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Sobre cães e lobos

Se você adotar um filhote de lobo e tratá-lo como um cão, ele se tornará, no máximo, um lobo com pelo macio. Nada fará dele um cão.

Não em menos de alguns milhares de anos.

Cães e lobos têm muito em comum, mas diferem em algo fundamental: o cão te ama à primeira vista; o lobo te verá como uma presa em potencial a vida inteira.

Uma teoria diz que lobos menos capazes (ou mais preguiçosos) foram colando na nossa espécie por uma questão de custo x benefício. Para esses, mais valia um resto de comida 0800 que um banquete à base da carnificina.

A seleção natural fez o resto, e o lobo mais bobo deixou a alcateia para entrar na família.

Outra teoria diz que alguns lobos desenvolveram uma desordem genética similar à Síndrome de Williams – que, nos humanos, entre outras coisas, torna as pessoas hipersociáveis. As linhagens portadoras desse gene com defeito deram origem ao cão.

O cão afetuoso seria um lobo doente.

Não será o amor, também ele, um transtorno, um gene torto que nos faz confiar, depender, proteger, perdoar- e, em casos extremos, permitir que nos tratem como a um cão?

A Ciência há de descobrir (a Ciência descobre tudo – o que não descobre, inventa) que o ciúme, a possessividade, a paixão – efeitos colaterais do amor – não são mais que perturbações no DNA: um desarranjo na citosina, um desconcerto na timina, um desassossego na adenina. 
Nada que a terapia genética (adeus, Freud Rogers Moreno Lacan Skinner) não resolva.

Macacos disfuncionais é o que talvez sejamos, mal equilibrados nas patas traseiras, autoflagelados pela culpa de um pecado que não cometemos, nos autoinflingindo uma monogamia mais apropriada a pombos, periquitos e pinguins.

O homem não é o lobo do homem – é o cachorro do macaco.

Legado

 

Quando se casaram, em 12 de setembro de 1959, meu pai era estudante secundarista e minha mãe, costureira.

Ele tinha 25 anos, ainda não concluíra o ensino médio, e dependia dos pais, que custeavam seus estudos.

Ela, aos 29, era independente e se sustentava costurando para fora. Como não possuía uma máquina de costura, trabalhava na casa de suas clientes. Foi assim que se conheceram: ela indo à casa dele para fazer o enxoval da futura cunhada.

Aprovado no Vestibular de Direito da PUC de Petrópolis, em 1960, meu pai para lá se mudou, às expensas de seu pai, arrendatário do Hotel Rubim, em Viçosa.

Nesse hotel minha mãe foi morar, com o primeiro filho – mas não como dependente do sogro. Comprou sua primeira máquina de costura e fez do seu quarto o ateliê de costura e meio de vida.

Ali, enquanto os filhos brincavam entre revistas, tesouras e retalhos, se sustentou criando roupas e fazendo vestidos de noiva, que se tornaram sua especialidade.

(Me lembro do seu orgulho ao comentar sobre um vestido cuja cauda ainda subia as escadarias da igreja quando a noiva já chegava ao altar.)

O segundo filho nasceu em agosto de 1960, quando o marido mal tinha passado no Vestibular.
O terceiro – única filha -, em dezembro de 1961, com o marido já universitário.
Compareceu à formatura do marido grávida do quarto filho, nascido em junho de 1964,

Durante todo esse período, bancou as despesas próprias e da prole. Durante todo esse período, cuidou e educou os filhos sozinha, sob o teto e o olhar dos sogros.

Com meu pai formado e tendo aberto seu escritório – primeiro numa sala do hotel, depois num imóvel na mesma praça – ela seguiu sustentando a família, até que ele se estabelecesse como advogado.

Na divisão de tarefas que se propuseram, ela arcava com as despesas, ele amealhava patrimônio.

Assim, conseguiram comprar o primeiro imóvel, uma casa no Bairro de Lourdes, em Viçosa, para onde nos mudamos, e o primeiro automóvel, um fusca.

Optando por trabalhar em casa, e mais perto do centro, alugaram outra casa, na Rua Virgílio Val, para onde a família se mudou – e lá, no pavimento térreo, no que seria a sala, funcionava o escritório do meu pai. No andar de cima no grande quarto da frente, o ateliê de costura. No quarto ao lado, nasceu o quinto filho, em 1968 – mesmo ano em que meu pai se tornou juiz.

(Ela costumava dizer que teve filhos de cinco pais diferentes: um secundarista, um vestibulando, um estudante de Direito, um advogado e um juiz.)

Mudamo-nos para Unaí, no Noroeste de Minas, e meu pai decidiu que “não ficava bem” a mulher de um magistrado exercer o ofício “menor” de costureira – além do que, queria preservar minha mãe do assédio de quem buscasse, através dela, chegar até ele.

Foram anos difíceis, porque a renda familiar caiu consideravelmente (os proventos eram inferiores à renda que obtinha como advogado, e faltava o aporte trazido pela costura), e minha mãe se frustrava com a condição de dependente.

Por fim, ela venceu e voltou a trabalhar – e assim foi na comarca seguinte, Andrelândia.

Lá, o maior cômodo da casa era a sua sala de costura, bem em frente à biblioteca do meu pai. Ali, recebia as clientes, produzia, criava, se relacionava – ao mesmo tempo em que cuidava dos filhos e da casa, como sempre fizera.

A costura continuou a ser sua atividade quando se mudaram para Juiz de Fora, e decidiu voltar a estudar. Não tinha, então, sequer o ensino fundamental. Fez um curso supletivo, prestou vestibular, foi aprovada e se formou advogada (ovacionada de pé na formatura – era a mascote da turma, a aluna mais velha), abrindo escritório com um sócio.

Com a nomeação de meu pai para Belo Horizonte, preferiu não acompanhá-lo. Era-lhe muito desconfortável a posição de “mulher de juiz”.

Gostava de fazer roupas de festa, não de usá-las. Não se sentia á vontade com protocolos, solenidades, cerimônias.

Comparecia a elas, acompanhando meu pai, por dever – mas o fazia sem prazer algum. Mudar-se para a capital, para longe dos filhos (nenhum os acompanharia, cada um já com sua vida) seria para ela um sofrimento. Não era esse o seu mundo.

Em Unaí, meu pai gostava de nos levar a Brasília para mostrar o Palácio da Alvorada, a Catedral, o Itamarati. Minha mãe preferia Paracatu, com suas ruas de pedra e casarões cheios de história.

Em Andrelândia, Visconde do Rio Branco e Juiz de Fora, enquanto ele construía a rede de contatos na magistratura e se firmava como o juiz severo que sempre foi, minha mãe cultivava a amizade dos vizinhos, se empenhava em ações de caridade na Casa do Caminho, na igreja do Bom Pastor, na igreja presbiteriana.

Ele gostava da praia – ela tinha medo do mar, preferia as montanhas, o mato.
Ela gostava de música e de dança – o gosto dele nunca foi muito além das marchas militares, e era incapaz de dançar.
Ela foi ecumênica, de fazer novena, promessa, orar e se iniciar na filosofia Rosacruz. Ele se manteve católico fervoroso – e maçom.

Não eram vidas separadas: era cada um sendo fiel ao próprio caráter. Ele exercendo a atividade que abraçara, ela fazendo exatamente o mesmo: cuidando dele, dos filhos, da casa, de quem precisasse dela.

Minha mãe retornou, então, a Viçosa, ao sítio que herdara de seus pais – e que fora ampliado com a aquisição de terrenos vizinhos e direitos de outros herdeiros, e onde já vivia minha irmã.

Aquele era o seu habitat, seu lugar, onde vivera na infância, onde conhecia cada detalhe, e onde era feliz.

Meu pai não montou casa em Belo Horizonte – ocupou o apartamento semi deserto que deixei ali, quando me mudei para Curitiba – e lá permaneceu, numa provisoriedade que a todos nos incomodava, durante os anos que ali viveu.

Era um imóvel simples, sem qualquer luxo, parcamente mobiliado: uma mesa rústica, quatro cadeiras de madeira, uma escrivaninha velha, uma cadeira mais velha ainda, um sofá velhíssimo, herdado da casa de Andrelândia. No quarto principal, uma cama de ferro – que foi sendo remendada ao longo dos anos, e um pequeno criado mudo, também de ferro. No outro quarto, uma cama de solteiro adquirida, possivelmente, vinte anos antes. Ali meu pai “acampou”, espartanamente, até se aposentar.

Jamais esse apartamento foi “sua casa” – esta sempre foi o sítio de Viçosa, onde passava os finais de semana, orgulhoso do pomar, da horta, das galinhas, gansos, pavões, perus, periquitos e da arara (que nos acordava aos gritos de “Dona Maria! Dona Maria!”).

