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Xingó

 

Xingó é onde o Rio São Francisco, exausto da viagem desde Minas, resolve dar um tempo e se despedir do sertão antes de chegar ao mar.

Ali ele se deita, se espalha num grande lago, se espreguiça entre os paredões, vai fazer a sesta por entre as frestas, e experimenta ter profundidades que só irá atingir novamente quando deixar de ser rio para ser Atlântico.

De um lado, Alagoas. Do outro, Sergipe. Um pouco antes, a Bahia. E mais adiante, esperando-o de braços abertos, depois da longa travessia, o oceano.

Xingó é o canto do cisne do São Francisco, antes de se afogar no mar.

 

São Felipe

 

Conceição do Almeida

 

O que não falta aqui por perto de Santo Antônio de Jesus é cidadezinha da qual nunca ouvi falar, e cujo nome, por si só, já dá saudade e vontade de voltar, mesmo sem nunca ter ido lá.

Conceição do Almeida é dessas. Não imagino quem teria sido a Conceição, muito menos o tal do Almeida. Mas o nome me evoca tradições da roça, em que sempre se é de alguém. Minha mãe, por exemplo, era Maria de Clotilde, Maria de Zizico, antes de se casar e virar Maria de Sidney.

Quase em frente à igrejinha, a barbearia me lembra de que já tem quase um mês que não aparo a barba, e que é hora de abandonar esse visual de náufrago.

O lugar é pintado de vermelho, o barbeiro se chama Lula, mas não é petista. Peço para só aparar, mas ele se entusiasma e não economiza na navalha.

Na rua em frente, o açougue é a céu aberto, para deleite das moscas. Na volta, vejo que se vendeu tudo – os mocotós, a cabeça de porco, as vísceras, e as moscas agora estão às moscas.

Mais adiante, alguém escolhe galinhas numa gaiola. Outro pinta a casa de verde, amarelo e azul, todos brilhantes. E a vendinha tem apenas meia dúzia de laranjas, todas vencidas. E outra barraca exibe apenas quatro litros de licor – o dono e os amigos, sentados ao lado, parecem ter tomado todo o resto (há ainda um litro, do de genipapo, sendo lentamente degustado).

O vento nas bandeirinhas faz a cidade parecer banhada por uma cachoeira.

Conceição do Almeida, Bahia. A que já era uma saudade antes mesmo de ter sido.

 

São Francisco da Mombaça

 

Fica logo depois de Conceição do Almeida, no caminho para São Felipe.

Da estrada, só era possível ver as bandeirolas e parte do casario, arrodeando a igrejinha, que fica de costas para a pista.

Mas não deu pra resistir: desci ali mesmo – era tudo que eu procurava: um arraial de verdade, sem palco para show, sem barraca de pizza e sem música sertaneja (tocava era forró mesmo)..

O único boteco não tem banheiro. Toma-se cerveja por conta e risco.

Boas surpresas acontecem quando se está aberto para que elas aconteçam.

 

Cruz das Almas

 

A maior tradição das festas juninas de Cruz Dazalma são as queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus.

Esqueça pular fogueira, tomar quentão ou ouvir Wesley Safadão – a boa daqui é a guerra de espadas, que consiste é soltar um rojão que voa a esmo, ropopiando pelo chão e pelos ares, mas vindo inapelavelmente na sua direção.

O folguedo é proibido, claro. E, claro, praticado a céu aberto, com hora marcada, multidões de aficcionados.

As casas se protegem com telas, e são o único refúgio seguro – no galope para fugir do bombardeio, entrei em duas, sem pedir licença.

O que não falta é banquinha vendendo bombinha, traque, rojão, e o que quer que leve pólvora, faça barulho e seja perigoso.

Há também um hilário casamento na roça e muitos, muitos entrondos.

Definitivamente, Cruz das Almas não é recomendada para refugiados de guerra, pessoas com apreço pelos tímpanos e pela própria pele.

Amargosa

 

Porteiros não entendem de nada.

Amargosa é mil vezes mais interessante que Santantõe de Jesus.

 

O melhor São João da Bahia

 

Perguntei ao porteiro (porteiros sabem de tudo) qual o melhor São João da Bahia.

Ele não teve dúvidas: Santo Antônio de Jesus.

Depois tergiversou: tem também Cruz das Almas e Amargosa. Mas Cruz das Almas tem guerra de espadas, que deixa centenas de queimados todos os anos. Santantõe, sim, é o melhor São João.

No caminho para cá, dos dois lados da estrada, povoados, vilarejos, casinhas isoladas, tudo embandeirado, como se Volpi tivesse passado por aqui e deixado sua marca onde quer que houvesse um poste, um mourão de cerca, um terreiro, uma varanda.

Em Santantõe a coisa é mais profissional. Tem palcos e mega-atrações como Flávio José, Padre Alessandro, Adelmário Coelho, Aduílio Mendes, Os Tião, Os Cumpadi, Acarajé com Camarão, e os onipresentes Luan Santana e Wesley Safadão.

O Safadão, aliás, aparentemente estará em todos os municípios baianos (quiçá em todos os nordestinos), entre hoje e domingo. Talvez seja um caso de clonagem, de teletransporte, de bilocação (ou polilocação, plurilocação, onilocação).

Estou de olho é no show de Filomena Bagaceira – seja isso uma cantora, uma banda, ou um cover do Safadão.

 

Trem

 

1.
Marina Silva diz que é uma injustiça e uma “agressão sem tamanho” a denúncia de que teria recebido dinheiro sujo para sua campanha.

Não é.
É apenas uma denúncia – como centenas de outras a outros políticos – e que deve ser apurada.

Se não se comprovar nada, ela retoma o papel de “a virgem do puteiro”.
Se se comprovar, a casa das primas taí é pra isso mesmo.

2.
Marina Silva quer novas eleições para “repactuar a sociedade”.

Marina Silva diz que “estamos nesta situação porque as pessoas só pensam em eleição”.

Marina Silva sabe que as eleições hoje só interessam ao Lula, já que não há alternativa ou oposição.

Marina Silva só pensa em eleição.

3.
Dilma usará financiamento coletivo para viajar pelo Brasil, depois que o Temer cortou suas asinhas.

Nunca antes na História deste país uma anta dependeu de uma vaquinha pra voar.

4.
São 6:53 da manhã e ainda não caiu nenhum Ministro.

5.
Uma sujeita decidiu ficar pelada e depilar suas vergonhas em frente ao Museu de Arte Contemporânea.

Até aí tudo bem, podia ser só uma performance de arte contemporânea.

Alguns viram naquilo um ato de apoio a Dilma Rousseff, já que a despudorada empoderada gritava “Fora, Temer!”.

A meu ver, depenar o entre-as-coxas foi uma forma clara de demonstrar apoio aos coxinhas, e uma crítica sagaz aos petistas, esses pentelhos que temos que arrancar pela raiz.

Tá, ela gritava “Fora, Temer” – e daí? Queriam que ela, em posição ginecológica, gritasse “Entra, Temer”?

Ia é levar umas bifas da Marcela, que pode ser bela, recatada e do lar, mas não entende nada de arte contemporânea.

6.
Em algumas coisas, a Bahia é bem parecida com Minas.

Diz que o mineiro foi à estação ferroviária, carregando aquele monte de trem que todo mineiro carrega quando viaja.

Aí bateu uma fome, e ele resolveu comer um trem qualquer no botequim ao lado. O trem não caiu bem, e ele começou a ter um trem.

No hospital, foi atendido por uma enfermeira que era um trem de doido. E se tem um trem que mineiro gosta é ser tratado por um trem bão daqueles.

Como tinha um trem importante para fazer na outra cidade, e seria um trem danado se não chegasse a tempo, ele catou os trens, escreveu um trem qualquer como agradecimento, e por pouco não perde a locomotiva.

Pois na Bahia, a porra é mais ou menos assim também. Passa uma mulher da porra, numa ousadia que só a porra, numa porra de um vestido justo da porra. O cara, porra, fica naquele tesão da porra, se perguntando que porra é aquela, e quase acaba todo sujo de gala.

Itaparica

 

Já é São João na Bahia