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Arquivos por mêsoutubro 2017

Beija eu

O Brasil não deveria ser dividido em Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste, segmentação meramente geográfica.
Nem entre os que chamam biscoito de biscoito e os que, equivocadamente, chamam biscoito de bolacha.
 
Também não devia ser, como quer o PT, entre “nós” e “eles” – sendo “nós”, no caso, eles.
Ou entre o Reino da Mexerica, a República do Bergamota e a Província da Mimosa.
Tampouco entre os que chiam – como os cariocas, catarinas, paraenses e juiz-foranos – e os que falam direito.
 
A divisão real do Brasil, e a chave para entendê-lo, está o número de beijos que se dá ao encontrar alguém do sexo oposto.
 
O Brasil corriqueiro – que paga imposto, fala mal do governo, torce pela seleção, trola com tudo – esse dá dois beijos, um em cada face, equanimemente.
São beijos informais, nem muito dignos de ser chamados de beijos – praticamente um aperto de mão com privilégios.
 
Esse Brasil tem sua base no Rio de Janeiro, subindo pelo litoral até o Nordeste.
 
A dupla de beijinhos tem a substância de um “depois a gente se vê” ou “aparece qualquer hora”.
São beijos inconsequentes, como esse Brasil que paga impostos, fala mal do governo, torce pela seleção e trola com tudo.
 
Outro Brasil é o do beijo único, protocolar – ou beijo paulista.
 
Ele deixa bem claro que não se quer intimidade, e equivale ao aperto de mão com luva, ao sexo de cabelo preso, luz apagada, sutiã e meia.
 
É o que te deixa no vácuo quando você parte para o segundo beijo, e o que fica não é o beijo que você ganhou, mas o que te foi negado.
Poderia ser chamado de “ósculo”, se alguém ainda soubesse o que isso significa.
 
Há, porém, o Brasil de verdade – o Brasil amoroso, profundo, aquele com todas as virtudes que nos gabamos que o brasileiro tem, mesmo que não tenha – e esse Brasil dá três beijos.
 
E são três beijos pra valer, um em cada face e mais um de becape, de lambuja, de genuína generosidade. “Pra casar”.
 
É o plus extra adicional a mais, o chorinho da bebida, a outra azeitona (sem caroço) na empada, a fartura de queijo derretido disputando espaço com o vento no pastel de vento.
 
Esse Brasil começa em Minas Gerais e acaba em Minas Gerais mesmo.
Fica ali, concentrado, aproveitando o silêncio das montanhas, o marulho das montanhas (as montanhas são as ondas verdes do mar que Minas não tem).
 
Beija-se com vontade, como se o beijo dissesse que bom te encontrar, te conhecer, que bom estar aqui segurando sua mão ou com a mão na sua cintura enquanto te beijo, que bom se este beijo fosse o primeiro – e o segundo e o terceiro – de muitos, que bom te beijar assim porque pode ser o último.
 
São três beijos enganadoramente rápidos, mas não tanto que não se possa gozar cada vez que o lábio toca a pele, cada vez que o rosto orbita o outro rosto, cada vez que se dá a outra face, num minueto de investidas e recuos, trajetórias paralelas e tangentes.
 
Beijamos e sorrimos, como a pedir desculpas pelo abuso, pelo afeto desmedido, pelas esperanças vãs semeadas num cumprimento que devia ser meramente amistoso.
 
E existe ainda um quarto Brasil, que é Curitiba, onde se dá um quarto de beijo.
 
Um quarto – milimetrado, cronometrado.
 
Não há contato físico, só a sua encenação.
 
Um rosto se aproxima, não vendo a hora de aquilo terminar, e o outro rosto concede a aproximação, para em seguida abortar o pouso, e o rosto que não queria ser beijado repele o lábio que não queria beijar.
 
Haverá enclaves mineiros aqui e acolá, com gente se beijando a rodo, sem miséria, indiferente à geografia (dizem que em Florianópolis é assim, mas não me lembro), e os dos não-beijos curitibanos – quando a atual é apresentada à ex, nos velórios dos que já vão tarde, nos encontros às cegas que terminam mal.
 
Os guias de viagem, que nos alertam para a pimenta na Bahia e os assaltos no Rio, deveriam incluir o protocolo dos beijos Brasil afora.
 
