• contato@eduardoaffonso.com.br

Arquivo da tag Globo

Lava Jato, o filme

 

1.
Coitadas da Globo e da Veja.

Se veiculam alguma notícia contra o Lula e sua quadrilha, são golpistas, estão a soldo do imperialismo, querem destruir as conquistas da esquerda.

Se fazem o mesmo em relação ao bispo Crivella, estão em campanha para o PT-cover, vulgo PSOL, e querem eleger Freixo para se vingar da TV Record e minar o poder da Igreja Universal.

Tudo bem que é preciso saber ler nas entrelinhas (ou nas estrelinhas), mas acho que estamos todos virando conspiracionistas.

Um livro racista e homofóbico escrito por um sujeito racista e homofóbico normalmente é só isso: um livro racista e homofóbico escrito por um sujeito racista e homofóbico, que faz parte de um plano maquiavélico dos fundamentalistas para chegar ao poder.

Não é nenhuma campanha das organizações Globo ou da Editora Abril para emplacar um radical bolivariano na prefeitura do Rio a fim de acabar de vez com a esquerda brasileira (e, de quebra, quebrar o Rio), fazendo com que a elite branca paulista retorne ao Planalto em 2018.

Ou é, e eu é que andei lendo pouco Dan Brown ultimamente?

2.
Com o Cunha preso, a dúvida que não quer calar não é quem será o próximo (todo mundo sabe quem é), mas quem vai interpretar Sérgio Moro no filme do Padilha sobre a Lava Jato.

Ao contrário do que se espalhou por aí, Wagner Moura não foi convidado e, consequentemente, nem pôde ter o prazer de recusar o papel. Tampouco disse aquilo que certamente pensa sobre o nosso herói da República de Curitiba.

Diz-se que Rodrigo Lombardi também teria recusado o papel – mas por problema de agenda, não de legenda.

Interpretar Moro seria uma prova de fogo para boa parte dos atores brasileiros.

Porque Isis Valverde no papel de periguete, Eri Johnson no papel de malandro, Ingrid Guimarães no de maluca e Paulo Gustavo no de neurótica não é exatamente o que se possa chamar de “interpretação”.

Atuação, no duro, seria um José de Abreu fazendo discurso sobre ética, decência e dignidade, sem piscar, sem desviar o olhar ou cruzar os dedos.
Ou Paulo Betti defendendo honestidade e competência sem gaguejar.
Ou Marieta Severo e Camila Pitanga falando em distribuição de renda, justiça social e combate à miséria sem cair na gargalhada.
Ou Letícia Sabatella como pessoa equilibrada.

Quando ao resto do elenco, já está quase todo fechado.
Luís Mello (no ar em “Sol Nascente”) será o Japonês da Federal.
O Sr. Burns fará Eduardo Cunha.
Ao Fernando Caruso caberá o papel de Cláudia Cruz.
Gregório Duvivier (sim, ele aceita fazer papel de bandido) será Lula.
E Elza Soares fará Marisa Letícia.

Talvez seja spoiler, mas tudo indica que, neste caso, o culpado não é o mordomo, e no final (a menos que haja delação premiada) o crime não compensa.

Não queria falar mais nisso, mas…

 

1.
Wagner Moura, em entrevista ao UOL, reclama do “boicote” ao filme que ele planeja fazer sobre Carlos Marighella (“O guerrilheiro que incendiou o mundo”).

Se bem entendi (sou meio petista pra certas coisas), ele quer que empresas privadas (=capitalistas) invistam dinheiro na produção de uma obra que louva um sujeito cujo objetivo na vida era acabar com o capitalismo.

As empresas que recusam o patrocínio não estariam exercendo seu direito de investir no que quiserem – mas simplesmente sabotando seus planos.

Por isso gente como ele não aceita, não admite e não se conforma com a derrocada dos cumpanhêro. Afinal, seria mole conseguir que a Petrobras, a Caixa, o BNDES ou o Banco do Brasil, aparelhados pelo PT, patrocinassem (diretamente ou através de alguma empreiteira) esse libelo idealista contra a livre iniciativa, a concorrência, a liberdade de expressão, a democracia representativa e outros males do mundo ocidental.

2.
O entrevistador, Leonardo Sakamoto, assim introduz o entrevistado:

“Originalmente, faríamos uma entrevista com Wagner. Mas recebemos uma complexa e profunda apresentação de PowerPoint do ”Ministério Público Federal”. Então, o que era uma visita amigável se tornou condução coercitiva e a entrevista foi uma tomada de depoimento. Com ou sem convicção.”

Releve-se a ironia do “complexa e profunda apresentação de PowerPoint” (complexas e profundas devem ter sido as declarações de Lula no dia seguinte).

