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Reinvenção da morte

 

A vida, escreveu Cecília Meirelles, só é possível reinventada.

Porque viver não basta. Sobreviver, menos ainda.
E muitos, inúmeros – talvez quase todos – apenas sobrevivemos.
E quando mesmo sobreviver se torna penoso?

Este é o Setembro Amarelo, mês da prevenção ao suicídio.
Por que não da compreensão do direito ao suicídio?

Viver, quando a vida não faz mais sentido, não pode ser uma imposição.
A vida não pode ser uma condenação, uma pena de prisão perpétua.
Para uns, ela é um dom. E para aqueles para quem se transformou num fardo impossível de carregar?

Desistir de viver não tem nada a ver com covardia, com fracasso.
É a decisão mais sensata – se não a única possível – quando não há mais vida a ser vivida.
Quando o que há é sofrimento, quando a dor não dá trégua.
Quando a doença é irreversível.
Quando a morte dolorosa é inevitável.

Por que não nos poupar?

A eutanásia ou o suicídio assistido evitariam a autoflagelação dos que se lançam de edifícios, se deitam nos trilhos, disparam contra a cabeça, se asfixiam, se envenenam.
Dos que se infligem dor em grau máximo para escapar definitivamente à dor.

É preciso que sejamos menos dogmáticos e mais misericordiosos.

Tirar a vida alheia é um crime, porque se rouba ao outro o direito de viver.
Tirar a própria vida, não.
E ajudar a quem não suporta seguir vivendo é um ato de solidariedade.
De humanidade.
De compaixão.

Agarrados ao dogma do “Deus dá, Deus tira”, impedimos que a eutanásia e a ortotanásia sejam legalizadas e permitam uma morte digna a quem há muito já deixou de viver.

Há os que se matam porque afogados na depressão.
A depressão tem tratamento, tem cura.
Mas a mesma crueldade que nos leva a estigmatizar os que se suicidam nos faz tratar a depressão como fraqueza, falta de fé, frescura.

Porque a dor do outro não dói.
Para se condoer, é necessário um mínimo de empatia.
Coisa que a psicopatia que cultivamos – escudados na religião – não nos permite ter.

A Organização Mundial de Saúde diz que 90% dos suicídios poderiam ser prevenidos e evitados.
Seriam apenas uma decisão precipitada, tomada num momento de desespero. Aí, bastaria uma mão amiga. Um ombro. Alguém com quem contar, a quem pedir socorro.
Enquanto tratarmos o suicídio como tabu, como ofensa a um pretenso Criador, como ato sem perdão, esse socorro não virá.

Escolher como se deseja morrer – ou como não se deseja morrer – é um direito inalienável de todo ser humano.
Faz parte do nosso livre arbítrio.

A campanha da prevenção ao suicídio faz sentido se conseguir salvar aqueles que não desejam efetivamente morrer, apenas ter um alívio, um pouco de paz.
Mas só fará sentido de verdade, só deixará de ser mais um ato de discriminação, se incluir o direito legal de por fim ao sofrimento de quem não deseja mais sofrer, de quem não é mais capaz de reinventar a própria vida.

Vinte e quatro de junho

 

Ontem se completaram 42 anos da morte do meu avô.
Hoje meu pai completaria 82.

Mortos e mortes fazem aniversário?
Ou aniversários são celebrações de anos de vida, não da passagem do tempo?

É o primeiro ano sem meu pai no 24 de junho, mas não o primeiro ano sem festa.
Meu pai deixou de comemorar a data desde que meu avô morreu, na véspera do seu aniversário. A data de mais um ano de perda se sobrepôs à de mais um ano de vida. O dia perdeu para ele a graça, a razão de ser

Ao fazer 80 anos, meu pai ainda não queria festa. Fizemos-lhe uma, quase à revelia. A desculpa para não celebrar continuava a mesma de sempre: a morte do pai, décadas antes.

O dia e a véspera de São João desde então unem meu pai a seu pai, fundem morte e nascimento, como se suas pontas se unissem, como se um ciclo se fechasse.

