Presença

 

Se meu pai fosse vivo, e minha mãe ainda pudesse receber presentes, hoje ele lhe daria um jogo de panelas, um conjunto de baldes, uma nova máquina de lavar.

Ela odiaria, sem dizer uma palavra.

Minha mãe sempre foi de calar os ódios, as paixões. Haveria de aceitar, com uma ironia (que meu pai não entenderia, ou fingiria não entender) e seria mais um dia das mães como os natais e aniversários – ganhando presentes para a casa.

Minha mãe era a casa.
Ainda é, só que agora uma casa vazia.

Meu pai era a visita, o hóspede, aquele a quem se serve à mesa, a quem se cata a roupa deixada no chão, e se fornece a toalha limpa, a camisa passada. Minha mãe era o motor que sustentava o avião no ar, a lei da gravidade que nos mantinha a todos com os pés no chão.

Passará o dia das mães em sua poltrona diante de uma tevê que passa filmes que não vê, em sua cama no quarto que um dia foi de seus pais e é seu há décadas, olhando um pomar que plantou e cujos frutos já não colhe mais, cercada de pessoas que a amam – mas com carteira assinada, décimo terceiro e horário de troca de turno.

Liguei para ela agora há pouco, disse quem eu era, desejei-lhe felicidades. Não sei se me ouviu: cantarolava.

Haverá de dormir boa parte do que seria o seu dia.

Em que viagens se aventura quando fecha os olhos, em que oceanos mergulha? Deve sonhar como sonham os fetos – sensações sem nome, sons sem sentido. Ou, ao contrário, é quando dorme que de novo tudo se encaixa, e os rostos tornam-se pessoas, ontem e amanhã se desprendem desse hoje onipresente de quando está em vigília?

Ali, de novo, me faz um curativo, penteia minha irmã, nos abençoa antes de dormir, conta o caso do namorado que teve e que morreu antes que se conhecessem, e canta

“Coitados dos cabritos de seu Valentim
Tá tudo saltando o corgo
Pra ir comer arroz de Niquita
Ainda vai chegar o tempo de nós comer bassora”.

sem explicar quem eram seu Valentim, Niquita e o que seria “bassora”.

Talvez durma e desperte sem se dar conta de passar de um estado a outro, assim como não saberá que hoje é o dia das mães, que é mãe e os filhos estão longe – só minha irmã, agora também mãe, a seu lado.

Um dia das mães sem presente (porque sem passado, sem futuro) e sem presentes, presa em seu labirinto onde não há lugar para meu pai e sua vocação para agradar com baldes e panelas, para o namorado morto (por engano) e de quem nunca viu o rosto, para a prima que se enforcou na noite de núpcias, a parenta que bebeu formicida no dia do casamento, o primo impotente e sua esposa morta virgem.

Chegou, para todos eles, o tempo de comer bassora.
Chegará para cada um de nós.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *