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Arquivos por mêsnovembro 2017

Um trem qualquer

Não falo Português nem Brasileiro – falo Mineirês, espichando os sss, comendo as palavras pelas beiradas, roendo-as até deixar só a raiz, só o tutano.

– Cuméquitá o trans?

– Confuz quiçó ceveno.

(Pra que “trânsito”, se “trans” já diz? Por que várias palavras, se pó juntar tudo num trem só?)

O Mineirês – não fosse ele invenção de mineiro – é econômico.

Com uma coisa e um trem (que são o mesmo trem, a mesma coisa), a gen dá conta de tudo.

– Já coisou o trem?

– Vô coisá.

E lá vai o mineiro coisando o que tem pra coisar, até o trem ficar do jeitim que tem que ser.

Porque Mineirês não é só esse trem de usar trem pra tudo quanto é trem.

Mesmo um tã de trem que não tem como melhorar, o mineiro pega e melhora.

Um bocadinho, que já é menor que um bocado, a gente incói  pra um muncadiquim, que ainda é o dobro de um cadiquim de nada.

Mineirês não é só o que se diz, mas como é dito.
A fala vai em ritmo de carro de boi, modulando a voz nas curvas da estradinha de chão que é o jeito mineiro de falar – vogais se fechando como quem poupa fôlego montanha acima, os RR raspando a garganta como quem segura o cabresto montanha abaixo.

Mineirês se fala de soslaio, mesmo olhando de frente.
Na maciota, mesmo se o assunto é pedregoso.

Linguistas dirão que tudo se reduz às sílabas tônicas serem mais longas que as átonas, à apócope das vogais curtas, à palatização do D e do T, à aférese do E, ao escambo do E pelo I e do O pelo U, ao esfumaçar do U na última sílaba.

Dito assim, o Mineirês parece fácil, teorema demonstrado.
Só que não bastam os trilhos, a estação, a mala na mão e o adeus para haver uma viagem.

É preciso um trem.

Um trem que não se sabe bem o que é – a não ser que se fale Mineirês.

Sobre cães e lobos

Se você adotar um filhote de lobo e tratá-lo como um cão, ele se tornará, no máximo, um lobo com pelo macio. Nada fará dele um cão.

Não em menos de alguns milhares de anos.

Cães e lobos têm muito em comum, mas diferem em algo fundamental: o cão te ama à primeira vista; o lobo te verá como uma presa em potencial a vida inteira.

Uma teoria diz que lobos menos capazes (ou mais preguiçosos) foram colando na nossa espécie por uma questão de custo x benefício. Para esses, mais valia um resto de comida 0800 que um banquete à base da carnificina.

A seleção natural fez o resto, e o lobo mais bobo deixou a alcateia para entrar na família.

Outra teoria diz que alguns lobos desenvolveram uma desordem genética similar à Síndrome de Williams – que, nos humanos, entre outras coisas, torna as pessoas hipersociáveis. As linhagens portadoras desse gene com defeito deram origem ao cão.

O cão afetuoso seria um lobo doente.

Não será o amor, também ele, um transtorno, um gene torto que nos faz confiar, depender, proteger, perdoar- e, em casos extremos, permitir que nos tratem como a um cão?

A Ciência há de descobrir (a Ciência descobre tudo – o que não descobre, inventa) que o ciúme, a possessividade, a paixão – efeitos colaterais do amor – não são mais que perturbações no DNA: um desarranjo na citosina, um desconcerto na timina, um desassossego na adenina. 
Nada que a terapia genética (adeus, Freud Rogers Moreno Lacan Skinner) não resolva.

Macacos disfuncionais é o que talvez sejamos, mal equilibrados nas patas traseiras, autoflagelados pela culpa de um pecado que não cometemos, nos autoinflingindo uma monogamia mais apropriada a pombos, periquitos e pinguins.

O homem não é o lobo do homem – é o cachorro do macaco.

Assim falou Salomão

Está no Eclesiastes: tudo é vaidade.

Alguns entendem ao pé da letra, e proíbem batom perfume depilação decote.
Como se estivesse na aparência o vazio das coisas (vaidade é o que é vão).

Tudo é ilusão, diz outra versão desse versículo (com o perdão da aliteração, do trocadilho).
Ilusão é diferente de vaidade: tem a mesma raiz de lúdico: um jogo, um engano.

Tudo é vaidade, vento que passa.
Tudo é ilusão, é como correr atrás do vento.

Se cada tradutor trai à sua maneira, há os que prefiram não falar em vaidade ou ilusão, mas que é tudo inútil.

Nasce o sol, o sol se põe, pedra arrastada montanha acima toda manhã apenas para rolar montanha abaixo ao entardecer. 
Mar que não se enche jamais, por mais que nele desaguem todos os rios.

Inutilmente nascemos também nós, para morrer. E entre a alvorada e o poente, inutilmente corremos para matar a sede do mar que não se sacia.

Vida, conhecimento, dor, é tudo inutensílio, diz Salomão (ou quem escreve em seu nome).
Não há qualquer valor real em nada que se passe debaixo do sol.
(O reino das coisas que são não é o reino deste mundo).

Tudo é absurdo, tudo é futilidade – continuam os tradutores, justificando cada centavo gasto com seus dicionários.

Eu, que leio a Bíblia como quem lê um romance escrito a milhares de mãos – todas humanas, demasiadamente humanas – prefiro a tradução de um poeta, Haroldo de Campos, na qual Qohélet (O-que-sabe, O-que-reúne) diz que os rios correm e o mar não replena, que os olhos não se saciam de ver, que o novo já o era outrora, que todos os feitos sob o sol são fome de vento.

Como se neste trecho a caligrafia fosse de um Nietzsche, de um existencialista, de um ateu, não se fala em vaidade, ilusão, inutilidade, futilidade, absurdo, mas que tudo é névoa – e nada.