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Enquanto isso…

 

… num universo paralelo onde uma certa anta ainda é presidenta…

“Brasileiros e brasileiras, manauenses e manauensas, roraimados e roraimadas, quero declarar aqui, e por isso declaro, porque isso é uma coisa muito importante no que se refere ao que quero dizer neste momento, que estou estarrecida com estes acidentes terríveis que ocorreram nos presídios modelos de Manaus e de Roraima, duas cidades que sempre me acolheram, e me elegeram como presidenta democraticamente eleita nos pleitos eleitorais em que concorri e venci, porque tive a maioria dos votos dos eleitores que foram às urnas eletrônicas me eleger.

No meu governo não tergiverso nem tergiversarei, sempre que for preciso, para manter a ordem pública e privada, que são uma coisa muito importante no que se refere ao que é do povo, pelo povo e para o povo, esse povo sofrido do Nordeste que me deu seu voto e que esteve ao meu lado, evitando o golpe do impítimã que queriam me derrubar para implantar um governo golpista, antidemocrático e descomprometido com o bem do povo deste país.

Houveram mortes, sim. Mortes que poderiam terem sido evitadas se os governos anteriores aos meus governos e aos do presidente Lula tivessem investido em mais escolas, em mais creches, mais hospitais, mais saúde e mais educação. Esses governos não eram, como os nossos, os meus e do presidente Lula, voltados para o social, para os movimentos sociais, que são movimentos muito importantes no que se refere aos avanços sociais, à cultura, à democracia e ao empoderamento das mulheres no que se refere à questão de gênero.

Não fosse a perseguição diária que sofremos toda semana por parte da mídia golpista e dos interesses escusos que se escondem por trás de investigações de supostas irregularidades que teriam sido cometidas nos meus governos e nos governos do presidente Lula, nada disso teria acontecido.

O Ministro Lula, tão logo chegue de Angola, onde foi inaugurar uma obra muito importante no que se refere à infraestrutura daquele país latino-americano, erguida por empresas brasileiras das quais muito nos orgulhamos, como a Odebrecht, ele irá pessoalmente a Manaus e ao Amazonas dar seu apoio às famílias das vítimas dessas tragédias de Rondônia, que, como aquela da Chapecoense, deixou de luto tantas famílias no que se refere às suas perdas.

Quero, neste momento, agradecer a atuação firme do ministro José Eduardo Cardozo, da Justiça, que deverá liberar uma verba de 20 bilhões de dólares, que equivalem a mais ou menos, não sei como está a cotação de hoje, é algo, descontado o spread e o backroll, em torno de uns 15 milhões de reais, mais ou menos, ou de euros, mas é uma conta fácil, eu é que não trouxe calculadora e sou de Humanas, porque a economia, no que se refere ao investimento, é uma ciência de Humanas, porque trata do ser humano e da cera humana, no que se refere à pessoa.

Então é isso que eu queria lhes dizer neste momento. Tanto eu quanto o presidente Lula, quer dizer, o ministro Lula, e todo o seu ministério, quer dizer, o meu ministério, o ministro José Eduardo, o ministro Palocci, o ministro Lewandowski, estamos estarrecidos no que se refere a esses acidentes trágicos que deixaram de luto o Amapá.”

Retrospectiva

 

Contra todas as evidências, 2016 poderia ter sido pior.

1. Dilma podia não ter sido impichada.

2. Fidel ainda podia estar vivo.

3. Lewandowski, ter mudado o regimento e se reeleito presidente do STF.

4. Cunha ainda estar solto.

5. Os nudes vazados podiam não ter sido os da Bruna Marquezine e do Paulo Zulu, mas os da Graça Foster e do Cerveró.

6. Cabral, em vez de lavar dinheiro em joias, ter investido tudo em Romeros Brittos.

7. Em vez de gradear só a orla Conde (“pra evitar que alguém caísse no mar”), a Marinha podia ter colocado grades todas as ruas (pra evitar que alguém fosse atropelado), todas as plataformas do metrô (para evitar que alguém caísse nos trilhos) e todas as praias (pra evitar que alguém tomasse sol sem protetor).

