Palavras

 

Não luto com as palavras (luta vã, disse o Drummond). Eu gosto delas. De algumas mais que de outras, como acontece com as pessoas, as comidas, as fases da lua.

Gosto da palavra “fracasso”. Me soa como algo que se parte fragorosamente e então despenca no abismo. Imagine um glaciar fraturado ruindo rumo ao fundo do mar. Isso é “fracasso”.
Gosto do verbo “ruir”, quase uma onomatopeia, um despedaçar, um esfarelar, um cair em si (o R do início e o R do fim, por fim juntos no mesmo pó).

Gosto das palavras que, na língua Portuguesa, traduzem com perfeição em som aquilo que nomeiam. “Perna”, por exemplo. Pode haver palavra mais carnuda? Por contraste, pense em “leg”, sua equivalente em Inglês: coisa fina, amorfa, desmilinguida, sem tônus algum. Leg. Perna. Qual te desperta desejo, vontade de apalpar?
Gosto da palavra “lábio”, que nasce com a língua tocando os dentes e termina num beijo, lábio e lábio se encontrando. Pronuncie a palavra “lábio” devagar, e sinta o balé a que ela te convida.

Discordo de quem disse (foi o Shakespeare, eu sei, mas não quero discordar de quem não está aqui pra se defender) que a rosa teria o mesmo perfume se tivesse outro nome. Não teria. A rosa só cheira a rosa porque se chama “rosa”. É o nome, que vem rasgando a garganta feito espinho e desabrocha num zumbir de abelhas, que lhe dá perfume.

Imagine se a rosa se chamasse, por exemplo, “fronha” (que é, segundo meu amigo Alberto, a palavra mais feia do idioma). “Fronha” não tem cheiro algum, é um amarfanhado de duas sílabas tronchas, que deveria designar – se tanto! – a parte menos nobre do intestino grosso. Uma flor chamada “fronha” não entraria em nenhum jardim, em buquê nenhum, em nenhum livro de Botânica. Sabiamente, ninguém deu esse nome a uma flor.

Gosto da palavra “potência”, que nasce num impulso da letra P, explode na tônica em T e se desfaz mansamente, amante saciada. Gosto da palavra “aurora”, que é o próprio Sol nascendo. E da palavra “lua”, que, a rigor, devia nomear apenas a minguante.
Gosto, autorizado pela Adélia Prado, da palavra “cu” (“cu é lindo”, ela disse, num poema). Se “bunda” é palavra redonda, roliça, anunciando abundância, “cu” é sua antítese, seu antípoda. Mínimo, conciso, acuado, oculto, monossílabo e monossilábico. Como quem não quer ser visto, nem notado. Cu.

Gosto da palavra “escárnio”, em que você ri rasgando a carne. Da palavra “punhal”, que é palavra só lâmina (como diria João Cabral).
Da palavra “abismo”, com um A numa borda, um O na outra, e no meio um I te arrastando para a profundeza. E da palavra “túmulo”, palavra mais pesada, que acumula o peso de uma vida na gravidade da proparoxítona, e nesse T abrindo a cova (cova em U), o M se amontoando sobre ela, e o L lacrando tudo.

Gosto das palavras “silêncio”, “labareda”, “península”, “orgasmo”, “atônito”, “atrito”, “impulso”, “almofada”, e não creio que seja preciso dizer o porquê. Gosto, por fim, da palavra “fim”, que começa como um sopro, dura quase nada, e se encerra nesse M que parece ir decaindo até sumir de vez.

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