Sambando na cara dos coxinhas

O samba-exaltação, aquele em que o azul é mais azul e o coqueiro dá coco nessa maravilha de cenário, surgiu, não por acaso, no Estado Novo.

A ditadura Vargas decidiu cooptar o samba e transformá-lo em veículo de propaganda do regime. A malandragem abriu alas para dar passagem à ideologia, ao ufanismo.

A plebe precisava estudar História – e dá-lhe enredos didáticos sobre os heróis da pátria, os vultos históricos, o nosso passado glorioso.

Instituíram-se regras carnavalescas, como a que proibia instrumentos de sopro (apropriação cultural europeia), e se normatizava o desfile das escolas (com comissão julgadora e notas) sob o olhar vigilante do Departamento de Imprensa e Propaganda (o DIP, uma espécie de Catraca Livre getulista).

Foi quando o samba embranqueceu, saindo do fundo do quintal das tias baianas para cantar a história dos vencedores, formatada pelos intelectuais do regime. A liberdade, a sátira, a irreverência deram lugar à disciplina, à lacração.

O samba se domesticava, subvencionado, instrumentalizado.

“O bonde de São Januário / leva mais um otário” (Wilson Batista) virou “o bonde de São Januário / leva mais um operário”.

Carnaval após carnaval cantando os mesmos mitos, chegou-se ao samba-enredo de uma nota só: o samba do crioulo doido de Stanislaw Ponte-Preta, em que Xica da Silva obriga a princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, que depois é eleito Pedro II e proclama a escravidão.

Stanislaw não viveu para ver o samba do afrodescendente desprovido de raciocínio lógico de 2018, em que militantes do partido responsável pela crise que levou milhões ao desemprego protestam contra as condições de trabalho e a reforma trabalhista. Em que defensores dos governos que drenaram o sangue do país criticam um vampiro colocado lá por eles mesmos. Em que instigadores de ódio reclamam da violência. E racistas reversos bradam contra o racismo.

Já houve outros enredos patrocinados. Escolas de samba já cantaram Hugo Chávez, cavalo manga-larga marchador, Maricá e Danone. Por que não louvar o PT, o petrolão, o mensalão, disfarçado de crítica social? E não haverá melhor lugar para fazer isso que num desfile cronometrado, cheio de regras, controlado por contraventores, bancado por verbas públicas e inventado por um regime calcado no fascismo.

(Um certo “Comando Olga Benário” espalhou pela cidade cartazes contra o assédio, numa campanha focada no “Não é Não”.  Olga foi uma militante comunista, deportada para a morte num campo de concentração por Getúlio Vargas, o ditador anticomunista que é um dos heróis da militância dos comandos-olga-benários que pululam por aí.  Stanislaw Ponte-Preta não deixaria algo assim de fora do seu Febeapá do século 21.)

Que em 2019 haja menos mijões, arrastões, saques, assaltos, trens imundos e lotados, e mais escolas (de samba) sem partido – ou só com partido-alto. Para não correr o risco de a PT (Paraíso da Tuiuti) ser campeã com um enredo-exaltação ao Minha Casa Minha Vida no paraíso encantado dos planos quinquenais de Stálin, com Crazy Hoffman de madrinha da bateria, Joesley e Marcelo Odebrecht de porta-bandeira e mestre-sala, e Lula (de tornozeleira eletrônica, devidamente autorizado por Gilmar Mendes) sambando na cara dos coxinhas no último carro.   

26 Comentários


  1. Parabéns pelo blog…Este é o seu caminho. Suba-o. Vou acompanhá-lo por aqui. Seus textos são impecáveis,
    É as crônicas, deliciosas. Obrigada pela honra de ser sua leitora e poder divulgar o que há de melhor na literatura do séc.XXI.😍Boa Sorte!🍀

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  2. Mais um belíssimo texto, Eduardo.
    Só uma coisa: há um duplo “melhor” ali pelas bandas de Hugo Chávez. É isso mesmo ou um mero errinho?

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    1. Um errão, já devidamente corrigido. Conto com você como revisor (sem carteira assinada!). Obrigado!

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    1. No meu DNA certamente estão o Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte-Preta, que inspirou este texto de hoje), o Carlos Eduardo Novaes, o Ivan Lessa, o Millôr Fernandes, o Art Buchwald, o Veríssimo (antes de perder a graça e virar petista profissional). Como escrevo crônica, esses aí são as maiores referências.

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      1. Excelente o texto ! Do Stanislaw ou melhor, de tia Zulmira lembro a frase lapidar “Ou implanta-se a moralidade ou locupletemo-nos todos…”. Excelente texto, ilustres referências…

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  3. Que crônica excelente!
    Que em 2019 tenhamos de volta o genuíno Carnaval Carioca!

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  4. Mais um texto pra ler e reler!!
    Parabéns pelo blog.
    Te acompanharei por aqui tbm!
    Abs

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  5. Chefia, você que fotografou tanto nesse Carnaval e nos passados, o balanço que guardas é mesmo esse, que inicia o último parágrafo?

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  6. Rapaz, cada texto melhor que o outro.
    A elegância das frases. A fina ironia. A precisão do comentário.
    *
    Respondendo a uma pergunta de leitor, você listou diversos nomes no seu DNA de cronistas influentes. Fiquei pensando que talvez tenha se esquecido incluir Don Rossé Cavaca.
    *
    E, finalmente, o blog é muito bonito. Primeira vez que o visito.
    *
    Fui.

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    1. Pois não é que eu não conhecia o Don Rossé Cavaca?
      Fui suprir (mais) essa lacuna da minha vasta ignorância, e me deparei com isso…

      O solteirão sem atrativos segue o destino: Cibalena à noite para dormir com algo feminino.

      Na reunião de cúpula do Centro de Pesquisas, a ciência revelou aspectos surpreendentes: descobriram doze moléstias até então inexistentes.

      Morreu de enfarte o João. Comentário geral: um ótimo coração.

      Na situação em que me encontro, se puserem um revólver na minha frente eu o vendo imediatamente.

      É tanta polícia que a gente fica sem a mínima garantia.

      A sífilis e as capitanias eram hereditárias.

      É a quinta massa fria vinda do Sul que o Rio desmoraliza.

      Agora gostaria que as senhoras fizessem silêncio, mas todas ao mesmo tempo.

      Um destes viveiros que matam de inveja os passarinhos livres.

      Acredito na sua honestidade mas a quadrilha já está formada.

      Bebeu veneno e o legista descobriu que era uma solução.

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  7. Meus parabéns pela clareza e sarcasmo da análise, belo estilo, força avante!

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