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Arquivo da tag Jandira Feghali

Tropeço democrático

 

1.
Renan tinha 18 anos e voltava da casa da namorada quando bateu o carro e morreu.

Renan é mantido artificialmente por aparelhos, porque a família se recusa a aceitar a morte, e acredita num milagre.

(Milagres, todos sabem, não acontecem.
Porque milagres são impossíveis.
Só possível acontece.
Se algo aconteceu, não era impossível nem milagre.
Era, no máximo, uma improbabilidade.)

Enquanto isso, a família ora, e os pais se revezam na UTI.
Quando, esgotadas as possibilidades, houver a falência dos órgãos, dirão que Deus tinha outros planos.

Poderiam doar os órgãos enquanto é tempo.
Permitir que alguém enxergue, que alguém sobreviva.
Mas a dor não deixa.

Poderiam mergulhar no luto.
E iniciar a lenta cicatrização.
Mas a dor não deixa.

É sempre mais doloroso quando a dor pensa por nós.

2.
As eleições de amanhã são uma boa oportunidade para começar a mudar o país – e mudar pela base, pelos políticos mais perto de nós, cujas decisões afetam nossa vida cotidiana.

Não vote em quem só respeita as leis e decisões que lhe são favoráveis, e chama as demais de “golpe”.

Não vote em quem usa as palavras “presidenta” e “ilação”.
Em quem usa o nome de Deus ou do povo em vão.

Não vote em quem compra voto.
Em quem manipula foto.
Em quem distorce os fatos.

Não vote em quem não tem ficha limpa.
Em quem anda com capangas.
Em quem se apoia em milícias.

Não vote em quem aplaude ditaduras.
Em quem propaga o racismo, o sexismo, a intolerância.

(Eu sei, se correr o Freixo pega, se ficar o Crivella come, mas pelo menos quem decide somos nós, não o Lewandowski, então nem tudo está perdido).

3.
Haddad dispensou o vídeo de apoio do Lula em São Paulo.
Jandira despencou quando aceitou o de Dilma no Rio.

O Brasil tem jeito.
E já começou a se reerguer depois desse tropeço democrático de 13 anos (e 5 meses).

Rio 2017

 

1. SE JANDIRA FOR ELEITA

Todas as barracas de praia voltarão a ser vermelhas, como eram alguns anos atrás.

Em solidariedade ao povo da Venezuela, o papel higiênico será retirado de circulação, e não haverá mais coco verde nos quiosques (só Maduro).

A cidade do Rio de Janeiro deixará de ser capital, já que o capital é a raiz de todos os males.

Em vez de servir merenda escolar às criancinhas, serão servidas criancinhas na merenda escolar.

Arrastão não será mais crime.
Crime vai ser levar celular, carteira ou relógio pra praia.

A língua oficial da cidade será o Jandirês, que usa a mesma estrutura do Português, porém com as palavras ganhando novos significados:

Útil = desperdiçado
Mulher = ????
Democracia = propinocracia
Sem vacilação = pedindo 410 mil à Queiroz Galvão
Exemplo: “Se tem um voto útil a ser feito hoje; é votar numa mulher que luta pela democracia sem vacilação”

Quebrar = Sanear, equilibrar
Exemplo: “Quem quebrou o Brasil foi o Fernando Henrique”.

Serão fechados todos os lava-jato da cidade, por apologia ao golpe.

A cartunista Laerte assumirá o cargo durante as ausências da prefeita – e ninguém notará a diferença.

2. SE O FILHOTE DE BOLSONARO FOR ELEITO

Alto falantes, espalhados por toda a cidade, acordarão a população às 5 da manhã, com toque de clarim.

Quem não estiver de pé, banho tomado, cabelo escovinha penteado e coturno engraxado às 5:45 terá que pagar flexão.

O toque de recolher será às 18:00 horas, pra dar tempo de chegar em casa, tomar banho, comer o rancho e ouvir a Voz do Brasil.

A cidade será bicolor: tudo que se mexe será pintado de verde; tudo que fica parado será pintado de branco (sim, é por isso que tronco de árvore em quartel é pintado de branco – pra evitar que a árvore saia andando).

