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Afecto

 

Um ganho colateral de ter amigos portugueses é que eles me lembram meu avô.

Em plenos anos 70, meu avô ainda escrevia optimo, afecto – as consoantes mudas pendendo anacronicamente das palavras feito pincenês, relógios de algibeira, bigodes retorcidos, camafeus. Como os portugueses, meu avô era impermeável aos acordos ortográficos.

Nascido no Brasil e tendo morrido sem por jamais os pés em Portugal, ele dizia Purtugal, à portuguesa, talvez por ter ouvido assim do seu pai – este, sim, português de fato (de fato e de facto, que lá esse “c” transforma um terno num acontecimento), imigrante do século 19, e certamente pródigo em vogais átonas transgêneras e consoantes mudas – ou nem tão mudas assim.

Fosse português e fosse vivo, meu avô talvez ainda hoje usasse escudos, não euros. Não me recordo dele falando em cruzeiros: dinheiro lá em casa sempre foi contado em contos de réis. Para a paçoca, o pirulito ou o gibi, ganhávamos dele dez merréis, ou um tostão, às vezes um níquel – centavos, jamais.

Cresci com essa contabilidade dupla, a da unidade monetária oficial – e inconstante, oscilando entre cruzeiros novos e velhos, cruzados velhos e novos, cruzeiro de novo, por fim real, que só servia para o palpável – e a afetiva, a dos eternos, perenes, incorruptíveis contos de réis, que compravam o que o dinheiro não podia comprar.

Meu avô jamais vestiu jeans ou camiseta – apesar de ser, quando nasci, mais jovem do que sou hoje, eu que vivo de tênis e bermuda.

Na minha idade, já era um senhor de idade – como era moda à época.

Vivia de branco, dos pés à cabeça (à cabeça, não: os cabelos não embranqueceram), e gostava de andar de meias e chinelos, os poucos cabelos vaidosamente fixados com creme, um pente preto sempre a postos no bolso de trás.

Não envelheceu. Foi velho desde que o conheci até quando o vi pela última vez. Não apenas velho, mas sempre o mesmo velho – sem que a palavra velho implique aqui em qualquer demérito.

Era velho porque essa era a natureza dos avós, num tempo em que as crianças eram crianças, os adultos eram adultos e os velhos eram velhos.

O mundo era simples assim, as coisas em seus lugares, antes desse descalabro de nossos pais se tornarem avós e inventarem de morrer (morrer era atributo dos desde sempre mortos, aqueles dos retratos, das histórias) e começarem a nos chamar, a nós, às crianças, de senhor e senhora, e termos dores nas costas, nos joelhos, e não sabermos onde deixamos os óculos.

Me lembro do meu avô quando me olho no espelho após o banho, e o cabelo jogado para trás e colado ao crânio mostra as mesmas entradas.
Quando me vejo agarrado a um hífen que já devia ter ido fazer companhia aos dinossauros.
Quando arrasto sem querer os chinelos (havaianas, diga-se a meu favor).
Quando percebo como pode ser eloquente e dizer tanto uma consoante muda.

Natais passados

 

Dizem que o Natal é uma festa que acontece todo ano.
Não caiam nessa.
Natal acontece apenas na infância.
Depois, vida afora, é só uma tentativa – fracassada – de voltar a ter ilusões.

Dizem que celebra o nascimento de Jesus.
Outro engodo.
Celebra o pensamento mágico, a ingenuidade, a capacidade de transbordar de excitação – dons que deixamos para trás com os dentes de leite e que só vamos retomar (como farsa) nas primeiras paixões da adolescência.

Os Natais de verdade estão sempre lá atrás, repletos de ilusões perdidas e gente morta.

É para isso que os repetimos: para nos reunir de novo com os avós, os tios que nos passavam a mão na cabeça e nos davam presentes que não tinham nada a ver conosco, os agregados (Natais de verdade são do tempo em que a casa tinha agregados, uma família sem laços de sangue, mas de afeto, empregados que nos pegavam no colo, faziam nossas vontades, nos consolavam depois das surras e a quem amávamos sem a obrigação de amar).

Como celebrar um Natal sem castanhas assadas na brasa do fogão a lenha, sem nozes estouradas (para desespero de minha avó) nos batentes das portas? Um Natal sem garrafões de vinho tinto e doce (para nós, diluído em água e adoçado mais ainda), sem postas imensas de bacalhau nadando em azeite (não há mais bacalhaus com tantos palmos de altura), sem a gigantesca árvore armada na sala, com bolas vermelhas e azuis e uma fingida neve de algodão?

Não faz sentido um Natal sem o assoalho encerado da sala, e suas frestas mal calafetadas, onde se perdiam, para nunca mais, chaves e moedas.
Sem a felicidade incontida de meu avô, de branco e de chinelos, recebendo os filhos, os netos, ignorando que meio século depois haveria de seguir repetindo toda a cena, aprisionado na memória de alguém.
Sem minha avó dando ordens desencontradas na cozinha.
Sem as hordas de primos.
Sem minha mãe à beira de um ataque de nervos.

Ainda que esperem por mim, ao pé da árvore, uma piorra multicolorida, um laboratório de química, um quebra-cabeças de duzentas e cinquenta peças.
Ainda que haja rabanadas e passem o Quebra-Nozes na televisão, em preto e branco.
Ainda que, morto de sono, mal me aguente na Missa do Galo.
Ainda assim, não será mais Natal.

Porque entre os mortos que saqueiam as caixas de uvas, que tomam a bênção aos tios, que se roem de inveja do presente alheio, há um, mais morto que todos.

Os Natais, depois da infância, celebram essa morte.

Maria Clara

 

Maria Clara

Gosto muito de criança
Não tive filho de meu.
Um filho? Não foi de jeito
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Quem escreveu foi o Manuel Bandeira. Podia ter sido eu.

Os filhos que não tive, tiveram-nos meus irmãos.
Uma dúzia de sobrinhos que fotografei sempre que pude, quase como uma forma de trazê-los um pouco mais para mim.

Foi assim com a Amanda, sobrinhafilhada, xodó e musa desde sempre.
Com Alice, que mereceu cartas e poemas, e infinitas fotos.
Com o Caio, dono de uma inteligência invejável, e de uns olhos azulados, que se tornaram verdes e hoje há que inventar uma cor que os defina.
Com a Esther, a dona do sorriso mais bonito, da personalidade mais forte.
Com a Julie, a mais suave de todas – e talvez a mais decidida.

Mas uma das sobrinhas me escapava, fugia de mim.
Dos abraços e das lentes.

A mais tímida – talvez acuada por tantas belezas à volta, mesmo sendo tão bela.

Nunca posou, nunca me deixou tentar roubar sua alma numa fotografia.

Pois o milagre aconteceu – justo para mim, que não creio em milagres, nem em alma.

Quando vi, lá estava ela, indiferente à minha lente.
Linda como sempre foi – talvez mais linda agora, quando não tem medo da própria beleza.

Bem vinda ao panteão das minhas musas, Maria Clara.
Seu lugar esteve aqui, todos esses anos, esperando por você.

Infinitas mortes

 

Muito do que sei de mim, sei por ela.
Não sou apenas cria sua, mas sua invenção.

“Sem as lembranças de nossos pais e avós, teríamos que inventar a maior parte de nós mesmos.” (Jervis Anderson)

Hoje ela não se lembra de mim, nem de si mesma.
“O que lembro, tenho.” (Guimarães Rosa).
Ela, que vive o instante (única coisa real) sem o instante que acabou de passar, e se perdeu pra sempre, não tem nada.

“Todos precisam de suas lembranças. Elas evitam a miséria da insignificância” (Saul Bellow)

Passei o dia escrevendo sobre memória, preservação, herança, história, patrimônio.
Falava de edifícios demolidos, trilhos arrancados, retratos (doídos) na parede?
Não. Falava dela.