Releve-se o sarcasmo de escrever “Ministério Público Federal” entre aspas.

Releve-se o deboche de falar em “condução coercitiva”.

Releve-se a má fé de evocar o “não temos prova, mas temos convicção”.

Sobrou o quê mesmo?

3.
Frei Betto conta que perguntou a uma senhora em quem ela votaria para prefeito, e ela respondeu que seria “naquele que Deus mandar”.

“Como a senhora saberá quem é o candidato preferido de Deus?”
“O pastor dirá. Ele é a voz de Deus”.

A partir daí, o religioso dominicano (e assessor do governo de Cuba) discorre sobre a “servidão voluntária”, que faz “as pessoas abdicarem de sua autonomia para pensar pela cabeça alheia e agir segundo o seu mestre mandar”. E critica os líderes que “preferem que seus subordinados abdiquem da consciência crítica”.

Ele estaria falando mesmo da crente que vota de cabresto ou do militante que reza pela cartilha do “Lula é meu pastor”, repete o mantra do “é golpe!” e jamais questiona os dogmas da “perseguição política”, do “eles contra nós”, do “eu não sabia”, do “o triplex não é meu”, do “querem vender o pré-sal”, do “não querem preto na universidade nem pobre no avião”?

No paraíso petista, o inferno são os outros.

4.
Luís Fernando Veríssimo teria se declarado decepcionado com o PT. Não pude confirmar a veracidade, mas vi várias postagens a respeito.

Pena que não o tenha feito em vida, quando ainda tinha alguma credibilidade, alguma dignidade, alguma relevância.

Se o Jô Soares fizer o mesmo, é melhor chamar os ghost busters, porque as almas penadas dos humoristas mortos e esquecidos de sepultar resolveram nos assombrar mais um pouco.

5.
Funcionários públicos concursados são mesmo mais ladrões que os políticos.

Roubam cargos que poderiam ser entregues a algum militante partidário.

Não fossem esses malditos concursados ocupando indevidamente as vagas, não haveria um único petista desempregado neste país.

6.
Os “anti-Globo” criticaram o pouco destaque dado na programação ao desaparecimento do Domingos Montagner. Sequer interromperam a programação, diziam, demonstrando a notória insensibilidade e pouco caso com que a Globo trata seus contratados

Confirmada a morte, os “anti-Globo” não param de criticar o excessivo tempo dedicado ao assunto e à exploração que a emissora tem feito, com o inequívoco intuito de alavancar o ibope da novela.

Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.

Temeridade

 

1.
Há duas maneiras de se fazer as coisas: a sensata e a temerária.

A maneira sensata de se governar um país após 13 anos de gestões corruptas e inconsequentes deveria ser, no mínimo, com firmeza e honestidade.

Temer preferiu a gestão temerária de mudar o nome da receita sem mexer nos ingredientes ou no modo de preparo.

Convocou notórios corruptos para um governo que tem como um dos desafios combater a corrupção.

Colocou no Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle alguém que age nas sombras contra a transparência, a fiscalização e o controle.

Sabedor de que os pés de barro dos governos Lula e Dilma foram o loteamento de cargos, loteou também os seus.

Em vez de ser refém do Presidente da Câmara, fez-se refém do Presidente do Senado, trocando 12 por uma dúzia.

Acabou com o Ministério da Cultura para, em seguida, ceder às pressões e recriá-lo – sem se dar conta de que o que querem de volta não é o antigo ministério, mas o antigo regime.

E luta, tanto quanto lutou Dilma, para deter o jato saneador da Lava Jato.

Os dicionários do futuro terão dificuldade em esclarecer que a expressão “gestão temerária” não deve seu nome à gestão Temer.

2.
Na Globo News, outro dia, o Ibsen Pinheiro e o Ricardo Senner comentavam que não procede comparar Temer a Itamar, o outro vice que assumiu após um impítimã.

O espelho de Temer é Sarney, um vice que chegou lá por uma rasteira do destino, com o país clamando por mudanças, e fez merda do primeiro ao último minuto do mandato.

Ibsen e Senner não usaram a palavra “merda”, naturalmente.

Mas deixaram claro que Temer e Sarney são da mesma escola política, a dos “conciliadores”, dos que deixam como está pra ver como é que fica, dos que mudam o que for necessário para que nada mude.

A favor de Temer, apenas o fato de não ter filha governadora nem bigode.

3.
O delegado carioca acha que não houve estupro.

Mesmo a lei 12.015 dizendo que ato libidinoso com menor de idade é estupro, ele acha que não houve estupro.

Mesmo diante de um vídeo em que a vítima aparece nua, desacordada, com homens se vangloriando de haver abusado dela, ele acha que não houve estupro.

