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Uma fazenda no Vale do Paraíba foi proibida de proporcionar uma visita guiada que era uma imersão nos tempos dos senhores do café.

O motivo: racismo.
Onde estava o racismo: no fato de os visitantes serem servidos por atores negros, vestidos como escravos.

Não, não havia pelourinho.
Nem chibatadas.
Nem abusos.
Nem ofensas raciais.

Era uma espécie de viagem no tempo: não se visitava apenas a fazenda, mas o tempo em que a fazenda viveu seu apogeu.

Era uma encenação. Era teatro.
Como o que se faz na Serra Gaúcha com a imigração italiana, a cada Festa da Uva.

Aguarda-se que a qualquer momento o Ministério Público proíba também as novelas de época, os filmes que tratem do período da escravidão.
E destrua as gravuras de Debret e Rugendas.
E mande rasgar os livros de Machado de Assis (em “Dom Casmurro”, há páginas hediondas em que Bentinho manda “um preto” dar um recado, compra cocadas de uma escrava para dar a Capitu, e ele próprio vive do trabalho de negros adquiridos para tal finalidade).

E, claro, não se esqueça de banir também as encenações da Paixão de Cristo – porque assim deixam de existir o domínio romano, a perseguição aos judeus, as execuções na cruz.

Como em “1984”, já está criado (informalmente) o “Ministério da Verdade”, para reescrever a História.

Sem escravos, que deixam oficialmente de existir.

Sororidade

 

R.I.P, empoderamento.

Quem não aproveitou a palavrinha-fetiche de 2016, não aproveita mais.

Empoderamento não está na coleção outono-inverno das palavras tendência da temporada.

A it-palavra agora é sororidade.

Não deixa de ser um apigreide.

Sororidade tem uma sonoridade mais bacana que empoderamento – que lembrava empoiramento, empoleiramento.

Podiam ter optado por “irmandade”, mas isso incluiria os irmãos do gênero inimigo.
“Irmãdade” seria uma alternativa interessante, mas só quando escrita.
Ao falar, ninguém notaria que é um clube da Luluzinha, e metade da Humanidade fica de fora.

Sororidade tem certas vantagens que o empoderamento não tinha.
Como, por exemplo, ficar super bem na boca da Mônica e da Magali, mas ser impronunciável pelo Cebolinha.

A palavra, até há pouco, só existia naquelas pornochanchadas light passadas nas universidades americanas, com os garotos fazendo orgias homéricas nas suas fraternidades e as garotas, fantasiadas de animadoras de torcida, estudando de lápis na boca, em suas discretas sororidades.

No ano passado, a palavra (que ainda não existe nos dicionários) começou a pipocar na mídia. E a sororização tornou-se irreversível.

Sororidade não é mais que um pacto, uma aliança, uma solidariedade entre mulheres. Tipo uma por todas e todas por uma – desde que, suponho, duas não apareçam com a mesma roupa.

Sororizam-se contra o assédio, o machismo, a misoginia, o desrespeito, a injustiça. E isso é bom. Mas ao se sororizar, excluem automaticamente um grande aliado: o homem que não assedia, que não é machista, nem misógino, nem desrespeita nem é injusto.

Ok, já sei que, assim como racismo reverso não é racismo (só o branco tem o privilégio de ser racista; o negro racista está apenas cobrando a dívida histórica etc etc), o sexismo praticado pelas mulheres não as torna sexistas (ser sexista é, também, prerrogativa do homem – e, se bobear, só do homem branco heterossexual de classe média pra cima).

Nas camisetas das sórors que se sororizaram em protesto contra o assédio de um ator (não vou escrever aqui o nome do José Mayer, pra não divulgar ainda mais a história), está escrito “Mexeu com uma, mexeu com todas”.

Eu discordo. Devia ser “Mexeu com uma, mexeu com todos”, porque mexeu também comigo, que não preciso ter ovário para me solidarizar com alguém que sofreu alguma humilhação, como não preciso ter mais melanina para abominar o preconceito racial.

Enfim, com a sororização suponho que em breve as mulheres se reúnam em ovulários (não em seminários, já que a palavra vem de sêmen) para discutir a necessidade de matrocínio (patrocínio é coisa de pai, não de mãe) para sua causa.

Seja como for, bem vinda, “sororidade”. Não só por propor um armistício entre aquelas que nunca deveriam ter estado desunidas, mas, principalmente, por nos livrar dessa inhaca, desse tropeço, desse encosto que é o tal do “empoderamento”.

Veneno

 

A Universidade Federal de Pelotas resolveu expulsar 24 alunos que se declararam negros para fazer jus ao benefício do sistema de cotas raciais, e não foram considerados pretos o suficiente.

Isso porque, na impossibilidade de estabelecer Comissões de Pureza Racial para determinar quem é branco e quem é preto neste país de mestiços, vale a autodeclaração.

Mas a autodeclaração só vale se uma difusa e informal comissão de pureza racial, jamais constituída e sem critérios objetivos, olhar para o aluno e achar que ele é mesmo preto, ou parente de preto ou “com um pezinho na África” (como diziam os racistas de antigamente).