8. Zelada, Paulo Roberto, Duque & Cia poderiam ter continuado desviando verba da Petrobrás sob o olhar cúpido do Lula.

9. Podia ter havido um atentado nas Olimpíadas do Rio – e nenhum político ter sido atingido.

10. A exemplo das micaretas, a Globo podia ter inventado o Especial de Natal fora de época do Roberto Carlos, em agosto.

11. A moda das ombreiras podia ter voltado.

12. O Marcelo Odebrecht poderia ter acreditado na retomada da parceria com o Lula em 2018, e desistido da delação premiada.

13. Podia não ter havido sobreviventes no voo da Chapecoense.

14. Ou Galvão Bueno podia estar no voo – e ter sido o único sobrevivente.

15. Podíamos não ter comprovado quão canalha é o Dimenstein e quão oportunista é a sua Catraca Livre.

16. O programa do Jô podia não ter terminado.

17. Nem o da Regina Casé.

18. Podiam ter morrido não “apenas” o Prince, o David Bowie, o Leonard Cohen e o George Michael, mas também o Mick Jagger, o Bob Dylan, o Tom Waits…

19. “Aquarius” podia ter sido indicado ao Oscar – e teríamos que aguentar a petralhada comemorando a indicação até 26 de fevereiro, e, a partir do dia 27, ter que suportá-los choramingando que a perda da estatueta foi golpe.

20. Clarice Falcão podia ter feito mais clipes.

21. Ou feito só aquele, mas convidado pra mostrar pirus e pepecas seus amigos petistas – Beth Carvalho, José de Abreu, Marilena Chauí, Paulo Betti, Jandira Feghali, Paulo Henrique Amorim, Marieta Severo, Tico Santa Cruz, Alcione, Leci Brandão.

22. O vídeo de sexo oral do Alexandre Borges podia não ter sido com um travesti, mas com a Suzana Vieira.

23. Podia ter sido o Malafaia o candidato dos pentecostais à Prefeitura do Rio.

24. Ana Carolina podia ter gravado um CD com músicas natalinas.

Melhor pensar duas vezes antes de reclamar de 2016.

Fim do mundo

 

Na Indonésia do final século 19 – que ainda nem se chamava Indonésia, mas Índias Ocidentais Holandesas – os líderes muçulmanos anunciavam que o fim dos tempos estava próximo, e que haveria sinais inequívocos disso.

Quem não acreditava não teve mais dúvida quando o vulcão Krakatoa explodiu, com um barulhão ouvido a cinco mil quilômetros de distância, provocando tsunamis que chegaram à África e cobrindo de cinzas o planeta inteiro – foram os mais belos poentes da História, laranjas, róseos, lilases, e a lua ora nascia verde, ora azul. 

Se aquilo não era um sinal, o que mais seria?

Pois o fim deve estar próximo de novo, tantos são os sinais inequívocos disso:

1. Um sorvete está custando R$ 26,00 na Cobal do Humaitá.

2. Prefeitos baianos se reúnem num resorte de luxo para discutir crise econômica.

3. Acabou o “Esquenta”, da Regina Casé.

4. Novo cardápio do Cipriani inclui amuse-bouche de arroz crocante, espuma de muzzarela, pó de tomate e neve de azeitona.

5. Renan derruba o STF.

6. Perícia conclui que cuspe de Jean Wyllys em Bolsonaro não foi premeditado.

7. O novo chefe da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos é contra o plano de uso de energia limpa e contra o corte da emissão de gases que causam o efeito estufa.

8. Pastor evangélico massageia o pênis de fiéis para que fique maior.

9. Sérgio Cabral e Adriana Anselmo estão almoçando arroz, feijão, carne ou ovo, salada e um refresco.

10. Sorrir numa foto ao lado de alguém te transforma automaticamente em aliado e/ou cúmplice.

11. Disco de Elza Soares entra na lista dos dez melhores do ano do New York Times. E “Aquarius” na dos dez melhores filmes.

