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Advogado do diabo

 

Lula morreu, chegou no inferno, encontrou o diabo e…
Não, essa piadinha já rolou sei lá quantas vezes.
Vamos começar de novo.

Lula morreu, chegou no céu, deu de cara com Deus e…
Não, essa também já tá batida.
Vamos tentar algo diferente.

Deus morreu. Quando abriu os olhos, ainda atônito, se viu diante de um juiz vestido de preto e um sindicalista de camiseta vermelha.

– Que diabos está acontecendo? perguntou, esquecendo que era onisciente.

– Exmo. Sr. Ex-Eterno e Onipotente – respondeu o juiz vestido de preto -, o Senhor morreu e está diante da Justiça Humana. Pesam contra o Senhor algumas denúncias que precisam ser investigadas antes que possa ser aceito no Paraíso Terrestre.

– Que denúncias? bradaram em uníssono Deus e o sindicalista.

(A bem da verdade, o que o sindicalista disse foi “ques denúncia?”, mas ha hora ninguém percebeu).

– Bem – esclareceu o juiz -, a lista vai da Sua omissão no holocausto judeu, no genocídio armênio, na limpeza étnica nos Bálcãs, nos morticínios na Rússia, na China, no Camboja, passando pelas epidemias na África, inundações na Ásia, ditaduras na América Latina, cataclismos variados, o 7 x 1 na Copa, o 4 x 3 no TSE e a escalação da Susana Vieira para o papel de filha da Nathalia Timberg numa novela.

– Tu tá de facanagem! (quem disse isso não foi Deus). Deus é o cara! Tirando o Brasil, que fui eu que fiz, e outras coisa, tipo o Bolfa Família e aquele porto em Cuba, foi Ele que criou o resto do Univerfo!

– Mas Ele vai para Curitiba até o Supremo decidir se Ele tem direito a foro privilegiado ou não.

Deus coçou o trianglinho que boiava sobre o cocuruto, o que era sinal que começava a perder a santa paciência.

– Não bastava Eu ser eterno e morrer, agora mais essa! Quem nesse tribunal supremo acredita ter poderes para Me julgar?

– O Gilmar. Reze para não cair na turma dele – respondeu o juiz de preto, sem nenhuma ponta de ironia.

– Nada difo! Vofê não vai pra Curitiba p*rr@ nenhuma. Tenho um lugar ótimo, com uma vifta divina, um andar pra vofê, um pro feu filho e um praquela pombinha que vofês cria. Não tá no meu nome, mas eu tô com a chave, pode ficá o tempo que quisé. E se não gostá de praia, tenho um fítio que também não é meu, mas é fó chegá e andá de pedalinho à vontade.

– Nada feito, interveio o juiz. Deus precisa prestar contas da Inquisição, dos crimes de pedofilia…

– Tem efcritura da inquisifão no nome dEle? Fi não tem, não é dEle.

– E tem o Vesúvio, as tsunamis, o Paulo Gustavo vestido de mulher fazendo propaganda do Banco do Brasil, o terremoto no Haiti…

– Não foi Ele, Ele não fabia de nada (e, virando-se para Deus) Bota a culpa na pombinha…

– Milhões morreram de fome e de doenças…

– Ele criou as asa das borboleta!

– … sem contar os animais sacrificados em rituais, que os veganos não perdoam.

– Ele desenhou a Fophie Charlotte! Fó o corpo, que o férebro deve ter fido o Diab…

Nem bem o sindicalista ia dizer o nome, fez-se um clarão, sobreveio um cheiro de enxofre e o diabo – que tinha acabado de morrer – apareceu, atordoado.

– Meudeusducéu, o que está acontecendo? exclamou o capeta, sem se dar conta de que estava diante do próprio.

– Bem, lá vamos nós começar outro julgamento – disse o juiz de preto ao sindicalista de vermelho. O Sr. Capeta é acusado de arrastar móveis de madrugada, vomitar na cara de padres exorcistas, enriquecer pastores pentecostais…

– Ele é um pobre diabo! Ele nunca quis fê rico! E já vô avisando: delafão premiada num vale!

