Direção e sentido

 

Quem tem dificuldade pra entender o dogma da santíssima trindade, em que um deus que se pretende único na verdade é três, pode se consolar com o paradoxo do metrô carioca, que consiste em uma linha só ser quatro.

Não é bem uma linha só: é uma linha e um rabicho.
Uma linha que se bifurca.
Uma linha e meia, digamos assim.
Mas que, em vez de se chamar “Linha 1” e “Meia Linha”, foram batizadas de Linhas 1 e 2.

A Linha 1 tem vinte estações, dez das quais são as mesmas da Linha 2.
Ou seja, metade da Linha 1 é Linha 2.
Já a linha 3… bem, a Linha 3 não existe.

Não dizem que há prédios que não têm o 13º andar por superstição? Pois o metrô do Rio é o único do mundo que tem uma Linha 4 sem nunca ter tido uma Linha 3.

E o que é a Linha 4? São 5 estações no final da Linha 1.

Deve ter ganho esse nome porque, depois de tanta obra e tanta grana, ficava feio dizer que estavam só espichando a Linha 1 (aquela que deveria se chamar Linha Única).

Não sei o que impediu que o Rio tivesse 41 linhas, em vez de 4 (como quer o governo do estado) ou 1,5 (como se deduz só de olhar para o mapa), O custo teria sido o mesmo, e nem estou insinuando que tenha havido algum eventual, suposto e hipotético superfaturamento nas obras.

Bastava que cada trecho entre uma estação e outra fosse considerado uma linha.
Assim, teriam sido inauguradas para as Olimpíadas as linhas 41 (entre Jardim Oceânico e São Conrado), 40 (entre São Conrado e Antero de Quental), 39 (entre Antero e Jardim de Alah) etc.

O problema de ter uma impressionante malha metroviária dessas, com 41 linhas, uma atrás da outra (em linha!), sem cruzamento algum, é que linhas de metrô costumam ser identificadas também por cores.
Além da Laranja (Linha 1), Verde (Linha 2) e Amarela (Linha 4), já estaríamos no âmbito das linhas Fúcsia, Rosa Chá, Azul da Prússia, Verde Musgo, Acaju e, quem sabe? até Incolor (a inexistente Linha 3).

Mas nem só de metrô vive o transporte público carioca.

Tem também o berritê, cujo nome deve vir do Francês “abarrotê” (que significa “entupido de gente”).
Este vem em dois modelos: o expresso (que não para onde você precisa) e o parador (que para onde você não precisa).

Completando a santíssima trindade do trânsito, existe o velitê (Veículo Lento sobre Trilhos), um bondinho que se arrasta mais devagar que a reforma política, e é um equivalente carioca às charretes de Paquetá e aos pedalinhos de Poços de Caldas.
É ideal para dar uma voltinha quando você não tem nada pra fazer e não quer ir a lugar nenhum.

(Agradeço ao Detran – que cassou minha carteira de motorista por causa de uma ligeira porém persistente incompatibilidade entre a minha velocidade ideal e a desejada pelos pardais – a oportunidade de ter conhecido o sistema de transporte público do Rio de Janeiro.

A carteira foi recuperada ontem, sã e salva, antes mesmo de me ter sido concedida a graça de conhecer o ramal de Saracuruna, dos trens da SuperVia. Fica pra próxima!).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *