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Escrito na estrelas

 

Me divirto muito quando ouço falar em Ciência e Religião caminhando juntas.

Elas até se encontram, mas como se encontram presa e predador, vítima e verdugo – uma delas não sobrevive para contar o final.

A princípio, não deveriam ser incompatíveis. A Ciência trata do mundo natural; a Religião, do sobrenatural.
A Ciência tem por objeto o corpo; a Religião, a alma.
Uma cuida do que existe, e a outra se encarrega do faz de conta, da fantasia.

O problema começa quando a Religião decide interferir no real (tentando impedir que a Terra gire em torno do Sol, por exemplo) ou quando se manipula a Ciência para validar ilusões (alma, reencarnação, poder da fé).

A água, em condições normais de temperatura e pressão, ferve a 100 graus centígrados e congela a 0 grau. Isto é Ciência.

Fosse Religião, a água mudaria para o estado sólido a 0 grau e para o gasoso a 100, do mesmo jeito. Mas se não mudasse, é porque Deus tinha outros planos. Ninguém se preocuparia com o pequeno detalhe das “condições normais de temperatura e pressão”. No entanto, ele é que faz a diferença.

É por não se contentar com explicações mágicas (“Porque Deus quis assim”, “Está escrito nas estrelas”) e investigar, teorizar, buscar comprovação, que parte da Humanidade avança, levando a reboque os que creem que a vida é um milagre, que bater três vezes na madeira os livrará dos perigos, e que a divindade que criou bilhões de galáxias ouvirá suas preces para que seu time vire o jogo aos 45 do segundo tempo ou o marido largue a bebida.

A Ciência nos diz que somos parte da Natureza, que somos constituídos de átomos e energia, que somos um elo numa cadeia. Que não estávamos aqui, como vida, há alguns milhões de anos e, como espécie, há alguns milhares – e que talvez não estejamos mais quando alguns milhões (ou milhares) tiverem decorrido.

A Religião quer nos fazer crer que somos o auge de uma suposta “criação”. Que fomos feitos à imagem e semelhança de um “criador”. Que somos os “filhinhos do papai” enquanto todas as outras formas de vida existem apenas para nos servir.

É o que diz o livro que nós mesmos escrevemos e que nos justifica: “Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja sobre a terra!”. Dominai, escravizai, abusai, matai, pois sois únicos: tendes alma.

A Ciência nos mostra que outras formas de vida sentem medo, dor, compaixão, raiva, repulsa, gratidão, surpresa, simpatia, alegria, tristeza, indignação. E aponta que uma ética deve reger nossas relações, e que se impusermos nossa vontade egoísta acabaremos por destruir a nós próprios.

A Ciência não trabalha com o conceito de “alma” – conceito tão arbitrário quanto os de “raça superior”, “povo escolhido”, “direito divino”.

É por acreditar que temos alma que nos permitimos causar tanta dor aos animais.
É por achar que a divindade que nos deu essa alma é superior às outras divindades que causamos tanto mal uns aos outros.

O corpo (a Ciência) nos iguala. A alma (Religião) nos divide.

É acreditar que temos alma que nos faz tão desalmados.

Parceria

 

O que seria do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo sem o diabo?

Reza a lenda que o diabo era um anjo, mas não tardou a botar o rabinho de fora e acabou demitido.

Na falta de uma Justiça do Trabalho onde registrar uma queixa mentirosa, inflacionando as horas extras e denunciando assédio moral e lesão de esforço repetitivo, não restou ao diabo senão mandar tudo pro inferno e partir para a ignorância.

Essa é a história oficial.

Agora imagine Batman sem o Coringa, Penélope Charmosa sem Dick Vigarista, Gilmar Mendes sem Marco Aurélio (ou vice-versa), o Brasil sem o PT.
Pois é.

Deus, Jeová e Alá, um jogando paciência, o outro postando foto de gatinho fofo, um terceiro estourando plástico bolha.
O mundo lá embaixo na mais perfeita harmonia, ninguém clamando por seu nome em vão – e eles condenados à inutilidade eterna.

Não foi pra isso que criaram galáxias, nebulosas, buracos negros, vírus e bactérias.

Até o Aguinaldo Silva sabe que, sem um bom antagonista, não há trama que decole.

O vilão é a alma do negócio.

Como diriam o Lulu Santos e o Nelson Motta, não haveria virtude se não houvesse o pecado.

