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Depoimento

 

– Marisa, isso são horas? Onde você estava?

– No Guarujá.

– Com quem?

– Com o Léo.

– Fazendo o quê?

– Traindo você, como sempre.

– Mentira! Você estava é comprando triplex escondido, que eu sei.

– Luís, você me respeite. Veja se eu sou mulher que compra triplex escondido do marido!

– Você não me engana mais com essa história de adultério.

– Eu juro pela Rose que eu estava era traindo você!

– Você disse a mesma coisa quando mandou comprar aquele terreno pro meu instituto, e eu, idiota, acreditei.

– Ok, você quer a verdade, Luís?

– Toda a verdade, doa a quem doer. Você sabe que eu odeio mentira.

– Tudo bem. Você pediu. Eu nunca te traí.

– Eu sabia! Sua mentirosa, dizia que estava me traindo e na verdade estava fazendo transações imobiliárias…

– Não só transações imobiliárias. Eu também atuava na área petroquímica.

– Marisa!

– Mandei construir a refinaria de Abreu e Lima, junto com o Hugo Chávez.

– Mas você me dizia que o Hugo Chávez era só uma transa eventual…

– Mentira. Éramos parceiros comerciais.

– Não me diga que o Bittar também não era seu amante!

– Não era. Negociei com ele a compra do sítio em Atibai…

– Pára! Não quero ouvir mais nada! Quer dizer que todas as traições esses anos todos eram só uma desculpa para encobrir suas atividades junto a grandes empresários, testas de ferro e líderes bolivarianos?

– Sim, Luís. Eu e Fidel nunca tivemos nada. Foi tudo pelo porto de Mariel.

– Não! O que eu fiz a Deus para merecer isso? Minha própria esposa, uma… uma… lobista e empreendedora internacional!

– E não só. Eu também sou capitalista.

– Não repita isso, Marisa!

– Ca pi ta lis ta. Sabe aquelas palestras gratuitas que você dava para melhorar as condições do proletariado na África? Eu cobrava milhões por elas.

– Não!

– Sim.

– Marisa, como você pôde fazer isso comigo? E todos os que votaram em mim, o que vão pensar agora?

– Tem isso também. Eu trapaceei. Comprei horário na TV, comprei voto e enchi de grana de caixa 2 o rabo dos marqueteiros. Aquela eleição que você acha que ganhou… ela foi comprada por mim.

– Marisa, eu quero o divórcio.

– E tem também a Dilma.

– Não me diga que você não tinha um caso com a Dilma!

– Não, não tinha. Fui eu que a indiquei para a presidência, e, antes que você pergunte, sim, eu tenho influência no PT.”

~~~

– E foi assim, doutor Sérgio. Exatamente assim que eu descobri tudo. O senhor me dá agora um abatimento na pena? Posso ficar em prisão domiciliar no meu sítio em… quer dizer, no sítio de uns amigos? E posso usar a tornozeleira no pulso? É que eu sinto uma falta do rolex…

Justiça espetacular

 

Até que a defesa do Lula é bastante modesta e parcimoniosa.

Depois de arrolar 87 testemunhas (a lei fala em 8), pretende agora apenas que o depoimento da semana que vem se transforme em comício, seguindo uma tradição iniciada no velório de d. Marisa.

Quer que a câmera não fique focada só no ex presidente, como se ele fosse um investigado, um suspeito ou (toc toc toc) um réu. Alega que assim fica parecendo um interrogatório, e todos sabemos que se trata apenas de uma entrevista, um bate papo.

Quer que a câmera oscile entre Lula e os que perguntam, para que “sejam avaliadas a postura do juiz, do órgão acusador, dos advogados e de outros agentes envolvidos no ato, inclusive para fim de valoração da legitimidade do atos pelas superiores instâncias”.

E quer também levar suas próprias câmeras e marqueteiros.

Acho digno.
Justo.
E acho pouco.

Tinha que exigir que Lula ficasse na cabeceira da mesa.
Na cadeira mais alta.
Não aquela do Moro, mas uma que ele já usou, no Palácio do Planalto.

Acima dele, um holofote.
Atrás, uma bandeira (do PT, naturalmente).

Moro, mero figurante, ficaria num canto, numa cadeira mais baixa.
Sem encosto.

Poderia haver um ruflar de tambores antes de cada resposta.
Uma trilha sonora, tipo “Carruagens de fogo” ou “Assim falou Zaratustra”.
Atores globais (Letícia, Camila, Wagner, Monica, José, Tatá…) fariam uma performance carregando feixes de trigo, foices e martelos, como numa obra do realismo socialista.
Um ventilador estrategicamente colocado sopraria os cabelos de Lula, como num anúncio de xampu.

Moro apenas leria as perguntas, cuja formulação ficaria a cargo da defesa.

Lula deverá ter o tempo que quiser para responder.
Não poderá ser interrompido.
A não ser pelos aplausos da claque e por transmissões ao vivo das manifestações e quebra-quebra nos arredores.

Se Moro não aceitar, estará cerceando os direitos do acusado.
Se comportando pior que os milicos da ditadura.
Sua parcialidade estará escancarada.

E, claro, quando houver recurso (haverá recurso), este deverá ir direto para a segunda turma do STF.

Nenhuma verdade, novecentas mentiras

 

O que é a mentira? perguntaria um personagem de Shakespeare, possivelmente erguendo uma taça de vinho com veneno.
E não responderia.
Iniciaria um solilóquio, como convém a um personagem shakespeariano – ainda mais se for desses que erguem taças de vinho envenenado, seja para sorver um gole e desabar do trono na cena final, seja para entregá-la ao irmão, logo no primeiro ato.

Mentira é tudo aquilo que contradiz o que penso, o que digo, o que sinto– mesmo quando minto. Ou principalmente quando minto.

A mentira não se opõe à Verdade, mas à minha verdade. E poucas coisas estão mais distantes da Verdade que as verdades de cada um.

É mentira que Lula tenha um sítio na pequena e pacata cidade de Atibaia. Ele passa lá, com a família, os finais de semana – mas há quem passe fins de semana na praia, e nem por isso a praia se torna sua propriedade.

Há quem mande flores e um cartãozinho para agradecer a hospedagem, mas a mulher de Lula preferiu mandar fazer uma obra de um milhão de reais, em agradecimento pelos domingos à beira do lago, com direito a pedalinhos.

É mentira que tenha um apartamento de três pavimentos no Guarujá. Esteve lá, gostou da vista, não gostou do resto, e a empreiteira, por conta própria, mandou reformar tudo, inclusive trocando uma sauna por um depósito porque a primeira dama não queria sauna. Sabe como é, o mercado imobiliário não anda muito aquecido, e estão fazendo tudo pra agradar aos clientes em potencial. Até mesmo obras de R$ 700 mil.

É mentira que tenha pedido uma mesada para o irmão. Se a ex maior empreiteira do país costuma distribuir essas benesses , talvez para purgar os próprios pecados ou para se habilitar junto à Receita Federal como instituição filantrópica, problema dela.

É mentira que tenha solicitado um empurrãozinho na empresa do filho ou um apigreide na do sobrinho. É promissor o filão do futebol americano aqui na terra do Dunga, e natural que se convide para parcerias em grandes obras no exterior, com um aporte de 20 milhões, uma empresa sem qualquer experiência no ramo e aberta há poucos meses.

É tudo mentira.
Que o Rio São Francisco não tenha sido transposto.
Que tenha havido caixa dois nas campanhas.
Que se soubesse dos desvios bilionários em estatais.
Que bilhões tenham sido drenados para ajudar parceiros ideológicos na Venezuela, em Cuba, Equador, El Salvador.

É mentira que alguma nomeação tenha sido tentada para dar a alguém um foro que o livraria do Moro.
É mentira tudo que arranhe a narrativa mítica do nordestino pobre de mãe analfabeta que etc etc etc

Uma mentira não se mantém de pé se não tiver a seus pés um séquito de outras mentiras, cada uma das quais necessitará (a isso se chama “márquetim de rede”) também a sua própria teia de mentiras.

Só na brincadeira virtual é que há muitas verdades e uma única mentira.

Distribuição de riqueza

 

Já viu confissão de psicopata?
Se viu, deve ter ficado chocado com a tranquilidade com que o psicopata narra como abusou, mutilou, torturou, matou.

É tudo dito num tom monocórdio, sem emoção alguma, como quem canta tabuada (menos a tabuada do 7, porque essa sempre traz alguma hesitação).

Não há como não lembrar do psicopata ao ver / ouvir as delações da Odebrecht.

1 milhão para o Paulinho da Força.
50 milhões para o Aécio.
4,6 milhões para o Serra.
2 milhões para o Alckmin.

Não há sinal de arrependimento.
Não há crise de consciência.

120 milhões para Cabral e Pezão.
2 milhões para Lindbergh.
5,4 milhões para Picciani.
16 milhões para Eduardo Paes.

Não importa se o dinheiro está sendo desviado da Educação.
Da Saúde.
Da Infraestrutura.
Dos impostos.

40 milhões para o PMDB
100 milhões para Dilma.
1,5 milhão para Eliseu Padilha.
40 milhões para Lula.

Mais o estádio para o time do presidente.
Mais a mesada do irmão do presidente.
Mais a reforma do sítio para a mulher do presidente.
Mais o investimento nos negócios do sobrinho do presidente.
Mais a alavancagem do empreendimento do filho do presidente.
Mais o aporte financeiro na revista que apoia do presidente.
Mais a ajuda pecuniária para o presidente do instituto do presidente.

Mais as palestras do presidente que já não era mais presidente, e que se vendia por uns trocados quando ainda nem sonhava ser presidente e o que tinha para roubar era o direito de greve dos cumpanhêro.

50 milhões a Chinaglia, Mabel, Cunha e Jucá só por uma usina.
4 milhões a Jucá a 500 mil a Delcídio por uma resolução.
36 milhões para Aloysio Nunes e José Serra por obras viárias.

Tudo isso dito sem piscar.
Sem enrubescer.
Como quem conta um caso no bar.
Como quem canta a tabuada do 2.

Como o psicopata que narra, frio e indiferente, todos os detalhes dos seus crimes.
Menos um.
Um que não tem importância, um que nunca foi levado em conta: a dor da vítima.

Operação título

 

Enquanto isso, no QG da PF…

– E aí, pessoal, o que temos pra hoje?

– Chefe, estou trabalhando na “Operação Pé no Chão”. É para quando forem investigar a indústria de calçados.

– Muito bom, Peçanha. E, você, Noronha?

– Eu trouxe várias opções. Tem “Operação Dourando a Pílula”, para algum escândalo na indústria de medicamentos, “Operação Livro Aberto”, para corrupção em livrarias e editoras, e “Operação Alcatraz”, para uma denúncia de ocultação de álcool.

– “Operação Alcatraz” parece bom, mas o trocadilho já está meio gasto, não? Sem contar que os jornais vão ter que explicar, como fizeram nas operações Cui Bono e Aleteia, e quando o nome é ruim e tem que explicar, o impacto da coisa vai por água abaixo.

– Taí, Peixoto! Que tal “Operação Água Abaixo” para… para… hmmm, deixa eu ver, uma investigação de desvio de água durante a crise hídrica? Contaminação de lençol freático? Fraude na água tônica?

– Excelente, Padilha. Temos agora uma equipe afiada, e que sabe que um nome mal dado pode por toda uma operação a perder.

– Chefe, eu andei pensando em “Operação Rei de Copas” para desvio de grana na CBF durante a Copa de 2014, ou para a máfia das redes de vôlei na praia de Copacabana, e “Operação Bacalhau” para quando forem investigar o Eurico Miranda.

– Só se tiver uma “Operação Carniça” para investigar o Flamengo!

– Calma, investigador Pacheco e investigador Miranda! Já falei que aqui não se discute futebol. Religião e política, tudo bem. Mas futebol, não!

