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Sambando na cara dos coxinhas

O samba-exaltação, aquele em que o azul é mais azul e o coqueiro dá coco nessa maravilha de cenário, surgiu, não por acaso, no Estado Novo.

A ditadura Vargas decidiu cooptar o samba e transformá-lo em veículo de propaganda do regime. A malandragem abriu alas para dar passagem à ideologia, ao ufanismo.

A plebe precisava estudar História – e dá-lhe enredos didáticos sobre os heróis da pátria, os vultos históricos, o nosso passado glorioso.

Instituíram-se regras carnavalescas, como a que proibia instrumentos de sopro (apropriação cultural europeia), e se normatizava o desfile das escolas (com comissão julgadora e notas) sob o olhar vigilante do Departamento de Imprensa e Propaganda (o DIP, uma espécie de Catraca Livre getulista).

Foi quando o samba embranqueceu, saindo do fundo do quintal das tias baianas para cantar a história dos vencedores, formatada pelos intelectuais do regime. A liberdade, a sátira, a irreverência deram lugar à disciplina, à lacração.

O samba se domesticava, subvencionado, instrumentalizado.

“O bonde de São Januário / leva mais um otário” (Wilson Batista) virou “o bonde de São Januário / leva mais um operário”.

Carnaval após carnaval cantando os mesmos mitos, chegou-se ao samba-enredo de uma nota só: o samba do crioulo doido de Stanislaw Ponte-Preta, em que Xica da Silva obriga a princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, que depois é eleito Pedro II e proclama a escravidão.

Stanislaw não viveu para ver o samba do afrodescendente desprovido de raciocínio lógico de 2018, em que militantes do partido responsável pela crise que levou milhões ao desemprego protestam contra as condições de trabalho e a reforma trabalhista. Em que defensores dos governos que drenaram o sangue do país criticam um vampiro colocado lá por eles mesmos. Em que instigadores de ódio reclamam da violência. E racistas reversos bradam contra o racismo.

Já houve outros enredos patrocinados. Escolas de samba já cantaram Hugo Chávez, cavalo manga-larga marchador, Maricá e Danone. Por que não louvar o PT, o petrolão, o mensalão, disfarçado de crítica social? E não haverá melhor lugar para fazer isso que num desfile cronometrado, cheio de regras, controlado por contraventores, bancado por verbas públicas e inventado por um regime calcado no fascismo.

(Um certo “Comando Olga Benário” espalhou pela cidade cartazes contra o assédio, numa campanha focada no “Não é Não”.  Olga foi uma militante comunista, deportada para a morte num campo de concentração por Getúlio Vargas, o ditador anticomunista que é um dos heróis da militância dos comandos-olga-benários que pululam por aí.  Stanislaw Ponte-Preta não deixaria algo assim de fora do seu Febeapá do século 21.)

Que em 2019 haja menos mijões, arrastões, saques, assaltos, trens imundos e lotados, e mais escolas (de samba) sem partido – ou só com partido-alto. Para não correr o risco de a PT (Paraíso da Tuiuti) ser campeã com um enredo-exaltação ao Minha Casa Minha Vida no paraíso encantado dos planos quinquenais de Stálin, com Crazy Hoffman de madrinha da bateria, Joesley e Marcelo Odebrecht de porta-bandeira e mestre-sala, e Lula (de tornozeleira eletrônica, devidamente autorizado por Gilmar Mendes) sambando na cara dos coxinhas no último carro.   

Advogado do diabo

 

Lula morreu, chegou no inferno, encontrou o diabo e…
Não, essa piadinha já rolou sei lá quantas vezes.
Vamos começar de novo.

Lula morreu, chegou no céu, deu de cara com Deus e…
Não, essa também já tá batida.
Vamos tentar algo diferente.

Deus morreu. Quando abriu os olhos, ainda atônito, se viu diante de um juiz vestido de preto e um sindicalista de camiseta vermelha.

– Que diabos está acontecendo? perguntou, esquecendo que era onisciente.

