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Arquivos por mêsjunho 2017

XXY

 

É muita falta de sensibilidade dizer que homem é insensível.
Que não consegue distinguir o pink do fúcsia, guardar uma data de aniversário de noivado, reparar num corte de cabelo.

O cérebro masculino aloca tanto espaço para processar a sutileza dos barulhinhos no motor do carro que não sobra quase nada para os supérfluos.

Nas cores, por exemplo, fica só naquelas quatro básicas (ou serão cinco?) e olhe lá. E quem em sã consciência precisa entender a diferença entre carmim e carmesim, púrpura e magenta, lilás e violeta?

Sabe quanto de memória RAM é demandado para saber se foi impedimento ou não? E isso sem riplêi, sem acesso às câmeras instaladas nas laterais do campo, e com meia dúzia de bramas nas ideias.

Não há chip que armazene tanta informação; é preciso descartar datas – pelo menos as que não sejam as do Brasileirão, da Eurocopa, dos campeonatos inglês, italiano e espanhol, da Champions League e da segunda divisão (se for vascaíno).

Dizem, também, que homem não sabe ouvir. Quem já viu um homem assistindo a uma mesa redonda sobre futebol sabe que ele não só é capaz de ouvir, como é capaz de ouvir e entender oito homens falando ao mesmo tempo! E discordar de todos.

Homens raciocinam em quilômetros – mulheres, em milímetros.
Daí aquela certeza granítica de que não precisa abastecer, que o que tem na reserva dá pra chegar ao próximo posto (que não se faz ideia de quão longe esteja) – e o olhar de perplexidade diante da informação de que uma franja exatamente igual esteja 3 milímetros mais curta (ou mais comprida, tanto faz).

No cérebro masculino há uma luneta – no feminino, um microscópio.
Mulheres distinguem o invisível, quase que o subatômico – enquanto os homens têm que se virar com o óbvio, o gritante.
Daí no sexo as mulheres perceberem e valorizarem o velado, o sensual, o erótico – e os homens se contentarem com o explícito.

Um excelente lugar para se estudar a diferença entre os cérebros masculino e o feminino é o restaurante de comida a quilo.

Suponha que haja duas filas: uma com dez homens, outra com três mulheres. Qual você deve pegar, se estiver com pressa?

A resposta é óbvia.

Um homem, diante daqueles rechôs, pega duas colheres de arroz, uma de feijão, uma garfada de batata frita, o maior bife, e uma lasca de tomate, para disfarçar.
Tudo, cronometrado, dá mais ou menos o tempo que você levou para ler este parágrafo.

Uma mulher pega meia colher de arroz.
Mais um quarto de colher de arroz.
Mais um oitavo de colher de arroz.
Mais quatro grãos de arroz.

Se não houvesse uma fila indócil às suas costas, e ela não tivesse mais nada para fazer na vida além de almoçar, iria colocando porções cada vez menores até chegar à fissão nuclear.

Depois vem o feijão.
Enche meia concha, mas desiste antes de despejar no prato.
Volta com a colher, pega só o caldo.
Um pouco menos de caldo.
Isso.
Mas com dez por cento de grãos.
Ok, nove por cento, apenas.
Com um pouco mais de caldo.

Investiga a salada de alface como um agente da imigração americana diante de uma família muçulmana de El Salvador com passagem por Cuba, São Bernardo do Campo e Síria.

Revira a salada atrás daquele miolinho da alface.
Não encontra.
Descarta as folhas mais escuras (um tom entre o verde bandeira e o floresta, próximo do alga mas mais claro que o espinafre).
Acaba ficando com um punhado dentro daquela gama de verde que vai do samambaia ao mar de Cancún.