Poupariam aos mineiros aquela sensação de desamparo, de tapete puxado, doce roubado da boca, quando o terceiro beijo, o segundo, ou os dois beijos e três quartos, não vêm.

Sem estresse, bróder!

O melhor de escrever numa rede social (“rede social”, no caso, é só o feicebuque mesmo) são os comentários.

Funcionam como um fidibeque imediato – o que podia ser um discurso ou um resmungo vira bate papo (ou bate boca). Mas sempre um diálogo, nunca um solilóquio (queria muito usar a palavra solilóquio num texto – obrigado, Zuck, pela graça alcançada).

Só que não é como conversar com amigos em volta da mesa: isto aqui é uma grande linha cruzada, um mega encontro às cegas, onde nunca se sabe quem pode aparecer (da moça que manda boas vaibes até os blequibloques de tacape em punho) e tudo é possível – até mesmo entenderem o que você quis dizer (e você entender o que disseram).

Os ruídos costumam ser muito divertidos.

Alguém comentou, a propósito de um texto postado ontem: “Parei no ‘taimilaine’… Holy-fucking-shit!!!”.

Creio que a pessoa também não tenha passado dos primeiros parágrafos agora, porque já escrevi feicebuque, fidibeque, vaibe e blequibloque – logo, sou um analfabeto funcional.

Imagino que não terá sido diferente a cara de nojo que fizeram (e os roulifoquinxete que expeliram) quando pela primeira vez se escreveu futebol em vez de football. E quando o back do team tornou-se beque do time, marcou-se um pênalti (não mais um penalty), e o crack deu um shoot e fez um goal.

E quando houve um blecaute no filme de faroeste, o caubói pediu um drinque e foi a nocaute. Ou, chegando da boate, a madame guardou a bijuteria, limpou o batom, jogou no lixo o buquê, despiu o sutiã e apagou o abajur.

Antes mesmo disso, o alfaiate tinha passado pelo açougue, levando seu alaúde, um alicate e um quilo de açúcar no alforje de algodão, montado em seu alazão, só para ver os azulejos.

Os anglicismos, galicismos e arabismos de ontem já se incorporaram tão bem ao Português que a gente mal percebe seu sotaque. Dispomos de um idioma com caninos afiados, molares potentes, estômago forte – o que vier, a gente traça.

É por isso que, antropofagicamente, faço becape, mudo o leiaute, desenho o esbilte, dou apiloude, implico com o vizinho que joga videogueime de madrugada e por aí afora. Só não printo nem estarto nada porque aí já é falta do que fazer.

Talvez, um dia, fidibeque, feicebuque e becape estejam no dicionário.
Talvez não (a mortalidade infantil é alta no mundo das palavras). 
Mas, se vingarem, espero que o etimologista do futuro consiga localizar, numa rede social extinta, a sua primeira menção (2013, aproximadamente) e o autor (E.A. – Escritor Anônimo, de quem só se conhecem as iniciais).

Onde quer que eu não esteja (ateus não costumam ir a lugar nenhum depois de mortos), perderei a chance de exclamar “roulifoquinxete” (neologismo criado em 17/10/17, às 7:56 da manhã, a propósito de um comentário indignado e divertido feito por alguém que não dava apigreide nas palavras, e cujas iniciais também se perderam no tempo).

Mestrado

A UFF aprovou uma tese de doutorado em Antropologia sobre orgias homossexuais, que teve bolsa do CNPq e incluiu a participação em quatro “festas” (não vamos usar aqui a palavra “suruba”, que esta é uma taimilaine de família).
 
Numa dessas “festas”, o pesquisador teve um approach tão científico do seu objeto de estudo que chegaram a ejacular (“inadvertidamente”) no seu rosto.
 
“Percebo as festas de orgia como locais de intensa e conflituosa produção de subjetividade e construções muito próprias relativas ao princípio da masculinidade e de ser homem; de uma forma particular de socialidade e de estabelecimentos de vínculos interpessoais; e, claro, de pôr em prática experimentações sensoriais e corporais de performances relativas à putaria.”
 
A dissertação de mestrado desse pesquisador acaba de ser publicada pela mesma universidade, com o título de “Vamos fazer uma sacanagem gostosa?”.
 
