Assim falou Salomão

Está no Eclesiastes: tudo é vaidade.

Alguns entendem ao pé da letra, e proíbem batom perfume depilação decote.
Como se estivesse na aparência o vazio das coisas (vaidade é o que é vão).

Tudo é ilusão, diz outra versão desse versículo (com o perdão da aliteração, do trocadilho).
Ilusão é diferente de vaidade: tem a mesma raiz de lúdico: um jogo, um engano.

Tudo é vaidade, vento que passa.
Tudo é ilusão, é como correr atrás do vento.

Se cada tradutor trai à sua maneira, há os que prefiram não falar em vaidade ou ilusão, mas que é tudo inútil.

Nasce o sol, o sol se põe, pedra arrastada montanha acima toda manhã apenas para rolar montanha abaixo ao entardecer. 
Mar que não se enche jamais, por mais que nele desaguem todos os rios.

Inutilmente nascemos também nós, para morrer. E entre a alvorada e o poente, inutilmente corremos para matar a sede do mar que não se sacia.

Vida, conhecimento, dor, é tudo inutensílio, diz Salomão (ou quem escreve em seu nome).
Não há qualquer valor real em nada que se passe debaixo do sol.
(O reino das coisas que são não é o reino deste mundo).

Tudo é absurdo, tudo é futilidade – continuam os tradutores, justificando cada centavo gasto com seus dicionários.

Eu, que leio a Bíblia como quem lê um romance escrito a milhares de mãos – todas humanas, demasiadamente humanas – prefiro a tradução de um poeta, Haroldo de Campos, na qual Qohélet (O-que-sabe, O-que-reúne) diz que os rios correm e o mar não replena, que os olhos não se saciam de ver, que o novo já o era outrora, que todos os feitos sob o sol são fome de vento.

Como se neste trecho a caligrafia fosse de um Nietzsche, de um existencialista, de um ateu, não se fala em vaidade, ilusão, inutilidade, futilidade, absurdo, mas que tudo é névoa – e nada.

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