Um trem qualquer

Não falo Português nem Brasileiro – falo Mineirês, espichando os sss, comendo as palavras pelas beiradas, roendo-as até deixar só a raiz, só o tutano.

– Cuméquitá o trans?

– Confuz quiçó ceveno.

(Pra que “trânsito”, se “trans” já diz? Por que várias palavras, se pó juntar tudo num trem só?)

O Mineirês – não fosse ele invenção de mineiro – é econômico.

Com uma coisa e um trem (que são o mesmo trem, a mesma coisa), a gen dá conta de tudo.

– Já coisou o trem?

– Vô coisá.

E lá vai o mineiro coisando o que tem pra coisar, até o trem ficar do jeitim que tem que ser.

Porque Mineirês não é só esse trem de usar trem pra tudo quanto é trem.

Mesmo um tã de trem que não tem como melhorar, o mineiro pega e melhora.

Um bocadinho, que já é menor que um bocado, a gente incói  pra um muncadiquim, que ainda é o dobro de um cadiquim de nada.

Mineirês não é só o que se diz, mas como é dito.
A fala vai em ritmo de carro de boi, modulando a voz nas curvas da estradinha de chão que é o jeito mineiro de falar – vogais se fechando como quem poupa fôlego montanha acima, os RR raspando a garganta como quem segura o cabresto montanha abaixo.

Mineirês se fala de soslaio, mesmo olhando de frente.
Na maciota, mesmo se o assunto é pedregoso.

Linguistas dirão que tudo se reduz às sílabas tônicas serem mais longas que as átonas, à apócope das vogais curtas, à palatização do D e do T, à aférese do E, ao escambo do E pelo I e do O pelo U, ao esfumaçar do U na última sílaba.

Dito assim, o Mineirês parece fácil, teorema demonstrado.
Só que não bastam os trilhos, a estação, a mala na mão e o adeus para haver uma viagem.

É preciso um trem.

Um trem que não se sabe bem o que é – a não ser que se fale Mineirês.

10 Comentários


    1. Obrigado, Sonia! Um comentário desses, vindo de quem escreve tão bem, é mais que um elogio.

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  1. Li com o vagar necessário. Apreciei, assim, degustando analisando e sentindo o sabor. Assimilei cada pequeno trecho e, por fim, senti uma convivência ida, passada, distante, vindo de novo na mansidão, nos sons. Depois bateu uma saudade funda de quem vê trens e mais trens se distanciando da gente, levando gente embora e levando a gente prum longe tão longe que num tem jeito de desmanchar essa distância nunca mais. Acho que distância assim só pode ser de espaço, tempo e de alma; tudo junto.

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    1. Trens, trilhos, estações se prestam a muitas metáforas sobre chegadas, partidas, até logo e nunca mais.

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  2. Eduardo, vc foi um dos meus melhores “achados” no facebook, que está a cada dia surprendo-me mais pela sua incapacidade de ver, sentir o que realmente vale a pena continuar a alimentar seus leitores ávidos de pessoas com conteúdo.
    Lamento profundamente tudo isso, fico envergonhada pela insensibilidade (para não dizer outra coisa) do face mas, pelo menos vc nos permite acessar esse canal, sem suas crônicas, que me fazem acordar na doce expectativa “do que ele escreveu hoje?”, esse face seria um tédio! Bjos

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    1. Obrigado, Márcia. A vantagem de lá é que mais gente lê. Vou tentar unir a liberdade daqui com a visibilidade de lá.

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  3. Kkkkk…amei isso! Me senti representada quando diz “já coisou o trem?”…a gente não percebe que fala assim até o dia que alguém tira sarro!!😂

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    1. A gente não percebe que fala assim até alguém que não tem essa flexibilidade linguística tirar sarro da gente.

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  4. Trem não desse mió não há! Se não houvesse o mineirim, tinha quinventá, sô! Bão demais da conta…

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