E aí encara os bifes.
Vai direto no menor.
Analisa.
Empurra para o lado.
Pega um intermediário, mas tem muita gordura.
Levanta com cara de nojo, um a um, oitenta e seis por cento dos bifes – evita, impavidamente, os maiores.
Retorna ao menor.
Avalia.
Pondera.
Olha dos dois lados.
Verifica as bordas.
A textura.
Pega uma faca, vai no bife maior e corta um pedaço, equivalente a exatos 99% do bife menor.
E então passa à sobremesa.

(Comecei a escrever isto, parei para tomar café e agora que retomo percebo um equívoco: falei em homens e mulheres, quando deveria estar falando apenas de cérebros do tipo masculino e do tipo feminino. Que podem ocorrer, indistintamente, em homens e mulheres Ou seja, esqueça a dica da fila com menos mulheres no restaurante a quilo. Se houver um homem com cérebro do tipo feminino à sua frente, você tá lascado do mesmo jeito.)

Vaquinha

 

Foi organizada uma vaquinha para cobrir o custo da retirada da tatuagem feita na testa de um garoto de 17 anos, que tentou roubar uma bicicleta para comprar drogas.

Muito justo. Com aquilo na testa vai ser difícil que ele encontre um emprego – a não ser no Instituto Lula.

Mas depois de olhar para aquela imagem horrível, será que ninguém pensou em fazer também uma vaquinha para pagar uma escola de caligrafia para o tatuador?

Outra vaquinha que precisa ser iniciada já é a do aluguel de jatinhos para caravanas petistas, a fim de que os militantes não sejam obrigados a conviver, em aviões de carreira, com jornalistas de esquerda.

Se passaram aquele sufoco com a Míriam Leitão, imagina se o ocupante da poltrona 15 fosse o Fiúza, o Andreazza, o Jabor, o Nelson Motta, o Marco Antônio Villa…

Vaquinhas precisam ser feitas para compra uma adaga – ou uma cimitarra, uma katana, uma ginsu, um canivete suíço que seja – para o ministro Napoleão Maia. O gesto dele, de autodegola, usando apenas a mão, foi enternecedor. Um objeto cortante, naquele momento, teria feito toda a diferença – tanto no julgamento quanto no moral dos cidadãos brasileiros.

Já houve vaquinhas para pagar os advogados do guerreiro José Dirceu e para repor os dedos do fogueteiro de Brasília. Mas quem é que está arcando com o condomínio e o IPTU do triplex do Guarujá, com a manutenção dos pedalinhos e da adega do sítio de Atibaia? Nisso ninguém pensa.

Ninguém se comove com o drama dos traficantes paulistanos, que agora têm que pegar duas conduções para atender à clientela, espalhada pela cidade com o bárbaro desmantelamento da Cracolândia. Uma vaquinha que cobrisse pelo menos umas três corridas diárias de Uber para cada um já era um adianto.

Sem esquecer a vaquinha – a bem da verdade, um rebanho bovino inteiro – para ajudar o Wesley a pagar seu acordo de leniência.

Se é para ser solidários com as vítimas da sociedade, vamos ser solidários direito.

Advogado do diabo

 

Lula morreu, chegou no inferno, encontrou o diabo e…
Não, essa piadinha já rolou sei lá quantas vezes.
Vamos começar de novo.

Lula morreu, chegou no céu, deu de cara com Deus e…
Não, essa também já tá batida.
Vamos tentar algo diferente.

Deus morreu. Quando abriu os olhos, ainda atônito, se viu diante de um juiz vestido de preto e um sindicalista de camiseta vermelha.

– Que diabos está acontecendo? perguntou, esquecendo que era onisciente.

– Exmo. Sr. Ex-Eterno e Onipotente – respondeu o juiz vestido de preto -, o Senhor morreu e está diante da Justiça Humana. Pesam contra o Senhor algumas denúncias que precisam ser investigadas antes que possa ser aceito no Paraíso Terrestre.

– Que denúncias? bradaram em uníssono Deus e o sindicalista.

(A bem da verdade, o que o sindicalista disse foi “ques denúncia?”, mas ha hora ninguém percebeu).

– Bem – esclareceu o juiz -, a lista vai da Sua omissão no holocausto judeu, no genocídio armênio, na limpeza étnica nos Bálcãs, nos morticínios na Rússia, na China, no Camboja, passando pelas epidemias na África, inundações na Ásia, ditaduras na América Latina, cataclismos variados, o 7 x 1 na Copa, o 4 x 3 no TSE e a escalação da Susana Vieira para o papel de filha da Nathalia Timberg numa novela.

– Tu tá de facanagem! (quem disse isso não foi Deus). Deus é o cara! Tirando o Brasil, que fui eu que fiz, e outras coisa, tipo o Bolfa Família e aquele porto em Cuba, foi Ele que criou o resto do Univerfo!

– Mas Ele vai para Curitiba até o Supremo decidir se Ele tem direito a foro privilegiado ou não.

Deus coçou o trianglinho que boiava sobre o cocuruto, o que era sinal que começava a perder a santa paciência.

– Não bastava Eu ser eterno e morrer, agora mais essa! Quem nesse tribunal supremo acredita ter poderes para Me julgar?

– O Gilmar. Reze para não cair na turma dele – respondeu o juiz de preto, sem nenhuma ponta de ironia.

– Nada difo! Vofê não vai pra Curitiba p*rr@ nenhuma. Tenho um lugar ótimo, com uma vifta divina, um andar pra vofê, um pro feu filho e um praquela pombinha que vofês cria. Não tá no meu nome, mas eu tô com a chave, pode ficá o tempo que quisé. E se não gostá de praia, tenho um fítio que também não é meu, mas é fó chegá e andá de pedalinho à vontade.

– Nada feito, interveio o juiz. Deus precisa prestar contas da Inquisição, dos crimes de pedofilia…

– Tem efcritura da inquisifão no nome dEle? Fi não tem, não é dEle.

– E tem o Vesúvio, as tsunamis, o Paulo Gustavo vestido de mulher fazendo propaganda do Banco do Brasil, o terremoto no Haiti…

– Não foi Ele, Ele não fabia de nada (e, virando-se para Deus) Bota a culpa na pombinha…

– Milhões morreram de fome e de doenças…

– Ele criou as asa das borboleta!

– … sem contar os animais sacrificados em rituais, que os veganos não perdoam.

– Ele desenhou a Fophie Charlotte! Fó o corpo, que o férebro deve ter fido o Diab…

Nem bem o sindicalista ia dizer o nome, fez-se um clarão, sobreveio um cheiro de enxofre e o diabo – que tinha acabado de morrer – apareceu, atordoado.

– Meudeusducéu, o que está acontecendo? exclamou o capeta, sem se dar conta de que estava diante do próprio.

– Bem, lá vamos nós começar outro julgamento – disse o juiz de preto ao sindicalista de vermelho. O Sr. Capeta é acusado de arrastar móveis de madrugada, vomitar na cara de padres exorcistas, enriquecer pastores pentecostais…

– Ele é um pobre diabo! Ele nunca quis fê rico! E já vô avisando: delafão premiada num vale!

Bloqueados anônimos

 

Salão da casa paroquial.
Segunda-feira,
Sete da noite.

As cadeiras estão em círculo, num canto há uma mesa com água, chá e biscoitos.

Alex toma a palavra.

– Boa noite, meu nome é Alex…

– Boa noite, Alex! (todos, em uníssono)

– … e eu sou um bloqueado em recuperação. Estava já há dezessete dias limpo, mas tive uma recaída na quarta passada, comentei no mural do Paulo Henrique Amorim e…

– Paulo Henrique Amorim? Você pegou pesado, Alex!

– Pois é, não sei o que me deu. Depois que levei o block do José de Abreu…

– … você se comprometeu a só comentar em postagem de gente civilizada, lembra?

