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Finados

Finados

 

Zuenir Ventura, certamente o mais superestimado de todos os colunistas d’O Globo, tornou-se hoje o porta-voz oficial da esquerda ressentida, que não aceita o resultado das eleições.

Diz ele, textualmente, que “as urnas não autorizam o novo prefeito a falar em nome da cidade, e sim em nome de 1,7 milhão de eleitores fiéis, um número bastante expressivo, mas bem menor do que os 2,034 milhões de infiéis que o recusaram” (votando em branco, não votando ou anulando o voto).

Será que esse mesmo argumento valia para Dilma, recusada por 48% da população (que preferia Aécio) e eleita com “apenas” 52%?
Ela então também não poderia se dizer democraticamente eleita e falar em nome de todos os brasileiros?

E continua: “Portanto, ao vencedor, um pouco menos de soberba. Um pouco de humildade não faz mal a um governante, ainda que se considere escolhido por Deus”.

A “soberba” do Crivella estaria em interpretar sua eleição como um não à legalização do aborto e á descriminalização das drogas.

Mas quem votou nele não sabe das suas ideias de jerico a respeito desses temas? Não está ciente do seu conservadorismo, e não o apoia justamente por isso?

Zuenir parte para cima de Carlos Osório e Índio da Costa, adversários de Crivella no primeiro turno, e seus apoiadores no segundo.
“Por que não aderiram antes, por que esperaram o segundo turno?”, pergunta indignado – como se não o tivessem informado que é assim que funciona a eleição em dois turnos, e que Jandira também foi adversária de Freixo no primeiro turno e o apoiou no segundo.

Por que Jandira pode freixar impunemente, e índio e Osório não deveriam ter crivelado?

Acaba desejando que o bispo não seja parte do projeto de nação evangélica do seu tio “e líder religioso” Edir Macedo.

Teria desejado a um eventual vitorioso Freixo que não fosse parte do projeto de nação marxista do seu ídolo, o líder popular Luís Inácio Lula da Silva?

Quem não sabe perder não devia competir.
Quem não aceita as regras da democracia não devia se travestir de democrata.

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O editorial d’o Globo vai na mesmíssima linha.

Crivella ganhou por exclusão.
Perdeu para os não-votos.
Foi ajudado pela escolha errada e arrogante de Paes, que insistiu no inviável candidato Pedro Paulo.
Teve uma mãozinha do sectarismo do Freixo, que não conseguiu se livrar da fama de radical blequibloqueiro e insistiu na asneira do “fora, Temer” e do “é golpe”.
Se aproveitou do fogo amigo que foi o apoio de Dilma (lembram dela?) à candidata comunista Jandira Feghali.

Enfim, de acordo com O Globo, Crivella não ganhou.
Os outros é que deixaram de ganhar.

Mas não é exatamente assim em toda eleição?
Não há sempre vitórias acachapantes, como a de ACM Neto em Salvador, e outras suadas, como a do Kalil em BH?

E isso faz um menos prefeito que o outro?
Ou apenas indica que um terá condição mais ou menos favorável para governar, e lidará com uma oposição mais ou menos combativa?

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Sou a favor da legalização do aborto.
Sou pela descriminalização das drogas.
Sou pela política afirmativa de gênero.

Por essas – e outras, muitas outras – Crivella não me representa.
Por essas – e outras, muitas outras, não votei nele.

Mas, segundo as regras eleitorais, ele é o prefeito eleito do Rio de Janeiro.
São a suas ideias, não as do candidato derrotado, que vão nortear a administração municipal pelos próximos quatro anos.

É assim que a banda toca.

Aceitar as regras democráticas quando você ganha, e relativizá-las quando quem ganha é o que pensa diferente de você tem nome.
É um palavrãozinho que acaba de sair de moda, mas nem por isso vai sumir do dicionário.

É golpe.

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À esquerda brasileira, feliz Dia de Finados.

admin

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