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Profissão de fé

 

Lá nos idos de 2015…

Eu acredito que a Gisele Bundchen mantenha seus cabelos ondulantes e sedosos só à base de Pantene. Que Juliana Paes cuide, ela mesma, dos seus investimentos no Bradesco. Que a Ivete Sangalo prefira Nova Schin. Que a Fátima Bernardes consuma mortadela Seara.

Acredito que Malafaia ganhe a vida fazendo o Bem e levando a palavra do Senhor aos menos afortunados. Que Iemanjá tenha um serviço de controle de qualidade de oferendas e rejeite as que estiverem fora das especificações técnicas. Que Balzac e Victor Hugo façam fila em centros espíritas do interior de Minas para ditar suas novas obras, em vez de procurar uma editora em Paris.

Tenho fé que o sistema de cotas vá acabar com o racismo – e os médicos cubanos, com os problemas da saúde pública. Que a Venezuela seja uma democracia. Que as pedaladas fiscais tenham sido uma nobre iniciativa, à la Robin Hood, de tirar dinheiro dos ricos para amenizar as agruras dos desassistidos pela sorte. Que o Rio São Francisco vá ser transposto, que a subida da Serra vá ficar pronta, que a recessão seja uma marolinha.

Eu acredito que o Vasco consiga escapar da segunda divisão. Que o boxe e o MMA sejam mesmo esportes. Que o Brasil vá bater recordes olímpicos. Que os milhões gastos nas Olimpíadas tenham sido um bom investimento – assim como foram aqueles gastos nos estádios para a Copa do Mundo. Que Maradona seja melhor que Pelé, e que Dunga saiba o que está fazendo.

Creio piamente que roupa preta (ou de listras verticais) emagreça, que cavanhaque afine o rosto, que inhame substitua a picanha, que a tekpix seja a câmera mais vendida no Brasil.

Difícil mesmo é me convencer de que o Eduardo Cunha tenha abandonado o lucrativo negócio da venda de carne, que em poucos anos lhe rendeu milhões de dólares no exterior, para se dedicar à vida pública. Que tenha emprestado uma grana preta a um nobre colega, sem qualquer documento assinado. Que o sujeito tenha morrido sem pagar, mas o filho honrou a dívida – e depositou o pagamento numa conta secreta, sem avisar ninguém e sem pedir recibo.

Difícil mesmo é me convencer de que Lula ganhou US$ 3.500 por hora (dia e noite, 24 horas por dia) durante 4 anos, sem parar, só para dar palestras – e nenhuma delas ficou registrada para a posteridade. Foram palavras ao vento, pagas a peso de ouro.

E olha que eu acredito em amor eterno, saci pererê, marido fiel, brigadeiro diet, tratamento de canal sem dor, marceneiro que entrega no prazo, pagamento parcelado sem juros, orgasmo de garota de programa, declaração de advogado da Odebrecht, cogumelo do sol, higiene de pastelaria chinesa, e que a Fernanda Lima compre seus óculos nas Óticas do Povo (morô?).

Ficha Suja

 

Sabe o que é que Eduardo Cunha, Chico Buarque, Marcello Crivella, Hugh Grant e eu temos em comum?
Já fomos presos.

Por motivos diferentes. Mas fomos.

Aos 17 anos, Chico Buarque roubou um carro e foi preso. Tempos depois, subiu na mesa de um restaurante e atacou os outros fregueses com ovos e um discurso esquerdista – não se sabe o que incomodou mais – e foi preso também. Derrubou um muro em Santos – e foi preso pela terceira vez. Provocou um acidente de carro, e foi preso de novo.

Hugh Grant foi preso por fazer sexo no carro com uma prostituta.
Cunha, pelo conjunto da obra (mas oficialmente, por mentir numa CPI).
Crivella, por querer retomar na marra um terreno da Igreja Universal, ocupado por invasores.
Eu, por fotografar.

