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Vinte e dois

 

Não que eu leia esse tipo de anúncio, mas uma das partes mais interessantes e enigmáticas dos jornais, para mim, é a dos classificados “pessoais”.

Nos jornais de Salvador eles só não têm mais destaque que os de pais, mães, filhos e filhas de santo, com seus amores trazidos de volta, amarrações, abertura de caminhos, ebó do amor e agradecimentos a Pai Pedro de Oxalá, Odália Taróloga e Mãe Jacira de Iansã.

Nos “Pessoais”, encontro “Dominique. Insaciável. Completinha”. Às outras, suponho, pode faltar um braço, uma orelha, um dente. À Dominique, não. Talvez por isso seja insaciável.

Aiara se apresenta como “iniciante”. Anitta é “recém chegada”, assim como Milly. Podem ser vesgas, tronchas, chucras – mas acabaram de desembarcar nos anúncios “pessoais”, e isso há de ter seu valor de mercado.

Esmeralda faz “oral finalizado”. As outras abandonarão o oral no meio do caminho, ao deus dará? Seriam orais parciais, interrompidos na melhor parte, como os antigos seriados? Por uma questão de isonomia, não deveriam as demais anunciar que fazem “oral inconcluso”?

Priscila tem “boca de veludo. Anal delirante”. Não consigo entender muito bem o que uma coisa tem a ver com a outra, ou como se poderia desfrutar de ambas as aptidões simultaneamente. Quer dizer, até sei, mas prefiro não desenvolver o raciocínio.

Morena Flor é “linda, avantajadíssima”. Acacau Mel também é “avantajadíssima!” (com direito a exclamação, inclusive). Seriam obesas, hipertrofiadas? Imagino uma mulher feliniana, saída de um freak show ou de uma família de classe média americana, daquelas que comem bacon no café da manhã, hambúrguer no almoço e pizza (família, borda recheada) no jantar.

Abiany é “Empinadinha”. Deve sofrer de hiperlordose, e não sabe. Aninha é loirinha, 19 aninhos. Tainá tem 18 aninhos e é safadinha. Magrinha ninfetinha atende num privê (talvez um privezinho). Andressa é moreninha, magrinha, 20 aninhos. Não devem cobrar baratinho.

Sheilinha é “Turbinada. Anal total”. Sem as turbinas, o anal seria um anal nas coxas, por assim dizer.

Acácia tem “boca quentíssima”. Alessandra 18 é “fogosa”. Cacau Show (olha o tino comercial da moça) também é “quentíssima”. Gabriela, além de “quente”, faz “tudinho”. Quanto essa gente gastará de ar condicionado, nessa sauna a céu aberto que é Salvador?

Loira (sem nome) tem “boca picante”. Será do acarajé? “Pimenta doce” oferece ninfetas, loiras e morenas, em Itapuã. Ao sol que arde em Itapuã.

Adriana tem belas massagistas trajando “langeries”. Anitta, do Rio Vermelho, também traja “langerie”. Deve ser uma espécie de abadá, talvez de lã. Vá saber.

Ronaldinho 27cm cobra R$ 200,00 e atende na Rodoviária. A Indiazinha (“completinha”) cobra R$ 80,00. Nas Gulosas do Vasco da Gama a tarifa é R$ 50,00. No “Privê Cigana”, é a partir de R$ 40,00. Adriele faz por R$ 30,00. Também no mundo dos anúncios “pessoais” a discriminação de gênero mostra sua face.

“Travesti” (assim mesmo, sem nome) tem “22 anos e motivo”. Certamente o anúncio é pago por palavra, e “Travesti” estava descapitalizada no momento. O que seriam “22 anos e motivo”? Talvez “22 anos, emotivo”? “22 anos e 22 motivos”? “22 anos e um motivo de 22cm?”. Jamais saberemos, porque não vou ligar pra perguntar.

Véi

 

1.
Pense duas vezes antes de falar de política com um baiano.
Há aproximadamente 150% de probabilidade de ele ser petista.

(Nota de esclarecimento: é possível, recomendável e enriquecedor que se converse com esquerdistas e direitistas, com liberais e conservadores, com quem pensa como você e com quem pensa diferente. É impossível conversar com quem não pensa).

2.
Laranja bahia, aqui na Bahia, se chama laranja umbigo.
Ou pelo menos é assim que se chama na quitanda aqui perto.

Faz sentido.
Não existe restaurante japonês no Japão – existe restaurante.
Não existe lojinha de turco na Turquia – existe lojinha.

Se bem que tem queijo Minas em Minas.

Ok, esquece a minha teoria.

3.
Amanhã é meu aniversário, e o presente que me dou é ter atingido a meta que estabeleci ao desembarcar em Salvador: chegar aos 57 com o mesmo peso que tenha aos 20.

Saí do Rio, vinte dias atrás, pesando 84. Hoje bati nos 78.

