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A mãe de todas as perdas

 

Certa feita (sempre quis começar um texto com “certa feita”, e finalmente consegui), uma famosa filósofa búlgara disse “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem quem perder, vai ganhar ou vai perder. Vai todo mundo perder.”

Foi injustamente criticada pelos não muito afeitos à dialética, aqueles adictos a platitudes lógicas, incapazes de entender que ela apenas repercutia e lapidava algo já esboçado por Camões (“amar é cuidar que se ganha em se perder”).

Nas eleições de 2018, veremos que a sábia búlgara profetizava certo por raciocínios tortos. Com a ligeira diferença que quem ganhar ou quem perder não vai ganhar e vai perder – exceto um, que vai perder e vai ganhar.

Lula vai ganhar de qualquer jeito.

Se for preso (oremos!) ou impedido de concorrer por já ter sido condenado por qualquer dos seus inúmeros crimes, ganhará o status de vítima, de perseguido político, aquele que teria sido eleito com 120% dos votos válidos, mas não deixaram.

Poderá apoiar alguém (seu fiel capanga Ciro Gomes, por exemplo) ou lançar um poste (quem elegeu Dilma elege qualquer coisa, até um Haddad). Ciro ou poste ganhando, Lula chefiará o bando mesmo estando trancafiado na Papuda, como tantos chefes de facção. Se seu candidato perder, terá sido vítima de um processo infame movido pelas forças reacionárias etc etc etc.

Se não for preso nem condenado e puder se candidatar, Lula já terá ganhado por se provar acima da lei. Será o próprio “comigo ninguém pode”.

Perdendo a eleição, não aceitará o resultado. Acusará os outros candidatos (sejam quais forem, inclusive o já não tão fiel capanga Ciro Gomes) de haver recorrido aos expedientes dos quais ele próprio foi useiro e vezeiro. E se proclamará campeão moral do pleito.

Mas se ganhar (pé de pato mangalô treis vêis!), aí, sim, ouviremos que venceu não só uma disputa eleitoral, mas a mãe de todas as eleições. Que teve contra si um golpista, um juiz com sede de vingança, uma mídia vendida, hordas de coxinhas batedores de panela, a zelite, os lacaios do imperialismo – e, ainda assim, triunfou, porque é o ungido.

Lula ganhando – e ganhará, ganhe ou perca -, perdemos todos.

Perdemos porque ele terá conseguido transformar um país numa rinha de galos, reduzindo o debate político ao “quem não está comigo está contra mim”, fazendo de parte da intelectualidade uma vanguarda do atraso, banalizando o mal da corrupção. E terá feito germinar a semente de uma maldição análoga ao peronismo, que assombrará o país ainda por muitas gerações, contaminando a política, as instituições, o pensamento.

Com Lula no jogo, quem ganhar e quem perder, inclusive quem ganhar e quem perder, vai ganhar e vai perder. Porque Lula vai ganhar, ganhando ou perdendo. E todo mundo vai perder.

E o pior nem é isso: derrota mesmo vai ser a gente ter que enfiar a viola no saco e admitir que Dilma, pelo menos uma vez na vida, e ainda que involuntariamente, disse algo que fazia sentido.

Camões

 

De tédio não se morre neste país.

O Prêmio Camões, como o nome indica, é um prêmio literário.
É concedido pelos governos do Brasil e de Portugal a “autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa”.
Este ano, o agraciado foi Raduan Nassar, autor de dois romances e um livro de contos.

Antes dele, já tinham sido premiados, dentre outros, João Cabral de Melo Neto, Raquel de Queiróz, Jorge Amado, Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen, Dalton Trevisan, Lobo Antunes, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, Mia Couto, Ferreira Gullar.
Ou seja, não é pouca porcaria, não.

Pois Raduan aproveitou o ensejo para denunciar o “golpe”, defender Dilma e criticar o STF, a violência contra a “oposição democrática”, a invasão da escolas ocupadas, a prisão do líder do MST.

O Ministro da Cultura, o comunista Roberto Freire, mal conseguiu discursar – sob vaias, gritos de “fora, Temer” e protestos, dentre outros, da filósofa de classe média Marilena Chauí.

Recapitulando: vivemos numa ditadura ilegítima de direita que tem um comunista como Ministro da Cultura e premia um escritor de esquerda com um cheque de R$ 330.000,00 – valor este cuja legitimidade o tal escritor não parece questionar.