Ali, no sítio que moldaram a seu gosto ao longo de décadas, com campo de futebol, viveiros, buganvíleas e pés de mandioca, seus mundos se encontravam: o do juiz da capital, e depois desembargador, e o da moça pobre de Pedra do Anta, criada na roça.

Da porteira para dentro, não havia meritíssimo juiz, vossa excelência, antessalas, discursos, formalidades, salamaleques – eram ambos o que sempre foram, um casal que gostava da vida simples, recebendo filhos, netos, amigos, colhendo no pé os frutos que plantaram ao longo da vida. Ali meu pai passava os dias sem camisa, e minha mãe de chinelos, no lugar que construíram para a velhice.

Há cerca de dez anos, minha mãe começou apresentar sinais do mal de Alzheimer. De forma lenta, mas inexorável, sua memória foi se deteriorando. Meu pai teve, possivelmente, os dias mais difíceis de sua vida quando, há alguns anos, ela deixou de reconhecê-lo. Quando eu lhe disse uma vez que ele era seu marido, respondeu: “Esse velho? Não casei com um velho, casei com um moço”.

Pois ela se acostumou à presença do “velho” e reconstruíram a relação com os escombros da memória avariada.

Ele cuidou dela com desvelo, até necessitar ele mesmo de cuidados, que lhe foram prestados pelos filhos, já que essa última missão foi roubada dela pela doença.

Ela acompanhou a seu modo o sofrimento dele, e não pôde estar com ele no momento da morte, imersa no labirinto da demência. Ele, por outro lado, nunca deixou de olhar por ela e protagonizar cenas de carinho.

O mundo do moço bonito, “filhinho de papai”, que queria ser advogado, juiz, desembargador, ter medalhas e reconhecimento, percorreu sua órbita junto com o mundo da moça bonita, de infância pobre, que nunca desejou ser mulher de ninguém, viver às custas de ninguém, à sombra de ninguém.

Nenhum dos dois foi metade. Nenhum se anulou para servir ao companheiro: foram ambos inteiros, íntegros, fiéis à sua essência.

É este o seu maior legado.

 

Maria

 

Minha mãe não sabe, ma faz hoje 86 anos.
Ou 87, ou 84. A idade nem ela nunca soube ao certo.

Escolheu nascer em 1930, apesar de, na certidão de casamento, constar 1932.
Não que quisesse parecer mais jovem – foi exigência do meu pai, para que diminuísse a diferença de idade entre eles.

Minha mãe nunca teve essas vaidades.
Intuía o ano em que nasceu pela sequência de partos de minha avó, dezesseis ao todo – fora os abortos espontâneos e os provocados.

Foi a primeira Maria a sobreviver, das nove que nasceram, das três que se criaram.
E ajudou a criar os irmãos que não sucumbiram à fome, à doença, e a enterrar os muitos que não tiveram sua força.
Dos dezesseis nascidos, só sete viveram para tê-la como irmã zelosa, protetora, mãe substituta.

Faz hoje 86 anos – ou um pouco mais, um pouco menos – já esquecida da infância de privações, da juventude de bailes e fãs apaixonados, da dura vida de casada, à sombra do meu pai, mãe zelosa, protetora, dotada daquele amor silencioso, velado, subentendido, que por muito tempo foi tão difícil de compreender.

Estará hoje, em sua cadeira favorita, cantarolando as canções que a memória lhe devolve, intactas, entre a névoa e o silêncio que encobrem todo o resto.

Não importa se sou (somos) um fragmento anônimo nesse caos de estilhaços que se tornou sua memória.
Na minha (na nossa) você permanece inteira, com seu olhar de reprovação que valia por uma surra, com seu carinho apenas explícito na roupa bem passada, na comida preferida, na bênção à cabeceira.

Feliz aniversário, mãe.

Caso, namoro ou casamento?

 

Como saber se o relacionamento que você está tendo é caso, namoro ou casamento? A questão não é de tempo, obviamente. Pode-se ficar num caso anos a fio, ou já ser casamento em uma semana. Não se trata também de meros rótulos, até porque um caso vai continuar sendo um caso mesmo que você (ou, normalmente, a outra parte) passe a chamar de namoro – nem vai deixar de ser casamento só porque a outra parte (ou, quase sempre, você) insista que é um namorico.