Aconteceu na pequena e pacata cidade de Andrelândia, terra da Solange, da Graça, da Rogéria, do James, da Alice, da Vanda, da Stella, da Lourdinha, da Delfina, da Maria de Fátima, da Valmira, do Carlos Giovanni Salomão.

Trinta anos depois de ter me mudado de lá e perdido totalmente com contato com todos esses amigos, resolvi voltar e ver se tudo estava igual como era antes.

Estava.

A mesma praça, o mesmo banco, não sei se as mesmas flores, mas certamente o mesmo jardim.

Não fosse minha casa não ser mais minha nem azul, e terem arrancado a escadaria do Colégio das Irmãs Sacramentinas (deixando-o com cara de elefante sem tromba), era como se três décadas não tivessem se passado.

Saquei a cam e comecei meu passeio sentimental pela igrejinha do Rosário, a ponte sobre o Turvo, a linha do trem, a estação, a ladeira que dava no Colégio, a casa azul e branca do James, a Igreja Matriz, a casa verde da Graça, o Fórum, e estava fotografando o cinema quando chegaro os home.

A patrulhinha parou do meu lado, desceram dois soldados com o dedo no gatilho e pediram os documentos. O que é que eu estava fazendo na cidade?
– Passeando.
E por que estava fotografando?
– Porque gosto de fotografia.
E para quê estava fotografando?
– Para mim.

De onde eu era? Por que tinha escolhido Andrelândia para passear? Onde estava hospedado? Para que queria as fotos?

Expliquei a história. Tinha morado lá quando era adolescente. Nunca mais tinha voltado. Deu saudades. Estava passando por perto, e resolvi ver como estava a cidade.

Não convenceu. Havia alguma coisa de muito errada no meu comportamento. Ninguém sai do Rio de Janeiro para ir fotografar uma cidadezinha do interior de Minas num domingo de manhã. Ali tinha treta.

Me lembrei do dr. Paschoal, meu professor de Português, pai da Lucília, promotor de justiça quando meu pai era juiz. Já tinha morrido. Perguntei quem era o delegado, talvez tivesse conhecido meu pai. Não havia delegado, eles é que eram a autoridade.

Perguntei que crime havia em fotografar se eu estava em lugar público, não tinha invadido a propriedade de ninguém.

Tocaram a campainha no prédio dos Correios, que fica bem ao lado do cinema, e chamaram o agente. O sujeito devia ter acabado de acordar. Pediram, na minha frente, que ele fizesse uma denúncia contra mim, por atitude suspeita. Que declarasse ter me visto rondar o prédio dos Correios, e por isso chamara a polícia. O sujeito concordou.

Pronto. Agora havia um crime, uma testemunha (ou potencial vítima, não sei) e eu ali, domingo de manhã, na rua deserta, com a arma do crime na mão (uma Canon 40D, com cartão de 8 gigas de memória e lente de 75-300mm), pronto para ir em cana.

Tentei ligar para o meu pai. Mas não tinha antena da Oi em Andrelândia.

Pra alguma coisa serve ter visto tanto filme de Hollywood, e falei que não ia preso sem um advogado. Só que, trinta anos depois, eu não me lembrava do nome de nenhum advogado dali. Tinha o meu professor de História, dr. Mauro Medeiros – mas quem disse que o nome dele me vinha à memória?

Os próprios policiais começaram a citar nomes, e um me pareceu familiar. Fomos pra casa do sujeito.

Abriu a porta com uma cara pior que a do prestimoso agente dos Correios. Obviamente não se lembrava de mim (saí de lá com 15 anos, estava com 45), mas tinha sido muitíssimo amigo do meu pai, e assumiu minha defesa na hora.

Não, não era caso de prisão – ainda mais depois de ouvir que a denúncia contra mim tinha sido forjada. Eu não era um perigoso marginal, um delinquente, um facínora. Só um nostálgico. Não, não precisavam me levar para a delegacia. Já tinham lavrado a ocorrência, eu já estava identificado, já tinha advogado constituído, na segunda-feira ele iria lá para pedir a baixa. E, não, não ia me cobrar nada. Que eu mandasse um abraço ao meu pai, e estava pago.