(Um grande medo que eu tinha, na adolescência, era que um dos meus pais morresse no meu aniversário – como meu avô morrera no de minha irmã, e meu outro avô no do meu pai – e contaminasse para sempre a data, entristecesse os presentes, amargasse o bolo, e as velas sobre o bolo evocassem outras velas, aquelas que só se apagam por si mesmas.)

Hoje é o primeiro 24 de junho, em décadas, em que não ligo para desejar feliz aniversário e não ouço, pela enésima vez: “hoje faz anos que papai morreu”, o que era uma fórmula que ele usava para dizer que não havia o que comemorar.

(Meu pai sempre se referiu a seu pai assim, desse modo infantil: “papai”
“Meu pai morreu” quer dizer que meu pai já não vive.
“Papai morreu” quer dizer que algo em mim não vive mais, também.)

Gostaria de chamar meu pai e meu avô, nesta hora, de papai e vovô. Minha irmã e meu irmão caçula é que ainda dizem “papai”. Não tenho essa força.

Por isso este texto de quase parabéns começa com:
“Ontem se completaram 42 anos que meu avô morreu.
Hoje meu pai não está aqui para completar seus 82.”

Dói menos.

Pedaços

 

Fosse há alguns anos, hoje era dia de ligar para Esmeraldas e dar parabéns à Tiná.

Que, para mim, nem era Tiná – era D. Nhá, mesmo, sem essa intimidade reservada apenas aos sobrinhos.

Ela atenderia pedindo desculpas por ter demorado (estava fazendo comida, estava na máquina de costura, estava conversando com d. Gilda no portão), diria que não precisava ter ligado, mas que sabia que eu não iria me esquecer – e algumas vezes, ao longo dos anos, me esqueci.

Não importa: nos anos em que a ligação fosse atrasada, ela diria que imaginou que eu não pudesse ligar no dia, mas ligaria depois, não tinha importância.

Perguntaria por meu pai, por minha mãe, perguntaria se não estava muito frio em Curitiba, ou muito quente no Rio, diria que sempre pensava em mim, que ainda ontem tinha falado com alguém a meu respeito.

A ligação podia ser pelo seu aniversário, que ela dava um jeito de não falar de si, mas de querer saber de mim, contar dos outros.

Nos primeiros anos, dava notícias do Jorge, o gato preto que lhe deixei de herança. E das galinhas, e da palmeirinha que plantei no seu jardim, e já estava enorme.

Morto Jorge, continuou a dar notícias de D. Dila, D. Norma, Mary, Juca, Maria Helena, Adélia, Tânia, Telma, Túlio, Chiquito, Élder, Soninha – ligar no seu aniversário era me atualizar sobre todos, e estar de novo em sua casa, sendo paparicado com pão de queijo, fatia, bife com queijo derretido, leite com chá e bênçãos do Padre Fernando de Sete Lagoas.

Até haver um ano em que não havia mais para quem ligar no 6 de junho. Mas eu ligava, para falar com Adélia, e os dois nos consolarmos da falta que D. Nhá nos fazia.

E depois não houve mais Adélia, e não há para quem ligar e lamentar tantas perdas – também Mary se foi, e Élder, e meu quarto não existe mais, minha prancheta, minha máquina de escrever, as batidas suaves à porta para saber se eu estava bem, se não queria um chá, um biscoito, e dizer que já ia começar o programa que eu gostava (era um tempo em que eu gostava de Chico & Caetano…).

6 de junho virou dia de ligar para mim mesmo, e ouvir que Nhá, Adélia, Mary, Élder, Jorge, todos continuam vivos – os mortos somos nós, esses a quem a vida vai arrancando pedaços, até virarmos pedaços arrancados dos outros.

Para quando voltar a fazer análise

 

Sonhei esta noite com meu pai.

Ele estava bem, feliz, tal qual me lembrava dele antes da doença.
Parecia entusiasmado, querendo me mostrar caixas e mais caixas de fotografias.
Mas eu não me interessava pelas fotos, pelos recortes de jornal.

– Pai, como é a morte?

Ele não sabia, ou não queria responder. Talvez não se lembrasse.

– Você morreu, não morreu?

Ele concordou, a contragosto.

– E como é morrer?

O assunto não parecia ser do seu agrado. Ele estava ali, vivo, no seu escritório, cercado de caixas, pacotes, embrulhos bem amarrados. Para que falar disso?