A plateia do evento (representando a tal “oposição democrática de esquerda”) aplaude o escritor premiado e, democraticamente, impede o Ministro da Cultura de falar.

De tédio não se morre neste país.

Fim do mundo

 

1.
Bob Dylan não poderá ir a Estocolmo receber o Nobel de Literatura porque tem outros compromissos.

A Academia Sueca devia ter continuado premiando só desocupados – ou gente com agenda menos concorrida – como Barack Obama, Nelson Mandela, Kofi Annan, Saramago e aquele monte de cientista que não tem mesmo mais nada pra fazer.

2.
A prefeita de uma cidadezinha americana renunciou depois de ter feito um comentário (tipo “Ganhei o dia”) na postagem de uma correlegionária do Trump, que havia escrito que “Será revigorante ter novamente na Casa Branca uma primeira-dama com classe, bela e digna… Estou cansada de ver uma macaca de salto alto.”

Tomara que a moda de renunciar após falar merda se torne uma tradição nos Estados Unidos.

3.
Cláudia Cruz se recusou a responder às perguntas do Sérgio Moro e dos advogados de acusação.
Só respondeu às perguntas previamente ensaiadas com seu advogado.

Dilma Rousseff se recusou a ser entrevistada no “Roda Viva”.
Só aceitaria se pudesse escolher os entrevistadores.
E, claro, combinar antes as perguntas, e receber o gabarito das respostas.

Nada como não ter nada a esconder.

4.
Golpistas (de verdade) invadiram a Câmara exigindo intervenção militar.

A causa já era indefensável.
Com métodos errados, então…

Com adversários como esses, que gastam munição atirando contra o próprio pé, a Democracia tá salva.

5.
Para levantar a platéia um tanto minguada e desanimada no festival Mimo, a Simone Mazzer não teve dúvida: puxou um “fora, Temer”. Nem assim.

No dia seguinte, no mesmo festival, Ney Matogrosso perdeu a paciência com uns gatos pingados que gritavam “fora, Temer” na plateia e parou o show.

Dias antes, tinha sido a vez do António Zambujo pedir respeito aos que gritavam não só “fora, Temer”, mas “volta, Lula”.

Tudo bem que o choro é livre – mas já deu, né?

6.
Que tal o Temer começar a implantar a PEC do Teto de Gastos no seu ministério, pra dar exemplo?

Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Osmar Terra ganham acima do máximo permitido pela Constituição.

7.
O Ministério da Saúde tinha que tomar alguma providência contra a Polícia Federal.

Ontem prenderam o Garotinho.
Hoje, o Cabral.

Tinham que dar pelo menos 48 horas de intervalo entre uma emoção forte e outra, pra gente tomar fôlego.

Não é todo mundo que tem pressão 12 x 8.

8.
O mundo pode respirar aliviado.

A frenética astróloga Leiloca consultou os astros e Urano lhe garantiu que há poucas chances de que Trump termine o mandato – isso se chegar a tomar posse.

Resta saber se o mandato do Trump acaba antes da hora sozinho ou se o mundo acaba junto.

Jornalismo isento

 

O Globo tem o hábito salutar de, nos seus editoriais, abrir igual espaço para opiniões contrárias.

Tipo uma no cravo, uma na ferradura.

Para oferecer um contraponto, chama, invariavelmente, alguém do PT. Ou de algum dos sub-PTs, de alguém da tropa de choque petista – PSOL, PSTU, PC do B, CUT, sindicatos.

É, no fundo, um golpe baixo, porque os “argumentos” usados pelo “outro lado” iluminam de tal forma as teses d’O Globo que é impossível não concordar com elas.

Hoje, por exemplo, o editorial era sobre o ajuste fiscal, o pacote do governo estadual contra a crise.

O Pezão quer cortar tudo, e na carne – menos os desperdícios, os privilégios, os desvios, a má gestão. Enfim, quer mandar a conta para o contribuinte, como de praxe.

Indefensável? Não se do outro lado estiver Ronaldo Leite, presidente estadual da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil.

O sujeito consegue bater o recorde mundial de asneira por sílaba.

Fiquemos só com o primeiro parágrafo:

“A crise financeira que assola os estados é, em boa medida, reflexo da crise nacional.

Um claro efeito colateral do movimento de golpe parlamentar patrocinado pelas elites que levou Temer a ocupar, de maneira ilegítima, a Presidência da República.

A desvirtuada Operação Lava-Jato, que serviu como alavanca para os golpistas, tem levado à paralisia parte significativa da cadeia produtiva nacional, notadamente a Petrobras, a indústria naval e a área da engenharia, atingindo fortemente a economia e as receitas do Estado do Rio de Janeiro.”

Ou seja:
1. A crise foi provocada pelo golpe do impítimã.
2. Temer é um presidente ilegítimo.
3. A Lava-Jato é golpista.
4. A Lava-Jato paralisa o país e é responsável pelas perdas da Petrobras e de outras indústrias.
5. O golpe e a Lava Jato são as culpadas pela crise do Estado do Rio.

Com esse tipo de argumento contra o ajuste fiscal, até eu, que sou mais bobo, apoio o fechamento dos restaurantes populares, o corte de luz nas delegacias e o não pagamento de salários ao funcionalismo.

Mais uma peça do golpe

 

1.
Lula virou réu pela terceira vez na Lava-Jato.
Já pode pedir música no Fantástico.

2.
Gim Argelo, o senador com nome de birinaite, pegou 19 anos de cana por corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de investigação.

Se não está ligando o nome à pessoa, é aquele que Dilma quis nomear para o Tribunal de Contas da União.

Teve confiscados R$ 7,3 milhões e vai ter que pagar mais R$ 70 milhões à Petrobras, como reparação de danos.

Se no Senado ele fez esse estrago, imagina no TCU.

3.
Nelson Motta chama de “ódio surdo” o mal que ataca os que não conseguem mais ouvir Chico Buarque.

Em defesa do sogro do Carlinhos Brown e papagaio de pirata de Dilma, Motta menciona o fascista Ezra Pound, admirado por comunistas e anarquistas, e só desprezado pelos que invejavam seu talento.

Quem dera tudo fosse assim tão compartimentado, com a gente detestando o autor e amando a obra, separando diligentemente o joio dos bugalhos.

“Peguei minha mulher na cama com outro. Mas ela teve muito bom gosto, porque usava Miles Davies de fundo musical para abafar os gemidos e na cabeceira tinha uma garrafa de um tinto excepcional. Além disso, aquela posição do kama sutra é mesmo a mais adequada para quando a assimetria física entre os parceiros é tão acentuada, como era o caso. Escolhas perfeitas.”

“Fui estuprada, doutor, xingada, humilhada e levei muita porrada. Mas ele usava muito bem os plurais, não errou uma regência nem misturou os tratamentos da segunda e da terceira pessoa. Uma pessoa admirável.”

4.
Bob Dylan já ganhou o Grammy, o Globo de Ouro, o Oscar e, agora, o Nobel.

Só falta mesmo o Troféu Imprensa, eu acho.

5.
Dilma (lembram dela?) rebateu, 13 dos 14 pontos da campanha “Vamos tirar o Brasil do vermelho”.

Disse que “o presidente usurpador busca justificar as medidas que seu governo ilegítimo e sem votos quer tomar, sacrificando o povo e os trabalhadores. A campanha publicitária é mais uma peça do golpe.”

Os 11 milhões de desempregados e todos os que migraram para as classes C e D em função da crise certamente dariam o maior apoio – se não estivessem mais ocupados em sobreviver e recuperar o que o governo da quadrúpede lhes roubou.

6.
A dúvida que não quer calar é: qual foi o ponto que ela não rebateu?

Se bem que se ela argumenta com expressões como “ilegítimo”, “sem votos” e “golpe”, nem faz tanta diferença.

Em defesa do Donald Trump

 

1. Quem está contra o Trump é porque quer que os Estados Unidos sejam invadidos por terroristas muçulmanos árabes do Estado Islâmico.

2. Quem vota na Hillary é porque não estudou História.

3. O Trump não inventou o assédio, o machismo, o abuso sexual e a misoginia.

4. A imprensa golpista estadunidense apoia Hillary porque Trump defende os pobres e os oprimidos – e Hillary vai tirar o hambúrguer e as batatas fritas do prato deles, além de acabar com o “My house, my life” e com o “Bag Family”.

5. Ninguém pode criticar Trump por dizer que “pode fazer tudo”, inclusive “pegar as mulheres pela vagina”, porque quem é que nunca olhou uma mulher de biquíni na praia ou prestou mais atenção do que devia num anúncio da Du Loren?

6. Os eleitores de Trump são pessoas que acreditam no candidato e se identificam com suas propostas. Os eleitores de Hillary são manipulados pelo New York Times (“O NYT mente!”), pelas pesquisas de opinião e pela televisão (“O povo não esquece / abaixo a CBS!”).

7. O processo de eleição indireta nos Estados Unidos, previsto na Constituição, é golpe.

8. Hillary não pode ser eleita porque se ela morrer, renunciar ou sofrer um impeachment, será substituída pelo vice, que é homem, e isso é um retrocesso, um desempoderamento.

9. Quem vaia Trump e fala mal dele é heterofóbico. Só fazem isso porque ele é hétero, se fosse gay ninguém falava nada.

10. Os eleitores da Hillary não suportam ver caipiras do Meio-Oeste na universidade e rednecks andando de avião.

(Os marqueteiros da campanha do Trump têm muito o que aprender com os daqui, né não?)

Chato de galocha

 

Senta que lá vem textão.
~
Textão, para quem chegou agora ao planeta, é qualquer texto com mais de dois parágrafos.
Ou mais de uma ideia a ser desenvolvida.
Ou acima de 140 caracteres.
Ou sobre alguma coisa que não te interessa.
~
Textões são, junto com os emoticons e as siglas (LOL, SQN, TGIF, rsrsrs) , a herança maldita da internet.
~
Escrevo textão desde que me entendo por gente.
Pra ser mais exato, desde o tempo em que ainda se chamavam “Redação”, e eram dever de casa, toda sexta-feira.
Ou antes, quando ainda eram “Composição”, e faziam parte do “para casa”, juntamente com os Estudos Sociais e a tabuada
~
Hoje, separo em tópicos numerados, ou com um til, pra disfarçar, feito um ministro do Supremo fatiando a Constituição para melhor atingir seus maléficos intentos.
Mas não se iluda. Mesmo picadinho, é textão do mesmo jeito.
~
O textão – informa O Globo deste domingo – é coisa de quem tem necessidade de aprovação.
Ou seja, 120% da espécie humana.
E afirma que todo textão tem seu lado evangelizador.
Autor de textão não é muito diferente das Testemunhas de Jeová que interrompem seu café ou seu sono no domingo de manhã.
A diferença é que interrompe todo dia, a qualquer hora.
~
Um estudioso diz que o textão é como viagem de avião.
Decola com os laiques e comentários.
Uma turbina começa a falhar quando surgem as críticas.
O piloto-autor tenta estabilizar a aeronave se defendendo, enquanto os passageiros-leitores se dividem – parte mandando boas energias à tripulação, parte se mudando para perto da turbina defeituosa, a fim acelerar a queda.
Ou o avião cai (“Aqui é o comandante Affonso falando. Lamento informar que o PT era mesmo honesto e eu estava errado o tempo todo. Foi maus. Favor não postar novos comentários até que a aeronave tenha se espatifado no solo”) ou o piloto abre a porta e ejeta todos os discordantes (o popular “block”), liberando assentos para novos fãs.
A metáfora procede.
~
Textões foram feitos para agradar.
Principalmente textões “do contra”.
Os polêmicos.
Os feitos com a óbvia intenção de pedir que falem mal, mas falem de mim.
Porque os haters também amam.
Eu, por exemplo, tenho pronto há tempos um textão chamado “Eu odeio Curitiba”.
Só estou esperando ter mais amigos de lá para postar o petardo.
Se uma vez eu causei com um comentário inofensivo sobre a inutilidade de Roraima, imagine quando falar mal da capital ética e ecológica do país.
~
Um grande amigo meu me disse que eu sou monotemático.
Uma tática para fazer sucesso com textões é ser monotemático.
Então talvez eu estivesse, inconscientemente, no caminho certo.
Mas fui ver e descobrir que sou monotemático em vários temas.
Política, língua portuguesa, costumes, família, cachorros, Alzheimer, suicídio, religião, sexo, sapatos.
Não sei se isso aumenta ou elimina minhas chances de me tornar um formador de opinião, uma subcelebridade virtual, um chato de galochas.
Hoje inauguro mais um tema. O metatexto sobre o textão.
Mais um monotema para a coleção.
~
Diga O Globo o que disser, textão ainda é melhor que textículo.
Exige mais vocabulário.
E mais coisas a dizer.
Ou pelo menos mais talento para enrolar, e fazer render o que cabia num aforismo.
Ou num meme.
~
Para repetir mantra (“É golpe!”, “Primeiramente, fora Temer!”) não precisa textão.
Um neurônio solitário e sedentário dá conta.
Pra articular algo mais complexo, uma frase feita não basta. Nem duas.
O textão – tanto pra quem escreve quanto pra quem lê – é coisa de quem não tem preguiça de pensar.
~
Longa vida ao textão.
E que se danem os concisos.

