Sobre línguas mortas e moribundas

Quando se criou o Estado de Israel, decidiu-se pelo uso do Hebraico como idioma oficial, apesar de ser uma língua que ninguém mais falava no dia-a-dia. Pois o Hebraico foi revivido, modernizado e hoje é um idioma dinâmico, vibrante.

Mesma coisa se passou recentemente com o Latim, língua oficial do Vaticano. Como tinha ficado parado no tempo do Império Romano  e só era usado na liturgia, não dava mais conta de tratar das coisas do mundo moderno.

Pois foi feito um esforço e agora já se pode falar até de computação e outras contemporaneidades na língua de Nero e de Calígula.

E-mail é ‘inscriptio cursus electronici’”. “Doping” se diz “usus agonisticus medicamenti stupecfactivi”. “Fotocópia” se traduz como “exemplar luce expressum”, “basquete” como “follis canistrīque ludus”, “paraquedas” é “umbrella descensória”. Não ficou lá essas coisas, mas valeu pela tentativa.

Precisamos fazer algo assim, urgentemente, com o nosso inculto e belo Português.

O velho clichê “não tenho palavras para expressar o que sinto” deixou de ser lugar comum pra ser uma expressão literal. É preciso dar nomes, se não aos bois, pelo menos às coisas.

Como é que se diz “ônibus expresso” em Português? Viu? Não tem como. Você só vai conseguir dizer isso se falar “bus rapid transport” – ou BRT. Esse mesmo, o que está sendo implantado Rio afora (cortando-se todas as árvores da Avenida das Américas e dando um nó geral no trânsito). Só em inglês é possível designar um ônibus que anda depressa. Em Curitiba tem o Ligeirinho, mas Curitiba não conta, não é Brasil.

Como dizer “centro comercial”? Não adianta ir ao dicionário, ao google, pedir ajuda aos universitários. A língua não alcança esse nível de sofisticação – e o jeito é dizer “shopping center”. Assim como para dizer “acampamento” não há outra palavra, se não “camping”.

Suponha que você queira começar alguma coisa. Que verbo usar? É provável que, se depender do Português, você nunca comece justamente por falta de um verbo adequado. Daí as pessoas dizerem que vão “estartar”, única forma de fugir da inércia e da incompletude do idioma, que sequer possui o verbo iniciar.

Como falar das 10 mais a não ser como “top 10”? Como dizer “dieta” ou “dietético” sem a palavra “diet”? Se não fosse o Inglês nos emprestar a palavra “fashion”, como iríamos falar de moda? Como é que se entraria em forma sem a palavra “fitness”? E como, sem “games” íamos tratar de jogos?

Como os antigos falavam de crianças e adolescentes se até outro dia mesmo não temos palavras apropriadas, daí usarmos “kids” e “teens”. Que nome teria a bicicleta? Porque não foi “bike” desde sempre (devia ser triciclo de duas rodas, algo assim).

Já que juntamos recentemente um bando de linguistas para tumultuar a ortografia e acabar com o pouco que se sabia sobre o hífen, seria conveniente reuni-los de novo e pedir que inventassem palavras para suprir essas lacunas. Uma palavra para maquiagem , que não seja “make up”; uma para entrega, que não seja “delivery”, uma expressão para o novo visual em vez de “new look”.

Mas que não repitam aquele mico de querer trocar “football” por “ludopédio”. Se for assim, eu prefiro continuar com meus becapes, daunloudes e apigreides.

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