– Pois é, vacilei. Mas o cara tinha escrito uma coisa tão, mas tão, mas tão sem noção, que eu não resisti.

– Lembra da primeira regra do grupo, Alex?

– Sim, só argumentar em postagem de quem tem argumento.

– Exato. Leia a postagem da pessoa. Se for argumentativa, argumente. Se for dogmática…

– Respiro fundo, ergo os olhos aos céus, peço que tenham piedade dessa alma desgarrada no Dia do Perfeito Juízo Final e sigo adiante.

– Muito bem, Alex.

– O problema é que isso me impede de comentar em qualquer postagem petista ou bolsonariana. E que graça tem argumentar com quem pensa igual a mim?

– Boa questão, Alex. Alguém saberia responder?

– Oi, pessoal, eu sou a Regina…

– Boa noite, Regina (todos, em uníssono).

– Sabe, Alex, eu sou vegetariana. O que você passa com os bolsomínions e os petistas, eu passo com os churrasqueiros e os veganos.

– Um aparte, Regina. Meu nome é Geraldo e…

– (Em uníssono) Boa noite, Geraldo!

– … eu sou carnívoro e passo o mesmo nas páginas dos veganos e dos vegetarianos. Esta semana fui bloqueado por oito vegetarianos porque perguntei por que chamavam proteína vegetal de “carne” e por dezenove veganos por falar que o abate ético é melhor que nada.

– Gente, meu nome é Dora…

– (Em uníssono) Boa noite, Dora!

– … eu sou ateia, e aprendi a me controlar diante de correntes milagrosas, mensagens de gente morta, simpatias para segurar marido e aparições de chupacabra. Nenhum block nos últimos quarenta e cinco dias!

– Parabéns, Dora! (todos em uníssono).

Alguém se levanta e tenta sair de fininho.
O coordenador do grupo intervém.

– O companheiro já vai? Não quer fazer uma partilha?

– Oi, meu nome é Arnaldo.

– (Em uníssono) Boa noite, Arnaldo!

– Eu sou irrecuperável. Levo centenas de blocks diários. Sete dias por semana. Estou aqui há quinze minutos sem levar um block e já começo a sofrer de síndrome de abstinência.

– O que você faz? Compartilha maus tratos de animais? Posta foto em HDR? Repercute Monica Iozzi? Apoia golpe militar? Marca 40 pessoas nas suas postagens?

– Não. Eu defendo o Gilmar Mendes.

(Silêncio total. Em uníssono.)

Patrulha

 

– Bom dia, Taís, tudo bem?

– Por que “tudo bem”? Que problema haveria se estivesse tudo mal? Por que tudo tem que estar bem? Precisa parar com essa palhaçada de achar que o bem é superior ao mal. Estar tudo mal faz parte da vida. Não suporto esse maniqueísmo.

– Desculpe, Taís, mas foi só uma maneira de querer saber como você está e…

– Por que é que você quer saber como eu estou? Minha vida por acaso é da sua conta? É você quem paga meu cabeleireiro, minha manicure?

– Ok, Taís, eu…

– Ok? OK?? Que coisa mais subserviente, mais colonizada! Que mania que as pessoas têm de valorizar tudo que é estrangeiro, até a língua! Existe no nosso idioma uma expressão – “tudo bem” – que substitui essa coisa imperialista de “ok”.

– Sim, só que eu usei o “tudo bem” no início do papo e você encrespou…

– Eu o quê? Encrespei?? Encrespar é algo negativo? Quer dizer que crespo é sinônimo do que não presta? É a ditadura da chapinha! A dívida histórica vai ter que ser paga até o último fio de cabelo – e de cabelo crespo! Vocês brancos vão ter que nos engolir!

– Olha, Taís, eu…

– Como assim “olha”? Eu olho se eu quiser, você não manda em mim. O meu olhar, como parte do meu corpo, me pertence. Meu olhar, minhas regras!