O “kit homofobia” será distribuído já nas maternidades – isso só até a Prefeitura conseguir desenvolver o kit homofobia intrauterino.

A Secretaria de Educação será substituída pela de Adestramento.

Moral e Cívica será matéria obrigatória, do Maternal ao PhD. E eliminatória no ENEM.

31 de março passará a ser feriado municipal. O Dia de Zumbi, mesmo caindo em final de semana, será considerado dia útil.

3. SE O CRIVELLA FOR ELEITO

O ISS (Imposto Sobre Serviços), com alíquotas de 3 e 5%, será extinto. Em seu lugar, será criado o DSS (Dízimo Sobre Serviços) que, como mandam as Sagradas Escrituras, será de 10%.

A Praia da Macumba será rebatizada Praia do Louvor.
A Avenida Rio Branco virará Avenida Rio Jordão.
Padre Miguel será rebatizado de Pastor Jeremias.
Santa Teresa e São Conrado, respectivamente, de Apóstolo Isaías e Missionário Oséias.
Água Santa será Água Milagrosa a R$ 25,00 o Vidrinho de 50 ml.
Todos os Santos será Cúpula da Universal.
Bento Ribeiro será Ungido Ribeiro.
Vigário Geral será Reverendo.
Santíssimo será Aleluia.
A Glória passará a se chamar Ô Glória!

O Cristo Redentor ganhará um retrofit, passando a se chamar O Edir é Meu Pastor.

O Código de Obras será substituído pelo Velho Testamento.
Os flanelinhas serão substituídos por obreiros.
O SUS será substituído por sessões de descarrego e exorcismo.

As escolas de samba desfilarão na Sapucaí cantando gospel enredo, com a Ala das Samaritanas e varoas ungidas louvando no pé, e apresentarão temas como “Moisés no reino encantado do Mar Vermelho”, “Lendas e mistérios do Pentateuco” e “Sonhar com Deuteronômio dá pombinha do Espírito Santo na cabeça”.

A dispersão será na Praça do Apocalipse.

(Não, não dá mais tempo de transferir o título pra São Paulo).

Eleições & Elections

 

1.
Não entendo todo esse auê em torno do “acordo de paz” entre o governo da Colômbia e as FARC.

Que paz, se não havia guerra?

Afinal, os livros de História editados pelo PT deixavam bem claro que os guerrilheiros colombianos “sonham com uma nova sociedade, mas os Estados Unidos os acusam de terrorismo”.

Se o PT ainda estivesse vivo, esse acordo fajuto não rolava.
Não mesmo.

2.
Não confio nessa Lava Jato nem nessa Polícia Federal.
Ô povinho midiático, espetaculoso e ingênuo.

Que prova eles têm que o tal “italiano” que aparece nas planilhas da Odebrecht seja mesmo o Palocci?

Quem garante que não é o Ricardo Berzoini? o Luiz Dulci? o Paulo Vannuchi? o Wagner Rossi? o Miguel Rossetto? o Guido Mantega? São todos igualmente italianos – e corruptos.

E se o Marcelo Odebrecht quis criptografar as coisas e chamou de “Italiano” o libanês Fernando Haddad, o francês Silas Rondeau, o alemão José Fritsch, o também alemão Mangabeira Unger, o japa Luiz Gushiken, a búlgara Dilma Rousseff?

Só porque o Marcelo Odebrecht não viu o Palocci numa cerimônia e escreveu que “o italiano não estava na diplomação da Dilma”?

Ora, senhores, o Berlusconi também não estava lá. Nem o Reinaldo Gianechini. Nem o Marcelo Crivella. Nem o Bruno Gagliasso. Nem o Carlos Marighella. E nem por isso foram presos.

Isso é perseguição política. Estamos voltando aos tempos da ditadura.

Só falta aparecer uma anotação dizendo que “o molusco de nove dedos” fez isso ou aquilo, e a PF amanhecer na porteira do sítio de Atibaia.

3.
Parece que o Moro levou a sério aquela ironia do Lula sobre a “República de Curitiba”.

Já levou pra lá três tesoureiros, dois ministros da Fazenda e dois da Casa Civil.

Não demora, fecha a escalação do ministério e, de quebra, leva até um presidente. Ou dois.

4.
Lula apoia Jandira (6% de intenção de votos).

Chico Buarque apoia Freixo (9% de intenção de votos).

Juntos, ainda é menos da metade da intenção de votos do bispo Crivella (35%), apoiado por Romário, Garotinho e Edir Macedo.

A música popular e o presidente popular já foram mais populares.

5.
O terceiro colocado na disputa pela prefeitura de Salvador é o Pastor Sargento Isidoro, ex-viciado, ex-adepto do candomblé e ex-gay.

“Eu estava gay, sim. Já queimei rodinha e rosquinha, queimei tudo, mas o que interessa é que Jesus mudou a minha vida.”

Pena que não seja candidato no Rio. Pelo menos teríamos uma alternativa contra o Crivella no segundo turno.

6.
Temer tinha que botar tornozeleira eletrônica na língua dos seus ministros ou decretar um “vaca amarela” geral no ministério.

Nem se Dilma tivesse infiltrado gente da sua confiança o resultado seria tão desastroso.

7.
Hillary foi de vermelho (cor dos republicanos) ao debate de ontem.
Trump foi de gravata azul (cor dos democratas).

Mais ou menos como se Aécio tivesse usado gravata de estrelinha e Dilma, um casaquinho com estampa de tucano.

Isso que é esforço para cativar os adversários.

62% acham que Hillary venceu o debate. 27% acham que foi Trump.

Mesmo fantasiada de Dilma Rousseff, eu ainda votaria nela.

(Nisso que dá não ter um único candidato decente aqui no Rio nestas eleições. A gente fica brincando de votar em Curitiba, em Salvador, nos Estados Unidos).

Algo de podre

 

1. Beneficiários do Bolsa Família (teoricamente, pessoas carentes, que dependem de subsídio do Estado para sobreviver) doaram mais de 5 milhões de reais a políticos. E doaram o dobro disso em bens e serviços.

Como diria um petista, “alguma coisa está fora da ordem”.
Como diria outro petista, “dormia a nossa pátria mãe, tão distraída / sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.
Como diria um terceiro petista, “marmelada de banana, bananada de goiaba, goiabada de marmelo”.

2. O mundo veio abaixo porque prenderam o Guido Mantega no dia em que sua mulher ia ser operada.

O Moro mandou soltar em seguida.

A esta altura, Lula já deve ter agendado cirurgias diárias de aplicações de botox e preenchimento labial em dona Marisa até 2020.

3. O pacto de não agressão (ou pura e simples formação de quadrilha) dos candidatos de “esquerda” à prefeitura do Rio durou só até estarem todos embolados na disputa.

Freixo e Jandira já se estapeiam para ver quem é que vai perder de lavada para o “pastor” Crivella no segundo turno.

4. Nada é tão ruim que não possa ser ainda muito piorado – e não só na política ou no meu colesterol.

Me deparei ontem com mais um reality, o “De férias com o ex”.

Um bando de sarados tatuados, pegadores e machistas e suas ex, um cardume de pegadoras siliconadas, desbocadas e machistas, todos juntos se pegando, xingando, traindo e bebendo num cenário paradisíaco, enquanto tentam encontrar o amor verdadeiro se reconciliando com quem já sabem que não vai dar certo, ou buscando uma nova oportunidade com quem não tem a menor chance de sucesso.

Como os realities na tevê são tão inevitáveis quanto as greves dos bancários em setembro, por que não lançam…

– O FRAQUE IDEAL
Noivos vão escolher o traje do casamento, acompanhados do sogro, do pai e dos padrinhos.
O sogro nunca aprova o caimento e acha que a braguilha ficou muito evidente.
Os padrinhos adoram a gravata, mas acham que devia ser de outra cor, outro modelo e em outro tipo de tecido.
O pai chora.

– MASTER CHEF MIOJO
Solteiros se enfrentam em sucessivas eliminatórias para definir quem faz o melhor miojo.
O vencedor ganha o direito de participar da competição seguinte, de nível profissional, o Master Chef Lasanha de Micro-Ondas.