Os dois valorosos agentes da lei entraram na patrulhinha e seguiram sem mim, pelas ruas desertas, de volta à delegacia. O advogado (quem disse que me lembro do nome?) voltou para a cama. Eu perdi o tesão de fotografar (vai que sou preso de novo, e viro reincidente) e piquei a mula. Só voltei anos depois, e só fotografei acompanhado de algum amigo nativo.

Pensando bem, não foi exatamente uma prisão: não mofei atrás das grades, não fui algemado, não botei uniforme listrado nem fiquei marcando os minutos com riscos na parede.
Mas a prisão do Crivella também não foi prisão (só foi fichado, como eu) e ainda assim virou capa da Veja.

De qualquer modo, se um dia eu me candidatar ao que quer que seja, a oposição não precisa inventar nada, nem procurar nenhum escândalo sexual (que, infelizmente, não há).

É só ir a Andrelândia e requisitar minha folha corrida.
Não sou mais ficha limpa.

Lava Jato, o filme

 

1.
Coitadas da Globo e da Veja.

Se veiculam alguma notícia contra o Lula e sua quadrilha, são golpistas, estão a soldo do imperialismo, querem destruir as conquistas da esquerda.

Se fazem o mesmo em relação ao bispo Crivella, estão em campanha para o PT-cover, vulgo PSOL, e querem eleger Freixo para se vingar da TV Record e minar o poder da Igreja Universal.

Tudo bem que é preciso saber ler nas entrelinhas (ou nas estrelinhas), mas acho que estamos todos virando conspiracionistas.

Um livro racista e homofóbico escrito por um sujeito racista e homofóbico normalmente é só isso: um livro racista e homofóbico escrito por um sujeito racista e homofóbico, que faz parte de um plano maquiavélico dos fundamentalistas para chegar ao poder.

Não é nenhuma campanha das organizações Globo ou da Editora Abril para emplacar um radical bolivariano na prefeitura do Rio a fim de acabar de vez com a esquerda brasileira (e, de quebra, quebrar o Rio), fazendo com que a elite branca paulista retorne ao Planalto em 2018.

Ou é, e eu é que andei lendo pouco Dan Brown ultimamente?

2.
Com o Cunha preso, a dúvida que não quer calar não é quem será o próximo (todo mundo sabe quem é), mas quem vai interpretar Sérgio Moro no filme do Padilha sobre a Lava Jato.

Ao contrário do que se espalhou por aí, Wagner Moura não foi convidado e, consequentemente, nem pôde ter o prazer de recusar o papel. Tampouco disse aquilo que certamente pensa sobre o nosso herói da República de Curitiba.

Diz-se que Rodrigo Lombardi também teria recusado o papel – mas por problema de agenda, não de legenda.

Interpretar Moro seria uma prova de fogo para boa parte dos atores brasileiros.

Porque Isis Valverde no papel de periguete, Eri Johnson no papel de malandro, Ingrid Guimarães no de maluca e Paulo Gustavo no de neurótica não é exatamente o que se possa chamar de “interpretação”.

Atuação, no duro, seria um José de Abreu fazendo discurso sobre ética, decência e dignidade, sem piscar, sem desviar o olhar ou cruzar os dedos.
Ou Paulo Betti defendendo honestidade e competência sem gaguejar.
Ou Marieta Severo e Camila Pitanga falando em distribuição de renda, justiça social e combate à miséria sem cair na gargalhada.
Ou Letícia Sabatella como pessoa equilibrada.

Quando ao resto do elenco, já está quase todo fechado.
Luís Mello (no ar em “Sol Nascente”) será o Japonês da Federal.
O Sr. Burns fará Eduardo Cunha.
Ao Fernando Caruso caberá o papel de Cláudia Cruz.
Gregório Duvivier (sim, ele aceita fazer papel de bandido) será Lula.
E Elza Soares fará Marisa Letícia.