– Bom, tivemos hoje como entrevistada a simpática e talentosa atriz Taís, e infelizmente vamos ter que encerrar essa deliciosa conversa, porque acabou nosso tempo e sabe como é televisão, deu a hora a gente vira abóbora e…

– Não ouse falar em abóbora!!

Adjetivo substantivo

Clemenceau, um político francês do século 19, disse que “a Justiça Militar está para a Justiça assim como a música militar está para a música”.

Ele não devia confiar muito no senso de direito ou no apuro estético dos militares (e olha que nem chegou a conhecer o Bolsonaro).

Passando ao largo da questão militarista, o que impressiona nessa frase é o poder do adjetivo.

Aprendemos na escola que o adjetivo acrescenta uma qualidade ao substantivo.
Nada mais falso.

O adjetivo corrompe o substantivo, rouba sua alma, amarra uma bola de ferro aos seus pés, bota-lhe viseiras.

O adjetivo não acrescenta: limita, subtrai.

Todos os substantivos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.
Têm o direito à liberdade de opinião e expressão.
A ser o que quiserem.
Mas só até a chegada do adjetivo.

Como num casamento, ao se unir ao adjetivo o substantivo perde autonomia, lança âncora, arria os pneus.

O céu deixa de ser “céu”, com tudo que céu pode ser, para se tornar um céu azul, ou um céu nublado, um céu noturno, um céu infantil onde mora o Papai do Céu.

Mar não é mais “mar” por inteiro: é mar revolto, aberto, profundo, mediterrâneo.
Um céu específico, um mar confinado.

O adjetivo mutila.

É a kriptonita do até então poderoso substantivo (“substantivo” é a essência: vem de “substância”, “aquilo que está de pé”).

O adjetivo o põe de joelhos.

Retomando a regra de três de Clemenceau, dá pra dizer que o advérbio está para o verbo assim como o adjetivo para o substantivo.

Com um agravante: o advérbio mente.
Descaradamente.

“Vou certamente” quer dizer que não vou coisa nenhuma, as chances de eu ir são as mais remotas.

“É exatamente isso o que eu quis dizer” quer dizer que eu disse algo muito diferente, e estou agora ajustando meu discurso.
“Estamos evidentemente apoiando a Polícia Federal” quer dizer que não há qualquer evidência nesse sentido – ou, se há evidências, são no sentido contrário.

O adjetivo existe para emascular o substantivo.
O advérbio, para vampirizar o verbo.

Logo o verbo, que é o esqueleto da língua.
Logo o substantivo, sua carne.

Porque o advérbio é algo entre a muleta e a osteoporose.
O adjetivo, entre a máscara e a maquiagem.

A propósito, Clemenceau disse também que um homem que não é socialista aos 20 não tem coração; e o que ainda é socialista aos 40 não tem cérebro.
E que só se interessava pelos homens que falharam, porque isso indica que tentaram ir além das suas possibilidades.

Clemenceau era bom de verbo.
Era um sujeito substantivo.

(E que ninguém repare que o substantivo “substantivo” está, aqui, usado como adjetivo, o que põe por terra todo o meu raciocínio.)

 

Deuses

 

Deuses são de carne, como nós. Criados à nossa semelhança, fruto da nossa ânsia de sobreviver a essa mesma carne com que os moldamos. E são, como nós, perecíveis.

Os espíritos mais elevados também são isso: carne. Sentiram fome e sede, arfaram de cansaço, arderam de desejo. As santas menstruaram, os gurus gozaram em poluções noturnas –todos tiveram sonhos em que voavam, caiam em precipícios, estavam nus, tocavam outros corpos.

Ao conceber divindades, traçamos seus contornos no espaço. São todos matéria, ocupam um lugar. Os bíceps de Thor, o torso de Exu, o púbis de Vênus não são diferentes dos olhos vidrados das pitonisas, das barbas de Moisés e Maomé, da calva de Eliseu. Porque são machos e fêmeas, escravos de suas sinapses, reféns de seus hormônios.

