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Fobia

 

 

Há quem tenha medo de aranha. 
De escuro. 
De avião. 
Ou de aranhas no escuro do avião.

Eu tenho medo de dentista.

Sofro de odontofobia crônica – e, quando é tratamento de canal, também aguda.

A tortura começa na sala de espera, com as revistas de dois anos atrás, repletas de celebridades desconhecidas, e continua lá dentro com motorzinho, broca, boticão, bisturi, pinças, agulhas e demais equipamentos de tortura.

Tudo no dentista dói, da anestesia até a conta.

Tudo, não: justiça seja feita ao babador e ao espelhinho. Talvez porque não façam barulho.

O motor, silencioso, não seria uma desgraça completa. O barulho – como no caso da bala desembrulhada no cinema, da microfonia, da unha no quadro negro, do salto alto no andar de cima e do pernilongo – é que mata.

Um abafador de ruído acoplado ao motorzinho e um cabo USB transferindo a dor do meu nervo para algum nervo do dentista seriam um bom começo para melhorar minhas relações com endodontistas, periodontistas e tiradentes em geral.

No futuro, quando tiverem descoberto a cura da cárie e o tártaro houver sido erradicado do planeta, apetrechos odontológicos vão ser exibidos nos museus para horrorizar os pósteros, que não entenderão como é que gente que usava GPS e dispunha de tecnologia como a do xampu regenerador de pontas ainda se sujeitava a procedimentos tão primitivos.

Tento me convencer de que os dentistas não fazem o que fazem por mal. Que realmente não se deem conta de que a anestesia não pegou (nunca pega!). Que não percebam a diferença de tamanho entre a mão e a boca. Que não entendam que, depois de meia hora de boca aberta, já não tenhamos mais noção de para que lado foi a língua. Ou que não sintam prazer em dizer “só mais um pouquinho” quando ainda faltam setenta por cento.

Algo me diz que nada que o sujeito tenha que botar máscara para fazer pode ser boa coisa.

(Sim, tenho horário no dentista amanhã. E acho que não vai dar para desmarcar com a mesma desculpa de sexta passada).

admin

Hortifruti

 

 

– O senhor não tem vergonha de vender uma cenoura dessa cor, fina desse jeito, com esse aspecto horrível? O senhor devia ser preso, esse seu mercadinho de m… tinha que ser fechado! É por isso que esse país não vai pra frente. Por mim, acabava com tudo, devolvia pros índios, porque isso aqui não tem conserto!

– Senhora, isso é um quiabo.

(Tradução hortifrutigranjeira de certas discussões que rolam por aqui – lembrando que quando o dono da quitanda avisa que se trata de um quiabo a freguesa já está esbravejando na calçada, depois de derrubar a banquinha de couve – que ela chamou de “alface de quinta categoria”).

admin

You’ve got mail

 

Quando diagnosticada com Alzheimer, e sabendo o que a esperava, minha mãe entrou em depressão.

Na intimidade, começou a falar de morte, de não querer dar trabalho a ninguém.

Mesmo medicada com antidepressivos, era visível que a ideia de morrer ocupava seus pensamentos mais do que o que seria saudável (elaborar a questão da morte é sempre saudável; estar obcecado por ela, não).

Para desproblematizar a coisa, passamos a conversar abertamente sobre como deveria ser a vida depois da vida. A contar casos engraçados de velórios, de assombração, de reencarnação. A tratar o tema com leveza, até que os inibidores seletivos de receptação de serotonina começassem a surtir efeito.

Concluímos que, pelo andar da carruagem, era mais provável que ela (religiosa) fosse embora antes de mim (ateu). Devíamos aproveitar essa oportunidade imperdível (e irrepetível) de esclarecer quem estava certo, ela ou eu.

Ficou combinado que, passado o luto e decorrido o tempo necessário para que sua alma tomasse pé da situação do lado de lá, eu iria chamá-la para uma conversa num centro espírita.

Ela então me colocaria a par de como eram as coisas do outro lado – se houvesse outro lado. Daria notícias do Vô Zizico, da Vó Preta, das celebridades com quem tivesse cruzado (diria a Darwin que mandei um abraço, a Copérnico que ele era o cara).