Deuses

 

Deuses são de carne, como nós. Criados à nossa semelhança, fruto da nossa ânsia de sobreviver a essa mesma carne com que os moldamos. E são, como nós, perecíveis.

Os espíritos mais elevados também são isso: carne. Sentiram fome e sede, arfaram de cansaço, arderam de desejo. As santas menstruaram, os gurus gozaram em poluções noturnas –todos tiveram sonhos em que voavam, caiam em precipícios, estavam nus, tocavam outros corpos.

Ao conceber divindades, traçamos seus contornos no espaço. São todos matéria, ocupam um lugar. Os bíceps de Thor, o torso de Exu, o púbis de Vênus não são diferentes dos olhos vidrados das pitonisas, das barbas de Moisés e Maomé, da calva de Eliseu. Porque são machos e fêmeas, escravos de suas sinapses, reféns de seus hormônios.

São jovens e anciãos, sujeitos ao tempo: Eros com a vida pela frente, Nanã mais velha que a morte.

São quimeras: têm asas como Mercúrio, tromba como Ganesha, cauda cornos e cascos como Satã. Têm força como Iansã, vertem lágrimas como Ísis, trovejam como Tupã.

Têm olhos e veem, boca e falam – e, se falam, falam numa língua, dominam uma sintaxe, um vocabulário, pertencem a uma cultura.

Deuses foram gerados de um ventre: Hórus nasceu de Ísis que nasceu de Nut. Caos gerou Gaia que gerou Cronos que gerou Zeus. Deus através de Gabriel inseminou Maria.

Deuses, como nós, têm entranhas, músculos, nervos, curvas, reentrâncias. Tudo está lá: o abdome de Apolo, o falo de Príapo, os ombros de Netuno, o colo de Iemanjá.

Tem umbigo a Cabocla Jurema, têm linha da vida as palmas das múltiplas mãos de Kali, hão de ter pomos de adão Javé e Alá.

E que ninguém se iluda: apelam não só ao espírito, mas também à carne, o peitoral de São Sebastião, os quadris da Pombagira, os seios túrgidos de Virgem, as coxas de Cristo na cruz, os mamilos de Buda.

Falsidade

Falsidade

 

Aprendi pouca (pouquíssima) coisa na Faculdade de Arquitetura, mas duas valeram os cinco anos entre pranchetas bambas, papel vegetal pingado de suor e canetinhas entupidas de nanquim.

A primeira: Deus mora nos detalhes.

Mesmo para um ateu – que escreve Deus com maiúscula para diferenciar o deus ainda em circulação daqueles que já foram para a prateleira da mitologia -, isso foi como uma iluminação.

A segunda: as coisas são ou não são.

Um material pode ser natural ou sintético, e cada qual tem suas virtudes – mas um sintético que imita o natural tem de cada um apenas os seus defeitos.

Se a linha não for ortogonal, que seja uma diagonal russa, aquela que irrompe revolucionária e se afirma no desenho – caso contrário, será apenas uma linha torta.

Um elemento estranho ou indesejado não se disfarça: se assume (em arquitetês, se “tira partido” dele) e até mesmo se faz dele a estrela do projeto (vide a pedra enorme no meio da sala, na Casa das Canoas).

O que vale para a arquitetura vale para a vida.

Se não quero usar artefatos de couro por causa dos métodos cruéis utilizados na sua obtenção, por que deveria usar cintos, sapatos e sofás de “couro vegetal” ou “imitação de couro”?

Que nostalgia é essa da carne que faz veganos e vegetarianos consumirem derivados de soja chamando-os de “carne vegetal” – ou “carne de soja”?
Carne é a parte muscular do corpo dos animais – logo, “carne de soja” é uma impossibilidade, uma falsificação.
Carne é carne, soja é soja.

Faz sucesso no Rio um tal “Açougue Vegano” (quase fui lá este fim de semana, eu, que fico nauseado diante de qualquer açougue).
Ali, vendem bacon (de shimeji), coxinha (de jaca), hambúrguer (de quinoa), linguiça (de soja e shiitake).