São jovens e anciãos, sujeitos ao tempo: Eros com a vida pela frente, Nanã mais velha que a morte.

São quimeras: têm asas como Mercúrio, tromba como Ganesha, cauda cornos e cascos como Satã. Têm força como Iansã, vertem lágrimas como Ísis, trovejam como Tupã.

Têm olhos e veem, boca e falam – e, se falam, falam numa língua, dominam uma sintaxe, um vocabulário, pertencem a uma cultura.

Deuses foram gerados de um ventre: Hórus nasceu de Ísis que nasceu de Nut. Caos gerou Gaia que gerou Cronos que gerou Zeus. Deus através de Gabriel inseminou Maria.

Deuses, como nós, têm entranhas, músculos, nervos, curvas, reentrâncias. Tudo está lá: o abdome de Apolo, o falo de Príapo, os ombros de Netuno, o colo de Iemanjá.

Tem umbigo a Cabocla Jurema, têm linha da vida as palmas das múltiplas mãos de Kali, hão de ter pomos de adão Javé e Alá.

E que ninguém se iluda: apelam não só ao espírito, mas também à carne, o peitoral de São Sebastião, os quadris da Pombagira, os seios túrgidos de Virgem, as coxas de Cristo na cruz, os mamilos de Buda.

Mãe da invenção

 

Preciso urgentemente ficar rico.

Já passei da idade de escolher uma profissão rentável, começar uma poupança ou dar o golpe do baú.

Não jogo futebol, não aposto na loto nem clico naqueles spams que oferecem milhões de herança de um sujeito de Burkina Faso. Ou tenho logo uma ideia genial ou precisarei me apegar ao desapego e fazer de conta que a frugalidade é uma opção de vida, não uma contingência.

Gosto de escrever, mas textão em feicebuque só infla o ego, não enche barriga.

A última vez que vendi fotos minhas foi há cinco anos.
A penúltima, há uns sete.
E não houve antepenúltima, foram só essas duas vezes mesmo.

Tudo que penso em inventar pra me deixar rico já existe.
Coca Cola, por exemplo.
Clips.
Pipoca de micro-ondas.
Telefone sem fio.

Cogitei de abrir uma agência de turismo para levar as pessoas a lugares reais, frequentados por gente real. Mas que turista quer ver a vida como ela é? Gringo quer Copacabana, show de mulatas, não pegar berritê parador pra ir ao Mercadão de Madureira ou viajar em pé no 435 para comer ovo colorido no Grajaú.

Boas ideias eu até tenho. Falta, sei lá, um investimento milionário, a fundo perdido, do BNDES.

Por exemplo: hidroginástica fora d’água.
Ideal para academias pequenas, sem piscina.
Dispensa cloro, salva vidas, touca, maiô, exame médico pra ver se tem frieira.
Ok, deixemos o maiô e a touca, que ajudam a criar um clima.
O inconveniente é que as velhinhas precisarão ir ao banheiro para fazer xixi (hidroginástica e velhinhas são uma combinação perfeita justamente por dispensar a ida ao banheiro a cada vinte minutos).

Com essa onda de politicamente correto, podia lançar uma linha de produtos inclusivos, como cueca de renda e/ou calcinha com abertura frontal para transgêneros.
Protetor solar em embalagem de dois litros para pessoas plus size.
Prancha ondulada para chapinha reversa.
Pingente de óvulo não fecundado para mulheres sem filhos.

Outra sacada que talvez mereça uma chance é a xícara para canhotos, com a asa do outro lado.
Ou mesmo a xícara para ambidestros, com duas asas, uma de cada lado.

Sei que tem potencial, é só desenvolver um pouco mais.

E se nada der certo, sempre se pode entrar para a política ou virar coroa de programa.