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Genitais

Genitais

 

A Clarice Falcão postou ontem o vídeo de um de seus jingles (ela faz jingles, que chama de “canção” não sei por que).

Com a melodia (melodia?) singela de sempre, e a letra banal de costume, canta as vicissitudes de lidar com o que tem pra hoje.

“Na minha vida já existiram
Cinquenta opções de amor
Quarenta e nove desistiram
E você foi o que sobrou.”

Pra ilustrar isso, uma série de pessoas peladas, supostamente dançando, ou pelo menos se balançando, diante da câmera.

Pronto.
É só isso.

“Não acho que o clipe seja genial, nem extremamente posicionado politicamente”, diz ela, modestamente.

Realmente, o clipe não é genial. É ruim de dar dó.
E não é nada extremamente posicionado politicamente.
É só um monte de gente branca (não tem nem um negro, cafuzo, mulato ou mameluco), a maioria com um padrão estético muito, muito distante do que poderia ser considerado atraente.
E só.

“O que ele trouxe à tona foi o quanto as pessoas têm muita raiva de ‘piru’ e de ‘pepeca’”.

Hã?
Eu não tenho raiva de piru e de pepeca.
Muito pelo contrário.
Piru e pepeca (que eu chamo por outros nomes, mas vamos usar aqui a nomenclatura clariceana) são das melhores coisas já inventadas desde o Big Bang.
Bem usados, sem moderação, podem nos dar um prazer só comparável ao de ver um corrupto ir em cana ou poder repetir pudim de leite na sobremesa.

“A minha intenção não foi chocar”.

Imagina.
Homens balançando o piru, mulheres sacudindo a pepeca, assim, a troco de nada, num jingle, ops, numa canção que fala “eu escolhi de coração / por falta de opção / mas foi você”.

“Eu sabia que ia causar algum rebuliço, obviamente, mas nunca chocar – ainda mais nesse nível. Inclusive, eu mesma estou chocada por as pessoas terem se chocado dessa forma: com o fato de outras pessoas terem genitais. Eu achava que isso já era uma informação dada.”

Sim, Clarice, as pessoas têm genitais – e a maioria delas inclusive já está relativamente bem informada disso.
Só não estão acostumadas a vê-los assim, fantasiados e festivos, num clipe tosco.

“E vejo o clipe como essencialmente artístico. É importante atentar para o fato de ter causado tanto ódio, esse é o verdadeiro fator preocupante.”

Não, o clipe pode ser tudo – mas tudo mesmo – menos artístico.
É ruim.
Primário.
Constrangedor.

Não provoca ódio.
Provoca vergonha alheia.

Não é recomendável nem para adolescentes porque pode causar queda de libido numa fase da vida em que libido é tudo.

Digamos que tenha sido uma boa jogada de márquetchim.
Algo que, antigamente, se chamava “apelação”.

Hoje tá todo mundo falando de Clarice Falcão, mesmo gente que não tinha a menor ideia de quem fosse Clarice Falcão.

É aquela moça de belos olhos, boa atriz, péssima na escolha de namorados e ótima no quesito “como chegar aos trend topics com a ajuda de pepecas e pirus alheios”.

“Que sorte você deu
Dos males o menor
Porque você é o melhor
Ou melhor, o menos pior pra escolher”

E tem uma pepeca no clipe, uma mais cheinha, que ninguém me tira da cabeça que é da própria Clarice.

Dos pirus, acho que não conheço nenhum.

admin

2 pensamentos sobre “Genitais

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