– Foi ele quem começou!

– E você, investigador Bicalho?

– Pois é, Chefe, estou com bloqueio criativo. Queria um nome bacana para uma operação voltada para maracutaias na concessão de emissoras de rádio, tretas nas isenções fiscais, mas…

– Bicalho, você é novo aqui, e talvez ainda não tenha percebido que não é assim que as coisas funcionam. Primeiro você arruma um bom nome, e só então inventa uma investigação que se encaixe, entendeu? Ou como é que você acha que temos sempre nomes tão geniais?

– Olhaí, Bicalho, ontem eu crei a “Operação Meia Boca” para a formação de cartel nas fábricas de facetas e próteses dentárias, “Operação Dedo Duro” para o superfaturamento dos exames de próstata, a “Operação Casa de Ferreiro” para o contrabando de Ferrero Rocher e “Operação Gente Fina” que tanto pode ser para a exploração da anorexia nas redes sociais, ou para tráfico de guloseimas em clínicas de emagrecimento, ou para erros médicos nas cirurgias bariátricas de socialaites.

(Abre-se a porta com estardalhaço, e entra o delegado Alvarenga, de paraquedas, equipamento de rapel e touca ninja)

– Peixoto, estourou um escândalo de tráfico de influência, desvio de finalidade, contabilidade criativa, violação de sigilo e troca de bebês nas empresas de telefonia celular. Temos um nome para isso?

– Pô, Alvarenga, vamo ficar devendo. Mas o Gomide tinha tido uma ideia muito boa de “Operação Barbas de Molho” para formação de cartel nas barbearias hipsters e…

– Atenção todos os carros! Abortar missão. Esqueçam Oi Tim Claro Vivo Nextel. Partiu Barrashopping primeiro piso. Suspeito armado navalha na mão, vítima imobilizada numa cadeira, portando coque e olhar blasé, com um copo de cerveja artesanal, espessa, toques de baunilha e retrogosto de gengibre. Sirenes ligadas e não esqueçam os fotógrafos.

Fim do mundo

 

1.
Bob Dylan não poderá ir a Estocolmo receber o Nobel de Literatura porque tem outros compromissos.

A Academia Sueca devia ter continuado premiando só desocupados – ou gente com agenda menos concorrida – como Barack Obama, Nelson Mandela, Kofi Annan, Saramago e aquele monte de cientista que não tem mesmo mais nada pra fazer.

2.
A prefeita de uma cidadezinha americana renunciou depois de ter feito um comentário (tipo “Ganhei o dia”) na postagem de uma correlegionária do Trump, que havia escrito que “Será revigorante ter novamente na Casa Branca uma primeira-dama com classe, bela e digna… Estou cansada de ver uma macaca de salto alto.”

Tomara que a moda de renunciar após falar merda se torne uma tradição nos Estados Unidos.

3.
Cláudia Cruz se recusou a responder às perguntas do Sérgio Moro e dos advogados de acusação.
Só respondeu às perguntas previamente ensaiadas com seu advogado.

Dilma Rousseff se recusou a ser entrevistada no “Roda Viva”.
Só aceitaria se pudesse escolher os entrevistadores.
E, claro, combinar antes as perguntas, e receber o gabarito das respostas.

Nada como não ter nada a esconder.

4.
Golpistas (de verdade) invadiram a Câmara exigindo intervenção militar.

A causa já era indefensável.
Com métodos errados, então…

Com adversários como esses, que gastam munição atirando contra o próprio pé, a Democracia tá salva.

5.
Para levantar a platéia um tanto minguada e desanimada no festival Mimo, a Simone Mazzer não teve dúvida: puxou um “fora, Temer”. Nem assim.

No dia seguinte, no mesmo festival, Ney Matogrosso perdeu a paciência com uns gatos pingados que gritavam “fora, Temer” na plateia e parou o show.

Dias antes, tinha sido a vez do António Zambujo pedir respeito aos que gritavam não só “fora, Temer”, mas “volta, Lula”.

Tudo bem que o choro é livre – mas já deu, né?

6.
Que tal o Temer começar a implantar a PEC do Teto de Gastos no seu ministério, pra dar exemplo?

Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Osmar Terra ganham acima do máximo permitido pela Constituição.

7.
O Ministério da Saúde tinha que tomar alguma providência contra a Polícia Federal.

Ontem prenderam o Garotinho.
Hoje, o Cabral.

Tinham que dar pelo menos 48 horas de intervalo entre uma emoção forte e outra, pra gente tomar fôlego.

Não é todo mundo que tem pressão 12 x 8.

8.
O mundo pode respirar aliviado.

A frenética astróloga Leiloca consultou os astros e Urano lhe garantiu que há poucas chances de que Trump termine o mandato – isso se chegar a tomar posse.

