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Freud e O Senhor na Cidade Maravilhosa

 

Marcelão nomeou o filho Marcelinho para a Casa Civil, para ser uma espécie de seu Primeiro Secretário.
Pôs a coroa na cabeça do herdeiro antes que outro aventureiro a quisesse – tudo dentro da nossa melhor tradição republicana.

É a dinastia Crivella / Macedo demarcando território na disputa com a antiga dinastia reinante, a dos Garotinho – cuja herdeira, a menina Clarice, também faz parte do secretariado do pastor.

São ambos pastores – Garotinho e Crivella – talvez unidos para juntos melhor garantir a posse da Capitania Hereditária Neopentecostal do Rio de Janeiro.

Marcelão alega que o filho Marcelinho é preparado, competente, e estaria sendo indicado por seus méritos, por sua aptidão técnica, não por seus genes.
Aham.

Ocorre que Marcelinho não é formado em Administração ou Economia, não tem MBA em Gestão ou algo assim.
O moço graduou-se nos Estados Unidos, na renomada Universidade de Biola (!!) em… Psicologia Cristã.

Sim.
Não numa reles Psicologia sem adjetivo, dessas que qualquer UFRJ, USP, PUC ou Unicamp oferecem.
Foi em Psicologia Cristã.

Não dá pra saber, pela internet, a grade curricular, mas é de se supor que, em vez de Freud, Jung, Melanie Klein ou Lacan, se estude o pensamento de Isaías, Jeremias, Miquéias e Oséias.

As teorias cognitivas de Habacuc e Malaquias.

A psicologia infantil segundo Isaac, que quase foi sacrificado por seu pai, Abraão (aquele que ouvia vozes que o mandavam matar o filho em sinal de devoção).

Evolucionismo by Noé.

A fixação anal nos nascidos em Sodoma.

Terapia comportamental, com ênfase nas técnicas de reprodução assexuada de peixes, panificação sem trigo, flutuação e deslocamento sobre as águas, combustão espontânea de sarças, derrubada de muralhas no grito e apedrejamento de adúlteras,

O curso, infelizmente, ainda não é reconhecido no Brasil.
Assim como não o são os de Medicina Xamânica, Odontologia Umbandista, Direito Zen ou Engenharia Espírita.
O diploma, talvez por isso, não foi validado por nenhuma universidade brasileira.

Mas o moço é bom.
É competente.
E, como a fé remove montanhas, pode até exorcizar a suspeita de que sua nomeação seja mais um vergonhoso caso de nepotismo.

Pena mesmo é que eles estejam no Rio, não num estado vizinho.
Seria a glória para o tio Edir Macedo ver pai e filho governando o Espírito Santo.

Vergonhas à mostra

 

Coitado do Sérgio Cabral.

Não o filho, mas o pai.
Jornalista, pesquisador, biógrafo – e amigo – de Pixinguinha, Grande Otelo, Ataulfo Alves, Elisete Cardoso, Tom Jobim, Nara Leão.

Criador do Pasquim, do Projeto Seis e Meia, preso na ditadura, descobridor de talentos, figura central na história da música brasileira.

Coitado do outro Cabral, o Pedro.

Navegador sem muita mira, procurava as Índias e suas especiarias, achou as índias e suas vergonhas “tão altas e tão saradinhas”.

Hoje, quando se fala em Cabral ninguém pensa nesses descobridores, nesses desbravadores.

Nem mesmo naquele Cabral, ministro da Justiça nos tempos do Collor, que dançou “Besame mucho” de rosto colado com a Zélia Cardoso de Melo.

Ou no João Cabral da educação pela pedra, do funeral do lavrador, da faca só lâmina, do cão sem plumas.

O cabra em quem todos pensam, e com a lâmina da peixeira brilhando no olhar, é o que descobriu o caminho da mina, o do guardanapo na cabeça em Paris, dos 5% da obra do Maracanã, o que mandava o helicóptero oficial buscar vestido de gala para a primeira dama usar em Mangaratiba – isso depois de ter mandado o mesmo helicóptero levar o cachorrinho.

Cabral desmoralizou os outros cabrais.

Quebrou o Rio de Janeiro, coisa que nem o casal Garotinho, nem Benedita da Silva, nem Brizola tinham conseguido fazer – por muito que tentassem.

E, quem diria? acabou em Bangu, cercado de milicianos, traficantes, bicheiros, batedores de carteira – e do ex-amigo e também ex-governador Garotinho, o birrento.

O jantar de ontem (arroz, feijão, farofa, uma carne de segunda) há de ter tido um sabor especial, principalmente se comparado aos jantares pagos com dinheiro público em Mônaco, no Antiquarius.

Nenhum carcereiro terá chegado até a grade trazendo numa bandeja um anel de 800 mil reais para a primeira dama.

Dilma e Lula não telefonarão para hipotecar apoio.
Dilma ontem já o renegou, sem esperar que o galo cacarejasse uma vez sequer.

Vai levar algum tempo até que Cabral volte a ser o gajo que domou as calmarias e houve por bem começar o Brasil a partir da Bahia.

Vai levar algum tempo até que Sérgio Cabral volte a ser apenas o compositor, admirador de Almirante e Ari Barroso, memória viva da música popular.

Ou o poeta seco e magistral. Ou o ministro que a história apagou.

E aí será a vez de o coitado ser este Sérgio Cabral de agora, despido de mordomias, longe do seu iate, da sua mansão, mas (nem tudo estará perdido) perto de ex-secretários, ex-ministros, ex-deputados, ex-senadores e (tomara!) ex-presidentes.

(Fica a dica para Pezão, Pimentel, Rui Costa, Renan, Temer: mais atenção aos presídios.