(Como já vi que não vai dar pra ficar rico como arquiteto, fotógrafo ou cronista de feicebuque, talvez invista no ramo das dietas milagrosas para emagrecimento.

Essa que inventei, a “Dieta de Salvador Hills”, consiste em caminhar muito (uns 12 km por dia), cortar carne vermelha, massas e frituras, e investir nas frutas e peixe.

Tudo bem que rola um acarajé de vez em quando. Mas gula não é pecado e, de mais a mais, a Bahia pode ser de todos os santos, mas eu, definitivamente, não sou um deles).

4.
Os ônibus aqui são velhos, sujos e feios.
Mas são seguros – e nunca estão lotados.
Isso vale mais que qualquer ônibus novo, limpo e bonito do Rio.

5.
Já me chamaram de véi.

Já me chamaram de pai.

Agora deram de me chamar de nêgo.

Assim é que eu não vou querer ir embora nunca mais dessa cidade miscigenada, arrodeada de água.

6.
Os jornais daqui são ilegíveis.

Vou ver se arrumo um emprego de revisor num deles.
A R$ 1,00 por erro, fico milionário antes da posse do Temer ou da prisão do Lula – o que vier primeiro.

Muvuca

 

Não vejo a hora de acabar essa muvuca política.
Não pro país voltar a crescer, nem pro dinheiro roubado retornar aos cofres públicos, os bons serem recompensados e os maus, castigados (ou ficarem loucos, como em qualquer final de novela que se preze).
O que eu queria era ficar menos monotemático nas postagens.

Até acordo querendo esmiuçar os sonhos intranquilos que tive enquanto o vizinho de baixo berrava coisas desconexas madrugada adentro. Ou desenvolver os esboços de textos sobre palimpsestos, palíndromos, bustrofédons e catacreses.

Mas abro o jornal e…

1.
Chico Buarque proíbe que Cláudio Botelho continue usando suas canções num espetáculo chamado “Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos”.
Isso porque o ator e diretor ousou incluir um caco no texto, mencionando um ex-presidente preso e uma presidenta ladra.
O público interrompeu a apresentação, de punhos erguidos, aos gritos de “não vai ter golpe” – e Chico, eterno paladino da liberdade de expressão, censurou o espetáculo.

Cantar ou encenar Chico, doravante, só com atestado de pureza ideológica e alinhamento partidário.

2.
Caetano Veloso, que andava inexplicavelmente calado, compara as manifestações pelo impeachment às passeatas a favor da ditadura militar.
“Toda movimentação no sentido dessa tentativa de diminuir a desigualdade enfrenta a oposição da elite”, mandou, na lata – como se os milhões que foram às ruas no domingo passado fôssemos sinhás inconformadas com o batuque vindo da cozinha.

3.
Aderbal Freire-Filho – atualmente em relacionamento estável com a sra. Marieta Severo – escreve que “eleger a pauta do combate à corrupção como bandeira é uma tática para esconder outros interesses”.
Que interesses esconderá a defesa da corrupção?

4.
Enquanto o PT exerce seus podres poderes, cidadãos cansados de ridículos tiranos fazem o carnaval.

5.
(Meus ex-heróis – Chico, Caetano – sofrem de algum tipo de psicose.
Meus inimigos estão no PT.
Ideologia cega – quem precisa disso pra viver?)

6.
No mais, me larga, Caetano. Não enche.
Você não entende nada, e eu não vou te fazer entender.

Gostos

 

Gosto de acordar pela manhã com o gosto do sonho ainda morno, pão saindo do forno. Gosto da realidade se despregando do sonho feito cobra trocando de pele, lagarta oleosa deixando o casulo, como um capítulo que se fecha, veículo pelo qual escapulo. Gosto de estar no côncavo de mim mesmo no lençol amarfanhado, o lençol sendo eu, e eu a entranha – estar ali, com o resto de sonho que espreguiça comigo e por algum segundo me acompanha.

Gosto de abrir as notícias entre goles de café e farelo sobre a mesa, como se a invasão da Crimeia me alimentasse e a geleia mantivesse a guerra fria acesa. Gosto das palavras se cruzando feito formigas, a História transportada nas costas, nas antenas, nos ferrões, e as pequenas antigas guerras vãs do dia a dia, pra me aquecer como o café, e eu me esquecer dos seus senões.

Gosto da cabeça do meu cão sobre meu peito, da sua pata pesando em minha mão, do seu olhar procurando o meu. Gosto de chegar da nossa caminhada e me enfiar com ele embaixo do chuveiro e seremos um só, homem cão e água, numa festa de respingos e abanos de cauda, e de vê-lo se secar ao sol, tão feliz quanto eu de nos termos um ao outro. Meu cão morreu, mas gosto de me lembrar dele assim, salgado de mar, o dorso coberto de areia, minha felicidade refletida em seu olhar.

