• contato@eduardoaffonso.com.br

Arquivos por mêssetembro 2017

Prece

Livrai-me, Senhor, da barba desenhada.
Da camisa polo por dentro da calça.
Da sunga com o rego aparecendo.

Dos pelos da sobrancelha galgando a testa.
Da sandália com meia.
Da tentação do cabelo acaju.

Concedei-me a graça de não ceder à depilação
Às tatuagens, ao bronzeamento artificial,
Ao whey protein, ao citrato de sildenafila e ao botox.

Protegei-me, Todo Poderoso, do jeans com vinco.
Do pulôver jogado no ombro.
Do relógio dourado, dos cordões de ouro e de todos os balangandãs.

Afastai de mim o perfume de almíscar.
A selfie murchando a barriga no espelho na academia.
A pose de vovô garotão, o olhar de tio sukita.

Mas se eu não for digno da vossa misericórdia
E tudo que eu pedir me for negado,
Poupai-me, ó Pai, pelo menos da barba desenhada.

Todos junhos contra a novembrofobia!

O PT tem um compromisso ético com a Justiça e com a Verdade.
Por isso, vem sendo criminalizado e perseguido.

Nos governos populares e democraticamente eleitos de Lula e Dilma, 30 milhões de brasileiros saíram da miséria e entraram na universidade pelo sistema de cotas, tendo inclusive feito esse percurso de avião.

Mas a Casa Grande surta quando a senzala passa pra Medicina, ganha concurso de miss, informa a previsão do tempo no Jornal Nacional ou vence o Masterchef.

O patriarcado opressor não se conforma com uma mulher no poder (não, Angela Merkel não conta. Nem Teresa May. Muito menos Margareth Thatcher).

A elite branca paulista e a mídia golpista, junto com a CIA, a Coca Cola, os iluminati e os alienígenas do passado, insuflam essa maré conservadora que, não contente em impor uma reforma trabalhista escravocrata e uma reforma da Previdência neoliberal, agora se insurge contra a ideologia do número de dias no calendário.

A agenda democrática do PT não tergiversa nem tergiversará na defesa intransigente dos meses menos favorecidos.

Pelo fim dos privilégios concedidos a janeiro, março, maio, julho, agosto, outubro e dezembro.

Lutaremos, junto com as forças progressistas e lacradoras deste país (UNE, OAB, CUT, CNBB, Folha de São Paulo, Thaís Araújo e Carta Capital), contra as desigualdades, o preconceito, a discriminação e a 13ª Vara Federal de Curitiba.

#MexeuComUmMêsMexeuComTodos
#NãoVaiTerGolpeNoCalendário
#JeSuisJunhoENovembro
#AbaixoORegistroDeContratoDeAluguelEmCartórioComFirmaReconhecida
#SãoBernanrdoForeva
#ForaCalendárioGregoriano
#EOAluguelDoAécio?

31 dias para todos os meses!

Nem um minuto a menos!

Bazinga!

Só hoje descobri que “hakuna matata” quer dizer “sem problema”.

Eu preferia que significasse hakuna matata mesmo.
Algo intraduzível, tipo iabadabadu ou punct plact zum.

Ter um significado reduz o poder das palavras.

O que é abracadabra? O que é sinsalabin?
É justamente não saber o que querem dizer que lhes garante um lugar privilegiado no imaginário.

“Sou muito mais completa quando não entendo”, disse Clarice Lispector, mulher que entendia como poucos o ininteligível.

Prefiro as palavras desentendidas, que são puro encantamento.
Hocus pocus
Shazam
Alakazam
Pirlimpimpim.

O som é seu sentido.

Talvez por isso escritores recorram a neologismos – para ter a palavra virgem nos braços, sem a mácula de uma definição.

A circuntristeza que embriagatinhava, ensimesmuda, diante do nonada, nos sertões guimarães.
As lesmolisas touvas que roldavam e relviam nos gramilvos de Lewis Carroll, transcriadas por Haroldo de Campos.
A chuva chuvinhenta chuvil pluvimedonha que diluviava maria nos versos do Drummond.
Os deslimites sem comparamentos do Manoel de Barros, os talqualmentes amadorosos da dinamitosa Sucupira de Odorico Paraguaçu.

Certas palavras deveriam recorrer a uma medida protetiva, impedindo que delas se aproximasse qualquer dicionário, filólogo, linguista ou gramático. Tradutores – esses cães infiéis! – então, nem pensar.

Eu gostava mais de hakuna matata quando podia ser tudo que eu quisesse – principalmente que não fosse nada, só uma onomatopeia, uma palavra de mil pés, polissêmica.

Numa cena de “Tomates verdes fritos”, Kathy Bates murmura “towanda” antes de esmagar o carro que roubou sua vaga no estacionamento.
Em “Cidadão Kane”, a última palavra de um personagem é “rosebud”.

Espero nunca saber o que significam.

Parafraseando Leminski, a palavra que não se entende é digna de nota. Tem “a dignidade suprema / de um navio / perdendo a rota”.

C@r@lhº

Uma das minhas manias durante a infância era escolher uma palavra a esmo (podia ser “esmo”, por exemplo) e repeti-la dezenas de vezes, até que ela perdesse totalmente o sentido. Eu tinha, então, um pequeno momento de êxtase diante de algo completamente novo, uma transubstanciação mais mística que aquelas do pão em carne e do vinho em sangue (que nunca me convenceram muito).

Aprendi outro dia que eu não era o único maluco a fazer isso, e que a coisa tem até nome: “saturação semântica”.

O texto abaixo contém um palavrão que, para mim, acabou ficando semanticamente saturado, mas que pode ofender espíritos mais sensíveis – ou que morem em locais mais civilizados que a Barra da Tijuca.