12. Kanye West fica louro.

13. Gilmar chama Marco Aurélio de maluco e viaja para a Suécia, para não ouvir a resposta.

14. Jovem americana morre ao vivo no feicy.

15. Há uma rede satânica de pedofilia atuando em pizzarias dos Estados Unidos.

16. Pedro Scooby, havendo no mundo mais ou menos 3.707.391.034 mulheres, volta para Luana Piovani.

Sem contar o Nobel de Literatura para o Bob Dylan, que deixa qualquer Krakatoa no chinelo.

~

Uma presidenta inocenta, eleita democraticamenta, se envolve com tráfico de influência e doações não contabilizadas – além de andar em más companhias – e sua popularidade cai a níveis abissais.

A oposição resolve dar um golpe (também conhecido pelo apelido de “impítimã”) e mergulha o país numa crise política.

Já viu esse filme?
Pois os coreanos gostaram tanto que resolveram fazer um rimeique.

Deram uma pequena mexida aqui e ali: o golpista usurpador que assumiu não foi o vice, mas o Primeiro Ministro. E diante de uma grande tragédia nacional (não o rompimento de uma barragem de resíduos, mas o naufrágio de um barco) ela demora sete horas para se manifestar (não sete dias).

Não, em nenhum momento ela pensou em blindar sua amiga íntima (e cúmplice), nomeando-a Ministra Chefe da Casa Civil, a fim de lhe conceder foro privilegiado.

Até porque lá na Coréia não tem essa mamata.

Hashtag

 

1.
Primeiramente, #BoraTemer!

2.
Lula se diz perseguido pelo Sérgio Moro.
Pelo Ministério Público.
Pela Polícia Federal.
Pelo Janot.

Como se o four de ases não bastasse, agora é perseguido também pelo Zavascki.

Royal Straight Flush.

2.
Toffoli cassou a liminar que mantinha um petista agarrado à EBC (Empresa Brasileira de Comunicações).

O desaparelhamento do Estado vai demandar mais carrapaticida do que se imaginava.

3.
Não me importo que Lula e Dilma fiquem com nenhum presente.
Quero que devolvam é o nosso futuro.

4.
Entrevistada no Segundo Caderno d’O Globo, Sigourney Weaver, quase inteiraça aos 66 anos, diz que acha a tenente Ripley (sua personagem da série Aliens) “original pacas”.

Fico pensando no que é que ela teria dito em Inglês para ser traduzido como “original pacas”.
Original for dick? for prick? for cock?

Original pacas esse tradutor.

5.
7 de setembro teve “Marcha dos Excluídos”.

Tiveram treze anos de inclusão, subvenção, patrocínio e empoderamento.

The mimimi never ends.

6.
No Supremo, o Zavascki recusou o pedido do Lula para escolher outro juiz que não fosse o Moro, o Fachin mandou arquivar o processo de suspensão do impítimã, a Rosa Weber negou cinco ações contra o golpe do fatiamento e, por 10 x 1 (esse um é o Marco Aurélio) o plenário abortou o cancelamento do julgamento do Cunha.

Este ano, a Semana da Independência fez jus ao nome.

7.
Ver na televisão as campanhas do PT sem vermelho e sem estrela.
Isso não tem preço.

#XoraLula!

Jogo de compadres

 

1.
Foi golpe.

O acordão costurado entre PT e PMDB, e arrematado pelo Lewandowski, livrou Dilma de perder os direitos políticos e concedeu previamente anistia ampla, geral e irrestrita a toda a corja que ainda corre o risco de perder o mandato: Cunha, Renan, Jucá, Lindbergh, Gleisi, Barbalho, Lobão, Collor, Humberto Costa, Waldir Maranhão…

Se a moda pega, daqui a pouco o Detran estará cassando a carteira de motorista, mas liberando o sujeito pra continuar dirigindo.

2.
O Presidento do Repúblico embarcou ontem mesmo pro Chino, num longo viajo com escalos no Ilho do Sal (Cabo Verdo), no Repúblico Tcheco e no Cazaquistão.

No Ásio, participará dos reuniõnhos do G-Vinto, com dirigentos dos vintos maioros potêncios do planeto.

