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Arquivos por dia26 26UTC maio 26UTC 2017

Lemmings e a zelite

 

O que nos separa não é uns carregarmos bandeiras bicolores e outros, bandeiras de uma cor só.
Nem lançarmos, uns, palavras – e, outros, rojões e coquetéis molotov.
Ou os de cá fazermos discursos inflamados, enquanto os de lá ateiam fogo ao Ministério da Cultura.

Separa-nos uma vírgula.

Naquele canto do ringue estão os “Fora Temer”. Neste aqui, os “Fora, Temer”.

Os foratêmer (vamos chamá-los assim, porque ali o que interessa é o som, não o sentido) não querem que alguém se vá, mas que alguém volte.

O seu “fora!” é uma invocação dissimulada, um “vinde” que não ousa dizer o nome.

Os “Fora, Temer” (com a vírgula, elitista, destacando o vocativo) querem que seja afastado o presidente que se mostrou indigno do cargo, e outro seja eleito em seu lugar – e esse outro ainda não se sabe quem é, não é ninguém previamente ungido, não é um predestinado.
O novo presidente está ainda no futuro, não já no passado.

Os foratêmer querem de volta o poder que perderam – aquele que, uma vez conquistado, nunca mais há de ser devolvido, pois lhes pertence por direito divino – porque são os mais justos, os mais dignos, os únicos capazes.

Os “Fora, Temer” querem que seja afastado aquele que traiu, burlou a lei, mentiu, se cercou de corruptos quando tinha o dever afastar-se deles.
Aquele que com o lábio superior bradava não compactuar com o crime, e com o inferior sussurrava conchavos subterrâneos com criminosos.

Os foratêmer creem (fingem crer) que o vice-presidente que elegeram é o responsável solitário pelos desmandos, irresponsabilidades e incompetências dos últimos catorze anos, e que a crise é culpa inteiramente sua.

Os “Fora, Temer” sabem que o vice-presidente em quem não votaram é o responsável solitário pela manutenção das práticas nefastas que deveriam ter sido banidas, e que o aprofundamento da crise política, em função disso, é culpa inteiramente sua.

Então, querem (queremos) todos a mesma coisa?
Não.
Não podíamos querer coisas mais distintas.

Queremos “Fora, Temer” para que as mudanças ocorram, para que o ar se renove, para que um grande expurgo nos livre desses políticos tóxicos, dessa zica pior que a zika, que transformou parte da população num bando de anencéfalos.

Os foratêmer querem dar uma segunda (uma terceira) chance ao erro.

Essa vírgula é que faz toda a diferença entre os que se dispõem a uma árdua caminhada montanha acima e essa gente hipnotizada pelo abismo.

Ô, dó!

 

O El País é uma espécie de Carta Capital com título menos pretensioso, mas o mesmo humor negro (involuntário).

Cada artigo é uma aula magna de desjornalismo.

1. “Um elefante matou um famoso caçador”.

Mentira.
Um elefante foi morto por um caçador. Ao cair (morto) esmagou (por pura ação da lei da gravidade) seu assassino.

2. “A vítima é o sul-africano Theunis Botha,”

Mentira.
A vítima é o elefante.

3. “Botha liderava um grupo de caçadores quando se depararam com uma aglomeração de elefantes que passou a persegui-los.”

Mentira.
Botha e os caçadores é que perseguiam os animais. Os elefantes (quatro fêmeas) apenas protegeram seus filhotes.

4. “O infeliz incidente ocorreu quando os caçadores se viram no centro de uma manada de filhotes de elefantes e foram atacados pelas fêmeas”

Mentira.
O infeliz incidente ocorreu quando uma mãe foi morta tentando proteger sua cria.

5. “A empresa foi criada por Theunis e sua mulher, Carike, em 1983, como fruto “do amor mútuo pela África e sua beleza natural”.

Mentira.
A empresa foi criada para matar elefantes, zebras, leopardos, búfalos e girafas.
Quem ama não mata.

~

A página do caçador (“um grande homem, com um fantástico senso de humor”) teria sido “inundada” de mensagens de condolências. Não há menção ao futuro do filhote órfão.

O jornal ainda informa, sem emitir qualquer juízo, que o caçador vítima de si mesmo era amigo de outro caçador encontrado recentemente dentro de um crocodilo. Não se informa se o animal foi assassinado ou morreu de indigestão.