Caso é quando ninguém fala de amor ou discute relação. Vocês se encontram (“e aí, tá de bobeira hoje?”) e já estão se pegando segundos depois de estar a salvo das câmeras de segurança do elevador. Ou talvez já comecem a se pegar no elevador, justamente por causa da cam.

Se você não presta contas diárias de tudo que fez e atende o telefone sem medo de quem possa estar do outro lado da linha, você está tendo um caso. Deu pra encontrar, ótimo – não deu, tudo bem, na quarta a gente se fala: isso é estar tendo um caso. Ninguém é dono de ninguém, ninguém faz cena, não há contrato de exclusividade. Vocês se gostam, estão felizes juntos e é o que importa. Não implicam com os amigos um do outro, não fuçam feicebuque alheio (ok, pesquisam, mas isso é defô) e não falam muito de si (falar pra que, se tem coisa melhor pra fazer?).

Perguntou quem é aquela pessoa que curte todas as suas postagens, botou apelido ou tirou cravo nas costas, aí já é namoro. Não basta mais encontrar quando der e ser muito bom: tem que encontrar sempre e nem precisa mais ser lá essas coisas. O que conta agora é uma certa aura de compromisso. Nada mais é desmarcado assim, sem mais nem menos. “Estou cansado”, “quero ver o jogo sozinho” ou um simples “hoje, não” estão definitivamente fora de cogitação.

No caso você goza – no namoro você sofre. Faz parte. É o charme da coisa. Você deixa o celular sempre à mão e olha o visor vinte vezes porque vai que alguém ligou e a bosta da Tim tava sem sinal. Você alimenta (na verdade, se entope de) expectativas, faz planos para daqui a dois meses, marca fotos da criatura no feicebuque e, dia sim dia não, vai naquele botãozinho de mudar de status de relacionamento, mas se controla. Ou não.

No caso, você leva escova de dente na bolsa ou um fio dental no bolso. No namoro, você esquece, cuidadosamente, a escova de dente em cima da pia (junto com o hidratante ou um pacote de camisinhas, pra não haver dúvidas de que o território tá demarcado – e que você tem intenção de voltar). No caso, vocês dormem (dormem?) pelados – no namoro, você pede uma camiseta emprestada, ou já deixa uma muda de roupa lá, pra qualquer eventualidade.

No namoro, você pede licença pra usar o controle remoto da tevê (no caso, vocês nem cogitam de ver tevê). No caso, vocês comem o que tem na geladeira (ou seja, não comem) – mas vira namoro quando você se oferece pra ir ao mercado, ou leva um tapué com uma pastinha, ou se oferece pra preparar, sei lá, um sushi, um miojo, uma lasanha de microondas. No caso, vocês transam em todas as posições possíveis – no namoro, escolhem a que deu mais certo e investem nessa.

Agora, se aconteceu de vocês irem pra cama juntos e não rolar nada, aí não tem dúvida: já é casamento. E não tem volta.

Oz

 

Tenho uma teoria (que nem sei se é minha, mas que adotei, reelaborei e na qual penso sempre) e que chamo de “Teoria de Oz”, por causa de um filme do qual todo mundo ouviu falar, mas quem tem menos de 50 anos possivelmente nunca viu. Conta a história da garotinha levada por um furacão para um mundo paralelo, onde encontra três seres incompletos: o Espantalho (que é bom, mas não tem cérebro), o Homem de Lata (racional, mas sem coração) e o Leão Covarde (que tem cérebro e coração, mas carece de coragem). Posso ter entendido tudo errado, mas para mim o filme é sobre o amor – ou melhor, os tipos de amor – ou, melhor ainda, sobre as incompletudes do amor.

Há o Amor Espantalho, em que existe afeto, mas não há diálogo. O que digo não é ouvido, o que ouço não me diz nada. Não há centelha, não há fagulha, cada palavra é uma agulha perdida num palheiro. Aquietada a paixão, adormecida a carne, se abre um fosso de silêncio – e o outro, que até agora há pouco era eu, era meu, é um estranho cuja língua não falo. O Amor Espantalho leva ao desprezo, às pequenas humilhações, às mesquinharias. Não compartilho mais: vivo na superfície de mim mesmo e do outro, porque não há onde mergulhar. O Amor Espantalho é o grande corvo que ronda a velhice das relações, e nos faz guardiões de mágoas e segredos, e não deixa que se fechem as feridas, que se abram as janelas, que se desfaçam os nós dos mal-entendidos. O Amor Espantalho é uma armadilha.

Há o Amor Homem de Lata, aquele em que o coração não dispara, em que as horas não disparam – o dia continua a ter 24 horas, a hora 60 minutos, o tempo não se contrai, não se dilata, ao sabor da presença ou da ausência o outro. É o amor racional, em que as coisas são o que são, em que não há transcendência, arrebatamento, em que canções não se colam à nossa vida como se tivessem sido escritas para nós, em que as palavras até rimam mas não se juntam para virar poesia. Tudo é apenas o que é, sexo é coisa física, com o prazer possível de se extrair da carne e das terminações nervosas. No Amor Homem de Lata a fantasia comete adultérios, cada olhar é uma promessa, cada sorriso é um convite, porque o sangue não circula, não nos enrubesce, não nos intumesce, não nos faz sentir vivos. O Amor Homem de Lata é uma grande ilusão.

Há, por fim, o Amor Leão Covarde, que não ruge, não rosna, não crava os dentes na jugular e não desarma. É um amor que não vai à caça, não ronda, não embosca, não conquista. Não me pega de jeito e faz comigo o que nem eu sei que é o que quero, porque quem faz a presa é o predador. O Amor Leão Covarde não sabe a força que tem, não sabe o fascínio que exerce. Segue por caminhos óbvios, não inventa trilhas. Conhece só o que aprendeu, esquece o instinto. Pede licença para entrar, cuida para que nada se arranhe, que tudo permaneça intacto, que as roupas estejam dobradas sobre uma cadeira, que os vizinhos não ouçam nada, que o lençol não se manche – que os limites da carne não sejam ultrapassados, que não fiquem marcas na pele ou na memória. O Amor Leão Covarde desconhece que o desejo é falta, que o desejo é fome, e que é da grande fraqueza de não ter que nasce o tesão de conquistar. O Amor Leão Covarde é uma fraude.

O amor só se sustenta se estiver apoiado no cérebro, no coração e no desejo. Sempre que um relacionamento meu dá errado (e disso tenho amostragem bem ampla) eu identifico: aqui o coração não bateu forte, ali os neurônios ficaram sedentários, acolá faltou pegada.

Não me lembro como termina o filme – se cada um ganha o que lhe faltava, se todos se juntam e formam um único ser. Pode ser que só mesmo além do arco-íris é que haja esse lugar onde os amores sejam completos. Esse é que deve ser o tal pote de ouro que dizem que tem lá.

Par perfeito

 

Ando pensando em me cadastrar num desses saites de relacionamento, pra ver se desencalho. Estou solteiro (não necessariamente casto) há uns oito anos, e algo me diz que devo rever minha desconfiança com relação às agências de casamento (ou às de encontros, pelo menos).

Será que só porque tenho um gênio difícil, sou intratável, exigente, cheio de manias e moro na Barra da Tijuca não mereço uma chance? Há sempre um pé torto pra um chinelo roto, dizem. Sou uma havaianas que já deformou, soltou as tiras e começa a ter cheiro, mas insisto em um pé perfeito pra me calçar. Ou que, pelo menos, não tenha joanete nem todos os dedos do mesmo tamanho ou afastados demais. É querer muito?

Tenho minhas idiossincrasias. Me apaixono fácil demais, depressa demais e desajeitadamente demais – ou não me apaixono de jeito nenhum. Não tem aquilo de conhecer, ir descobrindo aos poucos, ir me conformando aos defeitos alheios e acabar me resignando que é assim mesmo, que relacionamento perfeito não existe, que a vida a dois é um exercício constante de renúncia, para então chegar às bodas de prata fazendo de conta que tudo deu certo e que isso é ser feliz.

Há pessoas que vivem romances. Eu, até hoje, só vivi contos. Daqueles curtos, tipo os do Dalton Trevisan e da Sandra Hiromoto. Intensos, agudos, de poucas palavras e de deixar a alma em carne viva. Meu relacionamento mais duradouro tem sido com a Benedita, minha cachorra, e que já dura 10 anos – sem crises.

Imagino que nesses saites a gente tenha que levar uma foto não muito antiga, se descrever de maneira não muito distante da realidade e preencher algum formulário declarando, com um mínimo de bom-senso, mais ou menos o que procura. Tenho uma foto aos 21 anos em que estou razoavelmente bem (e se a usei até beirando os 30, talvez ainda possa recorrer a ela – afinal, não mudei tanto assim nas últimas três décadas). Posso diminuir um pouco os meus 84 quilos (quero chegar aos 80 ainda antes do meu velório) e dar um apigreide na altura (1,80 tá bom, mas já não impressiona tanto como quando eu tinha 16 anos).

E, afinal, o que busco? Alguém que não me ame tanto a ponto de pensar que sou seu, nem tão pouco a ponto de não querer que eu seja. Que não beba, não fume, não vote no PT e, de preferência, não torça pro Vasco. Que prefira Havana a Miami, a poesia à prosa, o dia à noite, o silêncio aos sentimentos explícitos. Que não goze tão rápido pra me deixar na mão, nem demore tanto pra me deixar com câimbra. Que não seja consumista. Não precisa gostar de música brega como eu gosto, mas que tenha humor suficiente pra se divertir com ela. Que ria das minhas piadas, principalmente daquelas que não merecem risada alguma.

Que goste de cozinhar, porque eu adoro comer, e de fotografar, porque eu odeio ser fotografado, mas estou cansado de voltar de viagem sem ter uma foto minha sequer. Que fale pouco, e não me deixe falar demais. Que beije com a boca levemente aberta e os olhos levemente fechados, e não o contrário. Que durma em silêncio, não se mexa muito, e acorde de manhã com hálito de quem acabou de escovar os dentes (uma caixinha de pastilhas Valda na cabeceira costuma resolver).

Que seja tudo isso – ou melhor! – nada disso, e me surpreenda, e me mostre que andei procurando errado a vida toda, por isso ainda não tinha encontrado. Pena que a Benedita não possa dar minhas referências. Afinal, dez anos sem uma briga sequer mostram que não devo ser um caso tão perdido assim.

Ex

 

São duas as situações em que é muito chato encontrar a ex com o novo amor.

Uma é quando o novo amor dela é mais novo que você, mais forte que você, mais bonito que você e, pode apostar, mais rico que você.

A outra é quando ele é mais velho, mais gordo, mais feio e mais pobre que você.

No primeiro caso, você se sente humilhado porque ela arrumou coisa melhor – e nada vai te convencer de que ele também não seja mais bem dotado.

No segundo, também – porque ela te trocou por aquilo. Que pode até não ser mais bem dotado, mas certamente é mais competente.

Ex é o tipo de pessoa que, já que a desmaterialização ainda não está disponível no mercado, devia casar, mudar e nunca mais dar notícia. Porque o que os olhos não veem o coração faz de conta que nem lembra.
Ex por perto só serve para duas coisas: trazer memórias boas (o que é péssimo) ou memórias péssimas (o que é mais péssimo ainda).

Devíamos escolher para ter ao nosso lado não alguém que nos entenda, nos ame e nos respeite – mas alguém que tenha alguma piedade de nós quando for ex. Até porque o amor pode não ser para sempre: ex-amor é.

Ex está sempre em vantagem. Se não qualitativa, pelo menos numérica. Não sei se você reparou, mas a gente tem muito mais ex amores que amores atuais – e o número de ex não para de crescer ao longo da vida.

Mesmo que alguma coisa não vá bem no relacionamento, sempre há uma chance de corrigir, ajeitar, botar uma meia-sola. Com ex, não dá mais. Uma boa performance na semana que vem não vai apagar a má impressão causada ontem – porque não haverá mais semana que vem. O balaio já fechou, inezemorta.

A cada pé na bunda, dado ou levado, deveria corresponder uma amnésia seletiva. Todos os neurônios envolvidos no relacionamento extinto seriam formatados, vermifugados, esterilizados e, só então, liberados para voltar à ativa.
Claro que haveria o risco de você cair na asneira de se envolver de novo com a mesma criatura, mas nada que uma planilha excel com a listagem atualizada das encrencas em que você se meteu não resolvesse.

Um código de ética de ex também seria bem-vindo.

Estariam proibidos comentários depreciativos e/ou irônicos, vazamento de documentos sigilosos (cartas comprometedoras, vídeos íntimos), divulgação de dados anatômicos, relato de preferências ou fetiches, imitações públicas de orgasmos (reais ou fingidos) e postagem de indiretas no feicebuque, no tuíter ou no orkut (ex que tem orkut enseja atenção redobrada).

Como só há duas maneiras de não ter ex (celibato ou acertar de primeira), recomenda-se estar sempre preparado para a eventualidade de ter que conviver com essa espécie peçonhenta. Em último caso, quando não lhe restar mais nenhuma alternativa, lembre-se: você também é o ex dela. E ela que se cuide.