“Quando não se tem memória não se tem sentimentos.” (Theo Gossens)
Então o que será que lhe dá quando me abraça, me passa a mão na barba, me olha como se me visse?

Deve haver, naquele presente irredutível, uma fresta por onde se vislumbre uma réstia de passado.

“O passado é o que você lembra, imagina que lembra, convence a si mesmo que lembra ou finge lembrar” (Harold Pinter)

Passei o dia pensando que preservar é lutar contra o tempo, luta que se sabe perdida.
Ouvindo alguém dizer “minha mãe me ligou”, frase tão banal, e que só quem perdeu a mãe (para a morte, para a demência – que também é uma forma de morrer) sabe o quanto dói.

Quando uma pessoa morre, há milhares de outras mortes: suas lembranças, as coisas e pessoas das quais só ela se lembra.
Quando se perde a memória, morrem também, da mesma forma.
Cada morte – cada memória perdida – é infinitas mortes.

Há vivos há muito sepultados.
Há mortos que respiram.

E há os que, enquanto formos vivos, não morrem jamais.

(para a Stella)

Gerações presentes

 

Pais servem para nos dar a vida, nos preparar para a vida.
Avós, para nos mostrar que a vida é breve, e nos preparar para a morte.

Pai e mãe nos proíbem o doce antes da refeição, a mão suja na parede, o cotovelo na mesa, o pé descalço no chão.
Avós já viveram o bastante para saber que o sabor é que fica na memória, não a etiqueta.
Que a parede se pinta, o pé se lava, o resfriado se cura, e que o que perdura na nossa história, ao fim de tudo, não são os bons modos, mas os momentos.

Avô é o pai que errou o que tinha que errar, e acha que ainda dá tempo de salvar a próxima geração.
Sabe que não estará por perto quando o neto for adulto, e tem que fazer agora tudo que tiver que ser feito.
Daí as histórias – reais ou imaginadas, qual a diferença? – que insiste em contar a quem ainda não consegue entender. Sabe que a semente está plantada, e germinará a seu tempo.

Cada frase dita por um avô é isso; uma cápsula do tempo.
Um dia, quando não for mais que ossos e um nome esquecido das conversas, alguma de suas cápsulas eclodirá assim, do nada. E sua voz soará de novo, e suas rugas sorrirão como só as rugas sabem sorrir, e sua mão outra vez pegará a nossa e nossos olhos se refletirão nos seus. Porque teremos, enfim, compreendido o trocadilho, a piada, a lição recebida décadas atrás.

Avós são Midas: o que tocam se eterniza.
Cinquenta anos depois, ovo cozido tem ainda gosto da casa dos meus avós, não importa a cozinha abandonada, a casa demolida.
O biscoito maisena molhado no café com leite, a macarronada de domingo, as castanhas quebradas na dobradiça da porta, tudo tem ainda a mesma textura, o mesmo aroma, o mesmo estalido, muito depois de não haver mais porta, mesa, Natais com castanhas, e as ilusões estarem mortas, e os ideais, perdidos.

Meus avós estão aqui, os quatro, intensamente, nas canequinhas esmaltadas que me trazem minha vó Preta, nas palavras cruzadas que faço todas as manhãs em companhia do vô Tote, no espelho em que me deparo com o nariz e os olhos do vô Zizico, na saudade dos cuidados excessivos da vó Rosa.

Queria poder me sentar agora com vô Zizico na varanda e lhe perguntar da sua infância, da vida de oleiro, calceteiro, oficial de justiça. Apagar da memória a imagem dos seus ossos exumados, empilhados numa caixa de papelão, e lhe pedir a bênção, pedir que não fume tanto e adie o câncer que terminará por levá-lo, contar de novo o filme que acabei de ver na matinê do Cine Odeon.

Queria massagear os pés ásperos, trincados, da vó Preta, e pedir que me conte do seu pai, que morreu aos vinte e poucos anos e virou assombração, e de todos os fantasmas que enxotou a vassouradas, e dos nove filhos que enterrou, e quem sabe lhe dizer algo que a faça sorrir – coisa rara numa mulher tão seca, tão séria, tão fria, tão sofrida.

Queria acariciar de novo os cabelos de seda branca da vó Rosa, suas varizes lilazes e mornas e macias, e ouvi-la falar dos perigos do vento encanado, do sereno, do banho depois do almoço. E descobrir, finalmente, que cor eram seus olhos sempre marejados, e como que cobertos de uma névoa acetinada, e sua boca sem batom, e o rosto sem pintura.

Queria a cada noite estender um cobertor sobre a mesa da cozinha e desafiar meu vô Tote para mais uma partida de crapô, e vê-lo rir das minhas barrigadas, e me fazer aprender com meus erros. Ler para ele o que escrevo, e anotar suas correções, e a infinidade de sinônimos que sabia. Separar no meu guarda roupas um lugar para seus ternos brancos, seus chinelos, seus suspensórios, e dividir com seu pente preto e seu fixador de cabelo um lugar no armário do banheiro.

Um a um, partiram, sem se despedir. Cumpriram seu destino, de me educar para a arte da perda, para o ofício de morrer.
Queria crer que me esperam na outra margem, com mão aveludada ou cravejada de calos, de pele alva ou curtida, rosto escanhoado ou barba sempre por fazer.

Mas é aqui que estão, à minha volta.
É aqui, do meu lado de dentro, que esperam por mim.

Eros

 

Meu sobrinho agora é pai.
Que nome dar ao rebento?
Caio Júnior não cai
Tão bem a este nascimento?

Não, nem tampouco Hélder Neto
ou Eduardo Sobrinho.
Vai que ele que vira arquiteto
Ou causídico, coitadinho.

A mãe pensou em Bernardo
O pai sugeriu Heitor.
Mas querem pro felizardo
Um nome que fale de amor.

Eros, é como vai ser.
Mas já ganhou apelido.
Nem bem acabou de nascer
E o Eros, pra mim, é Cupido.

~
Para a Juliana e o Caio, que acabam de trazer ao mundo o pequeno – ou não tão pequeno – Eros.

Por enquanto, precisando de cuidados – mas logo estará a postos, flechando corações, conquistando nossa Psiquê.

Legado

 

Quando se casaram, em 12 de setembro de 1959, meu pai era estudante secundarista e minha mãe, costureira.

Ele tinha 25 anos, ainda não concluíra o ensino médio, e dependia dos pais, que custeavam seus estudos.

Ela, aos 29, era independente e se sustentava costurando para fora. Como não possuía uma máquina de costura, trabalhava na casa de suas clientes. Foi assim que se conheceram: ela indo à casa dele para fazer o enxoval da futura cunhada.

Aprovado no Vestibular de Direito da PUC de Petrópolis, em 1960, meu pai para lá se mudou, às expensas de seu pai, arrendatário do Hotel Rubim, em Viçosa.

Nesse hotel minha mãe foi morar, com o primeiro filho – mas não como dependente do sogro. Comprou sua primeira máquina de costura e fez do seu quarto o ateliê de costura e meio de vida.

Ali, enquanto os filhos brincavam entre revistas, tesouras e retalhos, se sustentou criando roupas e fazendo vestidos de noiva, que se tornaram sua especialidade.

(Me lembro do seu orgulho ao comentar sobre um vestido cuja cauda ainda subia as escadarias da igreja quando a noiva já chegava ao altar.)

O segundo filho nasceu em agosto de 1960, quando o marido mal tinha passado no Vestibular.
O terceiro – única filha -, em dezembro de 1961, com o marido já universitário.
Compareceu à formatura do marido grávida do quarto filho, nascido em junho de 1964,

Durante todo esse período, bancou as despesas próprias e da prole. Durante todo esse período, cuidou e educou os filhos sozinha, sob o teto e o olhar dos sogros.

Com meu pai formado e tendo aberto seu escritório – primeiro numa sala do hotel, depois num imóvel na mesma praça – ela seguiu sustentando a família, até que ele se estabelecesse como advogado.

Na divisão de tarefas que se propuseram, ela arcava com as despesas, ele amealhava patrimônio.

Assim, conseguiram comprar o primeiro imóvel, uma casa no Bairro de Lourdes, em Viçosa, para onde nos mudamos, e o primeiro automóvel, um fusca.

Optando por trabalhar em casa, e mais perto do centro, alugaram outra casa, na Rua Virgílio Val, para onde a família se mudou – e lá, no pavimento térreo, no que seria a sala, funcionava o escritório do meu pai. No andar de cima no grande quarto da frente, o ateliê de costura. No quarto ao lado, nasceu o quinto filho, em 1968 – mesmo ano em que meu pai se tornou juiz.

(Ela costumava dizer que teve filhos de cinco pais diferentes: um secundarista, um vestibulando, um estudante de Direito, um advogado e um juiz.)

Mudamo-nos para Unaí, no Noroeste de Minas, e meu pai decidiu que “não ficava bem” a mulher de um magistrado exercer o ofício “menor” de costureira – além do que, queria preservar minha mãe do assédio de quem buscasse, através dela, chegar até ele.

Foram anos difíceis, porque a renda familiar caiu consideravelmente (os proventos eram inferiores à renda que obtinha como advogado, e faltava o aporte trazido pela costura), e minha mãe se frustrava com a condição de dependente.

Por fim, ela venceu e voltou a trabalhar – e assim foi na comarca seguinte, Andrelândia.

Lá, o maior cômodo da casa era a sua sala de costura, bem em frente à biblioteca do meu pai. Ali, recebia as clientes, produzia, criava, se relacionava – ao mesmo tempo em que cuidava dos filhos e da casa, como sempre fizera.

A costura continuou a ser sua atividade quando se mudaram para Juiz de Fora, e decidiu voltar a estudar. Não tinha, então, sequer o ensino fundamental. Fez um curso supletivo, prestou vestibular, foi aprovada e se formou advogada (ovacionada de pé na formatura – era a mascote da turma, a aluna mais velha), abrindo escritório com um sócio.

Com a nomeação de meu pai para Belo Horizonte, preferiu não acompanhá-lo. Era-lhe muito desconfortável a posição de “mulher de juiz”.

Gostava de fazer roupas de festa, não de usá-las. Não se sentia á vontade com protocolos, solenidades, cerimônias.

Comparecia a elas, acompanhando meu pai, por dever – mas o fazia sem prazer algum. Mudar-se para a capital, para longe dos filhos (nenhum os acompanharia, cada um já com sua vida) seria para ela um sofrimento. Não era esse o seu mundo.

Em Unaí, meu pai gostava de nos levar a Brasília para mostrar o Palácio da Alvorada, a Catedral, o Itamarati. Minha mãe preferia Paracatu, com suas ruas de pedra e casarões cheios de história.

Em Andrelândia, Visconde do Rio Branco e Juiz de Fora, enquanto ele construía a rede de contatos na magistratura e se firmava como o juiz severo que sempre foi, minha mãe cultivava a amizade dos vizinhos, se empenhava em ações de caridade na Casa do Caminho, na igreja do Bom Pastor, na igreja presbiteriana.

Ele gostava da praia – ela tinha medo do mar, preferia as montanhas, o mato.
Ela gostava de música e de dança – o gosto dele nunca foi muito além das marchas militares, e era incapaz de dançar.
Ela foi ecumênica, de fazer novena, promessa, orar e se iniciar na filosofia Rosacruz. Ele se manteve católico fervoroso – e maçom.

Não eram vidas separadas: era cada um sendo fiel ao próprio caráter. Ele exercendo a atividade que abraçara, ela fazendo exatamente o mesmo: cuidando dele, dos filhos, da casa, de quem precisasse dela.

