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Le Globô

 

13 razões pelas quais não consegui assistir “13 reasons why”:

1. É chato.
2. É muito chato.
3. É chatíssimo.
4. É chato demais.
5. É uma chatice sem tamanho.
6. Repeti cinco vezes o mesmo argumento porque o seriado é, além de chato, repetitivo.
7. A trama não anda.
8. Os episódios se arrastam.
9. Os episódios são intermináveis.
10. Os episódios não chegam a lugar nenhum.
11. Ninguém age muito racionalmente.
12. Os personagens parecem um showroom de estereótipos de filme de adolescente.
13. É tão chato que dá vontade de cortar os pulsos.

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O Globo transformou sua revista de domingo, aquela de ler na praia, e que era um revigorante exercício de escapismo, num suplemento feminino chamado “Ela”.

Por “suplemento feminino” entenda-se um caderno destinado a mulheres muito ricas, muito descoladas e muito fúteis – daí as matérias sobre alta gastronomia, móveis de vanguarda, maquiagem de abertura do Fantástico dos anos 70, e muito, mas muito anúncio (de joia, perfume, mais joia, shopping, joia de novo, mais alguns shoppings e algumas joalherias). É daquelas revistas que a Adriana Ancelmo tem que ler usando babador.

Tem, na capa, a Fernanda Lima de bunda de fora e escondendo a cara.
Mais metafórico, impossível.

O próximo passo deve ser mudar o nome do jornal, de O Globo para A Terra.

Empoderamento é bom, mas tem limite.

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A Globo é bipolar.

Ao mesmo tempo que oficializa o uso de “tô”, “tá”, “vamo”, “fazê”, “ficá” (“Oi, Maju, cumé quitá o tempo em São Paulo pro fim de semana?”, “Oi, Bonner, vamo vê aqui no painel”), ela parece exigir dos repórteres uma pronúncia em Francês de darrr inveja ao Truagrô e ao Jacã.

É um tal de “Emanuellll Macrrrrrron” pra cá e de “Marrrrrinnnn Le Pennnn” pra lá, que não vejo a hora de essas eleições na Frrrrônce acabarem pro país sair do noticiário.

Além de torcer para que o próximo atentado seja nalgum lugar de nome bem simples – porque se for na Rue de La Rochefoucauld, no Neuvième Arrondissement, eu vou começar a ver o Jornal da Record.

Jornalismo isento

 

O Globo tem o hábito salutar de, nos seus editoriais, abrir igual espaço para opiniões contrárias.

Tipo uma no cravo, uma na ferradura.

Para oferecer um contraponto, chama, invariavelmente, alguém do PT. Ou de algum dos sub-PTs, de alguém da tropa de choque petista – PSOL, PSTU, PC do B, CUT, sindicatos.

É, no fundo, um golpe baixo, porque os “argumentos” usados pelo “outro lado” iluminam de tal forma as teses d’O Globo que é impossível não concordar com elas.

Hoje, por exemplo, o editorial era sobre o ajuste fiscal, o pacote do governo estadual contra a crise.

O Pezão quer cortar tudo, e na carne – menos os desperdícios, os privilégios, os desvios, a má gestão. Enfim, quer mandar a conta para o contribuinte, como de praxe.

Indefensável? Não se do outro lado estiver Ronaldo Leite, presidente estadual da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil.

O sujeito consegue bater o recorde mundial de asneira por sílaba.

Fiquemos só com o primeiro parágrafo:

“A crise financeira que assola os estados é, em boa medida, reflexo da crise nacional.

Um claro efeito colateral do movimento de golpe parlamentar patrocinado pelas elites que levou Temer a ocupar, de maneira ilegítima, a Presidência da República.

A desvirtuada Operação Lava-Jato, que serviu como alavanca para os golpistas, tem levado à paralisia parte significativa da cadeia produtiva nacional, notadamente a Petrobras, a indústria naval e a área da engenharia, atingindo fortemente a economia e as receitas do Estado do Rio de Janeiro.”

Ou seja:
1. A crise foi provocada pelo golpe do impítimã.
2. Temer é um presidente ilegítimo.
3. A Lava-Jato é golpista.
4. A Lava-Jato paralisa o país e é responsável pelas perdas da Petrobras e de outras indústrias.
5. O golpe e a Lava Jato são as culpadas pela crise do Estado do Rio.

Com esse tipo de argumento contra o ajuste fiscal, até eu, que sou mais bobo, apoio o fechamento dos restaurantes populares, o corte de luz nas delegacias e o não pagamento de salários ao funcionalismo.

Otiecnocerp

 

Não sei se vocês sabem, mas ainda existe concurso de Miss Brasil.

As ganhadoras não viram celebridades, como Marta Rocha e Vera Fischer, e seu anonimato só é quebrado quando uma resolve namorar o Aécio Neves, por exemplo.

A deste ano é uma baiana chamada Raíssa, eleita pelo Paraná.

O que a torna relevante é o fato de, cobrada a se manifestar por ser a primeira negra a vencer o concurso nos últimos 30 anos, ela ter dito que não representa a beleza negra, mas a beleza da mulher.

O movimento negro, que até então comemorava a irrelevantíssima vitória, caiu de pau.

Num artigo publicado hoje n’O Globo, um diretor de teatro (tão desconhecido quanto as últimas eleitas no concurso) diz que não se sente confortável com a declaração dela. Que, no Brasil, a mulher branca só representa a mulher branca. E o homem branco só representa ele próprio.

