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Padrão Brasil

 

1.
Acordo cedo, passeio os cachorros, imprimo meu ingresso e parto para a estação do berritê do Barrashopping, rumo ao Parque Olímpico.

Vou vestido de petista (não que tenha resolvido assumir minha porção canalha justamente hoje: é que a camisa vermelha é a única que está limpa e passada). Pela rua, parece que vai ser manifestação coxinha: todo mundo de camisa amarela. Eu e minha preguiça de passar roupa!

Na bilheteria, só vendem o cartão que dá direito a viajar o dia inteiro, por R$ 25,00. Quem quiser apenas ir e voltar (passagem a R$ 3,80) tem que ir até o Alvorada.

Gambiarra 1 x 0 Rio 2016

2.
No Terminal Alvorada, apenas um guichê funcionando. O gringo à minha frente tenta inutilmente comprar 4 passagens – não só o moço do guichê não fala Inglês como sua voz é inaudível, por trás do vidro. Dou um help, e a coisa anda.

Aí descubro por que o gringo se enrolava tanto com o pagamento: ali também não vendem só a passagem (tem que comprar o bilhete recarregável, que custa mais R$ 3,00) – e também não tem troco.

Gambiarra 2 x 0 Rio 2016

3.
No Terminal, nem uma placa sequer indicando de onde sai o ônibus pro Parque Olímpico. E nenhum voluntário para orientar.

Um passageiro me informa que tenho que pegar o berritê pra Madureira e descer no Rio 2. Não pode ser. Mas é.

Lá vou eu em pé no buzão de Madureira.

Gambiarra 3 x 0 Rio 2016

4.
Salto no Rio 2 e começa a maratona até o Parque Olímpico.
É chão, e o primeiro trecho é feito numa passarela estreita e improvisada, dessas de obra.

Com o que desviaram do metrô e dos estádios, com certeza daria pra fazer uma passarela decente – ou um ponto em frente ao Parque.

Gambiarra 4 x 0 Rio 2016

5.
Como chego cedo, não tem fila.

No detetor de metais, aproveito para perguntar se poderia ter levado a cam.
– Depende.
– Depende do quê?
– Da cam.
– Qual pode e qual não pode?
– Não pode se for grande.
– Que tamanho é grande?

O guarda não sabe dizer. Faço com as mãos aquele gesto de saudação papal (que também quer dizer “bem dotado”, com as palmas afastadas uns 20 cm uma da outra). Eles se entreolham.

– É grande – decidem.

Ainda bem que não arrisquei a levar a minha máquina “grande”.

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6.
No Parque, grades e tapumes por todos os lados dão uma cara de improvisação, e estragam toda a grandiosidade do espaço.

Para compensar a precariedade dos totens informativos, e a dificuldade de identificação das arenas (as Cariocas 1, 2 e 3 são idênticas), voluntários de megafone berram “Arena Carioca 2 à minha direita!” – e apontam para a esquerda. “Arena Carioca 3 à minha direita!” – e apontam para a esquerda. “Arena tal em frente!” e apontam para a direita.

O Parque Olímpico adquire um quê de ponto de van, ou kombi que vende pamonha fresquinha, ou caminhão de ferro velho.

E, definitivamente, lateralidade não é o forte deles.

Gambiarra 6 x 0 Rio 2016

7.
Se sabe que muda o tempo, se sabe que o tempo vira, aí o tempo virou – e a ventania começa a arrastar os tapumes e as grades e os guarda-sóis para tudo quanto é lado.

O que já era confuso agora parece caótico. E não aparece um voluntário para recolher as grades caídas, os guarda-sóis que voam.

Gambiarra 7 x 0 Rio 2016

8.
Não pode entrar nas arenas com artefatos de vidro.
Mas os copos de vidro da Coca Cola (que não são copos, são drinkwear, à venda por convidativos R$ 11,00 na lojinha da marca) entram e saem livremente.

Gambiarra 8 x 0 Rio 2016

9.
Meu ingresso para ver esgrima indica setor 104, fila O, assento 9.
A voluntária diz que tenho que contornar a arena Carioca 3 pela esquerda e aponta, para minha surpresa, para a esquerda mesmo.

Contorno toda a arena, pela esquerda, para descobrir que o setor 104 fica do lado oposto, à direita.

Bem que achei que quando ela disse “esquerda”, devia querer dizer “direita”.

Como aqueles coxinhas que trolaram a Letícia Sabatella, os voluntários também não sabem o que fazem.

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10.
Arena parcialmente cheia (ou parcialmente vazia, dependendo se você lê o Estadão ou a Folha), descubro que meu lugar está ocupado, e que posso me sentar onde quiser.

Paguei à toa por um lugar mais caro, e resolvo que o melhor é ficar mesmo em pé, circulando (como fazia no antigo Maracanã).

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11.
O esgrimista brasileiro consegue vencer o chinês (estava em 7 x 0, deixou chegar a 8 x 7, mas venceu) e não vou esperar pela próxima rodada (em que o Brasil acabou perdendo pra Itália, e ficou de fora da disputa).

Na saída, me perguntam se pretendo voltar. Uai, não é proibido? Na entrada, tem até um cartaz improvisado, impresso numa folha A4, avisando que depois que sair não pode retornar.

É proibido, mas pode. É só a voluntária rubricar o seu ingresso.

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12.
Em menos de três horas, acaba a aventura olímpica.

Tudo tem cara de descartável, tudo parece meio improvisado.

Talvez na próxima Olimpíada do Rio a gente esteja mais preparado. Esta foi só um ensaio, um rascunho, uma versão beta.

Ou quem sabe deveriam ter chamado o Fernando Meirelles para cuidar disso também, não só da festa de abertura.

A gambiarra ganhou da organização – de goleada

13.
Nunca mais falo que “quem faz a foto é o fotógrafo, não a cam”.
A experiência de fotografar com o celular (modelo antigo, basicão) foi um desastre.

14.
Mas mico mesmo foi não ter baixado o Tinder. Não que eu tivesse alguma chance, mas o Parque tava tão bem frequentado…

Gambiarra por gambiarra, uma a mais, uma a menos, não ia fazer grande diferença.

Ombro amigo

 

– Bessias, me serve mais um campari.

– Madame, a senhora já tomou duas garrafas.

– Com pouco gelo dessa vez, Bessias.

– Madame, é melhor a senhora…

– Aquela vaia era pra mim, Bessias!

– Sim, madame.

– Ele me roubou a minha vaia!

– A da senhora seria muito mais bonita, muito mais sonora.

– Ele me tomou tudo, Bessias. Tudo que era bêu!

– Um desqualificado, madame. Um judas.

– Lutei tanto por aquela vaia, Bessias. Sonhei com aquele momento em que o Hollande, o Barack, a Cristina, o Chávez, todos me olhariam com inveja, porque nunca na vida deles eles conseguiriam uma vaia igual.

– O Barack não veio, o Chávez já morreu e a Cristina…

– Foda-se a Cristina, Bessias. E o Chávez morreu pra você, militante ingrato. Ele continua vivo no beu coração.

– O Maduro viria, se a senhora não tivesse sido golp…

– O Baduro não be interessa mais, Bessias. Quero que ele e a Benezuela se…

– Madame, vou fazer um chá de boldo pra senhora.

– Eu não queria o poder, Bessias. Quem bandava era o Lula, o Gilbertinho, o Ruy Falcão. Eu só queria era chamar o Kamura mais uma vez, botar beu taiezinho vermelho, fazer beus discursos, mandar beijos pra militância…

– Eu sei, madame.

– Sabe há quanto tempo eu não beijo, Bessias?

– Madame, vou preparar o chá de boldo e…

– Sabe, Bessias? A Suzana Vieira ainda benstruava quando eu beijei bêla últiba bez.

– Não fique assim, madame. Quando a senhora reassumir, é só a senhora ir a qualquer evento que não seja do PT que a senhora vai ganhar uma vaia maior que aquela.

– Bas eu queria aquela, Bessias! Eu queria a Gisele num doce balanço a caminho do bar olhando pra bim. Eu queria a Anitta remexendo as cadeiras pra bim. Até a Elza Soares parecendo uma múmia asteca eu queria pra bim, entende?

– Toma aqui um epocler, um engov e um hepatovis B12, madame.

– Custava, Bessias? Custava ter deixado eu abrir as Olimpíadas, custava? Depois eles impichavam, mas pelo menos eu teria uma selfie com a Berkel e a Bachelet, as três empoderadas, e a vaia…

– Nem a Merkel nem a Bachelet vieram, madame.

– A Barcela foi?

– Não, madame. A Marcela não foi.

– Como é que aquele vampiro mesoclítico tem uma Barcela, e eu não tenho ninguém, Bessias? Ninguém!

– Madame, seu chazinho.

– A elite branca paulista do Baracanã mandou o golpista tomanocu?

– Não, madame, não mandou.

– A mim eles mandariam, Bessias. E eu perdi essa oportunidade! Sabe quando vou ter uma outra chance dessas, Bessias? Sabe quando?

– Madame…

– Dunca! Dunca bais!

– Quem sabe o Eduardo Cunha não faz uma delação premiada, ferra todo o PMDB e a senhora ainda volta a tempo das Paralimpíadas?

– Vem cá, Bessias.

– Madame, a senhora já bebeu um pouco demais e…

– Bessias…

– Eu sou casado, madame…

– Me vaia, Bessias!

Quem diria…

 

1.
A gente morre e não vê tudo.

O pastor Marco Feliciano é acusado de assédio sexual e tentativa de estupro contra… uma mulher!

Então aquelas sobrancelhas depiladas, aquele batom suave, a chapinha do cabelo, a homofobia e os trejeitos eram só cortina de fumaça?

Por via das dúvidas, é melhor as assessoras parlamentares passarem a tomar mais cuidado com o Jean Wyllys de agora em diante.

2.
Na abertura dos Jogos Olímpicos, Temer parecia tão à vontade quanto num exame de próstata.

3.
Quando Dilma foi vaiada na Copa, a culpa era da elite branca paulista que lotava o Maracanã.

Será que os petistas vão usar o mesmo argumento para a vaia do Temer?

4.
O aparelhamento da festa de abertura foi evidente.

Como bem lembrou o Fábio Alberto Silva, cada delegação era precedida de alguém pedalando – e houve menção aos brimos, os turcos que vieram da Síria e do Líbano, mas ignoraram solenemente a imigração búlgara (bem como a mandioca, o estoque de vento e o cachorro atrás da criança).

Depois desta noite memorável, vão ter que repor o estoque de kleenex e rivotril do Palácio da Alvorada. E ver se as vidraças ainda estão todas inteiras.

5.
Morreu o Vander Lee, compositor inspirado.

Osvaldo Montenegro, Jorge Vercilo e Ana Carolina vão bem, obrigado.

E ainda querem que eu acredite que Deus é justo.

6.
O mundo se curvou ante o Rio.

Nossos piores temores não se confirmaram.

Anitta não desafinou no pleibeque, apreenderam o pivete que ia assaltar a Gisele Bündchen (já deve ter sido solto e estar roubando celular de turista em Copacabana), nenhum padre irlandês se atracou ao Vanderlei Cordeiro impedindo que a tocha fosse acesa, e Wesley Safadão ficou de fora.

Agora é torcer para Galvão Bueno e Glória Maria terem uma faringite na véspera da cerimônia de encerramento, e o sucesso terá sido total.

7.
A gambiarra deu certo.

Bolão

 

1.
Temer gastou sei lá quantos milhões viajando pelo mundo em inócuas missões oficiais, sempre acompanhado de caudalosas comitivas e se hospedando em hotéis de luxo, como convém a representantes de países miseráveis em turnê pelo mundo civilizado.

Só numa conferência em Istambul sobre a Somália, torrou R$ 350.000,00 em três dias.

Tivesse feito um doc para os somalis, e ficado quieto com a Marcela no Jaburu, o combate à fome teria sido mais efetivo.

2.
A ainda bela Letícia Sabatella resolveu passear, sem querer, pela manifestação coxinha de ontem, na Praça Santos Andrade, em Curitiba.

Despenteou o cabelo, ligou a cam do celular, e lá foi ela, em mais uma performance midiática.

Recomendo que suas próximas intervenções na defesa intransigente da corrupção, da recessão e do aparelhamento do Estado sejam fazer topless na Síria, numa daquelas cidades dominadas pelo Estado Islâmico, e desfilar com a camisa do Flamengo no meio da torcida do Vasco.

De celular ligado, claro.

3.
Em seu mimimi, segundos depois, no Instagram, a musa da mortadela se diz preocupada com a falta de democracia no nosso país e, se comparando a um certo crucificado, termina dizendo “eles não sabem o que fazem”.

Faltou só o “perdoai-os, Pai”.

Mas ela sabe que o Lula não perdoa.

4.
No show de abertura das Olimpíadas, não teremos, como em Londres, um agente secreto escoltando até o estádio a mulher mais poderosa do país.

O COI deve ter vetado a releitura que faríamos, com o japonês da Federal levando Dilma algemada.

Em vez disso, teremos funk e Giselle Bündchen sendo assaltada – numa representação da cultura brasileira (parece piada, mas é isso mesmo que vai acontecer).

Eu proporia algo de mais impacto: um arrastão pelas arquibancadas, com as pessoas se levantando de mãos ao alto, com o efeito visual de uma ola, enquanto entregavam seus celulares, carteiras e roléques.