Talvez seja spoiler, mas tudo indica que, neste caso, o culpado não é o mordomo, e no final (a menos que haja delação premiada) o crime não compensa.

Conspiração

 

1.
A mãe judia dá dois pares de óculos ao filho.

Ele coloca imediatamente um deles (é um modelo Cunha, de armação grossa) e mostra a ela, todo pimpão, como ficou.

Ela olha com ar abatido, e pergunta, magoadíssima:

– E o Renan? (Renan é o outro modelo, de aro mais fino, mas da mesma marca).

2.
Ontem todo mundo pensou a mesma coisa: e agora, PT?

Como é que fica a “narrativa” de que o Moro é um infiltrado da CIA empenhado em destruir o partido que tirou 500 milhões de brasileiros da miséria, e colocou todos pra andar de avião?

Não, prender o Cunha não quer dizer nada, porque o Cunha é do PMDB, e o PMDB golpista era da base aliada, e então, em última instância, o Moro continua perseguindo o PT, só prendendo petista, pepista e peemedebista. Quero ver é prender alguém do PSDB.

E quem garante que prender o Cunha não foi um golpe (urdido pelo Moro, a PF, a TV Globo, o próprio Cunha e os Iluminati) para abrir caminho para o que realmente interessa, que é impedir que Lula se reeleja com 120% dos votos válidos em 2018?

O Moro achou que o seu golpe ia funcionar, mas não contava com a astúcia dos petistas.

3.
São várias as provas de que a prisão do Cunha foi um golpe.

O Moro mandou prendê-lo no Rio, mas ele foi capturado em Brasília. Quem garante que não era um sósia, um clone, um laranja?

No lugar do japonês da Federal, mandaram um figurante, contratado numa agência de modelos, um hipster de rabinho de cavalo, que posta foto sem camisa nas redes sociais e tem um “26” tatuado no peito.

E o que é 26? 13 + 13, claro. Duas vezes PT.

26 é 62 ao contrário, e em 62 o papa João XXIII excomungou Fidel Castro, Cuba foi expulsa da OEA, houve a crise dos mísseis (com Kennedy bloqueando Cuba) e o Brasil ganhou a Copa (vencendo a Tchecoslováquia, um país comunista, na final).

Em 26 d.C. Pôncio Pilatos substitui Valério Grato como procurador da Judeia (Pôncio Pilatos, pra quem já esqueceu do catecismo, é o juiz que lavou as mãos).

Precisa mais? Só não vê quem não quer.

4.
Não é só o PMDB que está cortando prego com medo que o Cunha dê com a língua nos dentes.

Quem tá numa sinuca de bico é a Dilma.

Se Cunha, para salvar a mulher e a filha, detonar todo o governo golpista e, de lambuja, mais uns 100 parlamentares, a anta poderia ressurgir das cinzas metendo o dedo no nariz de todo mundo e dizendo “eu não falei? eu não falei?”.

Porém ela falou também que não respeita delator.

E se o Cunha delatar o PSDB, ela passa a respeitar?

Nessas horas é que se vê que narrativa petista é que nem pisca alerta de carro de português: funciona, não funciona, funciona, não funciona.

Conflito

 

Não queria ser petista hoje.
Na verdade, nunca quis.
Hoje, menos ainda.
Hoje neurônio de petista (no singular, porque deve ser um só) vai ficar com torcicolo, de tanto contorcionismo.

Petista odeia a Lava Jato, porque a Lava Jato prende petista.
Hoje a Lava Jato prendeu o Cunha.

O solitário neurônio petista deve estar feliz com a prisão do Cunha.
Mas isso implica em estar feliz com a Lava Jato.
E a Lava Jato o deixa triste.

O neurônio petista está hoje numa montanha russa de emoções conflitantes.
Bipolarizou legal.