Afinal, a vítima frequentava o morro e tinha contato com os traficantes. E já teria feito sexo em grupo antes. Logo, pode-se fazer com ela o que quiser, que não é estupro.

Ainda bem que nem todos os casos de violência contra a mulher são investigados pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática.

4.
Passa por Renan Calheiros a escolha do novo Ministro da Transparência, Fiscalização e Controle.

Por que não mudam logo o nome para Ministério da Opacidade, Vista Grossa e Complacência?

5.
Depois de uma semana de chuvas, temporais e aguaceiros, me pergunto se isso aqui é mesmo a Bahia de Todos os Santos ou só de São Pedro.

Um sete um

 

1.
Chico Buarque devia proibir o uso de “tenebrosas transações” fora do contexto, ou seja, as tenebrosas transações da Direita.

Porque o feitiço virou contra o feiticeiro. Até coxinhas crônicos como o Merval Pereira estão usando a expressão.

Como dizia minha mãe, a língua é o chicote do rabo.

2.
Deve ser dura a vida do Zavasque.

Ele tem que homologar as delações premiadas, ler tudo que falam contra a Dilma, atestar que aquilo procede e, ainda assim, continuar defendendo a patroa dele.

3.
É ou não é cabalístico o fato de o número de deputados necessários à derrota do impítiman ser 171?

4.
Ivete Sangalo é, possivelmente, a maior proprietária de imóveis em Salvador.

Já são quatro os taxistas que me apontam “o prédio em que mora Ivete” – e em quatro lugares diferentes.

Não sei se isso é indicador de alguma coisa, mas ninguém ainda disse uma palavra sobre onde moram a Daniela Mercury ou a Cláudia Leite.

5.
Alguém ouviu algum protesto do MST contra o governo pelo fato de terras destinadas à reforma agrária terem sido entregues a políticos, apadrinhados e até a defuntos?

Nem eu.

Na boa, acho que o que o MST quer não é terra, não. É só o pão com mortadela mesmo.

5.
Coitada da Globo. Paga uma fortuna ao Zé de Abreu, à Letícia Sabatela, ao Tonico Pereira, e os ingratos, ao fazer apologia ao crime, digo, ao gravar vídeo de apoio à Dilma, ainda acusam a empresa de corrupta.

Eu, se fosse a Globo, criava uma faixa de novela bíblica e botava esse povo de castigo, fantasiado de faraó, careca e emplastado de rímel, tendo que dizer coisas tipo “Ó, Habacuque, filho de Melquisedeque, neto de Abimeleque, dizei de onde vindes, vós que sois o favorito de Mefibosete, primo de Bezaleel, concunhado de Aoliabe”.

E ainda deixava no ar mais tempo que Malhação.

Seis por meia dúzia

 

1.
“Não vou à manifestação de hoje porque quero distância do Bolsonaro e do Malafaia”.

Então não ouça Bach, porque ele escreveu música sacra, e você também deve querer distância dos padres pedófilos, certo?

Nem leia Umberto Eco, Dante, Calvino, Montale, porque eles nasceram na Itália, e lá também nasceu o fascismo.

2.
A Globo estreia novela das nove amanhã. Como de praxe, terá duas fases.

Na primeira, nos anos 60, o mocinho é um rapaz de belos olhos e voz de taquara rachada, que luta por um amor impossível com a democracia, a liberdade, os direitos humanos, os fracos e oprimidos. Mas o destino cruel não permite que esse amor seja consumado.

Quarenta anos depois, a trama o encontra nos braços de uma cleptocracia decrépita, manipuladora, que, de muito gorda, já não anda, e que ele confunde com seu amor de juventude.

A novela leva o título poético e melancólico de “O Velho Chico”.

3.
Cansado do Petrolão? Não se desespere. Delação do Delcídio traz de volta aos holofotes (finalmente!) a ex-ministra Erenice Guerra, fiel escudeira da Presidenta. E, com ela, o Belomontão.

Tudo bem que foram só 45 milhões desviados – uma gota d’água se comparados ao oceano drenado da Petrobras. Mas essa gota irrigou justamente a campanha de 2014.

Se Dilma escapar do espeto do impeachment, cai na brasa do TRE.

4.
“Não vou à manifestação porque se Dilma cair, quem assume é o Temer, que é trocar seis por meia dúzia”

Perfeito. Se cadeia não regenera ninguém e a pessoa presa vai sair igual entrou (ou pior…), pra que processo, julgamento, prisão? Melhor abolir o Poder Judiciário, e deixar os bandidos soltos, que dá na mesma.

5.
Se a DataFolha afirmar que não foi ninguém à manifestação de daqui a pouco em Copacabana, desconfie. Porque eu tenho certeza de que estarei lá. Fui!