Já não bastava o “churrasco” (de melancia) da Bela Gil – que serve também “hambúrguer” de feijão e “moqueca” de banana da terra?

Maionese de óleo de coco e iogurte (conforme ensinou a Rita Lobo) pode ser qualquer coisa – e pode inclusive ser muito bom – mas não é maionese.
Bife de cogumelo também deve ser ótimo – mas é cogumelo, não é bife.
Ceviche de coco pode até dar água na boca, mas não é ceviche.

Tudo isso me cheira a cerâmica imitando mármore, a plástico arremedando madeira.

A coxinha de jaca (deliciosa!) que eu trouxe de Viçosa não precisa ter o formato da coxa da galinha, evocando tristemente a pobre galinácea esquartejada.

Não virei vegetariano para comer leitãozinho de baroa à pururuca de gergelim.
Vaca de soja atolada.
Foie gras de cará.
Baby beef de couve-flor.
Espeto de coraçãozinho de nabo com moela de jiló.
Ostra de quiabo.
Camarão de chuchu com lula à dorê de palmito.
Picanha de berinjela.
Galinha de inhame ao molho pardo de beterraba.

Na culinária, cada coisa sabe a delícia de ser o que é – não precisa se travestir.

Deus, como sempre, mora nesses detalhes.

Salvação

 

Pouca coisa me fascina tanto quanto a lógica cristã.
Só é páreo para a lógica petista.
Principalmente porque, em ambos os casos, são tudo, menos lógicas.

O goleiro Vítor Ressurreição (de quem possivelmente nenhum de nós nunca ouviu falar até hoje) recusou em 2015 um convite para jogar na Chapecoense.

Por ser membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, não poderia treinar aos sábados. Como o clube não topou essa condição, ele foi parar num tal PSTC Procopense (do qual, tampouco, jamais tinha tido notícia).

Com o acidente da LaMia, o tal Ressurreição vem, cristãmente, a público, afirmar que Deus o salvou do desastre.

“Minha crença em Deus acabou me livrando do desastre. Se eu tivesse aceitado abdicar de minha fé, eu poderia ter estado lá naquele avião. Minha família, meus dois filhos e minha esposa estariam chorando hoje.”

Simples assim.

Deus o salvou por sua fidelidade a um preceito específico do Antigo Testamento, e destroçou os infiéis que colocaram o esporte acima das interdições divinas.

“Deus tem um plano de vida para cada um. Naquele momento ele me pressionou a não aceitar a proposta. (…) Sempre fui obediente a Deus e de alguma forma essa obediência acabou me poupando.”

Resta saber por que teria havido seis sobreviventes a bordo.
Vai ver, violavam a lei do sábado, mas não comiam carne de porco.
Ou não tocavam mulher menstruada.
Ou degolavam ovelhas como oferenda.

E permanece uma incógnita por que essa divindade misericordiosa não dizima os 90 e tantos por cento da humanidade que treinam, cultivam, comerciam, dirigem e fazem de um tudo nos sábados.

Mas Deus é fiel.
Deus é amor.
Mata setenta e uma pessoas, deixa uma cidade inteira em choque, faz chorar milhares de pessoas – só para mostrar a um sujeito – um ano depois! – que quem não guarda o sábado merece morrer.

Que falta faz Deus ter um perfil no feicebuque.
Um “like” na página do moço dava bem menos trabalho.

Parceria

 

O que seria do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo sem o diabo?

Reza a lenda que o diabo era um anjo, mas não tardou a botar o rabinho de fora e acabou demitido.

Na falta de uma Justiça do Trabalho onde registrar uma queixa mentirosa, inflacionando as horas extras e denunciando assédio moral e lesão de esforço repetitivo, não restou ao diabo senão mandar tudo pro inferno e partir para a ignorância.

Essa é a história oficial.

Agora imagine Batman sem o Coringa, Penélope Charmosa sem Dick Vigarista, Gilmar Mendes sem Marco Aurélio (ou vice-versa), o Brasil sem o PT.
Pois é.