Não sabe se ri ou se chora – enquanto ri e chora.
Se se sente vingado porque prenderam o responsável pela estaca cravada no coraçãozinho valente ou traído por ter acreditado que a Lava Jato era boba, feia, do mal, e bicho papão dos petistas.

E o pequeno e ingênuo neurônio petista teme o pior.
Cunha e Lula na mesma cela.
Tomando banho de sol no pátio lado a lado.
Dona Marisa e Cláudia Cruz dividindo a mesma mesa na oficina de trabalhos manuais – e usando a mesma roupa!

E o esforçado neurônio petista, imerso na sua perplexidade, buscando desesperadamente um mantra onde se agarrar.
Um slogan qualquer, uma palavra de ordem que o impeça de pensar.

Mas ele precisa passar por isso, pra ir assimilando a realidade aos poucos.

Imagina se prendem o Aécio!
O neurônio petista infarta.

Novela

 

1.
Primeiramente, #foraJucá, #foraRenan, #foraLobão, #foraMaranhão, #foraGleisi, #foraHumbertoCosta, #foraLindbergh e #foraCollor.

2.
Pena que o Temer tenha conseguido tirar o presidente petista da Empresa Brasil de Comunicação, conglomerado de mídia criado por Lula para ser porta-voz da ideologia cumpanhêra e cabide de emprego (metade dos funcionários não eram concursados, mas indicados pelo partido).

Era o momento certo de a EBC se contrapor à Globo e lançar sua primeira novela das oito.

Letícia Sabatella seria Marisa, mocinha virgem, doce, meiga e idealista, irmã de Letícia, papel de Camila Pitanga, mocinha corajosa, guerreira e batalhadora.

Marisa e Letícia seriam casadas, respectivamente, com Luís (interpretado por José de Abreu) e Inácio (Wagner Moura), operários de uma fábrica de brinquedos para crianças carentes e que cultivavam uma pequena horta orgânica num terreno abandonado, graças à qual forneciam alimentos saudáveis a idosos transexuais vítimas do imperialismo ianque e do capitalismo selvagem.

Bem ao lado, num castelo em formato de loja da Daslu, viveriam Sérgia, megera malvada de mecha branca no cabelo, interpretada por Regina Duarte, e seu cruel capataz (Marcelo Madureira), conhecido como “O Mouro”. Sérgia e o Mouro estariam interessados em tomar o terreno abandonado para ali construir um hangar, um heliponto, um shopping e um despejo de lixo químico com potencial de contaminar todo o aquífero Guarani.

Em defesa de Luís, Inácio, Marisa e Letícia, se insurge Gleice, uma maconheira do bem, vivida por Sonia Braga. Ela mora numa maloca, nos fundos do terreno, onde cultiva “ervas medicinais” e mantém vivas as tradições xamânicas de seus ancestrais quilombolas. Gleice lutará com todas as suas forças para que seu casebre não seja derrubado, contando apenas com sua superioridade moral e a ajuda do portador de necessidades especiais Lindinho (Gregório Duvivier, em seu primeiro papel dramático). Marieta Severo teria uma participação especial como a coruja Kátia Vanessa, ave de bom agouro que dá sábios conselhos aos nossos heróis.

Para não acusarem a trama de maniqueísta, haveria um personagem bipolar, o José Eduardo Paes Cunha – ora um ardoroso defensor da natureza, ora um desmatador insensível e sanguinário.

Universitários de Humanas fariam figuração, e a trilha sonora teria canções venezuelanas nas vozes de Caetano Veloso e Tico Santa Cruz.

Nos intervalos, anúncios da Friboi, OAS, Odebrecht, Queiroz Galvão, UTC e Andrade Gutierrez – porque hay que combater el capitalismo pero sin perder el patrocínio jamás.

3.
E a Globo, hein?
Não contente em derrubar a Dilma, derrubou agora também o Cunha.
Será que não dá pra abrir uma filial no Estados Unidos e derrubar o Trump?

