A bença

– Bença, vó.
 
Não me lembro quando essa deixou de ser minha primeira frase ao encontrá-la.
 
Pode ter sido quando me descobri incapaz de acreditar nas coisas que não existem, e aboli as orações ao dormir, a missa aos domingos, os se-deus-quiser e deus-lhe-pague, o medo do inferno.
 
Mas minha avó continuou me abençoando assim mesmo
– Deus te abençoe, meu filho
independentemente de eu lhe tomar a benção ou não.
 
Abençoava não porque eu pedisse ou merecesse, mas porque era sua atribuição de avó, sua forma de dizer te quero bem, seja feliz, nada de ruim te aconteça.
 
Minha avó era ingênua. Não diferenciava os atores de seus personagens. A cada nova novela se confundia com os nomes, os mortos ressuscitados, amantes convertidos em irmãos. Depois se acostumava, para a confusão recomeçar no primeiro capítulo da próxima trama.
 
Meu avô se aproveitava disso. Abria o jornal e exclamava
– Ó Maria! Veja que tragédia. Fulano morreu
sendo Fulano algum parente dela.
 
Estimulado pela consternação de minha avó, ele desenvolvia a história, fingindo ler a notícia de um acidente terrível em que morrera não apenas Fulano mas toda a sua família. Lapidava os detalhes, em linguagem jornalística. Descrevia a cena, matando, um a um, irmão, sobrinhos, primos, agregados.
 
Minha avó não lia. Não ia conferir com os próprios olhos a notícia inventada. Acreditava em cada palavra, e sofria resignada até o dia em que Fulano chegava para uma visita, com a família intacta, e minha avó – como diante de uma nova novela – não entendia nada, e não discutia, mais ocupada em ser feliz por estarem todos vivos.
 
Meu avô a enganou assim – como de tantas outras maneiras – inúmeras vezes, e ela jamais deixou de acreditar nele. Ou de cuidar da sua roupa, da sua comida, das coisas do jeito que ele gostava. Sem se dar conta de que ele a enganava, que se divertia às custas de sua inocência.
 
Vivia num mundo em que sereno matava, vento encanado matava e espremer espinha – principalmente antes do almoço – era morte certa. Vigiava o banheiro para que ninguém se atrevesse a tomar banho enquanto não houvesse terminado a digestão, e para que nenhum de nós pisasse descalço no cimento frio, ou saísse sem agasalho.
 
Teve sempre o mesmo corte de cabelo, nunca se maquiou, volta e meia procurava os óculos esquecida de que os estava usando.
 
Comia às escondidas de si mesma, sempre disfarçando a gordura nas mãos, sempre enxugando as mãos no vestido, sempre com o mesmíssimo vestido (não importava o modelo, a estampa: seus vestidos pareciam idênticos, feitos para que ela não se destacasse, para que se confundisse com o cenário, não fosse nunca figura, mas figurante).
 
Na última vez que a vi, no hospital, me segurou forte a mão e disse
– Meu namorado.
 
Sepultaram-na junto dos seus pais, não do marido, porque, mais que viúva, era órfã.
 
Nunca disse a ela que deixara de acreditar em deuses, santos, simpatias, vento encanado, ou que, se tivesse uma filha, lhe daria o seu nome.
 
Nunca disse a ela tantas coisas. Mas tudo que importava podia se resumir naquilo que um dia deixei de dizer
– Bença, vó
que era só uma maneira de dizer te quero bem, seja feliz, nada de ruim te aconteça.

10 Comentários


  1. Você tem a capacidade de me emocionar … creio que tivemos o mesmo tipo de educação … vislumbro nos seus escritos meu avô, minha avó … situações tão parecidas, amores sufocados … a ingenuidade de nossas avós …
    Muiito lindo, Eduardo … ela te amou, mesmo nunca o tendo dito …
    Parabéns meu amigo … escreva muiiito, você nos encanta …

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    1. Ela nunca deve ter dito “eu te amo” nem ao marido ou aos filhos, ainda que os tenha amado imensamente.

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    2. Que lindo Eduardo, me emocionei, lembrando da minha avozinha materna, que eu amava muito.Minha mãe, também adquiriu este hábito de nos fazer dar à benção, que até hoje eu falo.Toda a família adquiriu este hábito, mas acho que eu sou a única que manteve.

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    3. Creio que tem a ver com a educação que nossos(as) avós receberam, e com a que nós recebemos.

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  2. Acreditar é uma escolha. Difici dizer que erra quem escolhe crer.

    Minha avó escolheu enxergar e partir, repartindo também a sua familia, que mais se juntou. Sua avó escolheu a proteção da ingenuidade e a rotina de continuar abençoando a todos, de perto. Eram tempos de poucas alternativas, todas a custo alto para as mulheres.

    Era a avó materna? E que nome herdaria dela a sua filha?

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    1. Só se acredita de verdade quando não se sabe que acreditar é uma escolha.
      Minha avó se chamava Maria Rosa.

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  3. Perdão, meu celular e esta caixa de comentário estão de mal hoje…

    Difícil*
    … nunca mais se juntou.*

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  4. Ah, Eduardo, estou com os olhos cheios d’água, pensando na minhas avó, que também chamava-se Rosa. Não sei se você se lembra, mas quando nos encontramos te contei sobre ela. Era uma das pessoas mais sábias que já conheci, apesar de nunca ter aprendido a ler ou escrever. Quanta saudade.

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  5. Eduardo, comecei a te seguir no Facebook há pouco tempo em virtude, principalmente, de seus textos de cunho político, com os quais me identifico inteiramente. Com o passar do tempo, percebi que me identifico com tudo o que você escreve. É sempre muito bom poder ler aquilo que toca o seu coração, que deixa marcas. E você faz isso com maestria. Eu também tenho um blog desde 2014 e, assim como você, escrevo sobre qualquer assunto que me emocione ou me motive. Se puder, dê uma lida. Seria uma honra pra mim. Um dos textos mais recentes que, como este seu, fala sobre família, é o seguinte: http://externando.com.br/2017/08/meu-parceiro/
    Um abraço e parabéns pela sua capacidade de transformar emoções em palavras!

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