– LUNÁTICOS DO PASSADO
Apresentador artificialmente bronzeado, mais despenteado que o Guga Chacra e com olhos mais vidrados que o Lindbergh Faria, apresenta provas irrefutáveis de que todos os avistadores de disco voador estavam sob o efeito de substâncias ou tinham um parafuso a menos.

– PRATO FEITO
Uma loja mantida por três sujeitos meio fanfarrões e casca grossa, que servem PFs para pessoas que não têm grana suficiente para ir a um restaurante decente. É só isso.

– ESQUADRÃO DO ACOMODA
Deputados com mau gosto para a ética e que não sabem como combinar discurso de campanha e atuação parlamentar, se acomodam em outro partido, onde recebem orientação de especialistas para dar uma repaginada, ganhando um novo look e ficando irreconhecivelmente igual ao que era antes.

– IRMÃOS NA MASSA
Dois irmãos gêmeos univitelinos idênticos iguaizinhos um ao outro (só muda o avental) ajudam casais com dificuldades culinárias a fazer macarrão, pão, bolo e nhoque. Um, de avental mais mauricinho, faz a massa; o outro, de avental mais descolado, o molho.

– KEEPING UP WITH THE BALABANIANS
Câmera acompanha a vida loka de Araci Balabanian e sua família disfuncional, que inclui uma madrasta travesti, uma sogra ninfomaníaca, as sobrinhas megalômanas, os tios cleptomaníacos, as cunhadas dependentes de preenchimento labial e o primo isentão.

– AGARRADOS E BEM VESTIDOS
As aventuras de José Dirceu, João Vaccari, Marcelo Odebrecht, Ricardo Pessoa e Alberto Yousseff na carceragem da Polícia Federal, lutando para sobreviver ao banho frio, ao juiz Sérgio Moro e ao sotaque dos carcereiros curitibanos, tendo como única arma sua fé no marxismo e na delação premiada. A nova temporada promete emoções ainda mais fortes, com a visita relâmpago de Guido Mantega, e a chegada do chefão do esquema e sua excelentíssima senhora.

Quanto pior, melhor

 

1.
Leio que o Temer não vai conseguir enxugar o ministério para “caber” da Esplanada, ou seja, ficar só nos 17 edifícios originais projetados pelo Niemeyer e pelo Lúcio Costa.

Descobriu (descobriu?) que tem que acomodar os partidos que o apoiaram – ou seja, TODOS os partidos, tirando o PT, o PDT, o PC do B e o PSOL.

É partido pra caramba.

Agora, vem cá: não foi pra acabar com essa maneira podre de fazer política, loteando cargos, entregando a chave do cofre aos aliados, que demos o golp… oops, que batalhamos tanto pelo impítimã?

Se era pra entregar os Transportes do PR, a Saúde ao PP, a Educação à PQP, deixasse a Dilma lá.

2.
Lula avisa que vai fazer da vida do Temer um inferno.

Vai botar os movimentos sociais na rua, fazer manifestações, bloqueios, paralisações, greves.

Quem mesmo que reclamava que a oposição que faziam ao PT era na base do “quanto pior, melhor”?

3.
Dilma deve fazer, nesses últimos dias que lhe restam, política de terra arrasada.

Vai torrar o que puder em propaganda (já está torrando), aumentar o Bolsa Família, inaugurar tudo aquilo onde der pra amarrar uma fita.

Depois solta o rojão na mão do Temer, e vai correr mundo (às nossas custas) denunciando o golpe de que foi vítima.

4.
Ainda bem que quem andou cuspindo por aí foram o Jean Wyllys e o José de Abreu.

Já pensou se fosse a Jandira Feghali?

Seus alvos teriam sido incinerados.

5.
Eu, se fosse o Temer, ficava só com 9 ministérios, entregava cada um deles a uma sumidade, um notável, indicava o Moro pra próxima vaga que abrisse no STF, dobrava a verba da Polícia Federal, duplicava a Papuda, anunciava em cadeia nacional que as leis do país passam a valer também para a CUT e o MST, e comprava dois pedalinhos em formato de cisne para pedalar com a Marcela pelo Lago do Paranoá ao cair da tarde.