A cada coisa, o seu nome

As palavras têm peso, forma, volume, consistência, textura, vocação.

É cruel podar suas raízes, retorcer seus galhos, atrofiá-las, fazê-las bonsais.
Serrar seus caninos, arrancar-lhes as unhas, enjaulá-las ou obrigá-las a dar piruetas e se equilibrar nas patas traseiras, como fazemos aos bichos.

Palavras encerram conceitos. Têm uma missão.

É graças a elas que digo “dia” e quem me ouve não pensa em escuridão.

“Dia” não exclui o momento em que não se sabe que já é claro ou ainda escuro – nas palavras, as fronteiras não costumam ser fossos e muros, e, sim, uma zona de transição que é justamente onde brotam outras palavras (“madrugada”, “aurora”, “tarde”, “crepúsculo”).

Não fosse isso, uma única palavra daria conta de tudo, como era antes da separação das trevas e da luz.

Mas “dia” é dia, “noite” é noite – e é o respeito à índole de cada palavra que nos permite tratar do que é diurno e do que é noturno sem ter que recorrer à mímica, ao desenho.

Pois demos de destituir as palavras do seu significado com a desculpa de conferir-lhes maior amplitude. E elas se esgarçaram, se deformaram e podem se perder de si mesmas.

Estupro – uma das palavras mais brutas e mais brutais do idioma – transformou-se num buraco negro, absorvendo tudo que antes tinha lugar definido em sua órbita.

O toque não consentido tornou-se estupro, equivalendo à penetração forçada, a qualquer agressão de cunho sexual – do constrangimento à violação, passando pelo assédio.

A menina que teve a vulva dilacerada, os seios ainda inexistentes profanados, e a que tocou o tornozelo de um homem nu foram ambas niveladas como vítimas do mesmo crime – a pedofilia.

Dito de outro modo, banalizou-se o mal, vulgarizou-se o que era quase inominável.

Se tudo é estupro, nada é estupro.
Se tudo é pedofilia, nada é pedofilia.

(E vale também para golpe, censura, arte, perseguição.)

A menos que queiramos voltar a grunhir, é preciso impedir que as palavras percam suas raízes, suas garras, sua precisão, sua potência.

Ou essa Novilíngua – com cada vez menos variedade de palavras para expressar um conceito – vai nos privar da capacidade de chamar cada coisa pelo seu nome, tornando mais rasa nossa compreensão, mais difuso nosso pensamento.

3 Comentários


  1. Podemos nós te conferir o título de Mestre (das palavras)?

    Essas minhas (tão) queridas jovenzinhas feministas (ah se soubessem o que sei), reduzindo a brutalidade do estupro dessa garotinha… é insano, mesmo.

    Este não vai ao FB? É tão preciso, seria importante!

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    1. Como meu projeto de mestrado foi recusado, o título vai ter que esperar.

      O que acontece é que escrevo demais, e pra não entupir o FB com três, quatro postagens diárias, alguns textos acabam ficando só aqui.
      Mas daqui a pouco levo esse para passear pelo lado mais selvagem da internet.

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  2. Encanta-me, Eduardo Affonso, sua capacidade de esculpir idéias, de nos entregá-las limpas, de contornos definidos, nelas reluzindo tão límpida quanto poética a mensagem pretendida. Um deleite ler suas crônicas!

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