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Arquivos por mêsfevereiro 2018

Encontro

– Estamos começando mais um “Encontro”, e hoje vamos tratar do caso de uma moça que não consegue emprego por causa do preconceito. Bem-vinda ao programa, Cristiane.

– Oi, Fátima, bom dia.

– Uma moça bonita como você, que tipo de preconceito você sofre para arrumar um emprego?

– Corrupção, Fátima.

– E você com certeza perdeu oportunidades por causa da corrupção? Isso foi claro para você ou foi uma suposição?

– Porque, assim, eu não era totalmente corrupta, mas toda vez que eu ia fazer entrevista, eu sabia que eu não passava por conta dos casos de corrupção na família e por causa que eu não assinava carteira, usava funcionário para pagar as minhas contas, fazia acerto com o tráfico…

– E isso te prejudicava?

– Então, isso me prejudicava muito. Depois da entrevista que um presidente aí me chamou pra um trabalho, eu fiquei tipo assim muito decepcionada, porque uma amiga minha, Luislinda, me falou assim, que era praticamente trabalho escravo, e eu não ia nem ser chamada.

– Mas é por você ser corrupta ou por você ser mulher?

– Então, eu percebia na hora da entrevista, que era tipo assim por conta das duas coisas. Ele começou…

– Ele quem? O golpista?

– Isso, ele, o presidente, ele falou assim que ali no governo tinha que ser tudo mais discreto, que o pessoal que trabalhava ali com ele tinha que usar o rabo preso, não podia botar as manguinhas de fora, e parecia que ele queria acabar com aquele assunto logo pra mim poder ir embora.

– E você, por ser mais exuberantemente corrupta, não foi contratada?

– Então, eu fiz a entrevista e tudo, mas não chamou. Até agora não chamou. Eu aí juntei uns parças meus, tudo gente simples assim, que não tem dinheiro nem pra comprar uma camisa, a gente tomou umas, foi pra uma lancha, deu depoimento dizendo que quem põe patrão na justiça é maluco, mas não adiantou. O preconceito foi mais forte.

– Nos governos anteriores não havia, mas há muitos corruptos neste governo, não?

– Eu acho que é por conta da minha ancestralidade.

– Sua família também é corrupta, é isso?

– Muito. Papai é bastante corrupto. Teve preso, inclusive.

– Acho que estamos diante de um caso de tríplice preconceito, por você ser mulher, corrupta e filha de presidiário. Vamos para um rápido intervalo e voltamos com a história de um rapaz que teve que abandonar as mulheres e as namoradas e fugir pro Espírito Santo apenas com um fuzil AR-15, uma submetralhadora e dois milhões de dólares por causa da perseguição dos militares ao seu negócio de venda de substâncias ilícitas numa comunidade carioca. Não sai daí, já já a gente volta.

Emergência

– É grave, doutor?

– Aneurisma cerebral.

– E o que devo fazer?

– Consultar especialistas.

– Ok, vou ver um bom neuro que atenda pelo meu plano…

– Melhor um sociólogo.

– Mas não é um problema no cérebro?

– Sociólogos entendem de tudo. E acho bom chamar também uma antropóloga da UFF…

– Doutor…

– … e um rapper de alguma ONG, que tenha um trabalho interessante com transgêneros dependentes de funk.

– … não seria melhor incluir um neuro?

– Neuros vão querer enfiar um grampo na sua cabeça, o que é uma violência, e não resolve as causas do problema. O seu tabagismo, por exemplo.

– Doutor, eu já parei de fumar.

– Sim, mas temos que tratar a causa. Quando você experimentou o primeiro cigarro?

– Eu tinha uns quinze anos.

– Governo Médici. Eu sabia que as origens estavam na ditadura militar. Melhor chamar também um humorista, uma filósofa, um cartunista e uma senadora investigada pela Polícia Federal.

– É grave assim, doutor?

– Gravíssimo. Vai ser necessário uma inter…

– …venção cirúrgica?

– Não diga essa palavra!

– Qual? “Cirúrgica”?

– Não. “Intervenção”. Meu diagnóstico é que será necessária praticamente uma Internacional Socialista, com o PSOL em peso.

– E isso vai solucionar o problema?

– Sr. Valtencir, eu aqui empenhado em problematizar, e o senhor me vem com essa lengalenga de “solucionar problema”.. Por isso que depois acaba morrendo e… Valtencir, Valtencir, responda, está me ouvindo?