Minha mãe retornou, então, a Viçosa, ao sítio que herdara de seus pais – e que fora ampliado com a aquisição de terrenos vizinhos e direitos de outros herdeiros, e onde já vivia minha irmã.

Aquele era o seu habitat, seu lugar, onde vivera na infância, onde conhecia cada detalhe, e onde era feliz.

Meu pai não montou casa em Belo Horizonte – ocupou o apartamento semi deserto que deixei ali, quando me mudei para Curitiba – e lá permaneceu, numa provisoriedade que a todos nos incomodava, durante os anos que ali viveu.

Era um imóvel simples, sem qualquer luxo, parcamente mobiliado: uma mesa rústica, quatro cadeiras de madeira, uma escrivaninha velha, uma cadeira mais velha ainda, um sofá velhíssimo, herdado da casa de Andrelândia. No quarto principal, uma cama de ferro – que foi sendo remendada ao longo dos anos, e um pequeno criado mudo, também de ferro. No outro quarto, uma cama de solteiro adquirida, possivelmente, vinte anos antes. Ali meu pai “acampou”, espartanamente, até se aposentar.

Jamais esse apartamento foi “sua casa” – esta sempre foi o sítio de Viçosa, onde passava os finais de semana, orgulhoso do pomar, da horta, das galinhas, gansos, pavões, perus, periquitos e da arara (que nos acordava aos gritos de “Dona Maria! Dona Maria!”).

Ali, no sítio que moldaram a seu gosto ao longo de décadas, com campo de futebol, viveiros, buganvíleas e pés de mandioca, seus mundos se encontravam: o do juiz da capital, e depois desembargador, e o da moça pobre de Pedra do Anta, criada na roça.

Da porteira para dentro, não havia meritíssimo juiz, vossa excelência, antessalas, discursos, formalidades, salamaleques – eram ambos o que sempre foram, um casal que gostava da vida simples, recebendo filhos, netos, amigos, colhendo no pé os frutos que plantaram ao longo da vida. Ali meu pai passava os dias sem camisa, e minha mãe de chinelos, no lugar que construíram para a velhice.

Há cerca de dez anos, minha mãe começou apresentar sinais do mal de Alzheimer. De forma lenta, mas inexorável, sua memória foi se deteriorando. Meu pai teve, possivelmente, os dias mais difíceis de sua vida quando, há alguns anos, ela deixou de reconhecê-lo. Quando eu lhe disse uma vez que ele era seu marido, respondeu: “Esse velho? Não casei com um velho, casei com um moço”.

Pois ela se acostumou à presença do “velho” e reconstruíram a relação com os escombros da memória avariada.

Ele cuidou dela com desvelo, até necessitar ele mesmo de cuidados, que lhe foram prestados pelos filhos, já que essa última missão foi roubada dela pela doença.

Ela acompanhou a seu modo o sofrimento dele, e não pôde estar com ele no momento da morte, imersa no labirinto da demência. Ele, por outro lado, nunca deixou de olhar por ela e protagonizar cenas de carinho.

O mundo do moço bonito, “filhinho de papai”, que queria ser advogado, juiz, desembargador, ter medalhas e reconhecimento, percorreu sua órbita junto com o mundo da moça bonita, de infância pobre, que nunca desejou ser mulher de ninguém, viver às custas de ninguém, à sombra de ninguém.

Nenhum dos dois foi metade. Nenhum se anulou para servir ao companheiro: foram ambos inteiros, íntegros, fiéis à sua essência.

É este o seu maior legado.

 

Babu

 

Babu

Esta bela senhora é minha bisavó, Maria Izabel de Souza Affonso,

Não chegamos a nos conhecer. Ela morreu, ainda jovem, no parto do quinto filho, quando meu avô era adolescente.

Dos meus antepassados, sempre foi a mais citada, e sempre pelo apelido: Babu – ou, mais comumente, vovó Babu.

Citavam-na porque era bonita, porque morreu de complicações de parto, porque meu avô tinha adoração por ela.

Deve ser lenda, mas corre a história macabra que meu avô, não conseguindo chegar a tempo do seu sepultamento, a fez desenterrar, um dia depois, para beijá-la uma última vez e se despedir dela.

Por causa dela, minha irmã se chama Júnia Izabel (minha mãe queria Júnia Maria, meu avô insistia em Maria Izabel – contentaram-se os dois, ficando ambos descontentes).

Algo mais que os laços de sangue nos une: o apelido. Não sei que caminho levou Izabel a virar Babu, mas desde bebê, minha mãe sempre me chamou assim. É ainda assim que me chama o meu irmão caçula – e só ele, agora que minha mãe não se lembra mais do meu nome.

Para meu avô, espírita, o fato de eu ter dado a mim mesmo esse apelido poderia ser um sinal – uma herança de outra vida.

Seria eu, então, a Babu reencarnada? Isso tornaria meu pai meu neto, eu bisneto de mim mesmo – e sogra da minha própria avó!

Por décadas tive a curiosidade de saber como eu era quando era uma mulher do século 19, mas não havia em casa sequer uma fotografia. Babu era só um nome – o meu nome – aplicado a uma antepassada, que também era eu, e que eu desconhecia.

Olho a foto, agora (me caiu nas mãos via internet), e não me reconheço. Não há déjà vu algum – nunca vi esse vestido, esse cordão, esse lencinho, essa coluna torneada onde me apoio para dar algum dinamismo à pose. Não, não sou eu.

Não peguei no colo a tia Geralda, não amamentei tia Agonia, não dei palmadas no tio Tão, não troquei as fraldas do meu vô Tote, não morri ao dar à luz o tio Bereco. Não deixei viúvo e inconsolável, com cinco filhos para criar, o calvo e bigodudo José Affonso.

Se tivesse sido eu, eu me lembrava.

Vinte e quatro de junho

 

Ontem se completaram 42 anos da morte do meu avô.
Hoje meu pai completaria 82.

Mortos e mortes fazem aniversário?
Ou aniversários são celebrações de anos de vida, não da passagem do tempo?

É o primeiro ano sem meu pai no 24 de junho, mas não o primeiro ano sem festa.
Meu pai deixou de comemorar a data desde que meu avô morreu, na véspera do seu aniversário. A data de mais um ano de perda se sobrepôs à de mais um ano de vida. O dia perdeu para ele a graça, a razão de ser

Ao fazer 80 anos, meu pai ainda não queria festa. Fizemos-lhe uma, quase à revelia. A desculpa para não celebrar continuava a mesma de sempre: a morte do pai, décadas antes.

O dia e a véspera de São João desde então unem meu pai a seu pai, fundem morte e nascimento, como se suas pontas se unissem, como se um ciclo se fechasse.

(Um grande medo que eu tinha, na adolescência, era que um dos meus pais morresse no meu aniversário – como meu avô morrera no de minha irmã, e meu outro avô no do meu pai – e contaminasse para sempre a data, entristecesse os presentes, amargasse o bolo, e as velas sobre o bolo evocassem outras velas, aquelas que só se apagam por si mesmas.)

Hoje é o primeiro 24 de junho, em décadas, em que não ligo para desejar feliz aniversário e não ouço, pela enésima vez: “hoje faz anos que papai morreu”, o que era uma fórmula que ele usava para dizer que não havia o que comemorar.

(Meu pai sempre se referiu a seu pai assim, desse modo infantil: “papai”
“Meu pai morreu” quer dizer que meu pai já não vive.
“Papai morreu” quer dizer que algo em mim não vive mais, também.)

Gostaria de chamar meu pai e meu avô, nesta hora, de papai e vovô. Minha irmã e meu irmão caçula é que ainda dizem “papai”. Não tenho essa força.

Por isso este texto de quase parabéns começa com:
“Ontem se completaram 42 anos que meu avô morreu.
Hoje meu pai não está aqui para completar seus 82.”

Dói menos.