– As coisas lá são caras. Uma (ininteligível) custa R$ 2,00.

Esperava outro tipo de revelação.

– Ouvi a voz de um santo. Mas muito baixo, muito longe.

E retomou o manuseio das caixas, cheias de fotos em preto e branco – ele com amigos, ele em seus júris, solenidades, condecorações.

Era bom vê-lo vivo de novo, jovem de novo, saudável de novo, e estar com ele, sentado no chão do escritório, entre os embrulhos bem amarrados que ele gostava de fazer, e caixas e mais caixas de fotografias.

E não voltei a lhe perguntar sobre a morte.

Pai

 

Esta semana completaram-se seis meses da morte do meu pai. Seis meses, seis horas, seis séculos, não faz diferença. Ele segue tão morto quanto nós, que sobrevivemos a ele, e tão vivo quando meus avós, que se foram muito antes.

Cada um que o conheceu há de se lembrar dele de uma forma – lembramo-nos de nós mesmos quando fingimos nos lembrar dos outros. Me lembro dele nas histórias que o ouvi contar, nas que me contaram, nas que vivi ao lado dele.

1.
Tomou posse como juiz em Unaí, aos 35 anos. Era uma cidadezinha perdida no noroeste de Minas – sem água, sem luz, sem calçamento e, principalmente, sem juiz há muito tempo. Uma espécie de terra de ninguém, com matadores de aluguel, coronéis, capangas, nos deslimites do sertão de Minas, divisa de Goiás e Bahia.

Mandou logo exumar, no cemitério local, todos aqueles sobre cuja morte pairasse alguma suspeita. Não havia câmara frigorífica (não havia nem luz elétrica!) e o cheiro dos cadáveres tomou conta da cidade.

Aqui e ali, dezenas de corpos dos mortos de morte morrida apresentavam fraturas, perfurações de faca e de bala – era morte matada.

Nos levou para lá após alguns meses, quando o cheiro já se havia dissipado no ar, e sua fama estava consolidada.

2.
Das aulas que dava na Escola da Magistratura, décadas depois, sua preferida era aquela em que ensinava que o primeiro ato de um juiz, ao assumir sua comarca, devia ser pegar o processo mais antigo, ou o mais complicado, ou o que envolvesse as pessoas mais importantes, e julgá-lo.

A partir daí, poderia fazer o que quisesse – já teria deixado claro que a Justiça funcionava.

3.
Ia sempre de carro para o Fórum, em Juiz de Fora, mas naquele dia, por algum motivo, resolveu ir de ônibus pela primeira vez, e descemos juntos pelo Bom Pastor.

Tomamos o primeiro ônibus rumo ao Centro e ele chamou pelo nome e cumprimentou efusivamente o motorista, que respondeu da mesma forma. Não sabia que tinha amigos motoristas de ônibus, comentei.

É preso meu, respondeu. Matou a mulher com três tiros. Condenei à pena máxima, e lhe arrumei esse emprego. Se não, quem vai cuidar dos dois órfãos?

4.
Para a porta da sua sala, no Fórum, mandaram fazer uma placa: “Deixai fora toda esperança, vós que entrais”.

Ele tinha imenso orgulho disso.

5.
Nos anos da ditadura, era alinhado à luta contra a “subversão”. Tinha ligações com o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, encarregado da repressão), e marcava com um X, num cartaz afixado em sua sala, os procurados que caíam, mortos ou presos.

Numa reunião de opositores do regime, foi jurado de morte.

Chamado para depor sobre o grupo, defendeu os participantes. Não eram, segundo ele, terroristas – apenas faziam oposição. Sabia que se, se os entregasse, seriam presos e torturados (eram os anos Médici).

Nunca contou – a nenhum dos que tramavam sua morte – que possivelmente lhes havia salvo a vida.

6.
Voltava de Belo Horizonte para Andrelândia, e resolveu tomar um atalho, uma estrada que quase ninguém usava, passando por Santana do Garambéu.

No meio do nada, topou com um sujeito com o carro quebrado, pedindo ajuda.

“Estou aqui há horas, e não passa um filho da puta. O senhor é o primeiro que aparece!”.

