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Direção e sentido

 

Um espectro ronda o Brasil – o espectro da reforma política.

Lula quer se livrar do PT, sigla que carrega uma urucubaca desde que virou vírgula na Lava Jato, e articula uma frente de esquerda.

O PMDB quer se livrar do PMDB, sigla que conjura todo o fisiologismo, oportunismo e falta de caráter, e estuda voltar a ser MDB, como nos tempos da ditadura – esquecendo que essas três letrinhas eram um balaio de gatos que reunia de democratas a comunistas, de intelectuais de esquerda a sindicalistas, de gente sensata a marxistas. 

Vão mudar os nomes para não ter que mudar nada.

De repente, o PT reencarna no PSOL, que sempre foi uma espécie de Plano B do PT.

E o PMDB continua o mesmo Monte De Bosta de sempre.

Ambos sob nova direção, mas com o mesmo cheiro.

~

O Feicebuque está lançando (por enquanto, só nos Estados Unidos) uma ferramenta para combater notícias falsas.

Quando um factoide for compartilhado, aparecerá um aviso indicando que aquela postagem é questionada por uma empresa de checagem de fatos – ou “fact checking”, como vamos preferir dizer em Português.

O usuário continua livre para postar ou não – mas o faz sabendo que está espalhando uma mentira.

Já pensou se isso existisse na época da campanha da Dilma?
A cada postagem petista, um popape pulava na cara do militonto, lembrando-o que os fins não justificam os meios – ainda mais se os meios forem ilícitos e os fins, escusos.

Pensando bem, os petistas vão ter que procurar outra rede social.

E não só eles: os que pregam intervenção militar, os conspiracionistas de plantão – e mesmo os divulgadores de dietas milagrosas, de provas incontestáveis de que há vida após a morte, das imagens reais de discos voadores…

Isso aqui ficará um lugar mais saudável pra se conversar.
E quando a gente quiser dar boas gargalhadas, é só ir visitá-los no Fakebook.

Teori da conspiração

 

Tenho uma teoria (e não é uma teoria zavasque, uma teoria qualquer).

O impítimã foi golpe, sim.

Um golpe dado pelo PT.

Um autogolpe.

Dilma não tinha como se manter no poder. Não tinha credibilidade, não tinha competência, não tinha popularidade, não tinha mais de onde tirar dinheiro para financiar a quadrilha.

O TSE ia, mais cedo ou mais tarde, cassar a chapa Dilma + Temer, convocar novas eleições. Um adversário (Aécio) ou uma ex-correlegionária (Marina) ia ganhar e o PT estava fora do jogo.

Devem ter ido a um centro espírita e consultado o Golbery, o Jânio, ou à Papuda e tido uma conversa ao pé de ouvido com o Dirceu no parlatório. Por que não um autogolpe?

Encenaram um impítimã, afastaram Dilma temporariamente e colocaram lá o Temer, com a única missão de provar ao mundo que político é tudo igual, que o Brasil não tem mesmo jeito, que o PT não era tão estratosfericamente corrupto assim – apenas um pontinho ligeiramente fora da curva.

O presidente decorativo interino nomearia ministros corruptos, tentaria barrar a Lava Jato, faria a classe artística dar um piti, ameaçaria recriar a CPMF e, com a ajuda da Folha de São Paulo e da aguerrida militância (na verdade, a Folha faz parte da aguerrida militância, não sei por que distingui uma da outra) criaria na população aquela sensação de desalento, de mais do mesmo, de “pelo menos com a Dilma a gente se divertia mais”.

Provado que Temer não é a solução, nem paliativa, Dilma voltaria ao poder nos braços do povo, após 180 dias descansando a imagem.

Voltaria mais magra, repaginada, com mais botoques, um novo corte de cabelo, e a gente ficaria feliz de ter a coroa maluquinha de novo saudando o inhame no que se refere ao cachorro atrás de uma criança – com aquela doce nostalgia que nos faz engolir reprises sob a alegação de que vale a pena ver de novo.

Por que Temer toparia? Porque ele é PMDB, e o PMDB topa tudo.

Onde é que o Serra e o Meirelles entram nisso? Inocentes úteis: um arrumaria a economia (para o PT ter de novo de onde roubar) e o outro daria um chega pra lá nos parasitas bolivarianos (o que representaria uma despesa a menos).

O Oscar de “Melhor Performance Digna de Novela do SBT” iria para os indignados Lindbergh, Gleisi e Cardozão. O de melhor coadjuvante, para a Letícia Sabatella. Lula levaria o de “Efeitos Especiais”, chorando na descida da rampa.

Só não sei se combinaram com o Moro.

Enquanto isso, num universo paralelo…

 

… o Presidento Aécio Neves luta desesperadamente para se safar do impítimã.

