Crônica de um romance

Certa vez, minha mãe se apaixonou por um homem.

É normal que mulheres casadas se apaixonem por outro homem – mas não minha mãe.

Fui eu quem os apresentou, e essa paixão durou anos, intensa e não correspondida.

Minha mãe lhe escrevia longas cartas, que nunca chegaram ao papel, ao envelope, permanecendo num rascunho mental que lhes permitia ser a um tempo segredo e confissão, declaração e silêncio.

Só soube do tamanho desse amor numa manhã de maio em que dei de cara com a manchete no jornal: ele havia se matado.

Eu estava de mochila nas costas, recém desembarcado de uma viagem. 
Olhos grudados na mureta da Glória, fui até um orelhão.

– Mãe, cheguei. Viu quem morreu?
– Vi. Ele não tinha o direito de fazer isso comigo.

Não falamos de mim, dos países que eu perdera, mas dele.

Desliguei, e caminhei até o relógio, onde, horas antes, ele teria encostado o revólver na cabeça a desistido de si – e, sem o saber, também dela.

Tinha 81 anos, e se chamava Pedro Nava.

Minha mãe o amara à primeira leitura, no “Baú de Ossos” que lhe dei de presente.

Embarcou por conta própria no “Balão Cativo”, percorreu “Chão de Ferro”, foi até a “Beira-Mar”, ao “Galo das trevas”, a “O Círio Perfeito”, anotando à margem das páginas as lembranças que os livros lhe traziam, e que a levavam de volta à Juiz de Fora da sua mocidade.

De braços dados com a prosa de Pedro Nava, percorrera o Parque Halfeld, as ruas, os sobrenomes, as fachadas dos sobrados, as intrigas familiares, os salões. Sublinhara suas palavras, comentara, partilhara de sua implicância com os Halfeld, o corrigira.

Minha mãe não lia Nava: ela o ouvia, ria com ele, o absolvia dos pecados (da inveja, do rancor), tomava suas dores, era sua confidente e, a lápis, lhe fazia também suas confidências, que um dia virariam a carta que nunca chegou a existir.

Com a morte do meu pai e a demência da minha mãe, trouxe comigo os livros que ela e o Nava escreveram a quatro mãos – ele, em letra de forma; ela, em cursiva; ele, a tinta e em voz alta; ela, a lápis, num sussurro.

Penso em reler essas memórias – dele e dela – mas as estarei lendo novamente pela primeira vez: sou outro.

Não tenho mais os dezessete anos de quando conheci o Pedro Nava e corri para apresentá-lo à minha mãe, e a velhice era, para mim, uma galáxia distante – agora está um passo adiante dos meus pés.

Assim como a velhice, também o Rio de Janeiro era uma ficção.

A geografia da Glória de Pedro Nava ainda me era totalmente desconhecida até que resolvi – capítulos xerocados no bolso – seguir seus passos.

Pela primeira vez, estive diante do prédio em que viveu e do qual saiu, naquela noite de maio de 1984, sem dizer à mulher – e à minha mãe – que saía para se matar.

Pisei, talvez, sobre seus passos na subida da Cândido Mendes, da Hermenegildo de Barros, da Taylor. 
Vi as coisas que ele viu, as que não desapareceram comidas pelo tempo – ou pela minha incapacidade de ver o não visível.

Na grade que ele descreveu como ondas congeladas no ar, só vi a grade. Mas, por uma hora, fiz o que fez minha mãe ao longo de anos: estive com ele.

Não lhe cobrei nada, não o acusei de nada – como o acusaram Drummond e minha mãe, de ter rompido um pacto implícito, ter ido embora sem se despedir, ter antecipado a hora.

Minha mãe o amou, profundamente – e ele morreu sem saber sequer que ela existia.

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