Deus, Jeová e Alá, um jogando paciência, o outro postando foto de gatinho fofo, um terceiro estourando plástico bolha.
O mundo lá embaixo na mais perfeita harmonia, ninguém clamando por seu nome em vão – e eles condenados à inutilidade eterna.

Não foi pra isso que criaram galáxias, nebulosas, buracos negros, vírus e bactérias.

Até o Aguinaldo Silva sabe que, sem um bom antagonista, não há trama que decole.

O vilão é a alma do negócio.

Como diriam o Lulu Santos e o Nelson Motta, não haveria virtude se não houvesse o pecado.

Deus deve ter olhado para a maquete do universo, ficado feliz com Andrômeda, com o Cruzeiro do Sul, com o pavão, com o Pão de Açúcar, o arco íris, o Alain Delon e a Sophie Charlotte. Podia ter caprichado mais em Plutão, no Pezão e no Piauí, mas ninguém é perfeito.

Só que faltava alguma coisa.

Adão e Eva seriam felizes para sempre no paraíso, dominando sobre as aves do céu e todos os animais da terra sem nenhum vegano para encher o saco.

Aos sábados, sacrificariam uma ovelhinha inocente em sinal de agradecimento – uma espécie de dízimo, já que o Edir Macedo ainda não tinha inventado o dízimo no crédito e no débito.
E pronto.
Isso pelos séculos dos séculos, amém.

Tirando as ovelhas, ninguém teria do que se queixar.

Não ia dar certo.
Ou melhor, ia dar certo demais.
Tão certo que a felicidade ia virar defô, e ninguém seria feliz (porque o conceito de felicidade depende de haver a infelicidade como referência).

E Deus criou o diabo.

Marrento como um sindicalista.
Vermelho como um petista.
Chifrudo como boa parte da espécie humana.
E tinhoso como só ele mesmo.

Traçaram estratégias, definiram a logística, estabeleceram jurisdições.
Você levanta e eu corto.
Você cria dificuldade e eu vendo facilidade.
Você morde, eu assopro.

E inventou-se então a religião, que é uma espécie de flanelinha metafísica (se não deixar uma cervejinha, eu não me responsabilizo se seu carro aparecer arranhado).

Para dar mais veracidade à cena, Deus (ou Jeová, ou Alá, tanto faz), simulou o pontapé na bunda de Lúcifer, que deixou o Paraíso para assumir novos desafios.

O diabo, para Deus, literalmente, caiu do céu.

Pesquisa de satisfação do crente

 

DEUS: QUESTIONÁRIO DE CONTROLE DE QUALIDADE

Deus gostaria de lhe agradecer pela sua crença e apoio.
Ele pede que você dedique alguns minutos para responder a algumas perguntas.

Todas as suas respostas são estritamente confidenciais, e não é preciso fornecer nome ou endereço, a menos que queira uma resposta direta aos seus comentários ou sugestões.

1. Como soube da existência de Deus?
( ) Jornal
( ) Televisão
( ) Boca a boca
( ) Tabloides
( ) Bíblia
( ) Torá
( ) Outro livro
( ) Inspiração Divina
( ) Conversa com amigo
( ) Experiência de Quase Morte
( ) Sarça ardente
( ) Alucinação
( ) Outro. Especifique : _____________

2. Que modelo de Deus você escolheu?
( ) Jeová
( ) Alá
( ) Pai, Filho e Espirito Santo
( ) Tupã
( ) Satã
( ) Xangô
( ) Nenhum dos anteriores

3. Recebeu Deus em boas condições, sem falta de nenhuma peça?
( ) Sim
( ) Não
Se não, por favor descreva os problemas que encontrou:
____________________________________

4. Que fatores foram relevantes na sua decisão de escolher um deus? Marque todos os que se apliquem.
( ) Doutrinação pelos pais
( ) Doutrinação pela sociedade
( ) Necessidade de uma razão para viver
( ) Necessidade de desprezar alguém
( ) Amigo imaginário cresceu
( ) Incapacidade de pensar por mim mesmo
( ) Encontrar homens/mulheres
( ) Medo da morte
( ) Chatear os meus pais
( ) Necessidade desesperada de certezas
( ) Gostar de música de órgão
( ) Necessidade de sentir-me moralmente superior
( ) Uma sarça pegou fogo e me mandou fazer isso.

5. Já tinha adorado um Deus antes?
Se sim, que falso deus o enganou?
Marque todos os que se apliquem.
( ) Odin
( ) Zeus
( ) Apolo
( ) Rá
( ) o Sol
( ) a Lua
( ) o Dinheiro
( ) a Esquerda
( ) a Globalização Perversa
( ) Joaquim Barbosa
( ) o Repolho Ardente
( ) Outro. Especifique: ________________

6. Usa atualmente outra fonte de inspiração além de Deus? Marque todos os que se apliquem.
( ) Tarô
( ) Loteria
( ) Astrologia
( ) Televisão
( ) Charlatão
( ) Psiquiatra
( ) Cartomante
( ) Veja ou Carta Capital
( ) Livros de Auto-Ajuda
( ) Sexo, Drogas e Rock and Roll
( ) Coaching
( ) Paulo Coelho
( ) Folhas de chá
( ) Mantras
( ) Cristais
( ) Sacrifícios Humanos
( ) Pirâmides
( ) Meditação
( ) Amigos virtuais
( ) Sarça Ardente
Outro: _____________________________________

7. Deus utiliza um limitado grau de Intervenção Divina para preservar o equilíbrio entre a sua presença sentida e a fé cega. Qual prefere? (escolher apenas um)
( ) Mais intervenção divina
( ) Menos intervenção divina
( ) Atual nível de intervenção divina está bom
( ) O que é a intervenção divina?

8. Deus também tenta manter um equilíbrio entre desastres e milagres.
Numa escala de 1 a 5 classifique (1=insatisfatório, 5=excelente):

a. DESASTRES
Inundações
1 2 3 4 5
Fome
1 2 3 4 5
Terremotos
1 2 3 4 5
Guerras
1 2 3 4 5
Epidemias
1 2 3 4 5
Políticos
1 2 3 4 5
Spam
1 2 3 4 5
Windows 10
1 2 3 4 5

b. MILAGRES
Salvamentos
1 2 3 4 5
Remissões espontâneas
1 2 3 4 5
Eleição do Trump
1 2 3 4 5
Imagens que choram
1 2 3 4 5
Água transformando-se em vinho
1 2 3 4 5
Caminhar sobre as águas (exceto Tietê e Baía de Guanabara)
1 2 3 4 5
Arbustos que falam
1 2 3 4 5
Freezers frost free
1 2 3 4 5
Lula ainda solto
1 2 3 4 5
Vasco ganhar campeonato
1 2 3 4 5

9. Tem algum comentário ou sugestão adicional para melhorar os Nossos serviços?
___________________________

Deus agradece

Três pequenas reflexões sobre ser ateu

 

1.
Uma nova moda (ou onda, ou praga) ganhou força no Rio (talvez no Brasil todo), o “vai-com-deus”. Em qualquer despedida, ou mesmo na saída do supermercado, do posto de gasolina, é quase inevitável ouvir a frase.

Ok, “adeus” já tinha esse significado (“a Deus”: que Deus te acompanhe, a Deus te recomendo), mas como soa estranho (e pega mal) o frentista ou o segurança dizer “adeus” a quem ele nem conhece, o “vai-com-deus” caiu nas graças do povo.

Fico pensando no que diria um evangélico a alguém que se despedisse dele com um “vai com Xangô”, ou um muçulmano em relação a um “vai com Jeová”.

Tenho vontade de dizer “fique você com Deus: eu sou ateu”, mas ia comprar briga. Ou pelo menos receber o mesmo olhar que Belzebu receberia, se existisse e se materializasse diante de um crente. De mais a mais, reagir como um neopentecostal ou um fundamentalista islâmico não é referência de comportamento.

Agradeço, e deixo quieto. E se Deus vai comigo, vai quieto também. Não diz um A.

2.
Meu ateísmo é sempre posto à prova: aproveito ou não o feriado de Natal, de Corpus Christi? Numa nação laica, datas religiosas seriam comemoradas (religiosamente, eu suponho) apenas pelos que tivessem algum motivo para fazê-lo. Os demais tocariam a vida.

Não aqui, onde o Catolicismo deixou de ser oficialmente a religião do Estado para continuar a sê-lo de fato: nas cédulas que insistem que Deus seja louvado, nos crucifixos onipresentes em repartições públicas, nos feriados em que o país para pra, teoricamente, celebrar o nascimento de Cristo, o corpo de Cristo, a mãe de Cristo, a paixão de Cristo.

O que fazem os não-católicos (aproximadamente 70 milhões de almas – ou não-almas, talvez) nesses dias ditos santos? Vão à praia, vão pescar, visitam a sogra, arrumam a casa, lavam o carro na calçada… Ou seja, mais ou menos o mesmo que faz a maioria dos católicos.

Para que, então, feriados religiosos – ou melhor, feriados católicos (já que – à exceção de um Dia de Ogum, disfarçado de Dia de São Jorge – nenhum feriado comemora datas muçulmanas, judaicas, budistas, umbandistas ou cientológicas)?

3.
A palavra “ateu” me incomoda.

O que me define, talvez, não seja não crer em Deus – mas em mitologias, superstições, pensamento mágico.

Sei que toda “mágica”, por bem executada que seja, e ainda que eu não descubra o pulo do gato, é apenas um truque. E que “sobrenatural” é só aquilo para que não se tem ainda uma explicação (como não tiveram, um dia, os relâmpagos, as infecções, os terremotos).

Eu também não creio em gnomos, e nem por isso me declaro “agnomo” – ou “aduende”, “abichopapão”, “achupacabra”.

Melhor me definir por aquilo em que acredito – não sou ateu, mas racional, demasiadamente racional.

Vale a pena ser ateu?

 

1.
Pense bem.
Você tem o livre arbítrio de acreditar em Deus ou não acreditar em Deus.
Se você acredita, morre e Deus existe, você se deu bem.
Se você acredita, morre e Deus não existe, você nem fica sabendo.

Por outro lado, se você não acredita e Ele existe, você tá lascado.
E se você não acredita e Ele não existe, você nem vai poder esfregar seu acerto na cara dos crentes, porque morreu, acabou.

Muito injusto pro ateu, né não?

Mas então por que um ateu, que se acha tão esperto (todo ateu se acha muito esperto) não acredita só por via das dúvidas, mantendo seu ateísmo na moita?
Porque Deus, se existir mesmo, saberá que a crença era só da boca pra fora, e de repente isso é até um agravante.
O castigo divino, em vez de uma eternidade inteira no inferno, pode ser uma eternidade e meia. Ou duas eternidades, quem sabe.
Pra Deus, nada é impossível.

Por outro lado, e se quem criou tudo foi o Capeta (há boas evidências disso) ou o bicho papão, um duende verde ou alguma divindade cultuada apenas numa galáxia muito muito mas muito distante, da qual jamais ouvimos falar?
Você morre crente que tá abafando, e do lado de lá dá de cara com um deus que não usa camisolão branco, não tem um triângulo boiando em cima do cocuruto e não dá a mínima pro dízimo.
Pelo contrário: considera suborno com dinheiro uma ofensa pessoal…

O ateu pode fazer cara de paisagem.
Alegar que não acreditava nesse deus da bíblia, do alcorão, dos papiros egípcios, dos templos gregos, vikings etc, mas que não tinha como descrer de algo que nem conhecia.
Com um bom advogado, ganha essa causa fácil.
Mas você, não. Você adorou o tempo todo o deus errado.
Perdeu, playboy.

2.
Havendo milhares de deuses na Terra – e sabe-se lá quantos milhões de outros por esse Universo enorme afora – sabe quais são as chances de o seu Deus particular ser o certo?

Zero vírgula nada em um porrilhão, se muito.

E não deve colar o seu argumento de que o Edir Macedo fez lavagem cerebral em você, ou que foi enganado pelo Malafaia, pelo Estado Islâmico, pela Mãe Dinah.

