Natais passados

 

Dizem que o Natal é uma festa que acontece todo ano.
Não caiam nessa.
Natal acontece apenas na infância.
Depois, vida afora, é só uma tentativa – fracassada – de voltar a ter ilusões.

Dizem que celebra o nascimento de Jesus.
Outro engodo.
Celebra o pensamento mágico, a ingenuidade, a capacidade de transbordar de excitação – dons que deixamos para trás com os dentes de leite e que só vamos retomar (como farsa) nas primeiras paixões da adolescência.

Os Natais de verdade estão sempre lá atrás, repletos de ilusões perdidas e gente morta.

É para isso que os repetimos: para nos reunir de novo com os avós, os tios que nos passavam a mão na cabeça e nos davam presentes que não tinham nada a ver conosco, os agregados (Natais de verdade são do tempo em que a casa tinha agregados, uma família sem laços de sangue, mas de afeto, empregados que nos pegavam no colo, faziam nossas vontades, nos consolavam depois das surras e a quem amávamos sem a obrigação de amar).

Como celebrar um Natal sem castanhas assadas na brasa do fogão a lenha, sem nozes estouradas (para desespero de minha avó) nos batentes das portas? Um Natal sem garrafões de vinho tinto e doce (para nós, diluído em água e adoçado mais ainda), sem postas imensas de bacalhau nadando em azeite (não há mais bacalhaus com tantos palmos de altura), sem a gigantesca árvore armada na sala, com bolas vermelhas e azuis e uma fingida neve de algodão?

Não faz sentido um Natal sem o assoalho encerado da sala, e suas frestas mal calafetadas, onde se perdiam, para nunca mais, chaves e moedas.
Sem a felicidade incontida de meu avô, de branco e de chinelos, recebendo os filhos, os netos, ignorando que meio século depois haveria de seguir repetindo toda a cena, aprisionado na memória de alguém.
Sem minha avó dando ordens desencontradas na cozinha.
Sem as hordas de primos.
Sem minha mãe à beira de um ataque de nervos.

Ainda que esperem por mim, ao pé da árvore, uma piorra multicolorida, um laboratório de química, um quebra-cabeças de duzentas e cinquenta peças.
Ainda que haja rabanadas e passem o Quebra-Nozes na televisão, em preto e branco.
Ainda que, morto de sono, mal me aguente na Missa do Galo.
Ainda assim, não será mais Natal.

Porque entre os mortos que saqueiam as caixas de uvas, que tomam a bênção aos tios, que se roem de inveja do presente alheio, há um, mais morto que todos.

Os Natais, depois da infância, celebram essa morte.

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