Se isso é (e é) uma crítica ao racismo, será que o tal sujeito percebe que o que cobra da bela Raíssa é uma atitude tão racista quanto?

Ela não foi eleita por ser negra, mas por ser bela. Logo, representa a beleza, não a negritude.
E a beleza não tem cor.
Podem ser belas as louras, as ruivas, magras e gordas, jovens e maduras, gaúchas e ianomâmis.

Uma vez perguntaram à Elke Maravilha se ela achava que o novo milênio seria das mulheres. Ela disse que torcia para que não. Ele deveria ser de todos os seres humanos, não de um gênero específico.

Elke nunca escreveu, que eu saiba, um artigo n’O Globo.
Mas, sábia como era, poderia ter deixado uma vastíssima obra detonando os fascistas e os que xingam os outros de fascista, os brancos racistas e os partidários do orgulho negro, os homofóbicos e os que insistem em querer chocar os demais com sua orientação sexual.

O tal diretor que cobra um engajamento racial da bela Raíssa diz que gostaria que, no ano que vem, outra negra ganhasse o concurso. Talvez uma negra que só representasse as negras. Uma pantera negra, de punho cerrado e ódio aos brancos no olhar.

Eu torço é para o dia em que não haja concursos de beleza, estabelecendo padrões que frustram a maioria das mulheres.

Se houver, que não seja relevante se a vencedora for branca ou negra, destra ou canhota, de Capricórnio ou Sagitário.

Raíssa é sábia.
Como sábia era a loura Elke.

Estúpido é querer vencer o sexismo com sexismo, o racismo com racismo.

Finados

 

Zuenir Ventura, certamente o mais superestimado de todos os colunistas d’O Globo, tornou-se hoje o porta-voz oficial da esquerda ressentida, que não aceita o resultado das eleições.

Diz ele, textualmente, que “as urnas não autorizam o novo prefeito a falar em nome da cidade, e sim em nome de 1,7 milhão de eleitores fiéis, um número bastante expressivo, mas bem menor do que os 2,034 milhões de infiéis que o recusaram” (votando em branco, não votando ou anulando o voto).

Será que esse mesmo argumento valia para Dilma, recusada por 48% da população (que preferia Aécio) e eleita com “apenas” 52%?
Ela então também não poderia se dizer democraticamente eleita e falar em nome de todos os brasileiros?

E continua: “Portanto, ao vencedor, um pouco menos de soberba. Um pouco de humildade não faz mal a um governante, ainda que se considere escolhido por Deus”.

A “soberba” do Crivella estaria em interpretar sua eleição como um não à legalização do aborto e á descriminalização das drogas.

Mas quem votou nele não sabe das suas ideias de jerico a respeito desses temas? Não está ciente do seu conservadorismo, e não o apoia justamente por isso?

Zuenir parte para cima de Carlos Osório e Índio da Costa, adversários de Crivella no primeiro turno, e seus apoiadores no segundo.
“Por que não aderiram antes, por que esperaram o segundo turno?”, pergunta indignado – como se não o tivessem informado que é assim que funciona a eleição em dois turnos, e que Jandira também foi adversária de Freixo no primeiro turno e o apoiou no segundo.

Por que Jandira pode freixar impunemente, e índio e Osório não deveriam ter crivelado?

Acaba desejando que o bispo não seja parte do projeto de nação evangélica do seu tio “e líder religioso” Edir Macedo.

Teria desejado a um eventual vitorioso Freixo que não fosse parte do projeto de nação marxista do seu ídolo, o líder popular Luís Inácio Lula da Silva?

Quem não sabe perder não devia competir.
Quem não aceita as regras da democracia não devia se travestir de democrata.

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O editorial d’o Globo vai na mesmíssima linha.

Crivella ganhou por exclusão.
Perdeu para os não-votos.
Foi ajudado pela escolha errada e arrogante de Paes, que insistiu no inviável candidato Pedro Paulo.
Teve uma mãozinha do sectarismo do Freixo, que não conseguiu se livrar da fama de radical blequibloqueiro e insistiu na asneira do “fora, Temer” e do “é golpe”.
Se aproveitou do fogo amigo que foi o apoio de Dilma (lembram dela?) à candidata comunista Jandira Feghali.

Enfim, de acordo com O Globo, Crivella não ganhou.
Os outros é que deixaram de ganhar.

Mas não é exatamente assim em toda eleição?
Não há sempre vitórias acachapantes, como a de ACM Neto em Salvador, e outras suadas, como a do Kalil em BH?

E isso faz um menos prefeito que o outro?
Ou apenas indica que um terá condição mais ou menos favorável para governar, e lidará com uma oposição mais ou menos combativa?

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Sou a favor da legalização do aborto.
Sou pela descriminalização das drogas.
Sou pela política afirmativa de gênero.

Por essas – e outras, muitas outras – Crivella não me representa.
Por essas – e outras, muitas outras, não votei nele.

Mas, segundo as regras eleitorais, ele é o prefeito eleito do Rio de Janeiro.
São a suas ideias, não as do candidato derrotado, que vão nortear a administração municipal pelos próximos quatro anos.

É assim que a banda toca.

Aceitar as regras democráticas quando você ganha, e relativizá-las quando quem ganha é o que pensa diferente de você tem nome.
É um palavrãozinho que acaba de sair de moda, mas nem por isso vai sumir do dicionário.

É golpe.

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À esquerda brasileira, feliz Dia de Finados.