Meu pai, que por muito menos puxava o revólver da cintura, não só ajudou o sujeito, como contou essa história infinitas vezes, sempre às gargalhadas.

7.
Foi rendido, num posto de gasolina, e sequestrado. Possivelmente queriam só o carro, e ele foi levado junto talvez para ser abandonado mais tarde, na estrada.

No banco do carona, um dos bandidos lhe apontava o revólver, enquanto no banco de trás o outro chupava as mixiricas que levava do sítio. O cheiro de mixirica pelo carro lhe parecia um abuso muito maior que o assalto.

“Vocês já estiveram num carro dirigido por um cadáver?”, perguntou. “Porque eu já sou um homem morto. E vocês vão morrer junto comigo”.

Acelerou e meteu a mão na buzina quando passou por um posto policial. Os assaltantes saltaram quando o carro foi fechado pelo da polícia, e conseguiram escapar.

Chamaram-no de louco – tanto os assaltantes quanto a polícia. Ele disse que já se considerava morto. E um homem morto não tem mais medo de nada.

8.
Estávamos em casa, em Viçosa, quando chegou a notícia de que meu pai havia sido assassinado. Eu teria uns 8 anos de idade, e me lembro das pessoas confortando minha mãe, gente entrando e saindo, alheia à minha incredulidade – até meu pai aparecer, vivo.

Um amigo dele, também advogado, é que tinha sido morto por um cliente.

Passados alguns dias, superado o susto, meu pai assumiu a defesa do assassino.

Foi quando decidi que não seria, jamais, advogado.

~
As histórias podem não ter sido exatamente assim. Podem ter sido dois os tiros e três os órfãos, ou os corpos exumados não serem dezenas, mas só uma dúzia, e eu ter 7, em vez de 8 anos, quando meu pai morreu pela primeira vez. Não importa.

Nos seus últimos dias, pedi a ele que me contasse de novo essas e tantas outras, que eu queria registrar, mas ele estava ocupado demais em não morrer. Falar do passado seria narrar, como Brás Cubas, suas memórias póstumas.

As histórias permanecerão assim, parciais, incompletas, memórias meio inventadas. Nem por isso menos verdadeiras.

Amigos

 

Viver é perder amigos.
Para a morte, para a própria vida.

Perdemos amigos porque mudamos, porque permanecemos os mesmos.
Perdemos porque nos esquecem, porque não nos lembramos mais, porque lembramos coisas demais, por não conseguir esquecer.

Perdê-los é uma arte que temos que dominar, se quisermos dominar a arte de mantê-los conosco vida afora.

É preciso saber perder.

Amigo não é coisa pra se guardar embaixo de tetra-chave.
Ou dentro do coração. Amigo guarda-se fora.
Não o pássaro na gaiola: amizade é o voo (guarda-se na memória).

Lugar e tempo, se um dia uniram, também separam.
Perde-se o amigo para a geografia, para a história.

Perde-se o amigo como se perde o trem, a hora.
E outros trens virão, com o mesmo destino.
Perder – amigos, trens, um império – não, não é nada sério.

Se ganhamos amigos ao descobrir novas afinidades
Também havemos de perdê-los, se não formos mais afins.

Amizade pressupõe admiração, respeito, um certo tesão de estar junto, de ouvir, discordar, discorrer, tornar-se outro.
E como admirar o tacanho, o obtuso, o impermeável à lógica, o inacessível à ironia?
O que se desapegou de raciocinar, o arauto da autolobotomia?

É possível ter amigos de outra fé, amigos-irmãos, camaradas.
Amigos que tomaram outros rumos, escolheram outra estrada.
É rico tê-los, saber por eles de outras paisagens.
E há, também, a grande riqueza de perdê-los, quando tudo que têm é só delírio, miragem.

Viver é perder amigos.
E ganhar outros, constantemente.

~
(Escrito a propósito dos que dizem que não devemos deixar que a política nos faça perder amigos, e contando com o auxílio luxuoso de Fernando Pessoa, Roberto & Erasmo, Milton & Fernando Brant, Elizabeth Bishop, Antônio Cícero, e quem quer que eu haja citado, inconscientemente).