– Exmo. Sr. Ex-Eterno e Onipotente – respondeu o juiz vestido de preto -, o Senhor morreu e está diante da Justiça Humana. Pesam contra o Senhor algumas denúncias que precisam ser investigadas antes que possa ser aceito no Paraíso Terrestre.

– Que denúncias? bradaram em uníssono Deus e o sindicalista.

(A bem da verdade, o que o sindicalista disse foi “ques denúncia?”, mas ha hora ninguém percebeu).

– Bem – esclareceu o juiz -, a lista vai da Sua omissão no holocausto judeu, no genocídio armênio, na limpeza étnica nos Bálcãs, nos morticínios na Rússia, na China, no Camboja, passando pelas epidemias na África, inundações na Ásia, ditaduras na América Latina, cataclismos variados, o 7 x 1 na Copa, o 4 x 3 no TSE e a escalação da Susana Vieira para o papel de filha da Nathalia Timberg numa novela.

– Tu tá de facanagem! (quem disse isso não foi Deus). Deus é o cara! Tirando o Brasil, que fui eu que fiz, e outras coisa, tipo o Bolfa Família e aquele porto em Cuba, foi Ele que criou o resto do Univerfo!

– Mas Ele vai para Curitiba até o Supremo decidir se Ele tem direito a foro privilegiado ou não.

Deus coçou o trianglinho que boiava sobre o cocuruto, o que era sinal que começava a perder a santa paciência.

– Não bastava Eu ser eterno e morrer, agora mais essa! Quem nesse tribunal supremo acredita ter poderes para Me julgar?

– O Gilmar. Reze para não cair na turma dele – respondeu o juiz de preto, sem nenhuma ponta de ironia.

– Nada difo! Vofê não vai pra Curitiba p*rr@ nenhuma. Tenho um lugar ótimo, com uma vifta divina, um andar pra vofê, um pro feu filho e um praquela pombinha que vofês cria. Não tá no meu nome, mas eu tô com a chave, pode ficá o tempo que quisé. E se não gostá de praia, tenho um fítio que também não é meu, mas é fó chegá e andá de pedalinho à vontade.

– Nada feito, interveio o juiz. Deus precisa prestar contas da Inquisição, dos crimes de pedofilia…

– Tem efcritura da inquisifão no nome dEle? Fi não tem, não é dEle.

– E tem o Vesúvio, as tsunamis, o Paulo Gustavo vestido de mulher fazendo propaganda do Banco do Brasil, o terremoto no Haiti…

– Não foi Ele, Ele não fabia de nada (e, virando-se para Deus) Bota a culpa na pombinha…

– Milhões morreram de fome e de doenças…

– Ele criou as asa das borboleta!

– … sem contar os animais sacrificados em rituais, que os veganos não perdoam.

– Ele desenhou a Fophie Charlotte! Fó o corpo, que o férebro deve ter fido o Diab…

Nem bem o sindicalista ia dizer o nome, fez-se um clarão, sobreveio um cheiro de enxofre e o diabo – que tinha acabado de morrer – apareceu, atordoado.

– Meudeusducéu, o que está acontecendo? exclamou o capeta, sem se dar conta de que estava diante do próprio.

– Bem, lá vamos nós começar outro julgamento – disse o juiz de preto ao sindicalista de vermelho. O Sr. Capeta é acusado de arrastar móveis de madrugada, vomitar na cara de padres exorcistas, enriquecer pastores pentecostais…

– Ele é um pobre diabo! Ele nunca quis fê rico! E já vô avisando: delafão premiada num vale!

Primeira e única

 

Se há alguém cuja morte não foi em vão, esse alguém é dona Marisa.

Viva, sacrificou-se pelo marido e pelos filhos.
Morta, emprestou o cadáver para enfeitar um palanque e se transubstanciou em visionária política e investidora imobiliária.

Se do pequi se aproveita tudo, e do boi nada se perde, dona Marisa foi boi e foi pequi.
Dela nada de desperdiçou, dos chifres aos espinhos.

Boi, ralou nos tempos das vacas magras das greves do ABC, e pequi, viveu o suficiente para colher os frutos do seu trabalho.

Tirou cravos das costas do marido e lhe cortou as unhas dos pés. Aguentou seus porres, seus destemperos, suas escapadas, seu machismo.
Depois, ao seu lado dormiu no Palácio de Buckingham, bebeu champanhe, voou de jatinho e mandou erguer um galinheiro no Palácio da Alvorada.

Seu único pronunciamento digno de nota, enquanto viva, foi aquele em que sugeriu que os brasileiros descontentes com a corrupção introduzissem panelas em si mesmos por via anal.
Morta, passou a dar ordens às duas maiores empreiteiras do país, a planejar a perpetuação do legado do marido, a fazer investimentos imobiliários sem sequer consultar o cônjuge.

Em vida, dona Marisa não teve para o país qualquer utilidade.
Morta, descobriu-se que dona Marisa é que era primeira-dama de verdade.

Marisa Letícia é a nossa Inês de Castro, aquela que depois de morta foi rainha.

Depoimento

 

– Marisa, isso são horas? Onde você estava?

– No Guarujá.

– Com quem?

– Com o Léo.

– Fazendo o quê?

– Traindo você, como sempre.

– Mentira! Você estava é comprando triplex escondido, que eu sei.

– Luís, você me respeite. Veja se eu sou mulher que compra triplex escondido do marido!

– Você não me engana mais com essa história de adultério.

– Eu juro pela Rose que eu estava era traindo você!

– Você disse a mesma coisa quando mandou comprar aquele terreno pro meu instituto, e eu, idiota, acreditei.

– Ok, você quer a verdade, Luís?

– Toda a verdade, doa a quem doer. Você sabe que eu odeio mentira.

– Tudo bem. Você pediu. Eu nunca te traí.

– Eu sabia! Sua mentirosa, dizia que estava me traindo e na verdade estava fazendo transações imobiliárias…

– Não só transações imobiliárias. Eu também atuava na área petroquímica.

– Marisa!

– Mandei construir a refinaria de Abreu e Lima, junto com o Hugo Chávez.

– Mas você me dizia que o Hugo Chávez era só uma transa eventual…

– Mentira. Éramos parceiros comerciais.

– Não me diga que o Bittar também não era seu amante!

– Não era. Negociei com ele a compra do sítio em Atibai…

– Pára! Não quero ouvir mais nada! Quer dizer que todas as traições esses anos todos eram só uma desculpa para encobrir suas atividades junto a grandes empresários, testas de ferro e líderes bolivarianos?

– Sim, Luís. Eu e Fidel nunca tivemos nada. Foi tudo pelo porto de Mariel.

– Não! O que eu fiz a Deus para merecer isso? Minha própria esposa, uma… uma… lobista e empreendedora internacional!

– E não só. Eu também sou capitalista.

– Não repita isso, Marisa!

– Ca pi ta lis ta. Sabe aquelas palestras gratuitas que você dava para melhorar as condições do proletariado na África? Eu cobrava milhões por elas.

– Não!

– Sim.

– Marisa, como você pôde fazer isso comigo? E todos os que votaram em mim, o que vão pensar agora?

– Tem isso também. Eu trapaceei. Comprei horário na TV, comprei voto e enchi de grana de caixa 2 o rabo dos marqueteiros. Aquela eleição que você acha que ganhou… ela foi comprada por mim.

– Marisa, eu quero o divórcio.

– E tem também a Dilma.

– Não me diga que você não tinha um caso com a Dilma!