Impossibilitada de medir narizes e lábios, quantificar o grau de ondulação do cabelo ou definir que tons da tabela Pantone são aceitáveis, os racialistas partem para quesitos como “característica fenotípica”, “ancestralidade”, “trajetória de vida marcada por discriminação”, “sociabilidade à matriz negra”.

Não era mais fácil dar bolsa de estudo a quem precisa dela por não poder pagar uma faculdade particular?

Não era mais justo melhorar os ensinos médio e fundamental nas escolas públicas, de modo que os alunos oriundos dali pudessem concorrer em igualdade de condições com o os do ensino privado?

Enfim, ajudar a quem precisa, independentemente da cor da pele, do encaracolamento do cabelo – até porque qualquer estatística mostra que a grande maioria da população mais carente é afrodescendente e a questão é, em última instância, social?

Preto rico não precisa de cota. Branco pobre precisa.

~

A primeira coisa que se nota em mim é esse nariz mouro, e os mouros vêm do norte da África. Ponto para característica fenotípica.

Minha avó Clotilde, em que pese a pele branca, era chamada por todos os netos de “Vó Preta”.
Ponto para ancestralidade.

Sempre fui meio tímido, ligeiramente gago, nerd (na época se dizia caxias, ou CDF, mas dá na mesma), e, além disso, uso óculos. Ponto para trajetória marcada por discriminação.

Será que gostar de umbanda, candomblé, samba, vatapá, farofa, cachaça, adorar a Bahia e achar mulata a coisa mais linda do mundo contam como “sociabilidade á matriz negra”? Se contar, ponto pra mim.

Logo, posso me autodeclarar negro. Retinto.

Vinícius de Moraes não se dizia “o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô”?
Sou da mesma linhagem, só que pelo lado de Ogum.

~

Para a comissão que decidiu pelo afastamento dos “falsos negros”, racista é quem é contra as cotas, e se recusa a dividir privilégios.

Para mim, racista é quem olha para alguém e vê um preto ou um branco, em vez de ver um ser humano.
Quem distingue um pobre do outro, dando mais relevância à cor da pele que à condição de vulnerabilidade social.
Quem contrata pela “boa aparência” baseado em referências eurocêntricas – ou afrocêntricas.

Raça não existe na espécie humana.
Existem injustiças, que precisam ser reparadas.
Existem discriminações, que não podem ser toleradas.

Qualquer situação baseada no conceito fajuto de raça é, intrinsecamente, racista.
Usar o veneno para criar o seu antídoto pode funcionar muito bem na Medicina.
Fora dela, veneno para combater veneno só envenena mais.

Otiecnocerp

 

Não sei se vocês sabem, mas ainda existe concurso de Miss Brasil.

As ganhadoras não viram celebridades, como Marta Rocha e Vera Fischer, e seu anonimato só é quebrado quando uma resolve namorar o Aécio Neves, por exemplo.

A deste ano é uma baiana chamada Raíssa, eleita pelo Paraná.

O que a torna relevante é o fato de, cobrada a se manifestar por ser a primeira negra a vencer o concurso nos últimos 30 anos, ela ter dito que não representa a beleza negra, mas a beleza da mulher.

O movimento negro, que até então comemorava a irrelevantíssima vitória, caiu de pau.

Num artigo publicado hoje n’O Globo, um diretor de teatro (tão desconhecido quanto as últimas eleitas no concurso) diz que não se sente confortável com a declaração dela. Que, no Brasil, a mulher branca só representa a mulher branca. E o homem branco só representa ele próprio.

Se isso é (e é) uma crítica ao racismo, será que o tal sujeito percebe que o que cobra da bela Raíssa é uma atitude tão racista quanto?

Ela não foi eleita por ser negra, mas por ser bela. Logo, representa a beleza, não a negritude.
E a beleza não tem cor.
Podem ser belas as louras, as ruivas, magras e gordas, jovens e maduras, gaúchas e ianomâmis.

Uma vez perguntaram à Elke Maravilha se ela achava que o novo milênio seria das mulheres. Ela disse que torcia para que não. Ele deveria ser de todos os seres humanos, não de um gênero específico.

Elke nunca escreveu, que eu saiba, um artigo n’O Globo.
Mas, sábia como era, poderia ter deixado uma vastíssima obra detonando os fascistas e os que xingam os outros de fascista, os brancos racistas e os partidários do orgulho negro, os homofóbicos e os que insistem em querer chocar os demais com sua orientação sexual.

O tal diretor que cobra um engajamento racial da bela Raíssa diz que gostaria que, no ano que vem, outra negra ganhasse o concurso. Talvez uma negra que só representasse as negras. Uma pantera negra, de punho cerrado e ódio aos brancos no olhar.

Eu torço é para o dia em que não haja concursos de beleza, estabelecendo padrões que frustram a maioria das mulheres.

Se houver, que não seja relevante se a vencedora for branca ou negra, destra ou canhota, de Capricórnio ou Sagitário.

Raíssa é sábia.
Como sábia era a loura Elke.

Estúpido é querer vencer o sexismo com sexismo, o racismo com racismo.

Macacos me mordam!

Todo discurso racista é odioso.

E entre eles talvez o mais abominável seja chamar alguém de macaco.

A intenção é, mais que ridicularizar, desumanizar. Já que o conceito de raça não se sustenta, parte-se para considerar o outro como sendo de outra espécie.

Não espanta que isso normalmente seja dito aos gritos, histericamente, como último recurso, à falta de qualquer argumento.

Até porque ou você tem argumento ou é racista.

Só que chegamos a um ponto em que se confunde o “macaco” do racismo com o “macaco” que faz parte do imaginário – o bicho esperto, brincalhão, cheio de manhas.

Esta semana mesmo FHC disse que Michel Temer é “macaco velho”, por sua experiência em lidar com o Congresso.  Houve ofensa? Nenhuma.

Não houve porque Temer não é negro. Fosse, o mundo teria desabado sobre FHC (“o mundo” aqui compreendido como os esquerdopatas de plantão).

Vá você falar a um militante das cotas infiltrado no MST que é melhor cada macaco no seu galho.

Ou aconselhar um afropetista a tomar cuidado porque macaco velho não mete a mão em cumbuca.  E que macaco que muito pula que levar chumbo.

O fundamentalismo racista não admite metáfora.  Não consegue fazer outra leitura do que é dito, e, paradoxalmente, encontra um subtexto em tudo. O subtexto que lhe convém, claro.

Combate a intolerância sendo intolerante – e ai se você disser “macaco, olha teu rabo!”.

Ou que as empoderadas estão com a macaca.

Dá vontade de mandar essa gente pentear macaco – porque, em vez de lutar contra o racismo, estão é pagando mico.

Turbina

 

1.
Lula ganhou o presente dos seus sonhos: o pedido de prisão.
É tudo que ele precisava para reforçar a tese de que é perseguido, vítima, injustiçado. Um mártir.

2.
A Editora Abril foi condenada a pagar R$ 300,000,00 à Camila Pitanga, por ter publicado, sem autorização fotos dela nua.

É a primeira vitória dos petistas contra contra a imprensa golpista.

3.
Lula cometeu um zilhão de crimes – uns mais, outros mais ainda fartamente documentados. Mas queimaram à toa um cartucho, com essa prisão embasada no argumento de que ele poderia fugir, destruir provas, incitar à violência etc.

Isso ele sempre pôde, fez e fará – e não só ele, mas também o Ruy Falcão, o Stédile, o Gilberto Carvalho e todo o resto da quadrilha.

Deviam deixar para prendê-lo após a delação do Odebrecht, por exemplo, ou da Monica Moura, ou do Bumlai. Depois de o Pimentel ter carimbado as digitais e sido fotografado de frente e de perfil. Depois da certeza de que nenhum juiz relutaria diante de provas não só robustas, mas saradas, marombadas e cavaludas.

4.
“Odeio história de preto. Pode existir, pode aceitar, mas não pode transformar isso em aula para crianças. Tenho dez netos, quatro bisnetos, e tenho um puta orgulho porque são tudo branco pra cacete.”

Ficou chocado? Achou racista? Pensou que a Lei Afonso Arinos deveria ser invocada? Esquece: o que o Benedito Ruy Barbosa, autor da próxima novela das 9, disse foi que odeia história que tenha personagem homossexual. Que o orgulho dele é que todos os dez netos e quatro bisnetos são macho pra cacete.

Ufa! Ainda bem. Por um momento, a declaração havia soado insultante, intolerante, arrogante e execrável, não? Por algum motivo, ele só mencionou os netos e bisnetos, omitindo os filhos. Pode ser porque as duas filhas talvez sejam fêmeas, não macho pra cacete. Acontece nas melhores famílias, ninguém é perfeito.

5.
Cruel o dilema do eminente jurista baiano Wellington César: renunciar ao cargo vitalício de Procurador ou abrir mão de ser Ministro por uns dias, até a queda do governo? Passar o resto dos dias sendo pau mandado do PT na Procuradoria, ou garantir que do seu obituário conste a honra de ter sido Ministro da Justiça nos estertores do governo Dilma?

Pior que nem dá mais pra consultar Mãe Dináh a respeito.

6.
A delação de Delcídio envolve, além dos peemedebistas de praxe, um tucano dos grandes: Aécio Neves. Ainda não se sabe em que tramoia esteve metido. Mas vai ser divertido ver como os petistas farão para desqualificar o Delcídio no caso dos outros políticos, e avalizá-lo nas denúncias contra o (suposto) líder da (inexistente) oposição.

Se bem que quem defende Dilma e a Petrobras ao mesmo tempo é capaz tudo.

7.
Só para constar: a maldição do assento sempre em cima da asa foi quebrada.
Desta vez voei em cima da turbina.
No único lugar do avião em que na janela não tem janela.
E com uma dupla de enormes bebês gêmeos berrando, em uníssono e alternadamente, desde a decolagem em Salvador até o pouso no Galeão.

Quero minha asa de volta.