Tropeço democrático

 

1.
Renan tinha 18 anos e voltava da casa da namorada quando bateu o carro e morreu.

Renan é mantido artificialmente por aparelhos, porque a família se recusa a aceitar a morte, e acredita num milagre.

(Milagres, todos sabem, não acontecem.
Porque milagres são impossíveis.
Só possível acontece.
Se algo aconteceu, não era impossível nem milagre.
Era, no máximo, uma improbabilidade.)

Enquanto isso, a família ora, e os pais se revezam na UTI.
Quando, esgotadas as possibilidades, houver a falência dos órgãos, dirão que Deus tinha outros planos.

Poderiam doar os órgãos enquanto é tempo.
Permitir que alguém enxergue, que alguém sobreviva.
Mas a dor não deixa.

Poderiam mergulhar no luto.
E iniciar a lenta cicatrização.
Mas a dor não deixa.

É sempre mais doloroso quando a dor pensa por nós.

2.
As eleições de amanhã são uma boa oportunidade para começar a mudar o país – e mudar pela base, pelos políticos mais perto de nós, cujas decisões afetam nossa vida cotidiana.

Não vote em quem só respeita as leis e decisões que lhe são favoráveis, e chama as demais de “golpe”.

Não vote em quem usa as palavras “presidenta” e “ilação”.
Em quem usa o nome de Deus ou do povo em vão.

Não vote em quem compra voto.
Em quem manipula foto.
Em quem distorce os fatos.

Não vote em quem não tem ficha limpa.
Em quem anda com capangas.
Em quem se apoia em milícias.

Não vote em quem aplaude ditaduras.
Em quem propaga o racismo, o sexismo, a intolerância.

(Eu sei, se correr o Freixo pega, se ficar o Crivella come, mas pelo menos quem decide somos nós, não o Lewandowski, então nem tudo está perdido).

3.
Haddad dispensou o vídeo de apoio do Lula em São Paulo.
Jandira despencou quando aceitou o de Dilma no Rio.

O Brasil tem jeito.
E já começou a se reerguer depois desse tropeço democrático de 13 anos (e 5 meses).

Código de honra

 

1.
Estou estarrecido com a prisão midiática e espetaculosa do Palocci.
Tenho a convicção, inclusive, de que foi sem provas.

É mais uma atuação arrogante e prepotente dessa Polícia Federal golpista, que não levou em conta nem as questões humanitárias.

Sim, porque a mulher de Palocci tinha manicure marcada para o sábado que vem, e ele foi levado preso hoje, segunda-feira.

Que condições terá essa mulher de tirar a cutícula no sábado, sabendo que o marido está comendo pirogue e cachorro quente com duas vina, e passando frio em Curitiba?

2.
A operação de hoje se chama “Omertá”.

Eu, se fosse a Máfia, processava a Lava-Jato por associá-la, de alguma forma, com as práticas do PT.

A Máfia, todos sabemos, tem um código de honra.
Tem uma ética.
Um nome a zelar.

3.
Com a prisão do Palocci, a petezada deve dar um tempo na malhação do projeto do governo para o ensino médio (projeto que era do PT de Dilma, diga-se de passagem), e centrar fogo nas declarações do ministro da Justiça, que adiantou semana passada que haveria nova operação esta semana.

Isso, sim, é crime inafiançável.

#foraAlexandredeMoraes
#impítimãjá

4.
No debate entre os candidatos a prefeito do Rio, Índio da Costa, perguntado sobre ensino público, respondeu que não se deve bater em mulher.

Dilma Rousseff e sua técnica de só falar de golpe, qualquer que fosse a pergunta, fizeram escola.

5.
O PT tirou o vermelho e a estrelinha do material de campanha.

O bispo Crivella tirou a palavra “bispo” e qualquer menção à Igreja Universal.

Nessas horas é que a gente tem que dar o devido valor a gente como o Greca, que assumiu que quase vomitou quando botou um pobre dentro do carro.

Se eu não tivesse transferido meu título de Curitiba pro Rio, meu voto era dele (de novo).

6.
O prefeito mais popular das capitais é do PMDB (Teresa Surita, Boa Vista), com 72% de aprovação.

O mais impopular é do PT (Paulo Garcia, Goiânia), com 62% de reprovação.

