Mentira, substantivo masculino

Pedro e Paula finalmente tinham ganho o cachorrinho que tanto pediam.

Era um labrador preto, filhotinho, que mais parecia de brinquedo.

Os dois disputavam quem apertava mais, quem perturbava mais, quem mais fazia o coitado de gato e sapato.

Mas o labradorzinho, batizado de Rex, aguentava tudo estoicamente.

Os dois irmãos se julgavam ambos donos de 100% do Rex, mas a posse do animal deixava de ser disputada quando se tratava de limpar cocô, secar xixi. Aí Rex era de ninguém.

Depois de muitas broncas e lições de moral tipo “dono tem que ser dono na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na brincadeira e no xixi”, Pedro resolveu tomar para si todos os cuidados. E, ao primeiro descuido da família, levou Rex para a banheira e deu-lhe um banho de xampu e sabonete, com direito a creme rinse e imersão demorada, para tirar toda a espuma.

Rex, claro, não sobreviveu para contar.

Antes que a família percebesse alguma coisa, Pedro tratou de procurar na vizinhança um filhote que pudesse substituir o desditado Rex.

Não, ninguém tinha nenhum labrador preto sobressalente.

Foi até a pet shop, contou uma história triste, e voltou com outro filhote na mão.

Paula e a mãe encontraram os dois na banheira, o filhote se debatendo para escapar da sina do seu antecessor.

– Mãe, fui dar um banho no Rex e olha o que aconteceu: ele desbotou!

Paula e a mãe não sabiam o que dizer.

Pedro, orgulhoso, segurava no ar o filhotinho branco, encharcado.

– E olha, acho que o moço da pet shop te enganou, por que ele é fêmea.

Paula e a mãe olhavam fixamente para a banheira transbordante de espuma.

– Ah, e acho que o banho fez muito bem pra Rex. Ela agora mia!

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