Os bandidos – todos menores oprimidos de comunidades carentes – vestiriam camisas vermelhas com estrelas brancas, e manifestantes profissionais do MST acampariam no centro do gramado (de onde só sairiam com a intervenção da polícia, e o Eduardo Suplicy arrastado à força, ao som de “Blowin’ in the wind”), deixando o tapete esmeraldino em petição de miséria.

Plataformas de petróleo cenográficas jorrariam dólares (falsos) nos cantos do Maracanã, com pastores evangélicos engravatados recolhendo os 10% que cabem a Jesus (após o PT e sua base aliada já terem retirado seu quinhão, e o Instituto Lula ter afirmado que todas as doações foram legais e declaradas ao TSE).

Pousados sobre os alambrados, bandos de tucanos se bicariam estridentemente, disputando o butim.

Tudo isso, claro, ao som de Anitta, Ludmila e Wesley Safadão (essa parte também parece piada, mas é sério).

5.
Já rola por aí um bolão sobre o dia do atentado terrorista nos Jogos Olímpicos.

Acho perigoso participar de um bolão desses: vai que você acerta, e aí a PF vem em cima, pra saber como você obteve a informação.

Sou mais um outro bolão, o que pergunta se o Lula vai ser preso antes ou depois do impítimã da Dilma.

Antes. Na cabeça.

Allahmpíadas

 

– Tudo pronto para as Olimpíadas, Ahmed?

– Sim, Mohamed.

– Arrumou os homens-bomba, o carro-bomba, os explosivos, as adagas, os capuzes negros?

– Bem, houve uma reengenharia nos planos, mas tudo vai dar certo.

– Como assim “reengenharia”? Não vai me dizer que não conseguiram fazer contato com os bicheiros, com a PM ou que os artigos estavam em falta no mercadão da Uruguaiana!

– Não, não, deu tudo certo. Os bicheiros entenderam a proposta, a PM ofereceu gente e norráu, e o que não tinha na Uruguaiana a gente arranjou em Acari. É que optamos por algo potencialmente mais destrutivo.

– Ataque nuclear?

– Não. Conseguimos que as obras da Vila Olímpica fossem feitas pela Odebrecht.

– Mas isso deve ter envolvido uma logística muito complexa!

– Que nada. Já estava tudo praticamente acertado quando entramos nas negociações. O material de segunda já estava comprado, a mão de obra desqualificada já estava a postos, a fiscalização tinha sido dispensada.

– Não precisa implodir, então?

– Não, Mohamed. Vai tudo cair sozinho. Aliás, já está caindo, aos poucos.

– Sei não, Ahmed, eu preferia algo de mais impacto midiático, entende?

– Mais impacto midiático que uma Vila Olímpica com fio solto, pia vazando, vaso entupido, chuveiro sem água, entulho na escada, infiltração no teto, forro despencado, só uma tevê por andar? Com a delegação da Bielorrúsia dizendo que o lugar era insalubre e a da Austrália se mudando pra um hotel? Com a da Nigéria fazendo gracinha pra pedir que façam os reparos? Duvido.

– E os apoios locais?

– Tudo conforme o planejado. O Prefeito já falou merda, o governo federal já disse que não é com ele, o Comitê Olímpico informou que vai fazer uma rigorosa investigação (o que, em Português brasileiro, quer dizer que haverá vista grossa).

– Encheram o mar de lixo, pelo menos?

– Não foi preciso, Mohamed. Os cariocas se encarregaram disso.

– E a Presidenta vai, para receber aquela vaia estrondosa, cujas ondas sonoras botarão abaixo o que ainda estiver de pé?

– É… hmmmm…. bem…. ela declinou do convite. Diz que está ocupadíssima, e não vai poder comparecer.

– Ocupadíssima fazendo o que? Ela não foi encostada, não está mais à toa que controlador de doping na delegação russa?

– Ela passa os dias caçando tamagochi com o celular.

– Mas não é Pokémon?

– Tentamos explicar a diferença, Mohamed. Não adiantou. Fizeram uma vaquinha e ela agora viaja pelo país afora, procurando os tamagochis. Não achou nenhum, mas diz que é golpe da Nintendo, que resistiu à tortura e que não desistirá jamais.

– Ela vai fazer falta na cerimônia de abertura. Só com Ludmilla, Anitta e Wesley Safadão… sei não.

– Não se preocupe, acionamos o plano B: o Eduardo Paes vai, e deve discursar.

– Allahu akbar!
– Allahu akbar!