3.
Quando Lindbergh se sente no direito de chamar alguém de canalha é porque o mundo está perdido.

4.
O processo do impeachment serviu não só para escorraçar o PT do poder (e manter lá o ubíquo PMDB), mas para nos mostrar algumas forças da natureza, como a senadora Ana Amélia – cujo único defeito visível é estar no PP.

(Mas o Pedro Simon nunca deixou o PMDB, e nem por isso se contaminou com as práticas nocivas do partido.)

Uma mulher dessas na Presidência em 2018 serviria para apagar a péssima impressão deixada pela finada presidenta e por criaturas como Roseana Sarney, Benedita da Silva, Marta Suplicy, Lícide da Mata, Rosinha Garotinho.

Ana Amélia pode até ter vaidade. Mas Ana Amélia, sim, é que parece ser mulher de verdade.

4.
Escancarada a brecha para ocupar cargo público – e manter o foro privilegiado -, não será surpresa se Dilma for nomeada, ainda esta semana, Secretária do Acarajé e do Abará pelo governador da Bahia, Secretária de Assuntos Extraordinários No Que Se Refere ao Pão de Queijo pelo governador de Minas, ou Secretária do Bumba-meu-boi pelo governador do Maranhão.

Só é bom lembrar que a própria Dilma foi acusada de “desvio de finalidade”, ao dar cargo de ministro o falecido Lula, para livrá-lo das garras do Sérgio Moro.

Ah, as artimanhas a que uma mulher honesta tem que recorrer para se livrar as malhas da lei…

5.
Num universo paralelo, esse julgamento teria sido adiado por duas semanas, e seria presidido pela ministra Cármen Lúcia.

Lá, as chicanas não funcionariam, o pugilato verbal teria sido abortado no primeiro cruzado de direita (ou de esquerda), Dilma teria sido julgada com base numa Constituição intacta, não rasgada, e estaria neste momento devolvida à irrelevância da qual não deveria nunca ter saído, inabilitada para se candidatar a síndica de prédio do Minha Casa Minha Vida.

6.
Agora é aguardar o julgamento do Temer pelo TSE, presidido pelo volátil Gilmar Mendes, e a apresentação do pedido de impítimã do novo presidento pela coligação PT – PSol – PCdoB – Rede.

Porque impítimã, desde ontem às 4 da tarde, deixou de ser golpe.

Epílogo

 

1.
Acaba hoje agosto, o mês do desgosto, o mês do cachorro louco.

Como a natureza aprecia simbolismos, acabam também os treze anos (treze! olha o simbolismo aí de novo!) de PT no poder.

Quando setembro vier, não encontrará mais esse odor de mortadela no ar.

O mundo político ficará menos divertido, menos risível, menos bizarro.

Seguirão para o aterro sanitário a “nova matriz econômica”, o “no que se refere”, a palavra “presidenta”.

Retomarão seus sentidos originais “malfeito” e “estarrecida”.

Anta voltará a ser apenas um simpático e levemente estúpido mamífero perissodáctilo da família Tapiridae.

2.
Inês caiu, a casa foi pro brejo, a vaca é morta.

Mas, feito uma zumbi, se condenada, a presidenta recorrerá ao Supremo contra o “golpe”.

E se for (toc toc toc) absolvida? Recorrerá também?

Ou o “golpe” só é golpe se for condenada?