4.
Na porrada de spams de hoje, uma novidade.

“A maca Peruana é um suplemento das montanhas do Peru, produzida na altitude do Peru. A mesma atua na restauração das funções sexuais.”

Melhor que isso, só frutos do mar de Camarões, shorts de Bermudas e pomada para hemorroidas do Butão.

5.
A gente sempre soube que o Cunha era 10.
450 a 10.

Epílogo

 

1.
Acaba hoje agosto, o mês do desgosto, o mês do cachorro louco.

Como a natureza aprecia simbolismos, acabam também os treze anos (treze! olha o simbolismo aí de novo!) de PT no poder.

Quando setembro vier, não encontrará mais esse odor de mortadela no ar.

O mundo político ficará menos divertido, menos risível, menos bizarro.

Seguirão para o aterro sanitário a “nova matriz econômica”, o “no que se refere”, a palavra “presidenta”.

Retomarão seus sentidos originais “malfeito” e “estarrecida”.

Anta voltará a ser apenas um simpático e levemente estúpido mamífero perissodáctilo da família Tapiridae.

2.
Inês caiu, a casa foi pro brejo, a vaca é morta.

Mas, feito uma zumbi, se condenada, a presidenta recorrerá ao Supremo contra o “golpe”.

E se for (toc toc toc) absolvida? Recorrerá também?

Ou o “golpe” só é golpe se for condenada?

3.
– Boa tarde. Tudo bem com a senhora?
– O que está em jogo são as conquistas dos últimos 30 anos.
– Desculpe, não entendi. Quero saber se a senhora está sentindo alguma coisa, se há algum problema…
– Todos sabem que este processo foi aberto por uma chantagem explícita do deputado Eduardo Cunha.
– Não quero ser indelicado, mas a senhora marcou consulta aqui no meu consultório, e eu preciso saber o motivo…
– É golpe.
– Como assim? A senhora sofreu um golpe?
– Este é o segundo julgamento a que sou submetida. A democracia está comigo no banco dos réus.
– Foi um golpe na cabeça?
– Ao assinar os decretos, agi em em conformidade com a legislação.
– Minha senhora, ou a senhora responde às minhas perguntas ou…
– Na luta pela democracia, por uma sociedade sem ódios e intolerância, por uma sociedade livre de preconceitos e discriminações.
– Ok, vamos tentar de novo. Qual a sua idade?
– Sou uma mulher honesta, não tenho contas no exterior.
– Estado civil?
– Ministérios seriam paralisados, universidades fechariam as portas, a compra de medicamentos seria prejudicada.
– A senhora está tomando alguma medicação controlada?
– Com o apoio escancarado da mídia, criaram o clima político para a desconstrução do resultado eleitoral.
– Etelvina, me encaminharam essa paciente por engano. Aqui é ginecologia. Acompanhe-a, por favor, até a psiquiatria. Mas peça pro Lourival ir junto, porque ela está em surto e todo cuidado é pouco.

4.
Dilma cai daqui a pouco, é questão de horas.

Em seguida, cai o Cunha – é questão de dias.

E se o avião presidencial, a caminho da China, cair também?

Assume o Rodrigo Maia e se convocam novas eleições.

Eu, se fosse o Temer, viajava com um galho de arruda na orelha, espada de São Jorge na mão e mandava dar um banho de sal grosso no AeroLula, antes da decolagem.

E tratava de rebatizar logo essa joça.

Ombro amigo

 

– Bessias, me serve mais um campari.

– Madame, a senhora já tomou duas garrafas.

– Com pouco gelo dessa vez, Bessias.

– Madame, é melhor a senhora…

– Aquela vaia era pra mim, Bessias!

– Sim, madame.

– Ele me roubou a minha vaia!

– A da senhora seria muito mais bonita, muito mais sonora.

– Ele me tomou tudo, Bessias. Tudo que era bêu!

– Um desqualificado, madame. Um judas.

– Lutei tanto por aquela vaia, Bessias. Sonhei com aquele momento em que o Hollande, o Barack, a Cristina, o Chávez, todos me olhariam com inveja, porque nunca na vida deles eles conseguiriam uma vaia igual.

– O Barack não veio, o Chávez já morreu e a Cristina…

– Foda-se a Cristina, Bessias. E o Chávez morreu pra você, militante ingrato. Ele continua vivo no beu coração.

– O Maduro viria, se a senhora não tivesse sido golp…

– O Baduro não be interessa mais, Bessias. Quero que ele e a Benezuela se…

– Madame, vou fazer um chá de boldo pra senhora.

– Eu não queria o poder, Bessias. Quem bandava era o Lula, o Gilbertinho, o Ruy Falcão. Eu só queria era chamar o Kamura mais uma vez, botar beu taiezinho vermelho, fazer beus discursos, mandar beijos pra militância…

– Eu sei, madame.

– Sabe há quanto tempo eu não beijo, Bessias?

– Madame, vou preparar o chá de boldo e…

– Sabe, Bessias? A Suzana Vieira ainda benstruava quando eu beijei bêla últiba bez.

– Não fique assim, madame. Quando a senhora reassumir, é só a senhora ir a qualquer evento que não seja do PT que a senhora vai ganhar uma vaia maior que aquela.

– Bas eu queria aquela, Bessias! Eu queria a Gisele num doce balanço a caminho do bar olhando pra bim. Eu queria a Anitta remexendo as cadeiras pra bim. Até a Elza Soares parecendo uma múmia asteca eu queria pra bim, entende?

– Toma aqui um epocler, um engov e um hepatovis B12, madame.

– Custava, Bessias? Custava ter deixado eu abrir as Olimpíadas, custava? Depois eles impichavam, mas pelo menos eu teria uma selfie com a Berkel e a Bachelet, as três empoderadas, e a vaia…

– Nem a Merkel nem a Bachelet vieram, madame.

– A Barcela foi?

– Não, madame. A Marcela não foi.

– Como é que aquele vampiro mesoclítico tem uma Barcela, e eu não tenho ninguém, Bessias? Ninguém!

– Madame, seu chazinho.

– A elite branca paulista do Baracanã mandou o golpista tomanocu?

– Não, madame, não mandou.

– A mim eles mandariam, Bessias. E eu perdi essa oportunidade! Sabe quando vou ter uma outra chance dessas, Bessias? Sabe quando?

– Madame…

– Dunca! Dunca bais!

– Quem sabe o Eduardo Cunha não faz uma delação premiada, ferra todo o PMDB e a senhora ainda volta a tempo das Paralimpíadas?

– Vem cá, Bessias.

– Madame, a senhora já bebeu um pouco demais e…

– Bessias…

– Eu sou casado, madame…

– Me vaia, Bessias!

Duzentos bilhões

 

1.
O país com onze milhões de desempregados – e Paula Lavigne protestando contra a transformação do Ministério da Cultura em Secretaria.

Não há vacinas nos hospitais públicos, vinte e três mil leitos foram desativados – e Camila Pitanga protestando contra a transformação do Ministério da Cultura em Secretaria.

A recessão nos faz recuar uma década em relação ao resto do mundo – e Marieta Severo protestando contra a transformação do Ministério da Cultura em Secretaria.

A Educação patina, derrapa, se atola – e Fernanda Montenegro protestando contra a transformação do Ministério da Cultura em Secretaria.

A corrupção engole as maiores empresas do Brasil, contamina as obras públicas, corrói os limites entre o público e o privado – e Marco Nanini protestando contra a transformação do Ministério da Cultura em Secretaria.

O país tem um rombo de 200 bilhões de reais em 2016 – e Arnaldo Antunes protestando contra a transformação do Ministério da Cultura em Secretaria.

2.
Dizem que Temer é bom negociador.

Faltou negociar com seus ministros para não saírem atirando pra tudo quanto é lado, falando o contrário do que ele pensa, dizendo que ele vai fazer o oposto do que fará.

