You’ve got mail

Quando diagnosticada com Alzheimer, e sabendo o que a esperava, minha mãe entrou em depressão.

Na intimidade, começou a falar de morte, de não querer dar trabalho a ninguém.

Mesmo medicada com antidepressivos, era visível que a ideia de morrer ocupava seus pensamentos mais do que o que seria saudável (elaborar a questão da morte é sempre saudável; estar obcecado por ela, não).

Para desproblematizar a coisa, passamos a conversar abertamente sobre como deveria ser a vida depois da vida. A contar casos engraçados de velórios, de assombração, de reencarnação. A tratar o tema com leveza, até que os inibidores seletivos de receptação de serotonina começassem a surtir efeito.

Concluímos que, pelo andar da carruagem, era mais provável que ela (religiosa) fosse embora antes de mim (ateu). Devíamos aproveitar essa oportunidade imperdível (e irrepetível) de esclarecer quem estava certo, ela ou eu.

Ficou combinado que, passado o luto e decorrido o tempo necessário para que sua alma tomasse pé da situação do lado de lá, eu iria chamá-la para uma conversa num centro espírita.

Ela então me colocaria a par de como eram as coisas do outro lado – se houvesse outro lado. Daria notícias do Vô Zizico, da Vó Preta, das celebridades com quem tivesse cruzado (diria a Darwin que mandei um abraço, a Copérnico que ele era o cara).

Tendo sido costureira por décadas, certamente iria contar como era a moda – e o clima, a vegetação, o astral do lugar, para eu ir mais preparado.

Mas havia uma condição: nada daquele texto sentimentalista padrão falando de paz, preces, harmonia, entes queridos, espíritos de luz. Nem valia citar nomes de familiares (minha árvore genealógica está na web) ou relembrar casos (tá tudo no feicebuque).

Não. Tinha que ter uma senha. Algo pessoal. Intransferível.

Testamos um monte de palavras. 
Escolhemos “estrogonofe”.

– Mas, meu filho, como é que eu vou encaixar “estrogonofe” numa mensagem do outro mundo?
– Te vira, mãe. Se não tiver “estrogonofe”, é golpe.

Ela pensou um pouco, e concluiu que diria algo como “Estou muito feliz aqui, cercada de luz, de paz, dos espíritos dos irmãos queridos, mas… que saudade de comer um estrogonofe!”.

Rimos muito, e depois disso não se falou mais em morte.

É claro que não vou procurá-la, jamais, num centro espírita (até porque acabo de revelar a senha, e qualquer médium que use redes sociais pode tirar vantagem dessa minha inconfidência).

Mas ando pensando em criar meu próprio código autenticador, um certificado digital que ateste a procedência de qualquer suposta mensagem psicografada minha, quando eu me for.

Ela poderia conter, por exemplo, as palavras apócope, sirigaita, consuetudinário, remela e Turcomenistão.

Não sei se o que vai me deixar mais frustrado é, depois de morto, descobrir que existe um “lado de lá” e que estive equivocado a vida inteira, ou não poder ver a cara do médium ao ler a mensagem que acaba de receber.

1 comentário


  1. Eduardo, querido. Não sei se aparece horário aqui, então, é 24/04, 00:25am. Estamos em vigília, preocupados com seu exílio. Você levou um casaquinho, não levou? Muita gente apareceu, reforçou a indignação com a sua punição, querem saber quando você voltará. Muita gente, mesmo! Fiéis seguidores, preocupados com você e com eles próprios. Ninguém tá querendo te perder tão cedo. Se Mrs. Williams viesse te buscar, acho que nem assim seria fácil partir. Provavelmente, nós a convenceríamos ficar. O Daniel aprontou das suas, sabe. Peitou o FB com palavrão e tudo. Raiva, de filho que defende o tutor. Palavras lindas registrou sobre você, depois eu te mostro. Como disse o Canhadas ontem, coincidência é um tema que não deveríamos levar pra você, mas… é o seu ano novo e saber que é querido assim deve ser bom pra caramba. Ser querido assim deve dar vontade de sair por aí abraçando, desfazendo as rusgas, desfiando os nós, as mágoas e tudo que machuca o sono (eu acho)… Beijo e até breve.

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