Mestrado

A UFF aprovou uma tese de doutorado em Antropologia sobre orgias homossexuais, que teve bolsa do CNPq e incluiu a participação em quatro “festas” (não vamos usar aqui a palavra “suruba”, que esta é uma taimilaine de família).
 
Numa dessas “festas”, o pesquisador teve um approach tão científico do seu objeto de estudo que chegaram a ejacular (“inadvertidamente”) no seu rosto.
 
“Percebo as festas de orgia como locais de intensa e conflituosa produção de subjetividade e construções muito próprias relativas ao princípio da masculinidade e de ser homem; de uma forma particular de socialidade e de estabelecimentos de vínculos interpessoais; e, claro, de pôr em prática experimentações sensoriais e corporais de performances relativas à putaria.”
 
A dissertação de mestrado desse pesquisador acaba de ser publicada pela mesma universidade, com o título de “Vamos fazer uma sacanagem gostosa?”.
 
Trabalhos acadêmicos similares (igualmente financiados com recursos públicos) são “Erótica dos signos nos aplicativos de pegação: processos multissemióticos em performances íntimo-espetaculares de si” (UFRJ), “A Zuadinha é tá, tá, tá, tá: representação sobre a sexualidade e o corpo feminino negro” (UFRB), “A pedofilia e suas narrativas: uma genealogia do processo de criminalização da pedofilia no Brasil” (USP), e “Fazer banheirão: as dinâmicas das interações homoeróticas na Estação da Lapa e adjacências” (UFBA).
 
Começo a entender a recusa do meu projeto de mestrado, sobre memória e esquecimento, em que pretendia discutir em que medida os mecanismos de proteção ao patrimônio de fato atendem aos princípios de preservação da paisagem cultural.
 
Talvez eu devesse ter me disposto a problematizar as colunas e seus capitéis como simulacros da sociedade falocrata, a questão de gênero envolvida em “telhado” (o que fica em cima) ser uma palavra masculina e “fundação” (o que fica em baixo) ser feminina, ou a transexualidade latente das pilastras (que são meio pilar, meio parede).
 
Ou será melhor esperar a tal maré conservadora chegar às universidades, e aí tentar de novo?
 
Se demorar muito, me inscrevo com algo como “Brita, cimento, areia, água e muito ferro – a bacanal abstrata do concreto” ou “Tijolo com tijolo num desenho lógico – o homoerotismo chicobuarquiano na construção das alvenarias”.
 
Se até um dos sete anões é Mestre, por que eu não posso?

4 Comentários


  1. Já aspirei o Mestrado . Da primeira vez, recebi um “não” através de um bilhete, escrito a lápis e nele a afirmação de que não estava preparada para entrar no Olimpo da Educação. Exagero meu. ( agora entendo porque não fui aceita: frase feia!)
    Não cheguei a apresentar projeto de pesquisa.
    Segunda tentativa. Agora , no ensino público. Faculdade pública. Achei que estava mais próximo da minha vida profissional. Qual o quê? Chicobuarqueei! Exatamente pelas condições econômicas, tudo se tornou mais difícil. Declinei. Gosto dessa palavra! Lembra aulas de Latim.
    Agora, nas causas impossíveis, lembro de Dolores Duran quando cantava: ah! Como esse bem demorou a chegar, eu já nem sei se terei no olhar, toda a ternura que quero lhe dar!
    Os temas atualmente apresentados, trazem uma contribuição fantástica à Educação ! Mas tem que ter Pesquisa-ação!!!!!

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    1. Já nem sei dizer se a esta altura do campeonato, valeria a pena ocupar na Universidade a vaga que poderia ser destinada a alguém mais jovem, com mais tempo pela frente para produzir algo realmente útil.
      O que percebi foi que eu tenho em mente algo ultrapassado: a ideia de que o que foi construído por uma geração pertence a todas que virão a seguir, que preservar não é congelar, e que manter só a casca de um edifício equivale a destruí-lo (para isso, uma fotografia resolve).
      Só que está difícil fazer o linque entre Arquitetura, memória, ideologia de gênero, homoerotismo, apropriação cultural e lacração.

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  2. Não lembro onde li, mas cabe tão bem aqui: “a que ponto cegamos”!
    Como viajam!
    Eu acho que falamos pouco sobre sexo, acho que isso faz falta, mas não consegui imaginar que pontos querem enaltecer esses trabalhos.
    Nossas federais espelham bem a bandalheira política, não? A onda conservadora não deve fazer cócegas lá. O Reitor da UFSC se suicidou outro dia, jogando-se do 5o andar do vão central do shopping mais antigo de Floripa. Acusado de fraudes e de dificultar as investigações (sobre gestões anteriores às quais ele acusava), ficou preso 1 dia e foi afastado das funções. As acusações focam principalmente no ensino à distância da UFSC, do qual fui aluna por alguns meses e não suportei o descaso e a falta de recursos (além da distância para atender as aulas).
    Keep walking, Mestre!

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    1. Quando a ideologia entra pela porta, o bom senso sai pela janela.
      Vi que na Bahia já há até um curso de Afromatemática.
      A que ponto cegamos!

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