Sobre cães e lobos

Se você adotar um filhote de lobo e tratá-lo como um cão, ele se tornará, no máximo, um lobo com pelo macio. Nada fará dele um cão.

Não em menos de alguns milhares de anos.

Cães e lobos têm muito em comum, mas diferem em algo fundamental: o cão te ama à primeira vista; o lobo te verá como uma presa em potencial a vida inteira.

Uma teoria diz que lobos menos capazes (ou mais preguiçosos) foram colando na nossa espécie por uma questão de custo x benefício. Para esses, mais valia um resto de comida 0800 que um banquete à base da carnificina.

A seleção natural fez o resto, e o lobo mais bobo deixou a alcateia para entrar na família.

Outra teoria diz que alguns lobos desenvolveram uma desordem genética similar à Síndrome de Williams – que, nos humanos, entre outras coisas, torna as pessoas hipersociáveis. As linhagens portadoras desse gene com defeito deram origem ao cão.

O cão afetuoso seria um lobo doente.

Não será o amor, também ele, um transtorno, um gene torto que nos faz confiar, depender, proteger, perdoar- e, em casos extremos, permitir que nos tratem como a um cão?

A Ciência há de descobrir (a Ciência descobre tudo – o que não descobre, inventa) que o ciúme, a possessividade, a paixão – efeitos colaterais do amor – não são mais que perturbações no DNA: um desarranjo na citosina, um desconcerto na timina, um desassossego na adenina. 
Nada que a terapia genética (adeus, Freud Rogers Moreno Lacan Skinner) não resolva.

Macacos disfuncionais é o que talvez sejamos, mal equilibrados nas patas traseiras, autoflagelados pela culpa de um pecado que não cometemos, nos autoinflingindo uma monogamia mais apropriada a pombos, periquitos e pinguins.

O homem não é o lobo do homem – é o cachorro do macaco.

1 comentário


  1. Pagando a pena “de um pecado que não cometemos”… pensando aqui, acrescentei: um prazer que não experimentamos. Seria por isso a nossa relutância em buscar prazer, entender a mecânica (que existe) e, simplesmente, desfrutar?

    Amei!

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