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Arquivos por mêsmarço 2018

You’ve got mail

 

Quando diagnosticada com Alzheimer, e sabendo o que a esperava, minha mãe entrou em depressão.

Na intimidade, começou a falar de morte, de não querer dar trabalho a ninguém.

Mesmo medicada com antidepressivos, era visível que a ideia de morrer ocupava seus pensamentos mais do que o que seria saudável (elaborar a questão da morte é sempre saudável; estar obcecado por ela, não).

Para desproblematizar a coisa, passamos a conversar abertamente sobre como deveria ser a vida depois da vida. A contar casos engraçados de velórios, de assombração, de reencarnação. A tratar o tema com leveza, até que os inibidores seletivos de receptação de serotonina começassem a surtir efeito.

Concluímos que, pelo andar da carruagem, era mais provável que ela (religiosa) fosse embora antes de mim (ateu). Devíamos aproveitar essa oportunidade imperdível (e irrepetível) de esclarecer quem estava certo, ela ou eu.

Ficou combinado que, passado o luto e decorrido o tempo necessário para que sua alma tomasse pé da situação do lado de lá, eu iria chamá-la para uma conversa num centro espírita.

Ela então me colocaria a par de como eram as coisas do outro lado – se houvesse outro lado. Daria notícias do Vô Zizico, da Vó Preta, das celebridades com quem tivesse cruzado (diria a Darwin que mandei um abraço, a Copérnico que ele era o cara).

Tendo sido costureira por décadas, certamente iria contar como era a moda – e o clima, a vegetação, o astral do lugar, para eu ir mais preparado.

Mas havia uma condição: nada daquele texto sentimentalista padrão falando de paz, preces, harmonia, entes queridos, espíritos de luz. Nem valia citar nomes de familiares (minha árvore genealógica está na web) ou relembrar casos (tá tudo no feicebuque).

Não. Tinha que ter uma senha. Algo pessoal. Intransferível.

Testamos um monte de palavras. 
Escolhemos “estrogonofe”.

– Mas, meu filho, como é que eu vou encaixar “estrogonofe” numa mensagem do outro mundo?
– Te vira, mãe. Se não tiver “estrogonofe”, é golpe.

Ela pensou um pouco, e concluiu que diria algo como “Estou muito feliz aqui, cercada de luz, de paz, dos espíritos dos irmãos queridos, mas… que saudade de comer um estrogonofe!”.

Rimos muito, e depois disso não se falou mais em morte.

É claro que não vou procurá-la, jamais, num centro espírita (até porque acabo de revelar a senha, e qualquer médium que use redes sociais pode tirar vantagem dessa minha inconfidência).

Mas ando pensando em criar meu próprio código autenticador, um certificado digital que ateste a procedência de qualquer suposta mensagem psicografada minha, quando eu me for.

Ela poderia conter, por exemplo, as palavras apócope, sirigaita, consuetudinário, remela e Turcomenistão.

Não sei se o que vai me deixar mais frustrado é, depois de morto, descobrir que existe um “lado de lá” e que estive equivocado a vida inteira, ou não poder ver a cara do médium ao ler a mensagem que acaba de receber.

Brasil

 
 
– “Ouviram do Ipiranga as mar…
 
– Não, Joaquim Osório. Definitivamente, não. Com esse “ouviram”, você exclui os portadores de deficiência auditiva. Vamos mudar para “Aconteceu às do Ipiranga plácidas margens…”
 
– Acho que a métrica e o ritmo perdem um pouco, Francisco Manoel.
 
– Cuide da letra, que da música cuido eu. Continue.
 
– “De um povo heroico o brado retumbante”.
 
– Você e essa sua obsessão auditiva!
 
– Mas é que houve um grito do Ipiranga, não um perfume do Ipiranga, um um toque do Ipiranga, um retrogosto do Ipiranga…
 
– Não importa. O hino tem que ser inclusivo, não só dos que têm ouvido absoluto.
 
– Mas depois eu falo que “o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátr… “
 
– Aí você exclui, de uma tacada só, os portadores de deficiência visual e de transtorno de fluência, que não vão conseguir dizer tanta proparoxítona sem gaguejar.
 
– Quer dizer que não dá pra usar fúlgido, vívido, límpido, esplêndido, símbolo, flâmula?
 
– Sem chance. Proparoxítona é instrumento de opressão, é preconceito linguístico e elitismo no úrtimo.
 
– Mas o Chico Buarque…
 
– O Chico Buarque nem nasceu, e quando ele escrever uma música cheia de proparoxítonas, os seguidores dele criam uma narrativa e justificam tudo. Tira as proparoxítonas.
 
– Tá bom. Aí vem “Conseguimos conquistar com braço forte…”
 
– Que viadagem é essa, Joaquim Osório? “Braço forte”. Eu, hein!
 
– Calma, que depois eu compenso com “Em teu seio, ó liberdade…”
 
– Aí deixa de ser gay pra ser bi. Braço forte pode soar ofensivo a quem tem distrofia muscular ou não frequenta academia. E o lance do seio vai pegar super mal com quem teve que se submeter a mastectomia ou botou um implante de silicone industrial.
 
– Não menciono nenhum sentido nem nenhuma parte do corpo, então?
 
– Melhor. Sem contar que falar em bíceps e teta pode dar uma conotação sexual muito forte, e temos que pensar nos atletas de Cristo, nos que escolheram esperar, nos portadores de disfunção erétil, nas frígidas e nos que não conseguem pegar ninguém.
 
– Bom, Francisco Manuel, se as alterações são só essas…
 
– E a segunda parte?
 
– A segunda parte não tem nada de mais. Falo que “a imagem do cruzeiro resplandece” e…
 
– Já falou do florão da América, agora do Cruzeiro – e nem uma palavra sobre o Atlético Mineiro. Não tínhamos combinado que não era pra misturar hino com futebol, Joaquim?
 
– Mas Chico…
 
– Me dá essa letra aqui. Hmmm… Essa parte do “gigante pela própria natureza” discrimina as pessoas com nanismo (ou os não muito bem dotados), o “és belo” reforça a ditadura da beleza, esse “és forte”… Putz, isso aqui é o hino nacional, não do show dos leopardos!
 
– Deixa pelo menos o refrão, ou vou ter que refazer tudo. “Dos filhos…
 
– … e filhas
 
– “… deste solo és mãe…”
 
– … biológica ou adotiva
 
– “… gentil, pátria amada…”
 
– … pátria e mátria, amada e amado
 
– “…Brasil!”
 
– Ótimo. O “Brasil” ficou bom. Essa parte pode deixar. Mas o resto você corrige, por favor. Afinal, a gente nunca sabe que revertério pode dar neste país, no futuro, e não quero ninguém criticando o nosso trabalho.