Gostos

 

Gosto de acordar pela manhã com o gosto do sonho ainda morno, pão saindo do forno. Gosto da realidade se despregando do sonho feito cobra trocando de pele, lagarta oleosa deixando o casulo, como um capítulo que se fecha, veículo pelo qual escapulo. Gosto de estar no côncavo de mim mesmo no lençol amarfanhado, o lençol sendo eu, e eu a entranha – estar ali, com o resto de sonho que espreguiça comigo e por algum segundo me acompanha.

Gosto de abrir as notícias entre goles de café e farelo sobre a mesa, como se a invasão da Crimeia me alimentasse e a geleia mantivesse a guerra fria acesa. Gosto das palavras se cruzando feito formigas, a História transportada nas costas, nas antenas, nos ferrões, e as pequenas antigas guerras vãs do dia a dia, pra me aquecer como o café, e eu me esquecer dos seus senões.

Gosto da cabeça do meu cão sobre meu peito, da sua pata pesando em minha mão, do seu olhar procurando o meu. Gosto de chegar da nossa caminhada e me enfiar com ele embaixo do chuveiro e seremos um só, homem cão e água, numa festa de respingos e abanos de cauda, e de vê-lo se secar ao sol, tão feliz quanto eu de nos termos um ao outro. Meu cão morreu, mas gosto de me lembrar dele assim, salgado de mar, o dorso coberto de areia, minha felicidade refletida em seu olhar.

Gosto do antes do sexo, quando todo prazer é uma possibilidade, e a perspectiva de penetrar no mais secreto me lembra que o amor é labirinto, poço sem fundo, absinto, vertigem, mar aberto. Gosto do depois do sexo, o desejo despojado de todo gesto aprendido, de toda fórmula, e o quadril já não entoa mais seu mantra, e a mão já não quer tomar para si, mas partilhar. E entre esse antes e esse depois, reinventar a roda, me encantar feito criança – pela milésima vez! – com a mesma história, que nunca é a mesma, e que não tem remédio, não tem receita, não tem cansaço, não tem medida.

Gosto de a minha língua lamber a língua de Rosa, de Pessoa, de Bandeira, e encontrar tradução para quase tudo que sinto, e para o que invento, e para o que minto, e para o que tento não dizer, e o que jamais poderei dizer de outra maneira. E nela me perder em travalínguas, aliterações, paronomásias, o som dizendo mais que o sentido. Gosto de pensar que o pensamento é linguagem, e me enredar na sintaxe como quem toca de ouvido. E supor que por isso penso assim, aos trancos, entre solecismos e sofismas, numa língua ilógica, inculta, em que nem mesmo na prosa abro mão das rimas.

Gosto de recortar o mundo em fotografias, que é uma forma de mentir sobre o que vejo – elejo o que enquadrar, o que banir das vistas. Gosto de escrever, ficar ao sol, de crer que nada no que creio exista. Andar em círculos, viver num átimo – e depois sumir sem deixar pistas.

2 Comentários


  1. Gostei muito deste texto, da primeira vez que o li. E agora que li o texto refeito, continuo a gostar mais desta versão, principalmente do final do quarto parágrafo com as suas referências.

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    1. Vou comparar as versões, mas talvez possa deixar as duas (uma forma de se poder praticar a arqueologia do texto).

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