Ok, se Deus existe (qualquer deus que seja) Ele saberá que você se esforçou, fez o que pôde. E isso vale tanto pro crente quanto pro ateu.
Mas quem garante que Deus é bom?
Que é justo?
E se Ele for uma entidade do Mal, tipo o Paulo Henrique Amorim, o Franklin Martins, o Lewandowski, o Maníaco do Parque, o Ruy Falcão?
E se o negócio dEle for ver o circo pegar fogo, o pau comer, a jiripoca piar?

O ateu pode até se ferrar junto com você.
Mas pelo menos não perdeu tempo orando por milagres impossíveis (todo milagre é impossível), fazendo jejum, arrancando prepúcio, segurando a franga, degolando galinha preta na encruzilhada (em vez de fazê-la ao molho pardo ou com quiabo).

O ateu pelo menos usou o dinheiro para ajudar alguém ou pra se divertir, não pra bancar a boa vida do “pastor”.
Fez sexo sem culpa (ou com menos culpa) e se lixou para os valores cristãos da homofobia, da intolerância, do machismo e da superioridade racial.

(Se você acha que ser cristão não tem nada a ver com isso, é porque não leu a Bíblia direito ou não prestava atenção às aulas de História no ginásio.)

3.
Mas acontece que ser ateu não é uma escolha.
Você tem um cérebro e usa, a consequência é natural.
Se você tem um cérebro, usa, mas bloqueia algumas funções, é capaz mesmo de achar que quem criou zilhões de galáxias vai se empenhar em fazer seu time ganhar, você perder peso, seu namorado voltar pra você, cair na prova só aquilo que você estudou.

Que os buracos negros se pegando e gerando ondas gravitacionais por bilhões de anos são só um hobby, um negócio que Deus faz pra relaxar enquanto não está cuidando do que realmente importa, que é curar sua tia que opera na quarta ou fazer não ter Lei Seca no seu caminho, porque você tomou dois chopes.
Os refugiados que se afogam no Mediterrâneo, as vítimas da fome na África, os soterrados pelo terremoto, os desempregados pelo PT – como ter tempo pra isso com você O monopolizando (“Ai, meu Deus! Vai com Deus! Deus lhe pague! Deus me livre”) o tempo todo?

4.
Posso estar errado.
Mas ainda acho que o ateu sai no lucro.

Porque se Deus existir e for do bem, não há de ser daquele tipo que precisa ser bajulado, adorado nem vai cair em chantagens emocionais (tipo “se você me arrumar marido eu fico sem comer carne uma semana”, ou “subo de joelhos a escada da Penha e fico uma semana sem conseguir andar”).
Não vai ficar feliz com sacrifícios, renúncias e sofrimentos. Quem ama quer a felicidade do outro, não o infortúnio. E aí tanto faz se você é ateu ou crente: o que vai contar é o que você fez de bom.
Ou pelo menos o que não fez de ruim.

E se Deus existir e for do mal, a ruindade em pessoa (tipo assim Zé Dirceu, um Bashar Al Assad, um George Bush, um Nicolás Maduro), aí, meu irmão, nos lascamos todos.

Menos, claro, os “pastores” que forjam milagres, manipulam, chantageiam e vivem do estelionato da fé. Os padres pedófilos. Os pais de santo espertalhões. Os gurus de araque. Esses, sim, vão se dar bem. Jogavam no time.

5.
Enfim, é um risco.
Se daqui a cem anos estivermos conversando sobre isso, você venceu – estejamos nós tocando harpa e pisando em nuvens, ardendo no enxofre e ouvindo Engenheiros do Hawaii, ou pegando senha pro limbo.

Mas se nossos átomos estiverem apenas reconfigurados por aí, saiba que lamento muito pela sua alma inexistente, pelas suas vãs esperanças de reencontrar os entes queridos e pelas doze mil virgens a que você teria direito após explodir sei lá quantas pessoas em nome de um Deus que sempre existiu só na sua imaginação.

