Sem estresse, bróder!

O melhor de escrever numa rede social (“rede social”, no caso, é só o feicebuque mesmo) são os comentários.

Funcionam como um fidibeque imediato – o que podia ser um discurso ou um resmungo vira bate papo (ou bate boca). Mas sempre um diálogo, nunca um solilóquio (queria muito usar a palavra solilóquio num texto – obrigado, Zuck, pela graça alcançada).

Só que não é como conversar com amigos em volta da mesa: isto aqui é uma grande linha cruzada, um mega encontro às cegas, onde nunca se sabe quem pode aparecer (da moça que manda boas vaibes até os blequibloques de tacape em punho) e tudo é possível – até mesmo entenderem o que você quis dizer (e você entender o que disseram).

Os ruídos costumam ser muito divertidos.

Alguém comentou, a propósito de um texto postado ontem: “Parei no ‘taimilaine’… Holy-fucking-shit!!!”.

Creio que a pessoa também não tenha passado dos primeiros parágrafos agora, porque já escrevi feicebuque, fidibeque, vaibe e blequibloque – logo, sou um analfabeto funcional.

Imagino que não terá sido diferente a cara de nojo que fizeram (e os roulifoquinxete que expeliram) quando pela primeira vez se escreveu futebol em vez de football. E quando o back do team tornou-se beque do time, marcou-se um pênalti (não mais um penalty), e o crack deu um shoot e fez um goal.

E quando houve um blecaute no filme de faroeste, o caubói pediu um drinque e foi a nocaute. Ou, chegando da boate, a madame guardou a bijuteria, limpou o batom, jogou no lixo o buquê, despiu o sutiã e apagou o abajur.

Antes mesmo disso, o alfaiate tinha passado pelo açougue, levando seu alaúde, um alicate e um quilo de açúcar no alforje de algodão, montado em seu alazão, só para ver os azulejos.

Os anglicismos, galicismos e arabismos de ontem já se incorporaram tão bem ao Português que a gente mal percebe seu sotaque. Dispomos de um idioma com caninos afiados, molares potentes, estômago forte – o que vier, a gente traça.

É por isso que, antropofagicamente, faço becape, mudo o leiaute, desenho o esbilte, dou apiloude, implico com o vizinho que joga videogueime de madrugada e por aí afora. Só não printo nem estarto nada porque aí já é falta do que fazer.

Talvez, um dia, fidibeque, feicebuque e becape estejam no dicionário.
Talvez não (a mortalidade infantil é alta no mundo das palavras). 
Mas, se vingarem, espero que o etimologista do futuro consiga localizar, numa rede social extinta, a sua primeira menção (2013, aproximadamente) e o autor (E.A. – Escritor Anônimo, de quem só se conhecem as iniciais).

Onde quer que eu não esteja (ateus não costumam ir a lugar nenhum depois de mortos), perderei a chance de exclamar “roulifoquinxete” (neologismo criado em 17/10/17, às 7:56 da manhã, a propósito de um comentário indignado e divertido feito por alguém que não dava apigreide nas palavras, e cujas iniciais também se perderam no tempo).

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