– Não, não tinha. Fui eu que a indiquei para a presidência, e, antes que você pergunte, sim, eu tenho influência no PT.”

~~~

– E foi assim, doutor Sérgio. Exatamente assim que eu descobri tudo. O senhor me dá agora um abatimento na pena? Posso ficar em prisão domiciliar no meu sítio em… quer dizer, no sítio de uns amigos? E posso usar a tornozeleira no pulso? É que eu sinto uma falta do rolex…

Flagra

 

– Luís Inácio!

– Calma, Férgio, não é nada difo que vofê tá penfando.

– Como assim, Luís Inácio? Você na nossa cama com esse… esse… esse tríplex!

– Que triplexf? Efe triplexf não é meu. Eu nem conhefo ele.

– Se não conhece, o que é que ele está fazendo aí, quase pelado, só com uma cozinha Kitchens de R$ 380 mil, ao seu lado na nossa cama?

– Eu pofo efplicar, Férgio. Efe triplexf é da OAF, uma amiga minha.

– E…

– E eu tô tomando conta pra elef. Vofê fabe como eu fou fenfível. Não configo vê um tríplexf menof favorefido pela forte, de frente pro Guarujá, com elevador privativo, fauna e pifina, que eu me finto na obrigafão de oferefê ajuda desinterefada.

– Como eu tenho sido tolerante todos esses anos, Luís Inácio! Deixei passar tanta coisa. Fiz que não vi. Mas, para mim, agora chega. Acabou!

– Não fafa ifo, Férgio! Efe tripléxf não fignifica nada pra mim. É fó fexo, fó pra relaxá no final de femana, não rola fentimento.

– Você disse a mesma coisa quando te flagrei no Tinder com aquele sítio em Atibaia.

– Aquele fítio é coisa do pafado. Eu fó fui lá pra pafeá de pedalinho. Me perdoa, Férgio!

– Teve o caso do Delcídio…

– Não faf fentido efe feu fiúme do Delfídio. Eu já efcluí ele do meu Fafebook.

– Aí você tentou calar a boca do Nestor para ele não me contar teus podres.

– Por que vofê infifte nefe lanfe do filênfio do Ferveró? Efquefe ifo, Férgio!

– E veio o episódio do terreno do Instituto Lula…

– A fede do inftituto foi invenfão da Marisa, um romanfe pafageiro, fem compromifo.

– … e as palestras…

– Esse negófio de paleftra é converfa fiada. Vofê prefisa pará de dá ouvidof pra tudo que efa fofoqueira defa Forfa Tarefa fala.

– …e o caixa 2…

– Minha Nofa Finhora, em pleno féculo 20 vofê qué me pegá pra Crifto por causa de um… um… um benefifiozinho que eu tive, que todo mundo tem, até o FHFê teve.

– Século 21, Luís Inácio. Estamos no século 21. E para mim, chega! Deu!

– O que vai fê de mim, Férgio, fem o foro privilegiado, fem o triplexf, fem o fítio, fem o impofto findical que me fuftentou efef anof todof…

– Problema seu. Vá morar com seus amigos.

– O Fantana me facaneou, nem fala maif comigo. A Dilma Ruffeff, eu não entendo o que ela fala. Fobrou fó o Paloffi, maf ele anda com unf papo muito fufpeito ultimamente.

– Fora daqui, você e esse tríplex que nem com uma reforma de R$ 770 mil ficou apresentável!

(Luís Inácio sai, despenteado, de mãos dadas com o tríplex que não é dele. Na portaria, disca um número no celular.)

– Marfelo, aqui é o Luif Ináfio. Eu queria fabê fi…
– Pi pi pi…
– Marfelo… alô… Marfelo
– Pi pi pi…
– Defligou, o defgrafado. Nem a Odebreft qué maif nada comigo. Culpa fua, triplexf! Culpa fua!

O tríplex não diz nada. Olha o céu azul, sente o vento gelado de Curitiba em maio se infiltrar pelas suas esquadrias, enfia as mãozinhas nos bolsos e suspira.

– Difculpa, triplexf, eu não devia falá afim com vofê. Maf defde o inífio vofê fabia que eu não podia afumí nofa relafão. Vamo dá um tempo, efperá a fituafão melhorá, e aí vamo fê felif para fempre, fó nóf doif. Até lá, fi a gente fi cruzá por aí, vofê disfarfa. Maf faiba que vofê é o imóvel da minha vida.

O tríplex enrola um cachecol nas varandas (maio em Curitiba é glacial) e se afasta cabisbaixo, meditando nas ironias do destino, nas voltas que o mundo dá.

Luís Inácio vê que tem mensagem no zap, coça a barba e responde:

“Fítio, não feje ingrato. Nofa feparafão não é pra fempre. Tive que faí pra comprá figarro, maf fica fufegado que eu volto. Fi aparefê aí um tal de Férgio perguntando por mim, tu fica na tua. Tu é o imóvel dof meu fonho. Meu fítio, minha vida. Beijo no corafão!”.

Em casa, Sérgio decide que chegou a hora de levar Luís Inácio ao tribunal. Quer ver se ele vai ter coragem de negar tudo quando for confrontado com o batom na cueca, o tubo de vaselina pela metade e as manchas no lençol.

Cherchez la femme

 

Hoje ficamos sabendo que o Instituto Lula (fechado pela Justiça Federal por haver “indícios veementes de que crimes podem ter sido iniciados ou instigados na entidade) foi ideia da finada Marisa Letícia.

D. Marisa nunca me enganou.

Aquele jeitão de patroa, dona de casa, mãe de família, uma D. Nenê com mais botox, voltada para o marido e os filhos e preocupada, no máximo, com a macarronada de domingo, era cortina de fumaça.

O louro natural era camuflagem para uma estrategista empenhada em compartilhar experiências de políticas públicas de combate à fome e à pobreza com os países da África, promover a integração da América Latina e ajudar a fazer o resgate da história da luta pela democracia no Brasil.

Nisso, fez jus à tradição das mulheres da família Lula da Silva.

Foi de Dona Lindu, mãe do ex presidente, a ideia de comprar Pasadena e criar a refinaria de Abreu e Lima, aquela que deu um lucro negativo de vários bilhões à Petrobras.

No pau de arara em que vinha do sertão de Pernambuco com o filho no colo, Dona Lindu contemplou o semiárido e pontificou: “Êta lugarzim bão para um polo petroquímico em parceria com algum governo identificado com o socialismo do século 21!”

Dona Lindu podia ser analfabeta e desdentada, mas tinha tino. E o filho jamais esqueceu suas palavras.

Ele tampouco deixou cair no esquecimento o que lhe disse, ainda na lua de mel, sua primeira mulher, Maria de Lourdes. Quando Lula lhe perguntou “foi bom?”, ela respondeu que ele devia fazer uma parceria institucional com a Odebrecht, a OAS, a Camargo Correa e a UTC, usar do seu prestígio para alavancar negócios em Angola, investir em sondas de perfuração de pré-sal e dar palestras.

Infelizmente, nenhuma está viva para confirmar.

Pena mesmo.

Democrascismo

 

“A democracia, hoje, significa diretas-já e Lula presidente.”
(Rui Falcão, presidente do PT)

Deixa eu ver se entendi.
“Democracia” significa passar por cima da Constituição e impor o seu candidato (que nem pode ser chamado de candidato, já que se ele não for eleito não vale).

Num dicionário em que isso seja “democracia”, faz todo sentido dizerem que Lula é “honesto”, que houve um “golpe” e que todos os que discordam deles são “fascistas”.

É um dicionário de antônimos, e eles ainda não se deram conta.

~

“Enquanto estivermos assistindo o duelo entre justiça social e combate à corrupção em Curitiba esta semana, continuaremos sendo governados pela turma que não está preocupada nem com uma coisa, nem com a outra”.
(Celso Rocha de Barros, na “Folha de São Paulo”, 8/5/17)

O autor é apresentado como doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford, mas alguém deveria desenhar para ele que:

1. Não há duelo. Há um juiz interrogando um réu, conforme manda a lei.

2. O combate à corrupção não se opõe à justiça social, mas à corrupção.

3. Não há qualquer denúncia, inquérito ou investigação contra Lula por praticar “justiça social”, mas por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, obstrução de justiça, tráfico de influência e organização criminosa.

3. Roubar bilhões, que poderiam ter sido usados em saneamento, infraestrutura, educação, saúde, tecnologia, é injustiça social.

4. “A turma” que hoje governa é praticamente a mesma que governava antes, expurgados os petistas. Essa, sim, nunca esteve minimamente preocupada nem com uma justiça social nem com combate à corrupção.

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Se uma testemunha viu alguém matar alguém, e seu depoimento é consistente, e não há contradição com o que disseram outras testemunhas que também viram a cena, não é preciso um vídeo pra provar quem é o assassino. Simples assim.

E se o que dizem as testemunhas não conta, por que é que Lula arrolou 87?

~

Não contente em publicar a asquerosa charge do Chico Caruso ontem, o Globo a republicou hoje, revista e ampliada (agora inclui o Lula, com cara de coitadinho).

Se ontem relutei em cancelar a assinatura, hoje não teve coré coré.

Case closed.

Justiça espetacular

 

Até que a defesa do Lula é bastante modesta e parcimoniosa.

Depois de arrolar 87 testemunhas (a lei fala em 8), pretende agora apenas que o depoimento da semana que vem se transforme em comício, seguindo uma tradição iniciada no velório de d. Marisa.

Quer que a câmera não fique focada só no ex presidente, como se ele fosse um investigado, um suspeito ou (toc toc toc) um réu. Alega que assim fica parecendo um interrogatório, e todos sabemos que se trata apenas de uma entrevista, um bate papo.

Quer que a câmera oscile entre Lula e os que perguntam, para que “sejam avaliadas a postura do juiz, do órgão acusador, dos advogados e de outros agentes envolvidos no ato, inclusive para fim de valoração da legitimidade do atos pelas superiores instâncias”.

E quer também levar suas próprias câmeras e marqueteiros.

Acho digno.
Justo.
E acho pouco.

Tinha que exigir que Lula ficasse na cabeceira da mesa.
Na cadeira mais alta.
Não aquela do Moro, mas uma que ele já usou, no Palácio do Planalto.

Acima dele, um holofote.
Atrás, uma bandeira (do PT, naturalmente).

Moro, mero figurante, ficaria num canto, numa cadeira mais baixa.
Sem encosto.

Poderia haver um ruflar de tambores antes de cada resposta.
Uma trilha sonora, tipo “Carruagens de fogo” ou “Assim falou Zaratustra”.
Atores globais (Letícia, Camila, Wagner, Monica, José, Tatá…) fariam uma performance carregando feixes de trigo, foices e martelos, como numa obra do realismo socialista.
Um ventilador estrategicamente colocado sopraria os cabelos de Lula, como num anúncio de xampu.

Moro apenas leria as perguntas, cuja formulação ficaria a cargo da defesa.

Lula deverá ter o tempo que quiser para responder.
Não poderá ser interrompido.
A não ser pelos aplausos da claque e por transmissões ao vivo das manifestações e quebra-quebra nos arredores.

Se Moro não aceitar, estará cerceando os direitos do acusado.
Se comportando pior que os milicos da ditadura.
Sua parcialidade estará escancarada.

E, claro, quando houver recurso (haverá recurso), este deverá ir direto para a segunda turma do STF.

Tralha

 

Imagino que milhares de petistas estejam com os olhos postos no noticiário e o coração em São Stálin, São Chávez e São Fidel, pedindo que o moço atingido na manifestação em Goiânia não se recupere, e a causa “Volta, Lula” ganhe um mártir. (O Paulo Henrique Amorim já o dá como morto).

Se a graça não for alcançada agora, farão o possível para que o seja dia 10, em Curitiba.

Não deve haver oferta de 72 virgens no paraíso socialista para os que marcharem para o sacrifício após depredar pontos de ônibus, queimar lixeiras e pneus, vandalizar prédios públicos e agências bancárias, incendiar viaturas. Talvez estejam prometidas 13 licitações fraudadas, 13 obras superfaturadas, 13 mochilas cheias de propina, 13 sítios, 13 triplex e uma caixa (2) com os presentes roubados da Presidência.

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Os trabalhadores que saíram às ruas no dia 28, no Rio, houveram por bem manifestar-se pelos seus direitos quebrando pontos do velitê e destruindo o elevador para portadores de deficiência física do metrô da Cinelândia.

Nada como ter argumentos embasados e convincentes.

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Pesquisa do DataFolha (ou seja, com margem de erro de 100% para mais e 100% para menos) aponta que Aécio e Alckmin despencaram, enquanto Lula subiu e tem 30% da intenção de votos.

Se há duas coisas que isso prova é que coxinha não tem bandido de estimação – e que petista é tão impermeável aos fatos quanto aderente a uma narrativa mitômana.