Resta saber se o mandato do Trump acaba antes da hora sozinho ou se o mundo acaba junto.

Jornalismo isento

 

O Globo tem o hábito salutar de, nos seus editoriais, abrir igual espaço para opiniões contrárias.

Tipo uma no cravo, uma na ferradura.

Para oferecer um contraponto, chama, invariavelmente, alguém do PT. Ou de algum dos sub-PTs, de alguém da tropa de choque petista – PSOL, PSTU, PC do B, CUT, sindicatos.

É, no fundo, um golpe baixo, porque os “argumentos” usados pelo “outro lado” iluminam de tal forma as teses d’O Globo que é impossível não concordar com elas.

Hoje, por exemplo, o editorial era sobre o ajuste fiscal, o pacote do governo estadual contra a crise.

O Pezão quer cortar tudo, e na carne – menos os desperdícios, os privilégios, os desvios, a má gestão. Enfim, quer mandar a conta para o contribuinte, como de praxe.

Indefensável? Não se do outro lado estiver Ronaldo Leite, presidente estadual da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil.

O sujeito consegue bater o recorde mundial de asneira por sílaba.

Fiquemos só com o primeiro parágrafo:

“A crise financeira que assola os estados é, em boa medida, reflexo da crise nacional.

Um claro efeito colateral do movimento de golpe parlamentar patrocinado pelas elites que levou Temer a ocupar, de maneira ilegítima, a Presidência da República.

A desvirtuada Operação Lava-Jato, que serviu como alavanca para os golpistas, tem levado à paralisia parte significativa da cadeia produtiva nacional, notadamente a Petrobras, a indústria naval e a área da engenharia, atingindo fortemente a economia e as receitas do Estado do Rio de Janeiro.”

Ou seja:
1. A crise foi provocada pelo golpe do impítimã.
2. Temer é um presidente ilegítimo.
3. A Lava-Jato é golpista.
4. A Lava-Jato paralisa o país e é responsável pelas perdas da Petrobras e de outras indústrias.
5. O golpe e a Lava Jato são as culpadas pela crise do Estado do Rio.

Com esse tipo de argumento contra o ajuste fiscal, até eu, que sou mais bobo, apoio o fechamento dos restaurantes populares, o corte de luz nas delegacias e o não pagamento de salários ao funcionalismo.

Meteoros

 

Talvez você nunca tenha se perguntado por que caem muito mais meteoros na Rússia que em qualquer outro país. Ou por que há muito mais vídeos de acidentes de carro na Rússia do que em qualquer outro lugar do mundo.

Não é que os meteoros gostem de lá (ou, no caso, não gostem dos russos). Ou que os russos dirijam embriagados (sim, eles dirigem) e provoquem mais acidentes.

É que a Rússia é o maior país do mundo e, estatisticamente, há mais chances de meteoros caírem lá. E, como praticamente todos os carros têm câmeras, tudo que acontece é filmado.

Penso nisso quando ouço / leio / vejo petista reclamar que a Lava Jato é seletiva, só persegue petista. Não percebem (ou fingem não perceber) que o PT está para a corrupção assim como a Rússia está para os meteoros.

Pode até um meteoro despencar sobre o Liechtenstein, o Vaticano, Andorra ou o selim da sua bicicleta – mas as chances de cair na Rússia, ou na China, ou no Oceano Pacífico, são infinitamente maiores.

Penso nisso, de novo, quando vejo / leio / ouço os antifreixistas reclamarem que a grande imprensa (batizando os semoventes: Veja e O Globo) faz campanha aberta contra o Crivella, apontando seus podres nesta reta final de campanha.

Não é culpa da imprensa se o que não falta ao bispo são podres. Se ele é preconceituoso, incapaz de compreender e aceitar outras culturas, outras crenças, outras orientações sexuais. Se ele escreveu sobre isso, pregou sobre isso, deixou vídeos registrando isso. Se ele é parte do plano maquiavélico do seu tio para levar o fundamentalismo ao poder e acabar com esse nosso rascunho de estado laico.

Não que Freixo seja melhor. O aprendiz de bolivariano, que apoiou a propinocracia petista e apoia ditaduras mundo afora, odeia a imprensa livre e só pensa em estatizar e aparelhar, é o pior que podia acontecer ao Rio neste momento. É um desfibrilador aplicado no coração valente do petismo moribundo, que pode lhe dar alguma sobrevida. É a pá de cal na falida economia carioca.

Mas o passado do Crivella é uma Rússia com milhões de motoristas bêbados dirigindo no asfalto coberto de gelo – e com câmeras ligadas. É uma Sibéria oferecendo seus milhões de quilômetros quadrados para o meteoro que quiser aterrissar por aqui.

Não são O Globo, com suas manchetes de primeira página, e a Veja, com sua infeliz capa desta semana, que querem destruir Crivella. É a biografia dele pedindo passagem.

Assim como a Lava Jato não é responsável pelos desmandos petistas, a imprensa não tem nada a ver nem com o tenebroso passado do bispo nem com a tragédia anunciada do bolivariano.

Criticá-la por mostrar que o bispo está nu é culpar o mensageiro pelas más notícias.

Conspiração

 

1.
A mãe judia dá dois pares de óculos ao filho.

Ele coloca imediatamente um deles (é um modelo Cunha, de armação grossa) e mostra a ela, todo pimpão, como ficou.

Ela olha com ar abatido, e pergunta, magoadíssima:

– E o Renan? (Renan é o outro modelo, de aro mais fino, mas da mesma marca).

2.
Ontem todo mundo pensou a mesma coisa: e agora, PT?

Como é que fica a “narrativa” de que o Moro é um infiltrado da CIA empenhado em destruir o partido que tirou 500 milhões de brasileiros da miséria, e colocou todos pra andar de avião?

Não, prender o Cunha não quer dizer nada, porque o Cunha é do PMDB, e o PMDB golpista era da base aliada, e então, em última instância, o Moro continua perseguindo o PT, só prendendo petista, pepista e peemedebista. Quero ver é prender alguém do PSDB.

E quem garante que prender o Cunha não foi um golpe (urdido pelo Moro, a PF, a TV Globo, o próprio Cunha e os Iluminati) para abrir caminho para o que realmente interessa, que é impedir que Lula se reeleja com 120% dos votos válidos em 2018?

O Moro achou que o seu golpe ia funcionar, mas não contava com a astúcia dos petistas.

3.
São várias as provas de que a prisão do Cunha foi um golpe.

O Moro mandou prendê-lo no Rio, mas ele foi capturado em Brasília. Quem garante que não era um sósia, um clone, um laranja?

No lugar do japonês da Federal, mandaram um figurante, contratado numa agência de modelos, um hipster de rabinho de cavalo, que posta foto sem camisa nas redes sociais e tem um “26” tatuado no peito.

E o que é 26? 13 + 13, claro. Duas vezes PT.

26 é 62 ao contrário, e em 62 o papa João XXIII excomungou Fidel Castro, Cuba foi expulsa da OEA, houve a crise dos mísseis (com Kennedy bloqueando Cuba) e o Brasil ganhou a Copa (vencendo a Tchecoslováquia, um país comunista, na final).

Em 26 d.C. Pôncio Pilatos substitui Valério Grato como procurador da Judeia (Pôncio Pilatos, pra quem já esqueceu do catecismo, é o juiz que lavou as mãos).

Precisa mais? Só não vê quem não quer.

4.
Não é só o PMDB que está cortando prego com medo que o Cunha dê com a língua nos dentes.

Quem tá numa sinuca de bico é a Dilma.

Se Cunha, para salvar a mulher e a filha, detonar todo o governo golpista e, de lambuja, mais uns 100 parlamentares, a anta poderia ressurgir das cinzas metendo o dedo no nariz de todo mundo e dizendo “eu não falei? eu não falei?”.

Porém ela falou também que não respeita delator.

E se o Cunha delatar o PSDB, ela passa a respeitar?

Nessas horas é que se vê que narrativa petista é que nem pisca alerta de carro de português: funciona, não funciona, funciona, não funciona.

Conflito

 

Não queria ser petista hoje.
Na verdade, nunca quis.
Hoje, menos ainda.
Hoje neurônio de petista (no singular, porque deve ser um só) vai ficar com torcicolo, de tanto contorcionismo.

Petista odeia a Lava Jato, porque a Lava Jato prende petista.
Hoje a Lava Jato prendeu o Cunha.

O solitário neurônio petista deve estar feliz com a prisão do Cunha.
Mas isso implica em estar feliz com a Lava Jato.
E a Lava Jato o deixa triste.

O neurônio petista está hoje numa montanha russa de emoções conflitantes.
Bipolarizou legal.

Não sabe se ri ou se chora – enquanto ri e chora.
Se se sente vingado porque prenderam o responsável pela estaca cravada no coraçãozinho valente ou traído por ter acreditado que a Lava Jato era boba, feia, do mal, e bicho papão dos petistas.

E o pequeno e ingênuo neurônio petista teme o pior.
Cunha e Lula na mesma cela.
Tomando banho de sol no pátio lado a lado.
Dona Marisa e Cláudia Cruz dividindo a mesma mesa na oficina de trabalhos manuais – e usando a mesma roupa!

E o esforçado neurônio petista, imerso na sua perplexidade, buscando desesperadamente um mantra onde se agarrar.
Um slogan qualquer, uma palavra de ordem que o impeça de pensar.

Mas ele precisa passar por isso, pra ir assimilando a realidade aos poucos.

Imagina se prendem o Aécio!
O neurônio petista infarta.