3.
Como é que o sujeito me extingue o Ministério da Cultura – que consome verba irrisória, mas tem imensa visibilidade – e deixa pra depois a escolha do titular da pasta, agora Secretaria?

E aí sai, feito bêbado com mau hálito em boate, ouvindo “não” de tudo quanto é mulher que aborda, de Marília Gabriela a Bruna Lombardi, passando por Daniela Mercury e até por uma comissária petista (que fez questão de vir ao feicebuque se gabar de ter-lhe dito não um “não” puro e simples, mas um “sonoro não”).

A sorte do Temer é que, depois de Dilma, nosso referencial de incompetência assumiu proporções intergaláticas, virtualmente impossível de igualar.

Mas que ele tem tentado, isso tem.

4.
Janot pediu a cabeça de Jucá e Renan.

Pelo bem do povo e felicidade geral da nação, tomara que consiga.

5.
O novo líder do governo é da tropa de choque de Eduardo Cunha, condenado quatro vezes pelo TCU, teve contas de campanha recusadas pelo TRE, é réu em três ações no STF e responde a inquérito por tentativa de homicídio.

E a gente achando que Delcídio do Amaral era o fundo do poço, o fim da picada.

6.
Lula declarou a jornalistas estrangeiros que o afastamento de Dilma foi “quase um estupro na democracia brasileira”, que ruiu o seu projeto de “inclusão social”, um projeto que “mostrou ao mundo que fica muito fácil governar um país e resolver os problemas do povo pobre quando você inclui os pobres no orçamento do país”.

A inclusão dos pobres não foi no orçamento, mas nas estatísticas de desemprego, inflação, inadimplência, morte por violência ou falta de assistência médica.

E estupro é o rombo de 200 bilhões que seu partido deixou nas contas públicas.

7.
A Caixa Econômica patrocina com R$ 100.000,00 o encontro de blogueiros e ativistas digitais em “defesa da democracia” e conta o “golpismo midiático”.

O evento será em BH e contará com as ilustres presenças da Presidenta Afastada Dilma Rousseff e do ex-Quase-Ministro Luís Inácio Lula da Silva.

Sobre esse tipo de uso de dinheiro público, não se ouviu qualquer manifestação de Taís Araújo, Renata Sorrah, Sônia Braga, Elisa Lucinda, Gregório Duvivier, Zélia Duncan, Laerte, Beth Carvalho, Leonardo Boff e outros “intelectuais” preocupados com o país.

Truculência

 

1.
Temer está aliviado com o afastamento do Cunha.

Temer está apavorado com o que o Cunha pode fazer estando afastado.

Bipolaridade, teu nome é Temer.

2.
Os petistas querem anular o processo do impítimã porque entendem que a destituição do Cunha invalida o processo que ele conduziu enquanto era Presidente da Câmara.

Isso quer dizer que, com a destituição da Dilma, ficam anulados também todos os seus atos?

Ou seja, a inflação é revogada, a recessão é declarada extinta, o desemprego some, a grana volta pra Petrobras?

Uêba!

3.
Não é preconceito, mas olhe para a cara do substituto do Cunha, o Waldir Maranhão.

Você compraria um bilhete de loteria premiado das mãos desse sujeito?

4.
Estudantes ocupam, à força, um prédio público.
Isso é livre manifestação democrática.

A Justiça manda retirar, à força, os invasores.
Isso é truculência.

5.
Quando cai o uotiçape, todo mundo corre pro telegrã, que é muito melhor, muito mais isso e aquilo.

Quando o uotiçape volta, todo mundo larga o telegrã, mesmo ele sendo tudo isso e mais aquilo.

Vá entender o serumano.

6.
Cunha foi defenestrado ontem.
Dilma será impixada semana que vem.

Quando tudo lhe parecer cruel e ameaçador, quando o futuro se prenunciar sombrio e o chão como que lhe fugir sob os pés, lembre-se: você não é o Renan Calheiros – e um raio de esperança brilhará no seu horizonte.