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O DataFolha incluir um juiz de primeira instância, que não é candidato a nada, numa pesquisa eleitoral faz tanto sentido quanto incluir letras num bolão da megassena.

Lula e Moro não são adversários: são juiz e réu.
Se estão em campos opostos, não é na política – é diante da lei.
Um está do lado dela; o outro, contra.

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Moro determinou que Lula devolva 21 dos presentes que ganhou durante o período em que era presidente, e que levou consigo. A lei dispõe que sejam incorporados ao patrimônio público.

Lula alega que são “tralhas”.

E tanto são “tralhas” que ele as guarda num cofre do Banco do Brasil.

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Deixa o sultão Bin Zayed, dos Emirados Árabes, saber que Lula considera “tralha” uma certa escultura de camelo de ouro maciço e cristal.

Espera só o fantasma do Muamar Khadafi ser informado que é chamada de “tralha” uma adaga de ouro amarelo e branco, com pedras preciosas…

A mãe de todas as perdas

 

Certa feita (sempre quis começar um texto com “certa feita”, e finalmente consegui), uma famosa filósofa búlgara disse “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem quem perder, vai ganhar ou vai perder. Vai todo mundo perder.”

Foi injustamente criticada pelos não muito afeitos à dialética, aqueles adictos a platitudes lógicas, incapazes de entender que ela apenas repercutia e lapidava algo já esboçado por Camões (“amar é cuidar que se ganha em se perder”).

Nas eleições de 2018, veremos que a sábia búlgara profetizava certo por raciocínios tortos. Com a ligeira diferença que quem ganhar ou quem perder não vai ganhar e vai perder – exceto um, que vai perder e vai ganhar.

Lula vai ganhar de qualquer jeito.

Se for preso (oremos!) ou impedido de concorrer por já ter sido condenado por qualquer dos seus inúmeros crimes, ganhará o status de vítima, de perseguido político, aquele que teria sido eleito com 120% dos votos válidos, mas não deixaram.

Poderá apoiar alguém (seu fiel capanga Ciro Gomes, por exemplo) ou lançar um poste (quem elegeu Dilma elege qualquer coisa, até um Haddad). Ciro ou poste ganhando, Lula chefiará o bando mesmo estando trancafiado na Papuda, como tantos chefes de facção. Se seu candidato perder, terá sido vítima de um processo infame movido pelas forças reacionárias etc etc etc.

Se não for preso nem condenado e puder se candidatar, Lula já terá ganhado por se provar acima da lei. Será o próprio “comigo ninguém pode”.

Perdendo a eleição, não aceitará o resultado. Acusará os outros candidatos (sejam quais forem, inclusive o já não tão fiel capanga Ciro Gomes) de haver recorrido aos expedientes dos quais ele próprio foi useiro e vezeiro. E se proclamará campeão moral do pleito.

Mas se ganhar (pé de pato mangalô treis vêis!), aí, sim, ouviremos que venceu não só uma disputa eleitoral, mas a mãe de todas as eleições. Que teve contra si um golpista, um juiz com sede de vingança, uma mídia vendida, hordas de coxinhas batedores de panela, a zelite, os lacaios do imperialismo – e, ainda assim, triunfou, porque é o ungido.

Lula ganhando – e ganhará, ganhe ou perca -, perdemos todos.

Perdemos porque ele terá conseguido transformar um país numa rinha de galos, reduzindo o debate político ao “quem não está comigo está contra mim”, fazendo de parte da intelectualidade uma vanguarda do atraso, banalizando o mal da corrupção. E terá feito germinar a semente de uma maldição análoga ao peronismo, que assombrará o país ainda por muitas gerações, contaminando a política, as instituições, o pensamento.

Com Lula no jogo, quem ganhar e quem perder, inclusive quem ganhar e quem perder, vai ganhar e vai perder. Porque Lula vai ganhar, ganhando ou perdendo. E todo mundo vai perder.

E o pior nem é isso: derrota mesmo vai ser a gente ter que enfiar a viola no saco e admitir que Dilma, pelo menos uma vez na vida, e ainda que involuntariamente, disse algo que fazia sentido.