3.
– Boa tarde. Tudo bem com a senhora?
– O que está em jogo são as conquistas dos últimos 30 anos.
– Desculpe, não entendi. Quero saber se a senhora está sentindo alguma coisa, se há algum problema…
– Todos sabem que este processo foi aberto por uma chantagem explícita do deputado Eduardo Cunha.
– Não quero ser indelicado, mas a senhora marcou consulta aqui no meu consultório, e eu preciso saber o motivo…
– É golpe.
– Como assim? A senhora sofreu um golpe?
– Este é o segundo julgamento a que sou submetida. A democracia está comigo no banco dos réus.
– Foi um golpe na cabeça?
– Ao assinar os decretos, agi em em conformidade com a legislação.
– Minha senhora, ou a senhora responde às minhas perguntas ou…
– Na luta pela democracia, por uma sociedade sem ódios e intolerância, por uma sociedade livre de preconceitos e discriminações.
– Ok, vamos tentar de novo. Qual a sua idade?
– Sou uma mulher honesta, não tenho contas no exterior.
– Estado civil?
– Ministérios seriam paralisados, universidades fechariam as portas, a compra de medicamentos seria prejudicada.
– A senhora está tomando alguma medicação controlada?
– Com o apoio escancarado da mídia, criaram o clima político para a desconstrução do resultado eleitoral.
– Etelvina, me encaminharam essa paciente por engano. Aqui é ginecologia. Acompanhe-a, por favor, até a psiquiatria. Mas peça pro Lourival ir junto, porque ela está em surto e todo cuidado é pouco.

4.
Dilma cai daqui a pouco, é questão de horas.

Em seguida, cai o Cunha – é questão de dias.

E se o avião presidencial, a caminho da China, cair também?

Assume o Rodrigo Maia e se convocam novas eleições.

Eu, se fosse o Temer, viajava com um galho de arruda na orelha, espada de São Jorge na mão e mandava dar um banho de sal grosso no AeroLula, antes da decolagem.

E tratava de rebatizar logo essa joça.

Pantomimimi

 

1.
É hoje a gravação das últimas cenas do filme estrelado por Dilma Rousseff e pequeno elenco, o “Golpe de Mestra”.

O único spoiler é que não, ela não vai de taiê vermelho. Todo o resto já é conhecido.

Vai dizer que foi desmamada cedo, não a deixaram usar chupeta depois dos sete anos, quebraram sua boneca (afrodescendente e transexual), levantaram sua saia na segunda série e um coleguinha a chamava de feia, gorda e dentuça, só porque ela era dentuça, gorda e feia.

Sofreu preconceito por ter pai búlgaro, por falar “uai” em Porto Alegre e “tchê” em Belo Horizonte (ela nunca conseguiu entender direito quando usar um, quando usar o outro) e por supostamente nunca dar fé de nada do que se passava à sua volta, nem dizer coisa com coisa.

Entrou para a luta armada para derrubar constitucionalmente a ditadura militar e substituí-la por uma democracia do proletariado à moda cubana.

Foi presa injustamente após alguns assaltos à mão armada e barbaramente torturada (neste momento o plano se fecha para um close, e uma lágrima ensaiada escorre lentamente, enquanto Chico Buarque canta ao fundo “chorei, chorei, até ficar com dó de mim”).

Casou, e o marido a traiu com a Bete Mendes (que ainda era pegável, na época). Ao fundo, Chico Buarque cantará “Te perdoo por te trair”.

Sobre sua atuação no Ministério das Minas e Energia, no Conselho da Petrobras e na Casa Civil, nem uma palavra, porque não vem ao caso. Como também não vêm ao caso as promessas de campanha, os métodos de arrecadação de campanha, a divisão do butim depois da eleição, as traficâncias no poder, a lambança nas contas públicas. Corta para o golpe.

Foi traída (pelo marido, pelo vice, pela “amiga” Marta Suplicy, pelo Delcídio e pelos fatos) e não traiu jamais.
É mulher honesta (não beija na boca desde as quartas de final da Copa de 70).
Não compactua, repele as ilações e se estarrece quando insinuam que houve malfeitos em seu governo.

Empoderou as mulheres (Chico Buarque cantará “Mulheres de Atenas”), alforriou os quilombolas (Chico Buarque cantará “Morena de Angola”) e locupletou os empreiteiros (Chico Buarque cantará “Vai Passar”, omitindo aquela parte das tenebrosas transações).

Militou pela causa LGBT (larápios, gatunos, bandidos e trapaceiros).

Lutou tanto pelos pobres e pelos desempregados que eles inclusive se multiplicaram durante sua gestão.

Está sendo julgada por uma elite branca (close nos olhos úmidos da mulata Gleisi Hoffman, do cafuzo Lindbergh Farias e da mameluca Vanessa Grazziotin) e machista (close numa impassível Ana Amélia e numa inquisidora Janaína Paschoal).

Da tribuna, de mãos dadas com Lula, Chico Buarque cantará “e para meu desencanto, o que era doce acabou”.

Não haverá a cena da descida da rampa, substituída por imagens do comício das Diretas Já, da campanha pela Anistia, das comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial e da torcida do Inter no Beira Rio, toda de vermelho.

Boa parte do elenco não poderá gravar depoimentos por estar na cadeia. Mas seus nomes sobem nos créditos, como “heróis do povo brasileiro”.

O povo brasileiro não verá o filme, que só será exibido em sindicatos, acampamentos dos que continuam sem terra e cursos de História

The End

2.
Você sabe que a situação na Venezuela está mesmo periclitante quando as pessoas começam a fugir para Roraima em busca de um futuro melhor.

Narrativa

 

A melhor coisa do fim das Olimpíadas não é o trânsito ter voltado a ficar apenas totalmente engarrafado, em vez de absurdamente engarrafado. É não ter que ouvir a cada quinze segundos a palavra “superação”.

Eu supero muita coisa – a inveja, a gula, o medo de pitbull, a vontade de voltar pra Bahia -, mas não a ojeriza à palavra “superação”.

“Superação” é de uma mimimice insuperável.

Não importa aonde você chegou, mas os sacrifícios que teve que fazer para chegar lá. Os obstáculos intransponíveis que transpôs. os inimigos invencíveis que venceu.

O que se comemora não é a vitória, o objetivo alcançado, e, sim, como foi foda, quanto sangue, suor e lágrimas foram derramados.

Ganhar a medalha de ouro é o de menos: se não teve infância difícil numa favela violenta, com pai desconhecido e mãe cracuda, se não sofreu bullying por ser obeso, negro ou gay (de preferência tudo ao mesmo tempo), se não foi diagnosticado com uma doença incurável ou perdeu o cachorro na véspera da decisão… esquece.

Também não vejo a hora de acabar logo esse circo do impítimã, não só para nos livrar de vez da anta e dos ratos, mas também para dar um tempo na palavra “narrativa”.

O PT inventou a “narrativa” do golpe, e a partir daí, onde quer que se fale em golpe tem que se encaixar a tal da “narrativa”.

Como assim, “narrativa”?

Narrativa, mesmo que seja pura ficção, é coisa séria, tem um enredo, uma lógica, uma curva dramática, um sentido, uma moral.

Isso aí, “no que se refere ao golpe”, é uma versão fraudulenta dos fatos. Um conto da carochinha, um engodo, conversa mole pra militante dormir. É blablabá dos bons, e só.

Teremos nova overdose de “superação” agora com as paralimpíadas (outra palavrinha intragável: por que não paraolimpíadas ou parolimpíadas?) e uma recidiva da “narrativa” nas eleições de outubro.

Depois, tomara que ambas saiam de cena, e se recolham ao Retiro das Expressões Gastas, onde poderão passar o resto dos seus dias jogando biriba com o alquebrado “paradigma”, disputando animadas partidas de dominó com o “agregar valor”, e achando “gratificante” “fazer uma colocação” “pontual” sobre uma “plataforma” com “interface” “conceitual”.

Aí é respirar fundo e aproveitar a trégua, até que outra palavra seja “empoderada” e a tortura recomece.

Chicanas

 

JULGAMENTO DA ANTA – DIA PRIMEIRO

– Declaro aberta a sessão. Que comece o julgamen…

– Questão de ordem, senhor Presidente!

– Pois não, nobre senadora Vanessa Grazziotin.

– O julgamento deve ser suspenso porque a funcionária do Senado que faz o cafezinho não teve ontem direito aos 15 minutos de descanso, conforme manda a legislação trabalhista, uma vez que foi obrigada a verificar se havia pó de café suficiente e 12 minutos depois já era chamada de volta para conferir a quantidade de açúcar. Isso é trabalho escravo, e invalida todo o processo.

– Excelente a argumentação de Vossa Excelência, mas o caso em tela deve ser levado à Justiça do Trabalho. Prossig…

– Questão de ordem, senhor Presidente!

– Pois não, ilustre senador Lindberg Faria.

– Peço a anulação imediata deste processo porque deixei um tubo de pasta de dente no lavabo do meu gabinete e hoje, ao me preparar para esta sessão histórica, verifiquei que a tampa não só estava frouxa como haviam apertado o tubo na base, e eu só aperto no meio. Logo, houve inegável invasão do meu gabinete por parte da elite golpista, o que viola a minha imunidade parlamentar, e, portanto, o processo de impeachment deve ser extinto.

– Excepcional alegação de Vossa Excelência. Vamos levar o caso à apreciação do FBI, mas não creio que…

– Questão de ordem, senhor Presidente!

– Franqueio o uso da palavra à insigne senadora Gleisi Hoffman.

– Este processo não pode prosseguir enquanto o Senado não tiver implantado a cota de afrodescendentes, portadores de deficiência, alunos oriundos de escolas públicas e quilombolas. Se vale para o ENEM, tem que valer para o Senado, sob pena de nulidade desta votação.

– Brilhante a colocação da eminente senadora, mas o Senado é eleito por voto popular, e, constitucionalmente, o sistema de cot…

– Questão de ordem, senhor Presidente!

– Tem a palavra a ínclita senadora Kátia Abreu.

– Deve cessar de imediato o processo de impeachment, sob pena de impugnação pela ONU, OEA, OTAN, OAB, UNE e CNBB, uma vez que o golpista interinamente ocupando a presidência não liberou verba para trazer a Brasília, de jatinho particular, com todas as despesas pagas pelo erário, o Kamura, cabeleireiro oficial da presidenta injustamente afastada. Privá-la do seu topete é cercear sua defesa, o que vai contra a Lei de Licitações, a Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, e o Código Florestal. Portanto…

– Magnífico aparte da preclara senadora, mas… O refulgente senador Caiado quer se manifestar.

– Presidente, até quando vão ser permitidas essas chicanas?

– Chicana, não! Não admito que nos chamem de chicaneiros! Senhor presidente, eu, na condição de advogado da ex-presid… da atual presidenta e, conforme parecer do eminente jurista Thomas Turbando, exijo a invalidação do processo por abuso de autoridade, atraso no pagamento, excesso de velocidade, falta de crase e aumento de ácido úrico.

– Senhores, intervalo de uma hora para o almoço, e a seguir retornaremos para…

– Questão de ordem, Presidente!

– Não pode haver questão de ordem quanto ao almoço, egrégio senador Randolfe Rodrigues…

– O almoço contém glúten, e isso retira totalmente a legalidade do processo de impítimã da presidenta!

Jornalismo isento

 

A escrotidão da Foice de São Paulo não conhece limites.

Sobre o interrogatório de Dilma, diz a Foice: “O receio é com o comportamento da advogada de acusação, Janaína Paschoal, que pode fazer perguntas para a petista. Pelo seu estilo inflamado, o temor é que ela faça provocações à presidente afastada, tumultuando a sessão”.

Quem tumultua sessão é Gleisi Hoffman, ao dizer que o Senado não tem moral para julgar ninguém.

Prossegue a porta-voz do Foro de São Paulo: “Reservadamente, senadores petistas diziam que a sessão da próxima segunda -feira pode virar um circo, diante do histórico de atuações polêmicas da advogada Janaína Paschoal durante as outras etapas do processo de impeachment”.

Quem transforma o processo em circo são José Eduardo Cardoso, Lindberg, Gleisi, Grazziotin, com suas chicanas, tentativas de tumulto, golpes midiáticos (queixas à ONU, à OEA, ao papa).

E quem quer evitar que Janaína nocauteie a interrogada não é “um senador aliado de Temer”, mas justamente os poucos que ainda não se aliaram ao presidente em exercício.

Ninguém melhor do que Janaína, a destemperada, a possuída, para apagar a luz do poste, e botar o último prego no caixão, o ponto final no “tchau, querida”.