Já denunciou à OEA, à OTAN e ao Pacto de Varsóvia que é vítima de uma intentona comunista – apesar de o PT e o PSOL estarem roucos de dizer que não são comunistas, que o impeachment está previsto na constituição e que não faz sentido comparar o momento atual com o levante vermelho de 1935. Só a cor das bandeiras é a mesma, mais nada.

O Presidento acusa o antigo aliado e agora desafeto, Paulo Maluf (Presidente da Câmara, que responde a 127 processos, e nega ser turco e ter conta na Suíça) de agir por vingança.

Visivelmente alterado pelo uso de substâncias, Aécio deu margem a milhares de memes em que aparece saudando o inhame, dizendo que atrás de toda velha tem um gato e sugerindo estocar espirro.

Isso como se não bastassem a inflação galopante, o desemprego em massa, a perda do grau de investimento, a recessão profunda e a urucubaca geral que se abateu sobre o pais durante sua gestão (ou gestação, como ele insiste em dizer).

Os ânimos estão acirrados. Ary Fontoura escarrou num casal homoafetivo que o chamou de “empadinha” num boteco da Boca Maldita – e depois foi se defender no TV Fama.

Regina Duarte fez um discurso confuso em defesa do Presidento (a quem não apoia, mas chama de Presidento assim mesmo), e acabou atacada no Orkut por hordas de petistas e psolistas indignados com a fortuna que ela conseguiu captar de incentivo fiscal para fazer uma fotonovela.

O Supremo, com 8 juízes indicados pelos tucanos – inclusive um ex-advogado do PSDB – tem aceito as delações premiadas das empreiteiras envolvidas no Valão, o escândalo de corrupção que praticamente quebrou a Vale do Rio Doce, mais importante empresa estatal do país.

A Operação Lanternagem e Pintura, da Polícia Federal, já botou quase metade do PIB nacional na cadeia, e está nos calcanhares de Aécio e sua turma.

A deputada Grazi Massafera, empadinha radical, chamou os petistas de “canalhas” na votação do impítimã e, na saída, ainda mostrou o dedo médio para Gleisi Hoffman, que defende a intervenção militar.

Aécio está ainda mais isolado depois que não conseguiu nomear FHC para o Ministério da Defesa, a fim de livrá-lo de uma juíza de Sergipe (ou “da República de Aracaju”, como ele chama). FHC alega que a penthouse nos Champs-Élysées comprada por d. Ruth não é deles, que o filho que teve com uma amante não é seu, e que a amante é do José Serra – ele apenas a compartilha nos finais de semana. Ninguém acreditou.

Aloysio Nunes (que, apesar de ser o vice eleito, “não teve um voto sequer”, segundo os tucanos) já monta seu governo, e é chamado de traíra, judas e fura-olho pelo ministro da Casa Civil Geraldo Alckmin e pelo Advogado Geral da União, Ronaldo Caiado.

Os petistas dão risada quando algum tucano diz que “Aécio não pode ser deposto porque foi eleito democraticamente por 54 milhões de brasileiros” e “vocês não se conformam em ver rico andando de ônibus e branco usando o SUS”.

Quando parecia que nada poderia piorar, a nova Ministra do Turismo (a décima terceira desde a posse do Presidento) levou o marido, um ex-ator pornô que já teve o título de Mr. Big Dick, para fazer fotos de sunga no gabinete.

Lula, que se manteve quieto e nas sombras durante os 13 anos de governo tucano, evitando meter o dedo na política e fazer oposição, raramente se manifesta.

A última esperança do Presidento é seu fiel aliado Fernando Collor, Presidente do Senado e com ficha mais suja que poleiro de pato.

Se nada mais der certo, Aécio pretende convocar novas eleições e, com o que sobrou do Valão, do Itaipuzão, do BNDESão, do Eletrobrasão e do Furnão, eleger novamente FHC – garantindo, com isso, foro privilegiado para si próprio como ministro de uma das 97 pastas criadas durante seu governo.

Ninguém se lembra mais de quem seja Dilma Rousseff.

Desastres naturais

 

1.
O Jardim Botânico, apoiado pelo TCU e pelo Ministério do Meio Ambiente, venceu a queda de braço com as comunidades que vivem dentro do parque. Venceu, mas não levou, porque os moradores ocuparam o JB ontem, se recusam a sair e ameaçam botar fogo na mata.

Após a desocupação, as casas serão derrubadas e a flora degradada, recomposta. Para a associação dos moradores, entretanto, o que o Jardim Botânico está fazendo é “especulação imobiliária”. Argumento tão racional quanto o “não vai ter golpe”.

Petismo é que nem Baidu: uma vez instalado, só formatando a máquina pra se livrar dele.