– …

– Enfermeira, o Valtencir evoluiu para óbito. Providencie a remoção do corpo e mande entrar aquele paciente com septicemia aguda. Já estou com uma professora de História e um carnavalesco de prontidão para atendê-lo.

A bença

– Bença, vó.
 
Não me lembro quando essa deixou de ser minha primeira frase ao encontrá-la.
 
Pode ter sido quando me descobri incapaz de acreditar nas coisas que não existem, e aboli as orações ao dormir, a missa aos domingos, os se-deus-quiser e deus-lhe-pague, o medo do inferno.
 
Mas minha avó continuou me abençoando assim mesmo
– Deus te abençoe, meu filho
independentemente de eu lhe tomar a benção ou não.
 
Abençoava não porque eu pedisse ou merecesse, mas porque era sua atribuição de avó, sua forma de dizer te quero bem, seja feliz, nada de ruim te aconteça.
 
Minha avó era ingênua. Não diferenciava os atores de seus personagens. A cada nova novela se confundia com os nomes, os mortos ressuscitados, amantes convertidos em irmãos. Depois se acostumava, para a confusão recomeçar no primeiro capítulo da próxima trama.
 
Meu avô se aproveitava disso. Abria o jornal e exclamava
– Ó Maria! Veja que tragédia. Fulano morreu
sendo Fulano algum parente dela.
 
Estimulado pela consternação de minha avó, ele desenvolvia a história, fingindo ler a notícia de um acidente terrível em que morrera não apenas Fulano mas toda a sua família. Lapidava os detalhes, em linguagem jornalística. Descrevia a cena, matando, um a um, irmão, sobrinhos, primos, agregados.
 
Minha avó não lia. Não ia conferir com os próprios olhos a notícia inventada. Acreditava em cada palavra, e sofria resignada até o dia em que Fulano chegava para uma visita, com a família intacta, e minha avó – como diante de uma nova novela – não entendia nada, e não discutia, mais ocupada em ser feliz por estarem todos vivos.
 
Meu avô a enganou assim – como de tantas outras maneiras – inúmeras vezes, e ela jamais deixou de acreditar nele. Ou de cuidar da sua roupa, da sua comida, das coisas do jeito que ele gostava. Sem se dar conta de que ele a enganava, que se divertia às custas de sua inocência.
 
Vivia num mundo em que sereno matava, vento encanado matava e espremer espinha – principalmente antes do almoço – era morte certa. Vigiava o banheiro para que ninguém se atrevesse a tomar banho enquanto não houvesse terminado a digestão, e para que nenhum de nós pisasse descalço no cimento frio, ou saísse sem agasalho.
 
Teve sempre o mesmo corte de cabelo, nunca se maquiou, volta e meia procurava os óculos esquecida de que os estava usando.
 
Comia às escondidas de si mesma, sempre disfarçando a gordura nas mãos, sempre enxugando as mãos no vestido, sempre com o mesmíssimo vestido (não importava o modelo, a estampa: seus vestidos pareciam idênticos, feitos para que ela não se destacasse, para que se confundisse com o cenário, não fosse nunca figura, mas figurante).
 
Na última vez que a vi, no hospital, me segurou forte a mão e disse
– Meu namorado.
 
Sepultaram-na junto dos seus pais, não do marido, porque, mais que viúva, era órfã.
 
Nunca disse a ela que deixara de acreditar em deuses, santos, simpatias, vento encanado, ou que, se tivesse uma filha, lhe daria o seu nome.
 
Nunca disse a ela tantas coisas. Mas tudo que importava podia se resumir naquilo que um dia deixei de dizer
– Bença, vó
que era só uma maneira de dizer te quero bem, seja feliz, nada de ruim te aconteça.

BLOCO DAS CARMELITAS, volume 2

Carnaval 2018 – Bloco das Quengas

Sambando na cara dos coxinhas

O samba-exaltação, aquele em que o azul é mais azul e o coqueiro dá coco nessa maravilha de cenário, surgiu, não por acaso, no Estado Novo.

A ditadura Vargas decidiu cooptar o samba e transformá-lo em veículo de propaganda do regime. A malandragem abriu alas para dar passagem à ideologia, ao ufanismo.

A plebe precisava estudar História – e dá-lhe enredos didáticos sobre os heróis da pátria, os vultos históricos, o nosso passado glorioso.

Instituíram-se regras carnavalescas, como a que proibia instrumentos de sopro (apropriação cultural europeia), e se normatizava o desfile das escolas (com comissão julgadora e notas) sob o olhar vigilante do Departamento de Imprensa e Propaganda (o DIP, uma espécie de Catraca Livre getulista).