Trabalhos acadêmicos similares (igualmente financiados com recursos públicos) são “Erótica dos signos nos aplicativos de pegação: processos multissemióticos em performances íntimo-espetaculares de si” (UFRJ), “A Zuadinha é tá, tá, tá, tá: representação sobre a sexualidade e o corpo feminino negro” (UFRB), “A pedofilia e suas narrativas: uma genealogia do processo de criminalização da pedofilia no Brasil” (USP), e “Fazer banheirão: as dinâmicas das interações homoeróticas na Estação da Lapa e adjacências” (UFBA).
 
Começo a entender a recusa do meu projeto de mestrado, sobre memória e esquecimento, em que pretendia discutir em que medida os mecanismos de proteção ao patrimônio de fato atendem aos princípios de preservação da paisagem cultural.
 
Talvez eu devesse ter me disposto a problematizar as colunas e seus capitéis como simulacros da sociedade falocrata, a questão de gênero envolvida em “telhado” (o que fica em cima) ser uma palavra masculina e “fundação” (o que fica em baixo) ser feminina, ou a transexualidade latente das pilastras (que são meio pilar, meio parede).
 
Ou será melhor esperar a tal maré conservadora chegar às universidades, e aí tentar de novo?
 
Se demorar muito, me inscrevo com algo como “Brita, cimento, areia, água e muito ferro – a bacanal abstrata do concreto” ou “Tijolo com tijolo num desenho lógico – o homoerotismo chicobuarquiano na construção das alvenarias”.
 
Se até um dos sete anões é Mestre, por que eu não posso?

Tchêxit

Se o Sul, excitado com o que aconteceu na Catalunha, resolver se separar do Brasil e partir para a carreira solo, vai ser muito bom e muito ruim.

Muito bom porque vamos poder inundar o instagram, o feicebuque e o tinder com fotos feitas no exterior a cada vez que formos pular carnaval em Floripa, usar luva e cachecol em Gramado ou encher a cara na Oktoberfest.

E muito ruim porque, até sair um tratado de extradição, Lula estará a salvo de ir pra cadeia em Curitiba – ou poderá alegar perseguição por parte de uma potência estrangeira (ainda que chamar o Paraná de potência envolva um certo exagero).

Será muito bom porque vai dar pra ostentar no restaurante pedindo vinho importado – mesmo que seja o bom e velho Sangue de Boi.

Porém vai ser muito ruim porque a Giselle Bünchen não poderá mais ser considerada um orgulho nacional.

Mas vai ser bom porque nos livramos da Luciana Genro, da Gleisi Hoffman, da Maria do Rosário e do Requião.

Por outro lado, é ruim, porque vai ficar mais complicado trazer muamba do Paraguai, o que deve encarecer o uísque, o Amarula, os celulares e as calças Fiorucci.

Todavia vai ser bom porque a Maju não vai mais anunciar frentes frias chegando da Argentina – elas chegarão ao Brasil bem mais morninhas, vindas de Londrina, Chapecó e Ponta Grossa.

Entretanto, vai ser péssimo, porque, sem a contribuição da friaca sulista, a temperatura média no país deve subir drasticamente, afetando inclusive o aquecimento global.

Contudo vai ser ótimo, porque com o Grêmio fora do campeonato brasileiro, o Cruzeiro (meu time de coração) pula pro terceiro lugar e o Botafogo (meu time de adoção), para o quinto.

Cairão dramaticamente as chances de uma loura legítima ser Miss Brasil, teremos que substituir os gaúchos nas piadas machistas e o Rio Grande do Norte vai poder ser só Rio Grande. Nada disso é bom nem ruim, é só uma constatação.

Ah, e com Dilma e os Engenheiros do Hawaii  precisando de visto, é só botar um cônsul linha-dura em Porto Alegre e tá resolvido.

Crônica de um romance

Certa vez, minha mãe se apaixonou por um homem.

É normal que mulheres casadas se apaixonem por outro homem – mas não minha mãe.

Fui eu quem os apresentou, e essa paixão durou anos, intensa e não correspondida.

Minha mãe lhe escrevia longas cartas, que nunca chegaram ao papel, ao envelope, permanecendo num rascunho mental que lhes permitia ser a um tempo segredo e confissão, declaração e silêncio.

Só soube do tamanho desse amor numa manhã de maio em que dei de cara com a manchete no jornal: ele havia se matado.

