• contato@eduardoaffonso.com.br

Cabôco Mamadô

Cabôco Mamadô

 

Nos tempos da famigerada ditadura militar, o Henfil – pai da Graúna e dos fradins, irmão do Betinho (o “irmão do Henfil”) – criou o Cabôco Mamadô.

Era uma entidade que, antes de os zumbis se tornarem fashion, já mamava o cérebro dos que (do seu ponto de vista) colaboravam com os militares – e por isso eram transformados em mortos-vivos.

No cemitério do Cabôco Mamadô viveram-morreram Elis Regina (que cantou o hino nacional numa Olimpíada do Exército ), Tarcísio Meira (que fez papel de Pedro I num filme considerado ufanista), Pelé (que sempre foi uma toupeira quando não estava com a bola nos pés) e (não me lembro mais por que motivo) Roberto Carlos, Carlos Drummond, Marília Pêra, Clarice Lispector.

Era a “esquerda” praticando o macartismo que tanto criticava.

Momentos de polarização têm disso. Tornamo-nos bipolares. Aos amigos, a defesa da democracia e das instituições. Aos inimigos, o golpismo. Mesmo que seja exatamente o contrário.

Saiu recentemente o “index” dos vendidos ao lulopetismo, aqueles a quem as pessoas de bem devem boicotar.

Como novos cabôcos mamadôs, recalibramos o radar a patrulha ideológica e quem vai agora para a expansão do cemitério dos mortos-vivos são Chico Buarque, Veríssimo, Jô Soares, Caetano Veloso, Camila Pitanga, Letícia Sabatella, Gregório Duvivier, Aldir Blanc, Augusto de Campos, Ziraldo, Wagner Moura e outros menos votados.

Regina Duarte sofreu patrulha por ter medo do Lula. Dina Sfat, por temer os militares. Marília Pêra, por apoiar Fernando Collor. Hoje isso é nota de rodapé.

Talvez um dia eu ainda consiga voltar a ouvir o Chico e o Wagner Tiso – mudos na estante de CDs já há alguns anos. Talvez volte a admirar a Letícia Sabatella – grande atriz, cantora fantástica. Todos, porém, abjetos politicamente – não por pensarem diferente de mim, mas por não pensarem.

A cada lista dos novos Cabôcos Mamadôs que vejo, corro os olhos com medo de topar com Milton Nascimento, Adélia Prado, Cristóvão Tezza… E se estiverem lá, de camiseta da CUT, estrelinha no peito e sanduíche de mortadela na mão, braços dados com Vaccari, Delúbio, Dirceu? De que modo vou deixar de amá-los, se não for lúcido? Como continuar amando-os, se não for doido?

(Em tempo: no último cartum da série, Henfil enterrou a si mesmo no Cemitério dos Mortos Vivos. O Cabôco Mamadô chupou-lhe o cérebro, num tardio “mea culpa”).

admin

Deixe sua mensagem