Foi quando o samba embranqueceu, saindo do fundo do quintal das tias baianas para cantar a história dos vencedores, formatada pelos intelectuais do regime. A liberdade, a sátira, a irreverência deram lugar à disciplina, à lacração.

O samba se domesticava, subvencionado, instrumentalizado.

“O bonde de São Januário / leva mais um otário” (Wilson Batista) virou “o bonde de São Januário / leva mais um operário”.

Carnaval após carnaval cantando os mesmos mitos, chegou-se ao samba-enredo de uma nota só: o samba do crioulo doido de Stanislaw Ponte-Preta, em que Xica da Silva obriga a princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, que depois é eleito Pedro II e proclama a escravidão.

Stanislaw não viveu para ver o samba do afrodescendente desprovido de raciocínio lógico de 2018, em que militantes do partido responsável pela crise que levou milhões ao desemprego protestam contra as condições de trabalho e a reforma trabalhista. Em que defensores dos governos que drenaram o sangue do país criticam um vampiro colocado lá por eles mesmos. Em que instigadores de ódio reclamam da violência. E racistas reversos bradam contra o racismo.

Já houve outros enredos patrocinados. Escolas de samba já cantaram Hugo Chávez, cavalo manga-larga marchador, Maricá e Danone. Por que não louvar o PT, o petrolão, o mensalão, disfarçado de crítica social? E não haverá melhor lugar para fazer isso que num desfile cronometrado, cheio de regras, controlado por contraventores, bancado por verbas públicas e inventado por um regime calcado no fascismo.

(Um certo “Comando Olga Benário” espalhou pela cidade cartazes contra o assédio, numa campanha focada no “Não é Não”.  Olga foi uma militante comunista, deportada para a morte num campo de concentração por Getúlio Vargas, o ditador anticomunista que é um dos heróis da militância dos comandos-olga-benários que pululam por aí.  Stanislaw Ponte-Preta não deixaria algo assim de fora do seu Febeapá do século 21.)

Que em 2019 haja menos mijões, arrastões, saques, assaltos, trens imundos e lotados, e mais escolas (de samba) sem partido – ou só com partido-alto. Para não correr o risco de a PT (Paraíso da Tuiuti) ser campeã com um enredo-exaltação ao Minha Casa Minha Vida no paraíso encantado dos planos quinquenais de Stálin, com Crazy Hoffman de madrinha da bateria, Joesley e Marcelo Odebrecht de porta-bandeira e mestre-sala, e Lula (de tornozeleira eletrônica, devidamente autorizado por Gilmar Mendes) sambando na cara dos coxinhas no último carro.   

Mentira, substantivo masculino

Pedro e Paula finalmente tinham ganho o cachorrinho que tanto pediam.

Era um labrador preto, filhotinho, que mais parecia de brinquedo.

Os dois disputavam quem apertava mais, quem perturbava mais, quem mais fazia o coitado de gato e sapato.

Mas o labradorzinho, batizado de Rex, aguentava tudo estoicamente.

Os dois irmãos se julgavam ambos donos de 100% do Rex, mas a posse do animal deixava de ser disputada quando se tratava de limpar cocô, secar xixi. Aí Rex era de ninguém.

Depois de muitas broncas e lições de moral tipo “dono tem que ser dono na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na brincadeira e no xixi”, Pedro resolveu tomar para si todos os cuidados. E, ao primeiro descuido da família, levou Rex para a banheira e deu-lhe um banho de xampu e sabonete, com direito a creme rinse e imersão demorada, para tirar toda a espuma.

Rex, claro, não sobreviveu para contar.

Antes que a família percebesse alguma coisa, Pedro tratou de procurar na vizinhança um filhote que pudesse substituir o desditado Rex.

Não, ninguém tinha nenhum labrador preto sobressalente.

Foi até a pet shop, contou uma história triste, e voltou com outro filhote na mão.

Paula e a mãe encontraram os dois na banheira, o filhote se debatendo para escapar da sina do seu antecessor.

– Mãe, fui dar um banho no Rex e olha o que aconteceu: ele desbotou!

Paula e a mãe não sabiam o que dizer.

Pedro, orgulhoso, segurava no ar o filhotinho branco, encharcado.

– E olha, acho que o moço da pet shop te enganou, por que ele é fêmea.

Paula e a mãe olhavam fixamente para a banheira transbordante de espuma.

– Ah, e acho que o banho fez muito bem pra Rex. Ela agora mia!

Carnaval 2018, Bloco da Ludmilla