotas e dos salamaleques, pensaria na própria cabeça separada do tronco (metaforicamente, ou não) e talvez revisse suas prioridades.

Quando Renan Calheiros afivelasse o cinto num avião da FAB para ir fazer um implante capilar, o escravo no assento ao lado lhe sussurraria “Lembra-te de que, além de careca, és mortal” – e o nobre parlamentar, quem sabe?, desistisse de usar recursos públicos para fins estéticos no próprio cucuruto (“Vão-se os fios, fica a cabeça”, poderia emendar o escravo, já desembarcando com seu chefe).

Quando Cid Gomes encasquetasse de carregar a sogra para a Europa à custa do Erário, ou quando Sérgio Cabral reservasse o helicóptero para seu cãozinho Juquinha; quando os vereadores, prefeitos, deputados, senadores e juízes aumentassem exorbitantemente os próprios salários; quando Dilma firmasse acordos secretos para mandar dinheiro para Cuba (fosse para construir portos ou contratar trabalho semi-escravo); quando Ministros de Estado concordassem em bancar obras privadas (para a Copa do Mundo, para as Olimpíadas), lá estariam o escravo e o bobo, cumprindo sua missão de grilo falante, suprindo a falta de noção (e de uma consciência).

Ano passado, boa parte do país fez seu papel de bobo, indo às ruas ou se manifestando por onde podia (pelos jornais, pela internet, pelas conversas). Mas ou murmuramos muito baixo, ou a ironia foi sutil demais, e seu efeito profilático já passou. É hora de botar de novo o chapéu de guizos, pintar um largo sorriso de Coringa rasgando a cara e retomar a função. Em vez de murmurar “Lembra-te de que és mortal”, mostrar as imagens dos decapitados do Maranhão talvez seja mais eficiente. E torcer para os blequibloques não aparecerem pra melar tudo de novo.

Fim do mundo

 

Na Indonésia do final século 19 – que ainda nem se chamava Indonésia, mas Índias Ocidentais Holandesas – os líderes muçulmanos anunciavam que o fim dos tempos estava próximo, e que haveria sinais inequívocos disso.

Quem não acreditava não teve mais dúvida quando o vulcão Krakatoa explodiu, com um barulhão ouvido a cinco mil quilômetros de distância, provocando tsunamis que chegaram à África e cobrindo de cinzas o planeta inteiro – foram os mais belos poentes da História, laranjas, róseos, lilases, e a lua ora nascia verde, ora azul. 

Se aquilo não era um sinal, o que mais seria?

Pois o fim deve estar próximo de novo, tantos são os sinais inequívocos disso:

1. Um sorvete está custando R$ 26,00 na Cobal do Humaitá.

2. Prefeitos baianos se reúnem num resorte de luxo para discutir crise econômica.

3. Acabou o “Esquenta”, da Regina Casé.

4. Novo cardápio do Cipriani inclui amuse-bouche de arroz crocante, espuma de muzzarela, pó de tomate e neve de azeitona.

5. Renan derruba o STF.

6. Perícia conclui que cuspe de Jean Wyllys em Bolsonaro não foi premeditado.

7. O novo chefe da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos é contra o plano de uso de energia limpa e contra o corte da emissão de gases que causam o efeito estufa.

8. Pastor evangélico massageia o pênis de fiéis para que fique maior.

9. Sérgio Cabral e Adriana Anselmo estão almoçando arroz, feijão, carne ou ovo, salada e um refresco.

10. Sorrir numa foto ao lado de alguém te transforma automaticamente em aliado e/ou cúmplice.

11. Disco de Elza Soares entra na lista dos dez melhores do ano do New York Times. E “Aquarius” na dos dez melhores filmes.

12. Kanye West fica louro.

13. Gilmar chama Marco Aurélio de maluco e viaja para a Suécia, para não ouvir a resposta.

14. Jovem americana morre ao vivo no feicy.

15. Há uma rede satânica de pedofilia atuando em pizzarias dos Estados Unidos.

16. Pedro Scooby, havendo no mundo mais ou menos 3.707.391.034 mulheres, volta para Luana Piovani.

Sem contar o Nobel de Literatura para o Bob Dylan, que deixa qualquer Krakatoa no chinelo.

~

Uma presidenta inocenta, eleita democraticamenta, se envolve com tráfico de influência e doações não contabilizadas – além de andar em más companhias – e sua popularidade cai a níveis abissais.

A oposição resolve dar um golpe (também conhecido pelo apelido de “impítimã”) e mergulha o país numa crise política.

Já viu esse filme?
Pois os coreanos gostaram tanto que resolveram fazer um rimeique.

Deram uma pequena mexida aqui e ali: o golpista usurpador que assumiu não foi o vice, mas o Primeiro Ministro. E diante de uma grande tragédia nacional (não o rompimento de uma barragem de resíduos, mas o naufrágio de um barco) ela demora sete horas para se manifestar (não sete dias).

Não, em nenhum momento ela pensou em blindar sua amiga íntima (e cúmplice), nomeando-a Ministra Chefe da Casa Civil, a fim de lhe conceder foro privilegiado.

Até porque lá na Coréia não tem essa mamata.

Teledramas

 

RESUMO DAS NOVELAS – 6 de dezembro – terça-feira

NOVELA DAS 6:
Milena e Peppino comemoram a volta de Loretta.
Mieko consola Yumi.
Dora conversa com Vanda sobre seu casamento com Tiago.
Loretta tenta se aproximar de Vittorio.
Vittorio conta para Lenita que Loretta voltou para o Brasil.
Dora vende vestidos para Yumi.
Loretta conhece Lenita.

NOVELA DAS 7:
Léo discute com Gui, que humilha Diana.
Léo termina seu romance com Diana.
Diana pensa em Gui.
Vanessa conta que Gui e Diana se beijaram, e Júlia fica arrasada.
Gui se explica para Júlia.
Marisa afirma a Alex que irá namorar Nicolau.
Lázaro se declara para Diana.

NOVELA DAS 8:
Marco Aurélio demite Renan.
Michel fica apreensivo com a chegada de Jorge.
Gilmar diz que decisão de Marco Aurélio é indecente.
Cármen Lúcia chama todos para tomar uma decisão importante.
Renan se recusa a ir embora.
José se nega a entregar o processo que está em seu poder.
Michel segura na mão de Marcela e toma um rivotril.
Adriana se junta a Sérgio na prisão.

Homens de bens

 

1.
Dizem que o poder inebria, que o poder corrompe.

Em outro lugar, talvez – não no Brasil.

Aqui, com o poder sobrevém a amnésia.

Não é que Lula nunca soube de nada que se passava à sua volta.
Soube só no instante, para no momento seguinte não saber de mais nada.

A mesma “síndrome de Dory” se abateu sobre Cabral.
Não se lembra de onde vieram as jóias, quem as comprou.
Não sabe quem reformou seu apartamento, ou como as obras foram pagas.

Cláudia Cruz também não sabe de onde vinha o dinheiro que bancava suas bolsas, seus sapatos, seus jantares.
Até queria saber (“Dudu, a gente tem saldo pra isso? Isso não é mais que o seu salário?”), mas se esqueceu de perguntar.

2.
O poder, que noutros lugares sobe à cabeça, aqui nos torna mais humildes.

Lula, podendo ser dono de latifúndios, usava de favor o sítio de amigos para passar os finais de semana.
Dependia de conhecidos para guardar suas tralhas.
E da bondade de estranhos para ter uma vista pro mar.

Cabral navegava no iate de um amigo, voava no helicóptero de um amigo, e mesmo a mansão que frequentava em Mangaratiba não é dele – é da mulher.

Garotinho preferiu não utilizar a rede pública de saúde, ocupando um leito que poderia servir a alguém mais necessitado, e optou por pagar do próprio bolso a internação num hospital particular para a cirurgia eletiva de emergência.

Essa é a diferença entre homens de bens e homens de bem.

3.
O poder atrai homens de gabarito.

E quer homem com gabarito mais elevado que o ministro Geddel?

Não contente em receber salário acima do teto, comprou um apartamento no 25º andar de um prédio cujo gabarito, por lei, é de 13 pavimentos.

É disso que o governo Temer precisa.

De homens que pensem alto.

Vergonhas à mostra

 

Coitado do Sérgio Cabral.

Não o filho, mas o pai.
Jornalista, pesquisador, biógrafo – e amigo – de Pixinguinha, Grande Otelo, Ataulfo Alves, Elisete Cardoso, Tom Jobim, Nara Leão.

Criador do Pasquim, do Projeto Seis e Meia, preso na ditadura, descobridor de talentos, figura central na história da música brasileira.

Coitado do outro Cabral, o Pedro.

Navegador sem muita mira, procurava as Índias e suas especiarias, achou as índias e suas vergonhas “tão altas e tão saradinhas”.

Hoje, quando se fala em Cabral ninguém pensa nesses descobridores, nesses desbravadores.

Nem mesmo naquele Cabral, ministro da Justiça nos tempos do Collor, que dançou “Besame mucho” de rosto colado com a Zélia Cardoso de Melo.

Ou no João Cabral da educação pela pedra, do funeral do lavrador, da faca só lâmina, do cão sem plumas.

O cabra em quem todos pensam, e com a lâmina da peixeira brilhando no olhar, é o que descobriu o caminho da mina, o do guardanapo na cabeça em Paris, dos 5% da obra do Maracanã, o que mandava o helicóptero oficial buscar vestido de gala para a primeira dama usar em Mangaratiba – isso depois de ter mandado o mesmo helicóptero levar o cachorrinho.

Cabral desmoralizou os outros cabrais.

Quebrou o Rio de Janeiro, coisa que nem o casal Garotinho, nem Benedita da Silva, nem Brizola tinham conseguido fazer – por muito que tentassem.

E, quem diria? acabou em Bangu, cercado de milicianos, traficantes, bicheiros, batedores de carteira – e do ex-amigo e também ex-governador Garotinho, o birrento.

O jantar de ontem (arroz, feijão, farofa, uma carne de segunda) há de ter tido um sabor especial, principalmente se comparado aos jantares pagos com dinheiro público em Mônaco, no Antiquarius.

Nenhum carcereiro terá chegado até a grade trazendo numa bandeja um anel de 800 mil reais para a primeira dama.

Dilma e Lula não telefonarão para hipotecar apoio.
Dilma ontem já o renegou, sem esperar que o galo cacarejasse uma vez sequer.

Vai levar algum tempo até que Cabral volte a ser o gajo que domou as calmarias e houve por bem começar o Brasil a partir da Bahia.

Vai levar algum tempo até que Sérgio Cabral volte a ser apenas o compositor, admirador de Almirante e Ari Barroso, memória viva da música popular.

Ou o poeta seco e magistral. Ou o ministro que a história apagou.

E aí será a vez de o coitado ser este Sérgio Cabral de agora, despido de mordomias, longe do seu iate, da sua mansão, mas (nem tudo estará perdido) perto de ex-secretários, ex-ministros, ex-deputados, ex-senadores e (tomara!) ex-presidentes.

(Fica a dica para Pezão, Pimentel, Rui Costa, Renan, Temer: mais atenção aos presídios.

O próximo inquilino do sistema carcerário pode ser você.)

Dramalhão mexicano

 

Já vi e revi as cenas do Garotinho sendo transferido de um hospital para a UPA do Complexo de Bangu.

É de deixar Glória Perez em estado de choque.

Nem nas suas novelas mais escalafobéticas ela teria imaginado um ex-governador com nome de menor abandonado chacoalhando as perninhas numa maca, feito besouro ao sol, enquanto sua mulher com nome de flor grita que quer ir com ele, e a filha com nome de freira berra que vão matá-lo.

Tudo isso diante de policiais e bombeiros malvados, que se limitam a cumprir as ordens de um juiz vingativo com nome de remédio para diabético.

(Para quem não quiser ir ao gúgol, o elenco de apoio desta cena é composto de Rosinha, Clarissa e Glaucenir).

Isso é que é evento midiático, não aquela mixaria de pauerpõinte na Polícia Federal de Curitiba.

Isso é que é condução coercitiva, não aquela pantomima de dar carona a dono de pedalinho para desacatar delegado em aeroporto.

Não teve japonês nem hipster – nem precisava.
Não teve sorrisinho cínico mascando chiclete – nem tinha como.
Não teve punho cerrado, braço erguido, V de vitória (ou de Vaccari) – teve só perninhas agitadas.

Nosso herói teme ir para a cadeia porque lá está o Nem da Rocinha.
Como se fossem ficar na mesma cela.
No mesmo pavilhão.

O bandido de mais alta periculosidade que está lá, um tal de Sérgio Cabral, está numa cela a mais de um quilômetro de distância.

O ex-governador e ex-candidato a presidente da república não precisa temer a morte.

Os evangélicos, como ele, são a maioria no presídio de Bangu, e lhe darão proteção, apoio moral, um ombro amigo e, quem sabe, um dízimo em cigarros.

De lá, poderá continuar comandando sua quadrilha em Campos, como fazem todos os chefes de facção.
Não faltará quem lhe consiga um celular.
Poderá, entre uma unção e outra, participar de um golpe de falso sequestro.
E nem precisará agitar as perninhas: basta gritar como a filha, Clarissa – que, depois dessa pode até perder seu lugar até então garantido no secretariado do pastor Crivella.

E eu perdendo meu tempo com novela turca na Band, novela bíblica na Record, novela mexicana no SBT e discurso da Gleisi Hoffman no senado, enquanto a vida como ela é tem muito mais barraco, muito mais emoção.

Sorry, Paola Bracho.
Você não chega aos pés de D. Rosinha pedindo pra ir junto com o marido para a prisão.
Não dá nem pro cheiro se a cena exige uma filha devastada clamando aos céus que o pai não é bandido, enquanto chama os bombeiros de safados.
Você tem que comer muito guacamole até conseguir agitar as perninhas com aquele ímpeto, aquela sincronia, aquela graciosidade.