Siga em frente por sua conta e risco. Eu avisei.

~

Durou pouco a graça alcançada com a morte do vizinho de baixo.

Um igual mudou-se pro apartamento de cima – e, se eu não fosse ateu, poderia jurar que é o próprio, reencarnado.

Há diferenças, claro, mas o modus operandi é o mesmo: dormir muito tarde, falar muito alto, gritar muito, dizer muito palavrão, e encher a casa de amigos que também dormem tarde, falam muito alto, gritam muito e usam muito palavrão.

O que distingue este novo encosto do antigo é o vocabulário. 


Enquanto o finado tinha um vastíssimo repertório de obscenidades, seu sucessor depende da palavra “caralho” para verbalizar o que quer que esteja sentindo.

Usa caralho como se fosse vírgula, ponto, interjeição, aposto, vocativo.

Caralho é seu advérbio de tempo, modo, lugar e intensidade.

A palavra caralho vive na sua boca e, consequentemente, tenho ido dormir quase sempre com caralho no ouvido.

Caralho perdeu, para mim, qualquer significado – tanto que já a usei, sem qualquer pudor, meia dúzia de vezes neste texto (possivelmente mais do que na minha vida inteira, até agora).

Virou um som. Um pigarro. Um uai, um tchê, um ôxe.

Nos dias de jogo (é flamenguista), ele grita instruções para os jogadores, diante da televisão, com uma potência vocal que não duvido que consigam ouvi-lo lá no Maracanã. O caralho é, então, invocado praticamente a cada sílaba.

Por noventa infinitos minutos – se não houver acréscimos – ouço-o sugerir veementemente ao volante que pratique passivamente sexo anal, ao zagueiro que copule consigo mesmo, ao juiz que vá visitar a funcionária da casa de tolerância que o deu à luz.
Tudo tendo o caralho como próclise, ênclise ou mesóclise, como sujeito ou núcleo do predicado.

Não sei o que faz o novo vizinho de cima, além de tentar se comunicar com os jogadores em campo através da tela da tevê, e com o mundo à sua volta através da varanda, quando a noite cai, e madrugada adentro.

Tudo leva a crer que não trabalhe cedo – se é que trabalha – ou talvez não durma, e tente arrastar a vizinhança ao seu fuso horário de vampiro.

Tenho vontade de mandar-lhe uma cópia da convenção do condomínio ou da Lei de Contravenções Penais, que preveem silêncio a partir das dez da noite, bem como um dicionário de palavrões, para que descubra novos impropérios e dê descanso ao caralho.

No próximo jogo do Flamengo, vou chamar a síndica para um chope aqui em casa. Se no décimo oitavo caralho (ali por volta dos quinze minutos do primeiro tempoo) ela não se levantar indignada e tomar uma providência (minhas reclamações até agora não deram em nada) é porque, caralho! eu é que estou ficando careta pra caralho.

Game over

Muita gente amanheceu perplexa com a falta de profissionalismo do planeta Nibiru, que ia fazer uma apresentação de impacto ontem e não deu as caras – nem mandou o Maroon 5 no lugar.

Pessoas, vocês não assistiram “O sexto sentido”, aquele suspense kardecista em que o Bruce Willis morreu e não sabe?

Aquilo não era um filme – era um tutorial. 
O Bruce Willis foi escolhido pro papel porque ele é duro de matar – mas a verdade é que dureza mesmo é cair na real depois de morto.

Sim, o mundo já acabou.
Já estamos do lado de lá.
Só que, como morreu todo mundo, não tem aquele garotinho para fazer o coaching do desapego.

Olhem à sua volta. Vejam os sinais.

É normal o presidente dos Estados Unidos chamar o ditador da Coreia do Norte de “gordinho maluco” e o gordinho maluco xingar de volta com uma palavra em Inglês (“dotard”) que nem o Trump, que fala Inglês desde criancinha, nunca tinha ouvido falar?

É normal uma mãe se descabelar porque a filha de dois anos é hétero, e a cura hétero ainda não foi regulamentada?

Faz sentido o Jornal Nacional ser estrelado pelo Bonner, a Renata, o Randolfe e o Molon – e a Maju fazer só uma ponta?

O Joesley ser casado com a Ticiane Villas-Boas e ter fetiche de “pegar umas véia”?
O Lula ainda estar solto?
Começar a venda de panetone em setembro?

Soaram as trombetas, mas não ouvimos por causa dos tiroteios na Rocinha e do meu vizinho de cima arrastando móvel e falando alto à uma e meia da madrugada.

Aí você vai dizer que isso já estava assim antes do Nibiru.
Claro que estava.
O Nibiru foi uma repescagem.
O mundo não acabou ontem. Acabou em 2012, lembra?

Estamos no limbo desde então, vagando feito bruciuíles mal desencarnados, ainda querendo salvar o planeta, perder peso, desnegativar no Serasa, afastar o Gilmar Mendes.

Mesmo 2012, que aproveitou o márquetchim da profecia maia, já tinha sido uma espécie de segunda chamada para o verdadeiro fim do mundo, que aconteceu em 2000.

Ou vai dizer que não lembra do bug do milênio?
Pois foi lá que tudo acabou – o colapso planetário porque os computadores entendiam que o 00 da data zerava o odômetro de volta ao Big Bang.

Tudo que veio depois (zika, Dilma, 7 x 1, apropriação cultural, Bolsonaro, Pabllo Vittar, cerveja artesanal, Glória Pires comentando o Oscar) já não era coisa deste mundo.

Os furacões José e Maria acabam de arrasar o Caribe. Espera só o Jesus chegar, pra vocês verem o que é bom pra tosse.