Deus deve ter olhado para a maquete do universo, ficado feliz com Andrômeda, com o Cruzeiro do Sul, com o pavão, com o Pão de Açúcar, o arco íris, o Alain Delon e a Sophie Charlotte. Podia ter caprichado mais em Plutão, no Pezão e no Piauí, mas ninguém é perfeito.

Só que faltava alguma coisa.

Adão e Eva seriam felizes para sempre no paraíso, dominando sobre as aves do céu e todos os animais da terra sem nenhum vegano para encher o saco.

Aos sábados, sacrificariam uma ovelhinha inocente em sinal de agradecimento – uma espécie de dízimo, já que o Edir Macedo ainda não tinha inventado o dízimo no crédito e no débito.
E pronto.
Isso pelos séculos dos séculos, amém.

Tirando as ovelhas, ninguém teria do que se queixar.

Não ia dar certo.
Ou melhor, ia dar certo demais.
Tão certo que a felicidade ia virar defô, e ninguém seria feliz (porque o conceito de felicidade depende de haver a infelicidade como referência).

E Deus criou o diabo.

Marrento como um sindicalista.
Vermelho como um petista.
Chifrudo como boa parte da espécie humana.
E tinhoso como só ele mesmo.

Traçaram estratégias, definiram a logística, estabeleceram jurisdições.
Você levanta e eu corto.
Você cria dificuldade e eu vendo facilidade.
Você morde, eu assopro.

E inventou-se então a religião, que é uma espécie de flanelinha metafísica (se não deixar uma cervejinha, eu não me responsabilizo se seu carro aparecer arranhado).

Para dar mais veracidade à cena, Deus (ou Jeová, ou Alá, tanto faz), simulou o pontapé na bunda de Lúcifer, que deixou o Paraíso para assumir novos desafios.

O diabo, para Deus, literalmente, caiu do céu.

Das vantagens e desvantagens de ser ateu

 

Ser ateu tem suas vantagens. Você não vai pro inferno quando morre (porque o inferno não existe) e nem vive naquele inferno de culpa e pecado (porque pecado também não existe). Não perde as manhãs de domingo indo à missa ou à escola dominical, não entrega 10% do que ganha para enriquecer o pastor e pode comer carne de porco à vontade (inclusive na sexta-feira santa, ou mesmo no ramadã).

Ser ateu tem suas desvantagens. Você não consegue se confessar de graça (tem que pagar um psicanalista) nem subornar sua consciência com orações e penitências (ou faz ações concretas ou ferrou).

Mas ser ateu tem seu lado bom. Você vive sem crendices, superstições, falsas esperanças de milagres. Você crê no real, e o real nunca te desaponta. Você não precisa fazer malabarismos mentais para justificar o fato de Deus não ter te dado aquilo que você pediu, ou para entender o que há de ruim no mundo. O mundo é como é, e é como o fazemos – ou seja, depende de nós que ele seja mais justo. Quanto aos acidentes, as tragédias… bem, são acidentes, são tragédias (talvez possam ser evitados, talvez não possam, e temos que ter sabedoria pra mudar o que depende de nós, e serenidade pra aceitar o que independe da nossa vontade, como dizem nos AA e NA da vida).

Mas ser ateu tem seu lado ruim. Não há feriados ateus. Temos que pegar carona nos feriados das religiões, comemorar Corpus Christi, Nossa Senhora Aparecida, paixão de Cristo, Natal, Rosh HaShaná, Iom Kipur, Shabat, Ramadã, São Jorge/Ogum. No meu andar, todas as portas têm luzinhas piscando, gorros de papai Noel, “ho ho ho”s e saudações em Inglês – menos a minha. Os vizinhos devem olhar com pena ou desdém para a minha porta ateia, nua, alheia às gargalhadas e ao cheiro de peru assado que vazam pelas frestas das suas portas emperiquitadas.

Ser ateu é bom, porque não tem que mandar cartão, comprar presente. E é ruim, porque você não se recebe cartão nem ganha presente. Quer dizer, até ganha, mas aí fica no maior sem-jeito, porque como não comprou nada, agora tem que se justificar, e tentar retribuir, em cima da hora, quando os shoppings estão abarrotados e tudo que não se quer é ouvir dingobéus, harpas paraguaias ou a Simone berrando que então é Natal.

No Natal, ateu se sente como torcedor do Vasco no meio da torcida do Atlético Paranaense (ou vice-versa, o que é ainda pior). Como um Bolsonaro na parada gay, um honesto no PT, uma clarissa descalça no Cordão do Bola Preta. Por isso, quando chega o Natal, eu me solidarizo com os perus. Sei exatamente como eles se sentem nesta época.