Brincando de Deus

 

A cada avanço da Medicina aparece alguém pra dizer que o homem está “brincando de Deus”. Foi assim com o transplante de coração, com o bebê de proveta, com o uso de células tronco – e suponho que deve ter sido também na primeira vez que a mamãe neandertal colou um esparadrapo (de tripa de velociraptor) na testa de um trogloditinha ferido.

Mas nada é mais parecido com brincar de Deus que a jardinagem. Diante do canteiro, pazinha em punho, a mais inocente das criaturas se transforma numa potestade, com poderes de vida e morte sobre a flora que tem diante de si. E com que prazer as até então inofensivas velhinhas e esposas de rotarianos se dedicam a decidir que plantas serão salvas, e regadas e podadas e cuidadas, e quais serão arrancadas sem dó nem piedade, e deixadas para morrer à míngua.

Não há mágoa de humilhações no lar ou bullying no trabalho que sobreviva a meia hora de jardinagem. Há quem prefira a terapia do grito primal, o psicodrama, o boxe ou o adultério. Mas esses ou deixam hematoma ou têm custo alto (moral e/ou financeiro). A jardinagem, não: o dano máximo é um pouco de terra sob as unhas e um ou outro dedo espetado. E pode ser praticada na varanda ou no jardim de casa, a qualquer hora, na frente de todo mundo.

O efeito terapêutico da jardinagem é a encenação, diante de cada plantinha, de uma espécie de Juízo Final. Você olha para a planta (totalmente à sua mercê, sem a menor chance de fuga), pesa os prós e os contras, põe na balança seu aspecto, suas folhas, seu tamanho, sua espécie e, sem apelação possível, a deixa viver ou a condena à morte. Simples assim. Deus em estado puro – e sem nossassenhoras, santos ou anjos para interceder por essa gramínea ou rogar por aquela avenca.

A grande questão que se impõe, nesse momento sublime (que só conhece quem pratica a jardinagem) é saber distinguir, num átimo, quem é planta, quem é mato. Aparentemente, basta fazer como no dia-a-dia e julgar pelas aparências: as bonitas são plantas, os feios são mato. Mas não é bem assim: num tocante paralelo com a espécie humana, há plantas muito feias, e matos lindos.

Minha irmã tinha uma técnica sofisticadíssima pra saber quem é mato, quem é planta. É só puxar. Se sair, é planta. Se se agarrar com todas as forças ao chão, é mato. Ou seja, mais uma vez, a jardinagem como metáfora da vida. Quem a gente quer do nosso lado está sempre saindo pela tangente, nunca está disponível hoje à noite, não atende o telefone, mal curte nossas postagens. Mas as ervas daninhas, essas não largam do nosso pé: inventam um jeito de aparecer onde quer que a gente vá, insistem em nos convidar pra alguma coisa hoje à noite, ligam, mandam SMS, comentam tudo (até a gente não aguentar mais e bloquear).

Finda a capina (no jardim, no canteiro, no vaso, no xaxim), tal como Deus ao sétimo dia, o adepto da jardinagem se espreguiça, feliz. As juntas doem um pouco (ter dor nas juntas parece ser pré-requisito pra se praticar jardinagem), mas você se levanta, limpa as mãos na calça (ou na saia) e contempla sua obra: os maus separados dos bons, o Mal (o mato) enfim punido (arrancado pela raiz!) e o Bem todo faceiro, agora com mais espaço e menos competição pelos nutrientes do solo.

Quanto mais oprimida e frustrada é uma criatura, mais alento ela encontrará na jardinagem. Em torturar plantinhas cortando seus galhos, arrancando suas folhas, mudando-as se lugar ao seu bel-prazer. Se Deus soubesse disso, não precisava ter tido essa trabalheira toda de criar o mundo, as aves do céu e os peixes do mar, e todas as espécies que povoam a Terra e as galáxias rodopiando pelo firmamento. Era só fazer como eu: pegar a pazinha e se agachar diante de um vaso de plantas. Tem o inconveniente da dor nas juntas ou nas costas, mas nada que um emplastro Sabiá não resolva.