Eu estava de mochila nas costas, recém desembarcado de uma viagem. 
Olhos grudados na mureta da Glória, fui até um orelhão.

– Mãe, cheguei. Viu quem morreu?
– Vi. Ele não tinha o direito de fazer isso comigo.

Não falamos de mim, dos países que eu perdera, mas dele.

Desliguei, e caminhei até o relógio, onde, horas antes, ele teria encostado o revólver na cabeça a desistido de si – e, sem o saber, também dela.

Tinha 81 anos, e se chamava Pedro Nava.

Minha mãe o amara à primeira leitura, no “Baú de Ossos” que lhe dei de presente.

Embarcou por conta própria no “Balão Cativo”, percorreu “Chão de Ferro”, foi até a “Beira-Mar”, ao “Galo das trevas”, a “O Círio Perfeito”, anotando à margem das páginas as lembranças que os livros lhe traziam, e que a levavam de volta à Juiz de Fora da sua mocidade.

De braços dados com a prosa de Pedro Nava, percorrera o Parque Halfeld, as ruas, os sobrenomes, as fachadas dos sobrados, as intrigas familiares, os salões. Sublinhara suas palavras, comentara, partilhara de sua implicância com os Halfeld, o corrigira.

Minha mãe não lia Nava: ela o ouvia, ria com ele, o absolvia dos pecados (da inveja, do rancor), tomava suas dores, era sua confidente e, a lápis, lhe fazia também suas confidências, que um dia virariam a carta que nunca chegou a existir.

Com a morte do meu pai e a demência da minha mãe, trouxe comigo os livros que ela e o Nava escreveram a quatro mãos – ele, em letra de forma; ela, em cursiva; ele, a tinta e em voz alta; ela, a lápis, num sussurro.

Penso em reler essas memórias – dele e dela – mas as estarei lendo novamente pela primeira vez: sou outro.

Não tenho mais os dezessete anos de quando conheci o Pedro Nava e corri para apresentá-lo à minha mãe, e a velhice era, para mim, uma galáxia distante – agora está um passo adiante dos meus pés.

Assim como a velhice, também o Rio de Janeiro era uma ficção.

A geografia da Glória de Pedro Nava ainda me era totalmente desconhecida até que resolvi – capítulos xerocados no bolso – seguir seus passos.

Pela primeira vez, estive diante do prédio em que viveu e do qual saiu, naquela noite de maio de 1984, sem dizer à mulher – e à minha mãe – que saía para se matar.

Pisei, talvez, sobre seus passos na subida da Cândido Mendes, da Hermenegildo de Barros, da Taylor. 
Vi as coisas que ele viu, as que não desapareceram comidas pelo tempo – ou pela minha incapacidade de ver o não visível.

Na grade que ele descreveu como ondas congeladas no ar, só vi a grade. Mas, por uma hora, fiz o que fez minha mãe ao longo de anos: estive com ele.

Não lhe cobrei nada, não o acusei de nada – como o acusaram Drummond e minha mãe, de ter rompido um pacto implícito, ter ido embora sem se despedir, ter antecipado a hora.

Minha mãe o amou, profundamente – e ele morreu sem saber sequer que ela existia.

A cada coisa, o seu nome

As palavras têm peso, forma, volume, consistência, textura, vocação.

É cruel podar suas raízes, retorcer seus galhos, atrofiá-las, fazê-las bonsais.
Serrar seus caninos, arrancar-lhes as unhas, enjaulá-las ou obrigá-las a dar piruetas e se equilibrar nas patas traseiras, como fazemos aos bichos.

Palavras encerram conceitos. Têm uma missão.

É graças a elas que digo “dia” e quem me ouve não pensa em escuridão.

“Dia” não exclui o momento em que não se sabe que já é claro ou ainda escuro – nas palavras, as fronteiras não costumam ser fossos e muros, e, sim, uma zona de transição que é justamente onde brotam outras palavras (“madrugada”, “aurora”, “tarde”, “crepúsculo”).

Não fosse isso, uma única palavra daria conta de tudo, como era antes da separação das trevas e da luz.

Mas “dia” é dia, “noite” é noite – e é o respeito à índole de cada palavra que nos permite tratar do que é diurno e do que é noturno sem ter que recorrer à mímica, ao desenho.