2.
O feicebuque me avisa que estou na área da explosão em Lahore e pede que eu informe aos meus amigos se estou bem.

Sim, tirando a zika, a chicungunha, as intermináveis obras para as olimpíadas e os discursos inflamados (e infectados) da Dilma, estou bem, aqui no Paquistão, capital Buenos Aires.

3.
O Gilmar Mendes sempre disse que impeachment não é golpe.
A Cármen Lúcia disse que não é golpe.
O Celso de Mello disse que não é golpe.
Até o Toffoli já disse que não é golpe.

Êita STF golpista, sô.

4.
A maior prova de o que governo Dilma acabou é que o PMDB está desembarcando dele.

O PMDB nunca esteve fora do governo desde que ajudou a eleger Tancredo, lá se vão três décadas.

Se quiser saber onde está o poder, cherchez le PMDB.

Escalação

 

1.
Com o autogolpe, as coisas voltam aos seus devidos lugares: Lula reassume a presidência e Dilma cai de novo na clandestinidade.

2.
Pra ninguém dizer que não estamos evoluindo.
Em 93, Lula dizia que o Congresso tinha 300 picaretas.
A lista da Odebrecht, de 2016, traz apenas 200.

Neste ritmo, chegaremos ao século 22 com praticamente zero picaretagem.

3.
O diplomata que disparou telegramas para todas as embaixadas brasileiras alertando para o risco de golpe no país foi advertido verbalmente e não poderá mais mandar mensagens sem autorização de um adulto.

4.
Alguém, por favor, explique aos petistas que não faz o menor sentido o seu “argumento” contra o impeachment de que “se sair Dilma, assume o PMDB”.

Será que quem votou na Dilma não sabia que estava votando também no Temer? Que foram eles que colocaram o Temer lá, no banco de reserva para o caso de lesão da titular?

5.
Nervosinho, Múmia e Caranguejo.
Lindinho, Atleta, Passivo, Viagra e Escritor.
Grego e Avião.

Escalação de time de várzea?
Não: apenas os codinomes de Sarney, Jarbas Vasconcelos, Randolfe Rodrigues, Eduardo Paes, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Jaques Wagner, Manuela d’Ávila, Lindbergh Farias, Humberto Costa e Jorge Picciani na lista da Odebrechat – não necessariamente nesta ordem.

Imagino como devem ser animados os encontros de Lindinho e Avião, Nervosinho e Múmia, Passivo e Viagra. Tudo regado a muita Brahma e com Madame por perto, fazendo vista grossa.

6.
A Odebrecht tinha um departamento (de “Operações Estruturadas”) só para gerenciar os pagamentos ilegais.

E a gente pensando que o PT é que era o top top top no crime organizado.

Recapitulando…

 

Vamos recapitular:

A Dilma não sabia das roubalheiras na Petrobras.
Compravam refinaria enferrujada bem debaixo do seu nariz, e ela não dava fé.
Desviavam bilhões e ela nem tchuns.

Ela é honesta.
Gerentona.
Bigode grosso.

O marqueteiro dela recebeu sei lá quantos milhões por debaixo dos panos.
Tinha conta no exterior, offshore, o escambau.
Fazia campanha na Venezuela, no Peru, em Angola.
Com a Odebrecht e o BNDES por trás.
E Dilma nem aí.

Ela é honesta.
A caçadora de malfeitos.
Faxineira da ética.
Coração valente, estômago de avestruz.

Eleita à base de mentiras, com dinheiro roubado.
Eleita não pra governar mais 4 anos, mas pra empurrar pra debaixo do tapete a sujeirada dos últimos 12.

Perdeu, playgirl.

Os tesoureiros de campanha estão presos.
O marqueteiro da campanha está preso.
E a campanha, não tem nada de errado com ela?

Se alguém no TSE tiver um pingo de vergonha na cara, um mínimo de apreço à própria biografia, a chapa Dilma & Temer não terá como escapar da cassação.

A única chance de o PMDB não ir ao fundo, num aconchegante abraço de afogado com o PT, é cassar Dilma antes que o TSE o faça.

Vão-se os anéis, os dedos, as mãos, os braços, mas ficam os ombros.

O chefe e a madame perderam o cafofo com elevador privativo e o refúgio com pedalinho.
Dilma Rousseff, a mata-mosquita, perde o palácio. O tapete vermelho. O séquito carregando sua bolsa e o mucamo com o guarda-sol protegendo seu topete.

Como sempre, no Brasil, será feita uma transição pacífica. Pedro I rompendo com João VI para que a família não perca o trono. Aureliano Chaves com um pé na última nau da ditadura e outro no cais da democracia. Itamar pulando do avião do Collor com o paraquedas do FHC. Temer fazendo a ponte para o futuro com o entulho em que ajudou a transformar o país.

Mais uma vez, a gente mudando tudo para não mudar nada.

Mas temos que comemorar. Chegamos a tal ponto que trocar seis por meia dúzia é lucro.