Gosto do antes do sexo, quando todo prazer é uma possibilidade, e a perspectiva de penetrar no mais secreto me lembra que o amor é labirinto, poço sem fundo, absinto, vertigem, mar aberto. Gosto do depois do sexo, o desejo despojado de todo gesto aprendido, de toda fórmula, e o quadril já não entoa mais seu mantra, e a mão já não quer tomar para si, mas partilhar. E entre esse antes e esse depois, reinventar a roda, me encantar feito criança – pela milésima vez! – com a mesma história, que nunca é a mesma, e que não tem remédio, não tem receita, não tem cansaço, não tem medida.

Gosto de a minha língua lamber a língua de Rosa, de Pessoa, de Bandeira, e encontrar tradução para quase tudo que sinto, e para o que invento, e para o que minto, e para o que tento não dizer, e o que jamais poderei dizer de outra maneira. E nela me perder em travalínguas, aliterações, paronomásias, o som dizendo mais que o sentido. Gosto de pensar que o pensamento é linguagem, e me enredar na sintaxe como quem toca de ouvido. E supor que por isso penso assim, aos trancos, entre solecismos e sofismas, numa língua ilógica, inculta, em que nem mesmo na prosa abro mão das rimas.

Gosto de recortar o mundo em fotografias, que é uma forma de mentir sobre o que vejo – elejo o que enquadrar, o que banir das vistas. Gosto de escrever, ficar ao sol, de crer que nada no que creio exista. Andar em círculos, viver num átimo – e depois sumir sem deixar pistas.

Ler ou não ler, eis a questão

 

Meu amigo Zé Antunes desistiu de ler jornais. Prefere não saber das coisas palpitantes que em meia hora não terão mais valor nenhum. São assim as notícias: nos excitam durante o café da manhã e no dia seguinte só prestam para embrulhar peixe na feira ou forrar gaiola de passarinho.

Eu, não. Eu gosto dessas coisas inservíveis que os jornais (e as revistas, e os portais, e os telejornais) nos servem diariamente. Dessa cultura inútil. Desse amontoado de não-fatos, não-personagens, não-histórias. Das intrigas, das entrelinhas, do banal. Há uma canção que diz que o mais importante do bordado é o avesso. O importante da vida é seu avesso também – suas desimportâncias.

Nos últimos dias, fui informado de coisas que nunca me fizeram falta, e morreria sem saber delas sem que isso tornasse minha vida mais (ou menos) vã.

Susan Sontag fez um comercial de vodca. Cássia Kis dormiu em banco de praça por não ter onde morar. Juscelino Kubitscheck era cigano. Diz-se que os 30 anos são a idade da razão porque é de 30 anos a órbita de Saturno. O pai da Maitê Proença matou a mãe dela e depois se matou (a Maitê tinha 12 anos).

Nada disso altera minha vida, enriquece minhas conversas, me faz ganhar mais dinheiro ou chegar mais rápido aos meus compromissos. Mas assim como é a mão invisível dos segundos que escava na surdina rugas no meu rosto, me enferruja as juntas e desfoca a visão, são essas partículas subatômicas da verdade que vão dando forma à minha compreensão (ou incompreensão) do mundo.

Uma mulher bela como a Maitê ter sempre dado muito mais valor ao intelecto que aos dotes físicos parece agora ter a ver com essas perdas – sabe na carne como a carne é efêmera. E o notório desapego da Cássia Kis à vaidade, à juventude, e sua personalidade áspera, quem saberá se não vêm também da aridez dos tempos difíceis, das couraças que teve que desenvolver para não sucumbir? Olho-as com outros olhos agora – vejo as mesmas mulheres, só que sob outra luz.

Todos têm um preço. Por dinheiro, Pelé anunciou remédios inócuos, Gerson vendeu cigarros, Giselle Bündchen finge que usa Pantene, Flávia Alessandra simula comprar na Leader Magazine, Roberto Carlos sorri diante de um bife. João Gilberto fez propaganda de cerveja, Gorbachov fez reclame de pizza e da Louis Vuitton. Susan Sontag, um dia, deixou a filosofia e a polêmica de lado, e foi vender vodca. Vender-se (vender a própria imagem) pode destruir algumas biografias – e humanizar outras. E é, no mínimo, curioso reler essas personalidades através de detalhes periféricos como esses.

Será que o sangue nômade de Juscelino é que o teria feito levantar acampamento e mudar a capital para Brasília? Se Saturno, o deus soturno, que devorou os próprios filhos, girasse mais rápido, amadureceríamos também um pouco mais cedo? Jamais saberemos.

Ah, sim: Clarice Lispector nasceu para curar a mãe de uma doença (sífilis), adquirida num estupro. E foi apaixonada por um escritor gay, a quem ela queria “curar” da “doença” da homossexualidade. Saber isso não muda nada. Ou muda tudo?