O próximo inquilino do sistema carcerário pode ser você.)

Teólogo e energúmeno

 

Quem é ateu e viu milagres, como eu, sabe que há mais mistérios entre a Justiça e a política do que supõe a nossa vã ideologia.

Garotinho é prova viva (ainda que dodói) disso.

Estava em casa ontem, lépido e fagueiro, quando a polícia chegou e seu nome gritou, com um mandato na mão.

No mesmo instante, caiu gravemente enfermo, com sérios problemas coronarianos, a ponto de ter que ser internado, junto com toda a família (sim, é praxe dos hospitais públicos do Rio acolher não só o paciente como disponibilizar acomodações adicionais para quem quiser chegar junto).

Seu pediatra garantiu que o quadro era sério. Mas um juizeco de Campos dos Goytacazes (propriedade particular dos Garotinhos no norte fluminense) entendeu que preso não pode ter mordomia, e mandou transferir o petiz para uma UPA dentro do presídio.

Deu-se o segundo milagre do dia: o moribundo ressuscitou na hora, e saiu dando pernada a três por quatro, com uma vitalidade de matar de inveja lutador de MMA. Foram precisos uns dez para segurar.

E lá foi ele, com os gritos da viúva (“me leva junto!”) e da órfã (“meu pai não é bandido”) abafando a sirene da ambulância.

O terceiro milagre estava para acontecer. Uma ex-advogada de Dilma Rousseff, nomeada pela própria para o TSE, mandou não só tirar o pequeno infrator da UPA, como deu-lhe o direito de escolher o hospital que quisesse, inclusive na rede particular (para tratar não se sabe bem o quê) – e ainda lhe garantiu prisão domiciliar ao fim do suposto tratamento.

Nunca ninguém foi do céu ao inferno, e de novo ao céu, em tão pouco tempo – e sem passar pelo purgatório.

~

Mas Deus escreve certo mesmo usando corretor ortográfico.

Se efetivamente preso, o pastor Garotinho teria direito a cela privilegiada, por ter curso superior, certo?

Sim e não.

Sim, porque ele, como todo bom pastor, é Teólogo.

Não porque, como costuma acontecer com os falsos pastores, seu diploma parece ser falso.

Garotinho se teologou na Fatun (já ouviu falar? É uma espécie de Harvard carioca).

O diploma foi expedido pela Faceten (já ouviu falar? É uma espécie de Yale, só que de Roraima!).

No seu blogue, ele diz que se graduou foi no Instituto Evangélico de Formação Teológica (certamente uma Princeton local).

Seja qual for a universidade de ponta que cursou, Garotinho se matriculou em novembro de 2011 e se formou em dezembro do mesmo ano.

E as disciplinas de Sociologia e Antropologia Cultural, com 60 horas/aula, foram cursadas num único dia.

Ô glória! Só Deus, o MEC e a Polícia Federal na causa.

Dramalhão mexicano

 

Já vi e revi as cenas do Garotinho sendo transferido de um hospital para a UPA do Complexo de Bangu.

É de deixar Glória Perez em estado de choque.

Nem nas suas novelas mais escalafobéticas ela teria imaginado um ex-governador com nome de menor abandonado chacoalhando as perninhas numa maca, feito besouro ao sol, enquanto sua mulher com nome de flor grita que quer ir com ele, e a filha com nome de freira berra que vão matá-lo.

Tudo isso diante de policiais e bombeiros malvados, que se limitam a cumprir as ordens de um juiz vingativo com nome de remédio para diabético.

(Para quem não quiser ir ao gúgol, o elenco de apoio desta cena é composto de Rosinha, Clarissa e Glaucenir).

Isso é que é evento midiático, não aquela mixaria de pauerpõinte na Polícia Federal de Curitiba.

Isso é que é condução coercitiva, não aquela pantomima de dar carona a dono de pedalinho para desacatar delegado em aeroporto.

Não teve japonês nem hipster – nem precisava.
Não teve sorrisinho cínico mascando chiclete – nem tinha como.
Não teve punho cerrado, braço erguido, V de vitória (ou de Vaccari) – teve só perninhas agitadas.

Nosso herói teme ir para a cadeia porque lá está o Nem da Rocinha.
Como se fossem ficar na mesma cela.
No mesmo pavilhão.

O bandido de mais alta periculosidade que está lá, um tal de Sérgio Cabral, está numa cela a mais de um quilômetro de distância.

O ex-governador e ex-candidato a presidente da república não precisa temer a morte.

Os evangélicos, como ele, são a maioria no presídio de Bangu, e lhe darão proteção, apoio moral, um ombro amigo e, quem sabe, um dízimo em cigarros.

De lá, poderá continuar comandando sua quadrilha em Campos, como fazem todos os chefes de facção.
Não faltará quem lhe consiga um celular.
Poderá, entre uma unção e outra, participar de um golpe de falso sequestro.
E nem precisará agitar as perninhas: basta gritar como a filha, Clarissa – que, depois dessa pode até perder seu lugar até então garantido no secretariado do pastor Crivella.

E eu perdendo meu tempo com novela turca na Band, novela bíblica na Record, novela mexicana no SBT e discurso da Gleisi Hoffman no senado, enquanto a vida como ela é tem muito mais barraco, muito mais emoção.

Sorry, Paola Bracho.
Você não chega aos pés de D. Rosinha pedindo pra ir junto com o marido para a prisão.
Não dá nem pro cheiro se a cena exige uma filha devastada clamando aos céus que o pai não é bandido, enquanto chama os bombeiros de safados.
Você tem que comer muito guacamole até conseguir agitar as perninhas com aquele ímpeto, aquela sincronia, aquela graciosidade.