Tendo sido costureira por décadas, certamente iria contar como era a moda – e o clima, a vegetação, o astral do lugar, para eu ir mais preparado.

Mas havia uma condição: nada daquele texto sentimentalista padrão falando de paz, preces, harmonia, entes queridos, espíritos de luz. Nem valia citar nomes de familiares (minha árvore genealógica está na web) ou relembrar casos (tá tudo no feicebuque).

Não. Tinha que ter uma senha. Algo pessoal. Intransferível.

Testamos um monte de palavras. 
Escolhemos “estrogonofe”.

– Mas, meu filho, como é que eu vou encaixar “estrogonofe” numa mensagem do outro mundo?
– Te vira, mãe. Se não tiver “estrogonofe”, é golpe.

Ela pensou um pouco, e concluiu que diria algo como “Estou muito feliz aqui, cercada de luz, de paz, dos espíritos dos irmãos queridos, mas… que saudade de comer um estrogonofe!”.

Rimos muito, e depois disso não se falou mais em morte.

É claro que não vou procurá-la, jamais, num centro espírita (até porque acabo de revelar a senha, e qualquer médium que use redes sociais pode tirar vantagem dessa minha inconfidência).

Mas ando pensando em criar meu próprio código autenticador, um certificado digital que ateste a procedência de qualquer suposta mensagem psicografada minha, quando eu me for.

Ela poderia conter, por exemplo, as palavras apócope, sirigaita, consuetudinário, remela e Turcomenistão.

Não sei se o que vai me deixar mais frustrado é, depois de morto, descobrir que existe um “lado de lá” e que estive equivocado a vida inteira, ou não poder ver a cara do médium ao ler a mensagem que acaba de receber.

admin

Brasil

 
 
– “Ouviram do Ipiranga as mar…
 
– Não, Joaquim Osório. Definitivamente, não. Com esse “ouviram”, você exclui os portadores de deficiência auditiva. Vamos mudar para “Aconteceu às do Ipiranga plácidas margens…”
 
– Acho que a métrica e o ritmo perdem um pouco, Francisco Manoel.
 
– Cuide da letra, que da música cuido eu. Continue.
 
– “De um povo heroico o brado retumbante”.
 
– Você e essa sua obsessão auditiva!
 
– Mas é que houve um grito do Ipiranga, não um perfume do Ipiranga, um um toque do Ipiranga, um retrogosto do Ipiranga…
 
– Não importa. O hino tem que ser inclusivo, não só dos que têm ouvido absoluto.
 
– Mas depois eu falo que “o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátr… “
 
– Aí você exclui, de uma tacada só, os portadores de deficiência visual e de transtorno de fluência, que não vão conseguir dizer tanta proparoxítona sem gaguejar.
 
– Quer dizer que não dá pra usar fúlgido, vívido, límpido, esplêndido, símbolo, flâmula?
 
– Sem chance. Proparoxítona é instrumento de opressão, é preconceito linguístico e elitismo no úrtimo.
 
– Mas o Chico Buarque…
 
– O Chico Buarque nem nasceu, e quando ele escrever uma música cheia de proparoxítonas, os seguidores dele criam uma narrativa e justificam tudo. Tira as proparoxítonas.
 
– Tá bom. Aí vem “Conseguimos conquistar com braço forte…”
 
– Que viadagem é essa, Joaquim Osório? “Braço forte”. Eu, hein!
 
– Calma, que depois eu compenso com “Em teu seio, ó liberdade…”
 
– Aí deixa de ser gay pra ser bi. Braço forte pode soar ofensivo a quem tem distrofia muscular ou não frequenta academia. E o lance do seio vai pegar super mal com quem teve que se submeter a mastectomia ou botou um implante de silicone industrial.
 
– Não menciono nenhum sentido nem nenhuma parte do corpo, então?
 
– Melhor. Sem contar que falar em bíceps e teta pode dar uma conotação sexual muito forte, e temos que pensar nos atletas de Cristo, nos que escolheram esperar, nos portadores de disfunção erétil, nas frígidas e nos que não conseguem pegar ninguém.
 
– Bom, Francisco Manuel, se as alterações são só essas…
 
– E a segunda parte?
 
– A segunda parte não tem nada de mais. Falo que “a imagem do cruzeiro resplandece” e…
 
– Já falou do florão da América, agora do Cruzeiro – e nem uma palavra sobre o Atlético Mineiro. Não tínhamos combinado que não era pra misturar hino com futebol, Joaquim?
 
– Mas Chico…
 
– Me dá essa letra aqui. Hmmm… Essa parte do “gigante pela própria natureza” discrimina as pessoas com nanismo (ou os não muito bem dotados), o “és belo” reforça a ditadura da beleza, esse “és forte”… Putz, isso aqui é o hino nacional, não do show dos leopardos!
 
– Deixa pelo menos o refrão, ou vou ter que refazer tudo. “Dos filhos…
 
– … e filhas
 
– “… deste solo és mãe…”
 
– … biológica ou adotiva
 
– “… gentil, pátria amada…”
 
– … pátria e mátria, amada e amado
 
– “…Brasil!”
 
– Ótimo. O “Brasil” ficou bom. Essa parte pode deixar. Mas o resto você corrige, por favor. Afinal, a gente nunca sabe que revertério pode dar neste país, no futuro, e não quero ninguém criticando o nosso trabalho.
admin

Encontro

– Estamos começando mais um “Encontro”, e hoje vamos tratar do caso de uma moça que não consegue emprego por causa do preconceito. Bem-vinda ao programa, Cristiane.

– Oi, Fátima, bom dia.

– Uma moça bonita como você, que tipo de preconceito você sofre para arrumar um emprego?

– Corrupção, Fátima.

– E você com certeza perdeu oportunidades por causa da corrupção? Isso foi claro para você ou foi uma suposição?

– Porque, assim, eu não era totalmente corrupta, mas toda vez que eu ia fazer entrevista, eu sabia que eu não passava por conta dos casos de corrupção na família e por causa que eu não assinava carteira, usava funcionário para pagar as minhas contas, fazia acerto com o tráfico…

– E isso te prejudicava?

– Então, isso me prejudicava muito. Depois da entrevista que um presidente aí me chamou pra um trabalho, eu fiquei tipo assim muito decepcionada, porque uma amiga minha, Luislinda, me falou assim, que era praticamente trabalho escravo, e eu não ia nem ser chamada.

– Mas é por você ser corrupta ou por você ser mulher?

– Então, eu percebia na hora da entrevista, que era tipo assim por conta das duas coisas. Ele começou…

– Ele quem? O golpista?

– Isso, ele, o presidente, ele falou assim que ali no governo tinha que ser tudo mais discreto, que o pessoal que trabalhava ali com ele tinha que usar o rabo preso, não podia botar as manguinhas de fora, e parecia que ele queria acabar com aquele assunto logo pra mim poder ir embora.

– E você, por ser mais exuberantemente corrupta, não foi contratada?

– Então, eu fiz a entrevista e tudo, mas não chamou. Até agora não chamou. Eu aí juntei uns parças meus, tudo gente simples assim, que não tem dinheiro nem pra comprar uma camisa, a gente tomou umas, foi pra uma lancha, deu depoimento dizendo que quem põe patrão na justiça é maluco, mas não adiantou. O preconceito foi mais forte.

– Nos governos anteriores não havia, mas há muitos corruptos neste governo, não?

– Eu acho que é por conta da minha ancestralidade.

– Sua família também é corrupta, é isso?

– Muito. Papai é bastante corrupto. Teve preso, inclusive.

– Acho que estamos diante de um caso de tríplice preconceito, por você ser mulher, corrupta e filha de presidiário. Vamos para um rápido intervalo e voltamos com a história de um rapaz que teve que abandonar as mulheres e as namoradas e fugir pro Espírito Santo apenas com um fuzil AR-15, uma submetralhadora e dois milhões de dólares por causa da perseguição dos militares ao seu negócio de venda de substâncias ilícitas numa comunidade carioca. Não sai daí, já já a gente volta.

admin

Emergência

– É grave, doutor?

– Aneurisma cerebral.

– E o que devo fazer?

– Consultar especialistas.

– Ok, vou ver um bom neuro que atenda pelo meu plano…

– Melhor um sociólogo.

– Mas não é um problema no cérebro?

– Sociólogos entendem de tudo. E acho bom chamar também uma antropóloga da UFF…

– Doutor…

– … e um rapper de alguma ONG, que tenha um trabalho interessante com transgêneros dependentes de funk.

– … não seria melhor incluir um neuro?

– Neuros vão querer enfiar um grampo na sua cabeça, o que é uma violência, e não resolve as causas do problema. O seu tabagismo, por exemplo.

– Doutor, eu já parei de fumar.

– Sim, mas temos que tratar a causa. Quando você experimentou o primeiro cigarro?

– Eu tinha uns quinze anos.

– Governo Médici. Eu sabia que as origens estavam na ditadura militar. Melhor chamar também um humorista, uma filósofa, um cartunista e uma senadora investigada pela Polícia Federal.

– É grave assim, doutor?

– Gravíssimo. Vai ser necessário uma inter…

– …venção cirúrgica?

– Não diga essa palavra!

– Qual? “Cirúrgica”?

– Não. “Intervenção”. Meu diagnóstico é que será necessária praticamente uma Internacional Socialista, com o PSOL em peso.

– E isso vai solucionar o problema?

– Sr. Valtencir, eu aqui empenhado em problematizar, e o senhor me vem com essa lengalenga de “solucionar problema”.. Por isso que depois acaba morrendo e… Valtencir, Valtencir, responda, está me ouvindo?

– …

– Enfermeira, o Valtencir evoluiu para óbito. Providencie a remoção do corpo e mande entrar aquele paciente com septicemia aguda. Já estou com uma professora de História e um carnavalesco de prontidão para atendê-lo.

admin

A bença

– Bença, vó.
 
Não me lembro quando essa deixou de ser minha primeira frase ao encontrá-la.
 
Pode ter sido quando me descobri incapaz de acreditar nas coisas que não existem, e aboli as orações ao dormir, a missa aos domingos, os se-deus-quiser e deus-lhe-pague, o medo do inferno.
 
Mas minha avó continuou me abençoando assim mesmo
– Deus te abençoe, meu filho
independentemente de eu lhe tomar a benção ou não.
 
Abençoava não porque eu pedisse ou merecesse, mas porque era sua atribuição de avó, sua forma de dizer te quero bem, seja feliz, nada de ruim te aconteça.
 
Minha avó era ingênua. Não diferenciava os atores de seus personagens. A cada nova novela se confundia com os nomes, os mortos ressuscitados, amantes convertidos em irmãos. Depois se acostumava, para a confusão recomeçar no primeiro capítulo da próxima trama.
 
Meu avô se aproveitava disso. Abria o jornal e exclamava
– Ó Maria! Veja que tragédia. Fulano morreu
sendo Fulano algum parente dela.
 
Estimulado pela consternação de minha avó, ele desenvolvia a história, fingindo ler a notícia de um acidente terrível em que morrera não apenas Fulano mas toda a sua família. Lapidava os detalhes, em linguagem jornalística. Descrevia a cena, matando, um a um, irmão, sobrinhos, primos, agregados.
 
Minha avó não lia. Não ia conferir com os próprios olhos a notícia inventada. Acreditava em cada palavra, e sofria resignada até o dia em que Fulano chegava para uma visita, com a família intacta, e minha avó – como diante de uma nova novela – não entendia nada, e não discutia, mais ocupada em ser feliz por estarem todos vivos.
 
Meu avô a enganou assim – como de tantas outras maneiras – inúmeras vezes, e ela jamais deixou de acreditar nele. Ou de cuidar da sua roupa, da sua comida, das coisas do jeito que ele gostava. Sem se dar conta de que ele a enganava, que se divertia às custas de sua inocência.
 
Vivia num mundo em que sereno matava, vento encanado matava e espremer espinha – principalmente antes do almoço – era morte certa. Vigiava o banheiro para que ninguém se atrevesse a tomar banho enquanto não houvesse terminado a digestão, e para que nenhum de nós pisasse descalço no cimento frio, ou saísse sem agasalho.
 
Teve sempre o mesmo corte de cabelo, nunca se maquiou, volta e meia procurava os óculos esquecida de que os estava usando.
 
Comia às escondidas de si mesma, sempre disfarçando a gordura nas mãos, sempre enxugando as mãos no vestido, sempre com o mesmíssimo vestido (não importava o modelo, a estampa: seus vestidos pareciam idênticos, feitos para que ela não se destacasse, para que se confundisse com o cenário, não fosse nunca figura, mas figurante).
 
Na última vez que a vi, no hospital, me segurou forte a mão e disse
– Meu namorado.
 
Sepultaram-na junto dos seus pais, não do marido, porque, mais que viúva, era órfã.
 
Nunca disse a ela que deixara de acreditar em deuses, santos, simpatias, vento encanado, ou que, se tivesse uma filha, lhe daria o seu nome.
 
Nunca disse a ela tantas coisas. Mas tudo que importava podia se resumir naquilo que um dia deixei de dizer
– Bença, vó
que era só uma maneira de dizer te quero bem, seja feliz, nada de ruim te aconteça.
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BLOCO DAS CARMELITAS, volume 2

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Carnaval 2018 – Bloco das Quengas

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Sambando na cara dos coxinhas

O samba-exaltação, aquele em que o azul é mais azul e o coqueiro dá coco nessa maravilha de cenário, surgiu, não por acaso, no Estado Novo.

A ditadura Vargas decidiu cooptar o samba e transformá-lo em veículo de propaganda do regime. A malandragem abriu alas para dar passagem à ideologia, ao ufanismo.

A plebe precisava estudar História – e dá-lhe enredos didáticos sobre os heróis da pátria, os vultos históricos, o nosso passado glorioso.

Instituíram-se regras carnavalescas, como a que proibia instrumentos de sopro (apropriação cultural europeia), e se normatizava o desfile das escolas (com comissão julgadora e notas) sob o olhar vigilante do Departamento de Imprensa e Propaganda (o DIP, uma espécie de Catraca Livre getulista).

Foi quando o samba embranqueceu, saindo do fundo do quintal das tias baianas para cantar a história dos vencedores, formatada pelos intelectuais do regime. A liberdade, a sátira, a irreverência deram lugar à disciplina, à lacração.

O samba se domesticava, subvencionado, instrumentalizado.

“O bonde de São Januário / leva mais um otário” (Wilson Batista) virou “o bonde de São Januário / leva mais um operário”.

Carnaval após carnaval cantando os mesmos mitos, chegou-se ao samba-enredo de uma nota só: o samba do crioulo doido de Stanislaw Ponte-Preta, em que Xica da Silva obriga a princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, que depois é eleito Pedro II e proclama a escravidão.

Stanislaw não viveu para ver o samba do afrodescendente desprovido de raciocínio lógico de 2018, em que militantes do partido responsável pela crise que levou milhões ao desemprego protestam contra as condições de trabalho e a reforma trabalhista. Em que defensores dos governos que drenaram o sangue do país criticam um vampiro colocado lá por eles mesmos. Em que instigadores de ódio reclamam da violência. E racistas reversos bradam contra o racismo.

Já houve outros enredos patrocinados. Escolas de samba já cantaram Hugo Chávez, cavalo manga-larga marchador, Maricá e Danone. Por que não louvar o PT, o petrolão, o mensalão, disfarçado de crítica social? E não haverá melhor lugar para fazer isso que num desfile cronometrado, cheio de regras, controlado por contraventores, bancado por verbas públicas e inventado por um regime calcado no fascismo.

(Um certo “Comando Olga Benário” espalhou pela cidade cartazes contra o assédio, numa campanha focada no “Não é Não”.  Olga foi uma militante comunista, deportada para a morte num campo de concentração por Getúlio Vargas, o ditador anticomunista que é um dos heróis da militância dos comandos-olga-benários que pululam por aí.  Stanislaw Ponte-Preta não deixaria algo assim de fora do seu Febeapá do século 21.)

Que em 2019 haja menos mijões, arrastões, saques, assaltos, trens imundos e lotados, e mais escolas (de samba) sem partido – ou só com partido-alto. Para não correr o risco de a PT (Paraíso da Tuiuti) ser campeã com um enredo-exaltação ao Minha Casa Minha Vida no paraíso encantado dos planos quinquenais de Stálin, com Crazy Hoffman de madrinha da bateria, Joesley e Marcelo Odebrecht de porta-bandeira e mestre-sala, e Lula (de tornozeleira eletrônica, devidamente autorizado por Gilmar Mendes) sambando na cara dos coxinhas no último carro.   

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