Vale a pena ser ateu?

 

1.
Pense bem.
Você tem o livre arbítrio de acreditar em Deus ou não acreditar em Deus.
Se você acredita, morre e Deus existe, você se deu bem.
Se você acredita, morre e Deus não existe, você nem fica sabendo.

Por outro lado, se você não acredita e Ele existe, você tá lascado.
E se você não acredita e Ele não existe, você nem vai poder esfregar seu acerto na cara dos crentes, porque morreu, acabou.

Muito injusto pro ateu, né não?

Mas então por que um ateu, que se acha tão esperto (todo ateu se acha muito esperto) não acredita só por via das dúvidas, mantendo seu ateísmo na moita?
Porque Deus, se existir mesmo, saberá que a crença era só da boca pra fora, e de repente isso é até um agravante.
O castigo divino, em vez de uma eternidade inteira no inferno, pode ser uma eternidade e meia. Ou duas eternidades, quem sabe.
Pra Deus, nada é impossível.

Por outro lado, e se quem criou tudo foi o Capeta (há boas evidências disso) ou o bicho papão, um duende verde ou alguma divindade cultuada apenas numa galáxia muito muito mas muito distante, da qual jamais ouvimos falar?
Você morre crente que tá abafando, e do lado de lá dá de cara com um deus que não usa camisolão branco, não tem um triângulo boiando em cima do cocuruto e não dá a mínima pro dízimo.
Pelo contrário: considera suborno com dinheiro uma ofensa pessoal…

O ateu pode fazer cara de paisagem.
Alegar que não acreditava nesse deus da bíblia, do alcorão, dos papiros egípcios, dos templos gregos, vikings etc, mas que não tinha como descrer de algo que nem conhecia.
Com um bom advogado, ganha essa causa fácil.
Mas você, não. Você adorou o tempo todo o deus errado.
Perdeu, playboy.

2.
Havendo milhares de deuses na Terra – e sabe-se lá quantos milhões de outros por esse Universo enorme afora – sabe quais são as chances de o seu Deus particular ser o certo?

Zero vírgula nada em um porrilhão, se muito.

E não deve colar o seu argumento de que o Edir Macedo fez lavagem cerebral em você, ou que foi enganado pelo Malafaia, pelo Estado Islâmico, pela Mãe Dinah.

Ok, se Deus existe (qualquer deus que seja) Ele saberá que você se esforçou, fez o que pôde. E isso vale tanto pro crente quanto pro ateu.
Mas quem garante que Deus é bom?
Que é justo?
E se Ele for uma entidade do Mal, tipo o Paulo Henrique Amorim, o Franklin Martins, o Lewandowski, o Maníaco do Parque, o Ruy Falcão?
E se o negócio dEle for ver o circo pegar fogo, o pau comer, a jiripoca piar?

O ateu pode até se ferrar junto com você.
Mas pelo menos não perdeu tempo orando por milagres impossíveis (todo milagre é impossível), fazendo jejum, arrancando prepúcio, segurando a franga, degolando galinha preta na encruzilhada (em vez de fazê-la ao molho pardo ou com quiabo).

O ateu pelo menos usou o dinheiro para ajudar alguém ou pra se divertir, não pra bancar a boa vida do “pastor”.
Fez sexo sem culpa (ou com menos culpa) e se lixou para os valores cristãos da homofobia, da intolerância, do machismo e da superioridade racial.

(Se você acha que ser cristão não tem nada a ver com isso, é porque não leu a Bíblia direito ou não prestava atenção às aulas de História no ginásio.)

3.
Mas acontece que ser ateu não é uma escolha.
Você tem um cérebro e usa, a consequência é natural.
Se você tem um cérebro, usa, mas bloqueia algumas funções, é capaz mesmo de achar que quem criou zilhões de galáxias vai se empenhar em fazer seu time ganhar, você perder peso, seu namorado voltar pra você, cair na prova só aquilo que você estudou.

Que os buracos negros se pegando e gerando ondas gravitacionais por bilhões de anos são só um hobby, um negócio que Deus faz pra relaxar enquanto não está cuidando do que realmente importa, que é curar sua tia que opera na quarta ou fazer não ter Lei Seca no seu caminho, porque você tomou dois chopes.
Os refugiados que se afogam no Mediterrâneo, as vítimas da fome na África, os soterrados pelo terremoto, os desempregados pelo PT – como ter tempo pra isso com você O monopolizando (“Ai, meu Deus! Vai com Deus! Deus lhe pague! Deus me livre”) o tempo todo?

4.
Posso estar errado.
Mas ainda acho que o ateu sai no lucro.

Porque se Deus existir e for do bem, não há de ser daquele tipo que precisa ser bajulado, adorado nem vai cair em chantagens emocionais (tipo “se você me arrumar marido eu fico sem comer carne uma semana”, ou “subo de joelhos a escada da Penha e fico uma semana sem conseguir andar”).
Não vai ficar feliz com sacrifícios, renúncias e sofrimentos. Quem ama quer a felicidade do outro, não o infortúnio. E aí tanto faz se você é ateu ou crente: o que vai contar é o que você fez de bom.
Ou pelo menos o que não fez de ruim.

E se Deus existir e for do mal, a ruindade em pessoa (tipo assim Zé Dirceu, um Bashar Al Assad, um George Bush, um Nicolás Maduro), aí, meu irmão, nos lascamos todos.

Menos, claro, os “pastores” que forjam milagres, manipulam, chantageiam e vivem do estelionato da fé. Os padres pedófilos. Os pais de santo espertalhões. Os gurus de araque. Esses, sim, vão se dar bem. Jogavam no time.

5.
Enfim, é um risco.
Se daqui a cem anos estivermos conversando sobre isso, você venceu – estejamos nós tocando harpa e pisando em nuvens, ardendo no enxofre e ouvindo Engenheiros do Hawaii, ou pegando senha pro limbo.

Mas se nossos átomos estiverem apenas reconfigurados por aí, saiba que lamento muito pela sua alma inexistente, pelas suas vãs esperanças de reencontrar os entes queridos e pelas doze mil virgens a que você teria direito após explodir sei lá quantas pessoas em nome de um Deus que sempre existiu só na sua imaginação.

Brincando de Deus

 

A cada avanço da Medicina aparece alguém pra dizer que o homem está “brincando de Deus”. Foi assim com o transplante de coração, com o bebê de proveta, com o uso de células tronco – e suponho que deve ter sido também na primeira vez que a mamãe neandertal colou um esparadrapo (de tripa de velociraptor) na testa de um trogloditinha ferido.

Mas nada é mais parecido com brincar de Deus que a jardinagem. Diante do canteiro, pazinha em punho, a mais inocente das criaturas se transforma numa potestade, com poderes de vida e morte sobre a flora que tem diante de si. E com que prazer as até então inofensivas velhinhas e esposas de rotarianos se dedicam a decidir que plantas serão salvas, e regadas e podadas e cuidadas, e quais serão arrancadas sem dó nem piedade, e deixadas para morrer à míngua.

Não há mágoa de humilhações no lar ou bullying no trabalho que sobreviva a meia hora de jardinagem. Há quem prefira a terapia do grito primal, o psicodrama, o boxe ou o adultério. Mas esses ou deixam hematoma ou têm custo alto (moral e/ou financeiro). A jardinagem, não: o dano máximo é um pouco de terra sob as unhas e um ou outro dedo espetado. E pode ser praticada na varanda ou no jardim de casa, a qualquer hora, na frente de todo mundo.

O efeito terapêutico da jardinagem é a encenação, diante de cada plantinha, de uma espécie de Juízo Final. Você olha para a planta (totalmente à sua mercê, sem a menor chance de fuga), pesa os prós e os contras, põe na balança seu aspecto, suas folhas, seu tamanho, sua espécie e, sem apelação possível, a deixa viver ou a condena à morte. Simples assim. Deus em estado puro – e sem nossassenhoras, santos ou anjos para interceder por essa gramínea ou rogar por aquela avenca.

A grande questão que se impõe, nesse momento sublime (que só conhece quem pratica a jardinagem) é saber distinguir, num átimo, quem é planta, quem é mato. Aparentemente, basta fazer como no dia-a-dia e julgar pelas aparências: as bonitas são plantas, os feios são mato. Mas não é bem assim: num tocante paralelo com a espécie humana, há plantas muito feias, e matos lindos.

Minha irmã tinha uma técnica sofisticadíssima pra saber quem é mato, quem é planta. É só puxar. Se sair, é planta. Se se agarrar com todas as forças ao chão, é mato. Ou seja, mais uma vez, a jardinagem como metáfora da vida. Quem a gente quer do nosso lado está sempre saindo pela tangente, nunca está disponível hoje à noite, não atende o telefone, mal curte nossas postagens. Mas as ervas daninhas, essas não largam do nosso pé: inventam um jeito de aparecer onde quer que a gente vá, insistem em nos convidar pra alguma coisa hoje à noite, ligam, mandam SMS, comentam tudo (até a gente não aguentar mais e bloquear).

Finda a capina (no jardim, no canteiro, no vaso, no xaxim), tal como Deus ao sétimo dia, o adepto da jardinagem se espreguiça, feliz. As juntas doem um pouco (ter dor nas juntas parece ser pré-requisito pra se praticar jardinagem), mas você se levanta, limpa as mãos na calça (ou na saia) e contempla sua obra: os maus separados dos bons, o Mal (o mato) enfim punido (arrancado pela raiz!) e o Bem todo faceiro, agora com mais espaço e menos competição pelos nutrientes do solo.

Quanto mais oprimida e frustrada é uma criatura, mais alento ela encontrará na jardinagem. Em torturar plantinhas cortando seus galhos, arrancando suas folhas, mudando-as se lugar ao seu bel-prazer. Se Deus soubesse disso, não precisava ter tido essa trabalheira toda de criar o mundo, as aves do céu e os peixes do mar, e todas as espécies que povoam a Terra e as galáxias rodopiando pelo firmamento. Era só fazer como eu: pegar a pazinha e se agachar diante de um vaso de plantas. Tem o inconveniente da dor nas juntas ou nas costas, mas nada que um emplastro Sabiá não resolva.

No elevador

 

Benedita todo dia pega o elevador comigo para ir passear. Ela se posta diante da porta, a porta se abre, ela entra, passam-se alguns segundos, a porta se abre novamente e ela sai – simples assim.
Fosse um pouco mais inteligente, ela se perguntaria que mecanismo é aquele que faz com que, num abrir e fechar de portas, o oitavo andar se transforme em térreo. Tentaria entender que botões luminosos são aqueles, daria um jeito de apertá-los para saber aonde levariam (se a um outro térreo, outra dimensão). Se daria conta, aos poucos, de que além do elevador há um poço e uma casa de máquinas, e uma roldana, e molas, e freios, e um alarme um interfone uma câmera de segurança. Certamente ficaria encantada com a curta viagem diária do oitavo andar ao térreo, tanto quando com o passeio em si.

Fosse um pouco menos inteligente, ela pensaria que se trata de mágica. Que um grande poder a transporta entre dois mundos. Se um dia se coçasse justamente no momento em que a porta se abria, entenderia isso como um sinal, e passaria a se coçar sempre que quisesse que a porta se abrisse. Quando isso acontecesse, teria acontecido um milagre, e ela agradeceria comovida ao Grande Elevador. Quando não acontecesse… bem, o Grande Elevador devia ter razões que a sua razão desconhecia, e talvez o sacrifício de um osso, ou ficar um dia sem tocar a ração, ou deixar de cruzar quando estivesse no cio, uma coisa assim poderia ser agradável aos olhos do Grande Elevador. No dia-a-dia continuaria se coçando (até sangrar, se fosse o caso) para que a porta se abrisse – e louvaria o Grande Elevador, com longos uivos, por atender suas preces.

Fosse menos inteligente ainda, tentaria convencer os demais cachorros quanto à sua crença. Sim, dependia deles, da sua coceira, do seu sacrifício, a porta se abrir e a mágica do teletransporte se processar. Não, não tinha nada a ver com apertar botões, imagina! Roldanas?? Que heresia… Descobriria, um tanto desconcertada, que os elevadores de alguns outros cachorros eram diferentes do seu – seja no modelo, no tamanho, com ou sem espelho, com piso de granito ou de alumínio, botões redondos ou quadrados, luminosos ou em braile. Mas só o dela, claro, era o Verdadeiro. Ainda que todos levassem ao térreo (o que, no fundo, era o que interessava), nenhum era como o dela – logo, os outros seriam falsos elevadores. E se alguém falasse em escada rolante, ela rosnaria e mostraria os dentes.

Mas Benedita não tenta entender o elevador: apenas para diante da porta e espera, sem se perguntar, sem pretender resposta. Entende essas subidas e descidas, e a rapidez ou a demora, assim como entende a ração no seu pote, o banho às quartas-feiras, a chuva quando chove, a noite quando o dia acaba. As coisas são assim, é assim que elas são. E nunca lhe ocorreu se coçar pra chamar o elevador. Sei não, acho que a Benedita é agnóstica.