Pois demos de destituir as palavras do seu significado com a desculpa de conferir-lhes maior amplitude. E elas se esgarçaram, se deformaram e podem se perder de si mesmas.

Estupro – uma das palavras mais brutas e mais brutais do idioma – transformou-se num buraco negro, absorvendo tudo que antes tinha lugar definido em sua órbita.

O toque não consentido tornou-se estupro, equivalendo à penetração forçada, a qualquer agressão de cunho sexual – do constrangimento à violação, passando pelo assédio.

A menina que teve a vulva dilacerada, os seios ainda inexistentes profanados, e a que tocou o tornozelo de um homem nu foram ambas niveladas como vítimas do mesmo crime – a pedofilia.

Dito de outro modo, banalizou-se o mal, vulgarizou-se o que era quase inominável.

Se tudo é estupro, nada é estupro.
Se tudo é pedofilia, nada é pedofilia.

(E vale também para golpe, censura, arte, perseguição.)

A menos que queiramos voltar a grunhir, é preciso impedir que as palavras percam suas raízes, suas garras, sua precisão, sua potência.

Ou essa Novilíngua – com cada vez menos variedade de palavras para expressar um conceito – vai nos privar da capacidade de chamar cada coisa pelo seu nome, tornando mais rasa nossa compreensão, mais difuso nosso pensamento.

Arte

– Marilena, mas o que é isso??

– Uma obra de arte, amor. Comprei ontem, a transportadora acabou de entregar.

– Obra de arte? Eu estou falando desse homem pelado deitado aqui no chão da sala!

– É a obra de arte.

– Você pensa que eu sou idiota, Marilena? Quem é esse sujeito?

– Não perguntei, amor. Na etiquetinha deve ter o nome.

– Não tem etiquetinha nenhuma. É só um sujeito completamente pelado!

– Tem hora que você me cansa, Amaury. A etiquetinha normalmente fica atrás. É só virar e procurar.

– Eu não vou virar esse sujeito de bunda pra cima pra procurar etiqueta!

– Pois devia. A Manu adorou brincar com ele no museu.

– Você deixou minha filha pegar nesse homem pelado?

– Hello, Amaury! Eu apenas a estimulei a interagir com uma obra de arte. Enquanto você leva a Manu pra esses museus caretas, em que não pode nem chegar perto do quadro que o guardinha apita, no MAM se você não mexe, não muda de lugar, não vira a obra de bruços ou enfia o dedo, aí é que eles chamam o segurança.

– A Manu enfiou o dedo nele?

– Não, Amaury. Isso foi em outra performance, e lá tinha álcool gel, não precisa ficar estressado à toa.

– Marilena, eu não sei se quero um homem pelado na minha sala e minha filha pegando nele.

– Não te entendo, Amauri. Você diz que não vê problema em ter uma filha heterossexual (do que eu, por sinal, discordo), aí eu compro um homem pelado pra ela brincar e você tem essa crise. Onde está sua coerência?

– Ok, já tínhamos combinado de não brigar por causa de política, não vamos brigar por causa de arte. Eu já concordei com você que a Manu deve ficar longe das bonecas, usar chuteira e brincar com estilingue e caminhãozinho. Mas agora chega.

– Tá bom. A gente fica com ele um tempo, espera valorizar – arte contemporânea valoriza rápido – e aí vende. Veja como um investimento.

– Ele está vivo?

– Não sei. Não perguntei. Quando mexi nos braços dele e ajeitei a cabeça, ele não reagiu, mas não pareceu morto, não.

– Então você também pegou nesse homem pelado?

– Sim, Amaury, e se é o que você quer insinuar, eu passei por cima dele, peguei, mexi, apalpei e não aconteceu nada. Mais ou menos como já é o padrão aqui em casa…

– …

– …

– Tem que alimentar, dar banho, essas coisas?

– Não sei, Amaury! Comprei por impulso. Gostei da textura, desse tom de rosa, combinava com o pufe, e pronto.

– Certo. Arrasta ele ali pro canto, pra não atrapalhar a passagem. E eu vou ver se tem alguma cueca minha que sirva nele.

– Você vai vandalizar a obra de arte!

– Minha mãe vem pro almoço. É só até ela ir embora. Aí a gente contrata um restaurador, ele tira a cueca, e a obra volta ao seu estado original. E ai se eu souber que você e a Manu andaram procurando a etiquetinha!