Beija eu

O Brasil não deveria ser dividido em Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste, segmentação meramente geográfica.
Nem entre os que chamam biscoito de biscoito e os que, equivocadamente, chamam biscoito de bolacha.
 
Também não devia ser, como quer o PT, entre “nós” e “eles” – sendo “nós”, no caso, eles.
Ou entre o Reino da Mexerica, a República do Bergamota e a Província da Mimosa.
Tampouco entre os que chiam – como os cariocas, catarinas, paraenses e juiz-foranos – e os que falam direito.
 
A divisão real do Brasil, e a chave para entendê-lo, está o número de beijos que se dá ao encontrar alguém do sexo oposto.
 
O Brasil corriqueiro – que paga imposto, fala mal do governo, torce pela seleção, trola com tudo – esse dá dois beijos, um em cada face, equanimemente.
São beijos informais, nem muito dignos de ser chamados de beijos – praticamente um aperto de mão com privilégios.
 
Esse Brasil tem sua base no Rio de Janeiro, subindo pelo litoral até o Nordeste.
 
A dupla de beijinhos tem a substância de um “depois a gente se vê” ou “aparece qualquer hora”.
São beijos inconsequentes, como esse Brasil que paga impostos, fala mal do governo, torce pela seleção e trola com tudo.
 
Outro Brasil é o do beijo único, protocolar – ou beijo paulista.
 
Ele deixa bem claro que não se quer intimidade, e equivale ao aperto de mão com luva, ao sexo de cabelo preso, luz apagada, sutiã e meia.
 
É o que te deixa no vácuo quando você parte para o segundo beijo, e o que fica não é o beijo que você ganhou, mas o que te foi negado.
Poderia ser chamado de “ósculo”, se alguém ainda soubesse o que isso significa.
 
Há, porém, o Brasil de verdade – o Brasil amoroso, profundo, aquele com todas as virtudes que nos gabamos que o brasileiro tem, mesmo que não tenha – e esse Brasil dá três beijos.
 
E são três beijos pra valer, um em cada face e mais um de becape, de lambuja, de genuína generosidade. “Pra casar”.
 
É o plus extra adicional a mais, o chorinho da bebida, a outra azeitona (sem caroço) na empada, a fartura de queijo derretido disputando espaço com o vento no pastel de vento.
 
Esse Brasil começa em Minas Gerais e acaba em Minas Gerais mesmo.
Fica ali, concentrado, aproveitando o silêncio das montanhas, o marulho das montanhas (as montanhas são as ondas verdes do mar que Minas não tem).
 
Beija-se com vontade, como se o beijo dissesse que bom te encontrar, te conhecer, que bom estar aqui segurando sua mão ou com a mão na sua cintura enquanto te beijo, que bom se este beijo fosse o primeiro – e o segundo e o terceiro – de muitos, que bom te beijar assim porque pode ser o último.
 
São três beijos enganadoramente rápidos, mas não tanto que não se possa gozar cada vez que o lábio toca a pele, cada vez que o rosto orbita o outro rosto, cada vez que se dá a outra face, num minueto de investidas e recuos, trajetórias paralelas e tangentes.
 
Beijamos e sorrimos, como a pedir desculpas pelo abuso, pelo afeto desmedido, pelas esperanças vãs semeadas num cumprimento que devia ser meramente amistoso.
 
E existe ainda um quarto Brasil, que é Curitiba, onde se dá um quarto de beijo.
 
Um quarto – milimetrado, cronometrado.
 
Não há contato físico, só a sua encenação.
 
Um rosto se aproxima, não vendo a hora de aquilo terminar, e o outro rosto concede a aproximação, para em seguida abortar o pouso, e o rosto que não queria ser beijado repele o lábio que não queria beijar.
 
Haverá enclaves mineiros aqui e acolá, com gente se beijando a rodo, sem miséria, indiferente à geografia (dizem que em Florianópolis é assim, mas não me lembro), e os dos não-beijos curitibanos – quando a atual é apresentada à ex, nos velórios dos que já vão tarde, nos encontros às cegas que terminam mal.
 
Os guias de viagem, que nos alertam para a pimenta na Bahia e os assaltos no Rio, deveriam incluir o protocolo dos beijos Brasil afora.
 
Poupariam aos mineiros aquela sensação de desamparo, de tapete puxado, doce roubado da boca, quando o terceiro beijo, o segundo, ou os dois beijos e três quartos, não vêm.

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