E olha que esse casamento do PT com o PMDB durou mais que o do Brad Pitt e a Angelina Jolie.

7.
Lindbergh Farias foi chamado de ladrão e safado num restaurante da Barra.

Ele diz que estamos vivendo num ambiente fascista.

Como dizia um finado compositor petista, “Eu semeio vento na minha cidade / Vou pra rua e bebo a tempestade”.

Não queria falar mais nisso, mas…

 

1.
Wagner Moura, em entrevista ao UOL, reclama do “boicote” ao filme que ele planeja fazer sobre Carlos Marighella (“O guerrilheiro que incendiou o mundo”).

Se bem entendi (sou meio petista pra certas coisas), ele quer que empresas privadas (=capitalistas) invistam dinheiro na produção de uma obra que louva um sujeito cujo objetivo na vida era acabar com o capitalismo.

As empresas que recusam o patrocínio não estariam exercendo seu direito de investir no que quiserem – mas simplesmente sabotando seus planos.

Por isso gente como ele não aceita, não admite e não se conforma com a derrocada dos cumpanhêro. Afinal, seria mole conseguir que a Petrobras, a Caixa, o BNDES ou o Banco do Brasil, aparelhados pelo PT, patrocinassem (diretamente ou através de alguma empreiteira) esse libelo idealista contra a livre iniciativa, a concorrência, a liberdade de expressão, a democracia representativa e outros males do mundo ocidental.

2.
O entrevistador, Leonardo Sakamoto, assim introduz o entrevistado:

“Originalmente, faríamos uma entrevista com Wagner. Mas recebemos uma complexa e profunda apresentação de PowerPoint do ”Ministério Público Federal”. Então, o que era uma visita amigável se tornou condução coercitiva e a entrevista foi uma tomada de depoimento. Com ou sem convicção.”

Releve-se a ironia do “complexa e profunda apresentação de PowerPoint” (complexas e profundas devem ter sido as declarações de Lula no dia seguinte).

Releve-se o sarcasmo de escrever “Ministério Público Federal” entre aspas.

Releve-se o deboche de falar em “condução coercitiva”.

Releve-se a má fé de evocar o “não temos prova, mas temos convicção”.

Sobrou o quê mesmo?

3.
Frei Betto conta que perguntou a uma senhora em quem ela votaria para prefeito, e ela respondeu que seria “naquele que Deus mandar”.

“Como a senhora saberá quem é o candidato preferido de Deus?”
“O pastor dirá. Ele é a voz de Deus”.

A partir daí, o religioso dominicano (e assessor do governo de Cuba) discorre sobre a “servidão voluntária”, que faz “as pessoas abdicarem de sua autonomia para pensar pela cabeça alheia e agir segundo o seu mestre mandar”. E critica os líderes que “preferem que seus subordinados abdiquem da consciência crítica”.

Ele estaria falando mesmo da crente que vota de cabresto ou do militante que reza pela cartilha do “Lula é meu pastor”, repete o mantra do “é golpe!” e jamais questiona os dogmas da “perseguição política”, do “eles contra nós”, do “eu não sabia”, do “o triplex não é meu”, do “querem vender o pré-sal”, do “não querem preto na universidade nem pobre no avião”?

No paraíso petista, o inferno são os outros.

4.
Luís Fernando Veríssimo teria se declarado decepcionado com o PT. Não pude confirmar a veracidade, mas vi várias postagens a respeito.

Pena que não o tenha feito em vida, quando ainda tinha alguma credibilidade, alguma dignidade, alguma relevância.

Se o Jô Soares fizer o mesmo, é melhor chamar os ghost busters, porque as almas penadas dos humoristas mortos e esquecidos de sepultar resolveram nos assombrar mais um pouco.

5.
Funcionários públicos concursados são mesmo mais ladrões que os políticos.

Roubam cargos que poderiam ser entregues a algum militante partidário.

Não fossem esses malditos concursados ocupando indevidamente as vagas, não haveria um único petista desempregado neste país.

6.
Os “anti-Globo” criticaram o pouco destaque dado na programação ao desaparecimento do Domingos Montagner. Sequer interromperam a programação, diziam, demonstrando a notória insensibilidade e pouco caso com que a Globo trata seus contratados

Confirmada a morte, os “anti-Globo” não param de criticar o excessivo tempo dedicado ao assunto e à exploração que a emissora tem feito, com o inequívoco intuito de alavancar o ibope da novela.

Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.